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terça-feira, 27 de setembro de 2016

ITÁLIA – CHEGUEI LÁ

Brasil - Barão do Triunfo foto arquivo
Contava um ano de idade quando cheguei a Uruguaiana, pequeno município localizado na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Meu mundo era composto pelo quintal, a rua limitada a frente da casa e a escola. Aos sete tomei consciência sobre a existência do mundo maior do que conhecia.  Meus pais haviam separados, mãe arrumou as malas e rumamos a Porto Alegre, onde moravam meus tios. Um novo horizonte se abriu e percebi as diferenças entre a pequena Uruguaiana e a capital do estado.
Na fronteira, vez por outra recebia a visita da avó materna. Ela era de pequena estatura, mãos fortes, cabelo curto e grisalho. Vó Joana tinha aspecto meigo e hábito de colocar a mão a frente da boca quando ria. Sua fala era enrolada. Ao ficar brava, xingava palavras de significado incompreensível, momentos de ter paciência para entendê-la. Misturava português, com outra língua que, anos mais tarde, descobri ser italiano. No pouco tempo que passava em Uruguaiana, adorava ouvir suas histórias e de meus bisavós e  aventuras em Barão do Triunfo, município distante cerca de 100 quilômetros de Porto Alegre. Lá, os imigrantes italianos, fixaram residência ao chegar ao Brasil. Vez por outra, vó Joana lançava um olhar perdido pela janela e falava sobre a Itália, “terras do outro lado do mar”, que conhecia somente pelas narrativas de onde vieram seus pais.
Brasil- Barão do Triunfo-foto arquivo
Em Porto Alegre, vó foi morar conosco e tivemos inúmeras oportunidades de conversar. Mantivemos a mesma rotina, ela narrava e eu ouvia atento. Eu estudava na escola pública pela manhã, chegava à casa ao meio dia, almoçava e ficava a mesa, aguardando vó lavar a louça do almoço e arrumar a cozinha. O ambiente tinha cenário esmerado. Colocava na mesa a tigela de doce de abóbora, potes e colheres. Eu o mapa mundi com textos da Enciclopédia Delta Larousse que vó pedia para eu ler. Na verdade ouvia mais do que falava.
Essa proximidade alimentou em mim a necessidade de conhecer tradições e costumes do país longínquo. Ao narrar sobre a terra distante e comentar comigo o que ouvia dos pais, Giuseppe e Adele, meus bisavós, minha imaginação alçava voo. Vó não aprendera a ler e me pedia para ler. Demostrava ssim a curiosidade das terras distantes. Isto me motivou a pesquisar. Principalmente sobre a Itália, até então, somente um ponto no mapa. Após ler os textos, mostrava fotos de monumentos e cidades. Vó se encantava.
Itália - Renazzo - Foto - Arquivo pessoal
Depois localizava o país procurando em um velho mapa mundi. Várias vezes flagrei olhos lacrimejantes por baixo das lentes.
Por muito tempo a vontade de conhecer ficou apenas nos sonhos. Vieram casamentos, filhos, compromissos e a oportunidade parecia estar cada vez mais distante. Obrigações familiares consumiam economias e toda vez que fazia poupança, um gasto extra consumia as esperanças.
Finalmente em julho de 2016 a oportunidade surgiu. Conheci os recantos  onde viveram meus antepassados. Uma grande emoção foi chegar em Roma. Parecia conhecida. Vó Joana sempre falava sobre a capital italiana. Mas foi Cento e as províncias de Corpo Reno e Renazzo que mais impressionaram.  A arquitetura, as pessoas, as ruas simples, limpas e belas. A grande quantidade de flores. O povo acolhedor. Vez por outra me confundia, me sentindo como se estivesse no Barão do Triunfo.
Itália - Cento- rua central-Foto arquivo pessoal
Conhecer a Itália, foi como redimir meus bisavós que depois que chegaram ao Brasil, nunca mais retornaram a seu país natal.

domingo, 2 de junho de 2013

ARAXÁ - Local onde primeiro se avista o sol

(Museu de D. Beja e da cidade - arq. pessoal)
Dona Beja tem histórias de luta, projeção social e conquistas em Araxá, recheadas de amor, sensualidade e ternura. Mulher analfabeta escandalizou a sociedade tornando-se mãe-solteira duas vezes. A primeira em Paracatu, onde morou ao ser sequestrada pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Mota com apenas 14 anos de idade e a segunda com um padre de Araxá, que reconheceu a filha, forçado por Beja. Ainda de Paracatu, a mulher de personalidade forte, foi responsável pela reconquista a Minas Gerais do território do Triângulo Mineiro, anexado que estava ao estado de Goiás. Prova de prestígio da bela mulher, o museu montado em sua casa no centro da cidade, abriga também o Museu do Araxá.

Além de Beja, Filomena por razões bem diferentes também deixou a marca na história araxaense. Pobre e
(Santuário de Filomena - arq. pessoal)
escrava de capitães de engenho, a mulher teve a infelicidade de adquirir varíola. Sabedores da condição mortal e contagiosa da doença, os patrões convenceram a todos que para livrar do mal era necessário enterrar a doente até o pescoço. Assim permaneceu até morrer, desprovida de comida e água, face ao temor de contágio. Sepultada fora da cidade, passou a atrair peregrinação de fiéis que lhe creditavam curas miraculosas. Para proteger o jazigo, construíram singela igreja transformada em local de orações e reverências. Responsáveis pela preservação do santuário garantiram que quem “troça” da escrava, sofre punições. “Certa vez, um homem saiu gargalhando do templo e caiu da bicicleta e outro após fazer piada, entrou no carro e bateu em uma árvore”. Na construção ao lado, há exposição de fotos e relatos manuscritos das graças alcançadas. “Filomena tem processo de canonização no Vaticano” garantiu o zelador.


(Árvore dos Enforcados - arq. pessoal)
A procura pela Árvore dos Enforcados foi intensa. Somente no segundo dia, após visita ao Cristo, réplica miniaturizada do grande Redentor do Rio de Janeiro, um senhor que passava indicou a galhada.  Em um elevado, majestosa e seca, a árvore se projeta silenciosa, parecendo esconder o passado misto de glórias e infortúnios. Palco do enforcamento de dois escravos acusados de matar o patrão virou atração pelo choro do tronco. Moradores garantiram que os galhos frondosos, faziam barulhos assustadores nos dias de vento. Hoje com dias contados, jaz o gigante morto que logo adubará o subsolo, seu destino final. Nem o botânico expert em revitalização de árvores, foi capaz de reviver a árvore. O ciclo de vida se cumpre após duzentos anos.

O Grande Hotel é imponente e passeio obrigatório. Oferece banhos com água e lama sulfurosas e
(Grande Hotel - arq. pessoal)
massagens aos dispostos a desembolsar boas quantias. Inaugurado em 1944 por Getúlio Vargas, teve o paisagismo composto por fontes, lagos e jardins executados por Burle Marx. O projeto arquitetônico segue edificações espanholas, lembrando obras de países como Colômbia e Venezuela. Mas a maior das obras a Natureza se encarregou de executar exposta na trilha da fonte Dona Beja. Uma árvore no topo do muro, cujas raízes para reforçar a base, descem externas ao paredão. Belo exemplo de simbiose, entrelaçadas em proteção mútua.


(Atente para as raízes - arq. pessoal)
O centro de Araxá deve ser observado em detalhes. Na parte superior da praça central, da majestosa igreja Matriz se avista o Cristo no alto do morro, “braços abertos sobre a cidade”. Ao descer a avenida, faixas de pedestres, elevadas cerca de vinte centímetros do nível da rua, ordena o trânsito e obriga veículos a trafegarem vagarosamente. Ao final da rua central, no amplo canteiro, o teatro e a fonte luminosa. Cynthia, diretora do Teatro Municipal, garantiu que há vários projetos culturais inter-secretarias em execução. A  disposição do turista, além do roteiro tradicional, filmes no telão e representações teatrais gratuitas. Basta consultar a programação mensal.
A cidade demonstra preocupação com turistas e moradores. Gera conforto e preserva a memória.

(Abraço a Araxá - arq. pessoal)
(Centro - arq. pessoal)


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A CIDADE DA SERESTA

(O Túnel que Chora - arquivo pessoal)

Eram sete horas da manhã de sábado quando avistei o senhor a montar as barraquinhas de venda de bijuterias e outras quinquilharias na praça, defronte a Igreja Matriz. A cidade jazia adormecida enquanto ele trabalhava. Outro homem o observa de perto. Parece olhar através do montador e das ferragens. Inerte em sua frente, vez por outra faz um comentário que o senhor nem se digna responder. Um leve chuvisqueiro cai insistente. Levantei a gola do casaco e me escondi sob a árvore, enquanto observava o senhor colocar um varão de ferro de cada vez  e encaixar em argolas para dar sustentação. O trabalho paciente indicava que mais tarde haveria feirinha. Passei devagar. Estava absorto na montagem e em seus pensamentos.  O que observava me olhou com olhos vazios.
No meio da rua, mais abaixo, aparece uma senhora e grita sem preocupar com a cidade que dorme:
– Ei! Pode parar de montar. Com esta chuva, não haverá feira.
O homem deixa cair um dos varões com estrondo, torce a boca e fala para si mesmo, determinado:
– Vou terminar de montar esta e paro.
Armou a quarta barraca e iniciava a colocação da lona amarela comum a todas, quando resolvi chegar perto.
– Hoje terá feira? – perguntei.
– Claro. Quando chove é sempre assim. Ela cancela e depois a feira acontece e tenho que correr a montar o resto das barraquinhas para os feirantes. – responde sério, avaliando que me referia ao comentário da mulher.
– O senhor é da cidade? – insisto.
– Nasci aqui e monto as barraquinhas há mais de trinta anos.
Saio devagar, e faço uma foto da igreja Matriz.
Estava em Conservatória, cidade distante do Rio de Janeiro cerca de 150 quilômetros. Participava de um Encontro Nacional e aproveitei para conhecer a “Cidade da Seresta”, paraíso dos seresteiros. Acredito que a última representante de um tempo que não volta mais. Havia chegado na sexta a noite e ficaria até domingo. Foram três dias na cidade de seis mil habitantes, onde o tempo, contrariando o resto do mundo, é docemente lento. Voltei para o hotel, pois teria o dia pleno de atividades.
(Roupa do filme O É brio de Vicente Celestino-arquivo pessoal)
À noite, após dia intenso, voltei à cidade. Entrei no Museu de Vicente Celestino e Gilda Abreu e mergulhei num passado bem perto de minha infância, quando ouvia as músicas tocadas em discos de vinil por meus pais. Wolney Porto, curador do espaço, colocou um disco de Celestino e me atendeu com cortesia. “A noite haverá seresta na rua” indicou o evento que aconteceria mais tarde na praça principal onde um grupo se reuniria para tocar e cantar. Quando digo que sou de Brasília, me pergunta se posso ajudá-lo a ter alguma ajuda federal para a manutenção dos museus dos quais é curador. Respondo que minha missão na cidade é outra e que colocarei o pleito no meu blog.
Voltei ao hotel para a janta e animei um pequeno grupo para comparecer ao evento. Mais tarde atravessamos a pé o “túnel que chora”, eu pela segunda vez. A obra construída pelos escravos, separa a cidade do resto do mundo. Pode ter sido pela época, mas o túnel, charmosamente, comporta apenas a passagem de um carro. Quando outro aponta da posição contrária, deve  esperar que passe para ir em frente.
(Caminhada em Seresta - arquivo pessoal)
Logo ao término da travessia, ouvimos o som dos violeiros. E quanto mais nos aproximávamos, mais éramos envolvidos pela voz dos cantadores e a harmonia dos violões. A seresta acontecia com seis integrantes, coordenada pelo seresteiro Edgar, morador da cidade. Mescla integrantes não apenas de Conservatória, como também de fora, como é o caso de Roberto, vindo da Cidade Maravilhosa toda sexta feira a fim de soltar a voz melodiosa e firme. E pouca chuva não impede a cantoria. Interrupção só acontece por fortes relâmpagos e trovoadas. A garoa mistura-se a emoção e embaça os olhos dos turistas em lento caminhar:
Felicidade, foi se embora e a saudade no meu peito, ainda mora e é porisso que eu gosto lá de fora, porque sei que a falsidade não vigora...”.  
Vez por outra, Edgar pára e declama poesia, demonstrando a excelente memória. Não me contive e, resguardado pelo canto dos demais turistas, soltei a voz me sentindo o rei da serenata.
Cerca de duas da manhã, a cantoria acabou e Edgar recebe para conversa sem tempo marcado, pois seresteiro não tem pressa para boa prosa. E fez a declaração bombástica da noite: “nosso trabalho é por amor a seresta, não ganhamos um tostão pelo que fazemos”. Despedimos e saímos cantando de bar em bar. Todos com as características dos botecos cariocas, com samba ao vivo, exibindo o gingado da mulher carioca.
(Aproveitei farol de carro as três da manhã - arquivo pessoal)
Atravessar túnel, a pé, as três da manhã, em qualquer cidade, seria temerário, mas não em Conservatória, que inspira inocência e tranquilidade. No meio do túnel, alguém cantava uma seresta, que ecoava pelo espaço fechado.
“Dorme e fecha este olhar entardecente
Não me escute nostálgico a cantar
Pois não sei se feliz ou infelizmente
Não me é dado beijando te acordar”.
Domingo era dia de retorno e, após as atividades matutinas e as despedidas entre os 380 participantes do Encontro, o ônibus partiu em direção aos aeroportos do Rio de Janeiro, descendo os 520 quilômetros de serra. Ao encontro, compareceram representantes de todo canto do país, do Oiapoque ao Chuí. No retorno ao Rio, a beleza da vegetação e a conversa animada. Conservatória ficou para trás, mas permanece nos planos de conhecê-la melhor em outras visitas com mais tempo.
Serenata é algo esquecido e hoje habita apenas a memória. É mais ou menos assim. Eu tinha cinco anos e morava em Uruguaiana. Nas noites de sexta feira chegava um grupo musical com um rapaz chamado Helvécio que cantava para a vizinha, chamada Arlete. Depois das canções, eram convidados a entrar pelo dono da casa, pai da moça, que lhes oferecia bebida e a partir daí a vizinhança participava até tarde da noite. Um dia tudo parou, o cantor e a jovem casaram-se. As serenatas acontecem até o casamento.
Olho a rosa na janela,
sonho um sonho pequenino...
Se eu pudesse ser menino
eu roubava essa rosa
e ofertava, todo prosa,
à primeira namorada,
e nesse pouco ou quase nada
eu dizia o meu amor, o meu amor

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

VERDES MARES DO NORDESTE


(Cumbuco-CE - Arquivo Pessoal)
São quilômetros e quilômetros da linda beira mar oeste. Aqui e ali coqueiros carregados oferecem frutos para o viajante sedento. O sol forte clareia a paisagem de amarelo ouro e vez por outra aparece alguma lagoinha salgada para banho puro e sem ondas.
Como diria Ana Miranda, poeta cearense,
E quando ali retornarmos
Verás que nunca nos fomos
Pois o lugar onde estamos
O lugar onde estaremos
É sempre o lugar que somos

Assim reencontrei o litoral cearense, após dois anos. Desta vez, foram quatro dias intensos de emoções, conhecimento e restauração de energias. Compartilho com quem gosta das pequenas coisas da vida e que, como eu, julgam ser as verdadeiramente importantes.

(Pousada Ondas do Mar - Arquivo Pessoal)
 Hospedamos em encantadora pousada na região de Barramar de Taíba, a cerca de 70 quilômetros de Fortaleza. O acesso acontece por estrada de terra trabalhosa, esburacada, cheia de pedras, mas o destino recompensa. Propriedade de casal italiano, a pousada Ondas do Mar é aconchegante e intimista e os donos, Milton e Maura, estão sempre dispostos a resolver quaisquer problemas que apareçam. Com eles, revivemos cenas dos meus ancestrais também vindos da Península Ibérica em fins do século XIX. Situação semelhante a deste casal, fugiram da situação calamitosa que se abatia sobre a Europa. Em princípio do século XXI, novamente o caos econômico se abate sobre o Velho Continente e obriga famílias inteiras a emigrar e ao que parece o Brasil novamente é o destino. No final do ano estarão se radicando definitivamente no país e trarão a única filha, o genro e o neto para trabalharem na pousada. Encontrei vários empresários europeus, principalmente italianos, espanhóis e franceses investindo no litoral cearense, montando comércios, resorts, hotéis, restaurantes, pousadas e outros negócios. Louvam as possibilidades que o país oferece para estabelecer. O que chama a atenção deles é o clima, “calor o tempo todo”, fala Milton apontando para a camiseta regata, bermuda e chinelos confortáveis.
Meus planos desta vez era conhecer Paracuru, praia distante de onde estávamos apenas 30 quilômetros. E isto aconteceu no segundo dia. Na ida, querendo economizar tempo aventurei-me em estrada de terra pedregosa e poeirenta, mas alternativa de atalho substancial. O que nos deu chance de fazer a foto de um cajueiro, entre as centenas existentes em plantação nativa. Malu e eu fomos ciceroneados por Karina, minha filha que mora na praia de Taíba e o namorado Nacélio. Ao chegar a cidade, na primeira oportunidade, colocamos os pés na água e constatamos a temperatura extremamente confortável. Enquanto o sol contornava em volta da barraca do Kaká, sem nos atingir, conversávamos embalados pela brisa amena que amansava o calor abrasador. O céu carregado de kitesurfs com suas pipas amarelas, lisas, estampadas, desenhadas, amarelas, azuis ajudava ao assanhamento dos turistas de várias idades e nacionalidades, ávidos de usufruir da boa vida tropical. Casquinha de caranguejo foi a entrada, acompanhada de refrescante caipirosca e porções de camarão, dos grandes. No almoço, um delicioso dourado com saladas. Postas fartas preparadas com esmero. O cachorro ao lado da mesa cansou de esperar e foi embora, certamente percebeu que daquele mesa não teria sobras. Sem pressa, alongamos o papo por pelo menos seis horas. Esticamos ao máximo, pois sabíamos que cada minuto era importante considerando o pouco tempo de estada em solo cearense. Saímos de Paracuru ao entardecer e paramos em uma lagoa para conhecer e tomar água de coco. Logo fomos cercados por famílias de ovelhas protegidas por um bode ranzinza que me encarou várias vezes, gansos, patos e um pavão que teimou em deixar o longo rabo colorido fechado. Durante todo tempo acompanhamos a sedução de um peru, este sim de rabo aberto em leque, que de nada adiantou pois a perua estava firme no propósito de manter a guarda fechada. Ao anoitecer, retornamos a Taíba para tomar açaí na tigela, a delicia do norte/nordeste. O retorno aconteceu pela estrada asfaltada, claro, pois de poeirão bastou a ida.
(Altar em Cumbuco - Arquivo pessoal)

No terceiro dia, Malu e eu testemunhamos o casamento de filhos de amigos de Brasília na praia do Tabuba, em Cumbuco, distante 30 quilômetros de onde estávamos, sentido retorno a Fortaleza. A cerimônia foi montada em um altar simbólico e singelo, com galhos de árvores nativas fincados a beira mar. Emoldurando a cena, um belíssimo por do sol e alguns surfistas que cortavam ondas em pranchas velozes. No céu, pipas de kitesurf ondulavam em vai e vem lento. A noiva, com o mais belo dos calçados, os próprios pés, bailava com o vento e com a felicidade que só as noivas sabem e comentou que “não cabia em si mesma de tão contente”. Transbordava a alegria para convidados, na grande maioria, viajantes que deslocaram cerca de dois mil quilômetros participar do evento paradisíaco. Ao final da festa, o noivo, com o calor que fazia, dispensou o paletó e abriu os botões da camisa, celebrando o clima de descontração emprestado a festa. Uma bela e ao mesmo tempo singela cerimônia que satisfez os gostos mais exigentes, com simplicidade, carinho e alegria.
Ao final da festa, retornamos a pousada. À nossa direita, fomos homenageados  pela noite do Ceará, que ofereceu a lua a pratear o mar, a estrada e a vegetação durante todo caminho de volta.
O dia seguinte amanheceu mais bonito que os outros, como se  fosse possível. Tomamos café, tiramos algumas fotos finais com Karina e o namorado na pousada onde residem e, duas horas depois estávamos no aeroporto de Fortaleza. A aventura chegou ao fim. O sentimento é de tempo  bem aproveitado. Constatamos que temos tudo para conhecer lugares e pessoas interessantes. Basta boa vontade, olhos abertos e disposição. Lugar de descansar é em casa. Todos os minutos foram curtidos por inteiro e os compartilho tal e qual ocorreu.
Espero que o litoral resista a erosão crescente, provocada pelo oceano e pelas areias que tomaram várias obras a beira mar.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

GOIÁS VELHO NÃO, CIDADE DE GOIÁS

(Foto: Mosteiro da Anunciação, Cidade de Goiás - GO - arquivo pessoal)

O passeio à Cidade de Goiás ou Goiás Velho como é conhecida, quase foi adiado duas vezes. A primeira por descaso humano e a segunda pela força da natureza. Explico. Entre Itaguari e Itaberaí, cerca de dez quilômetros da estrada asfaltada retornou ao estado original de terra e buracos. Após a inauguração do asfalto, foi abandonada a própria sorte. Sem reparos, se tornou o paraíso dos mecânicos e borracheiros, verdadeiro rally para turistas. Em um segundo momento, já no trecho Itaberaí/Goiás, chuvas torrenciais testaram a coragem e a visão da estrada em meio ao aguaceiro que anulava o limpador de pára-brisa. Persistente e acreditando que ao final dá tudo certo, a chegada sem incidentes aconteceu às quatro da tarde de uma sexta-feira de janeiro passado. A baixa visibilidade prejudicava. Mal pude observar a placa indicativa de perímetro urbano e perceber as primeiras casas. À entrada da cidade, segui a lâmina d’água que descia pela rua lateral da Praça do Coreto a procura do rio Vermelho, com o carro equilibrando cuidadosamente entre as pedras irregulares do calçamento.

Dias antes a cidade passara por maus bocados. A enxurrada elevara o nível do rio Vermelho e fez estragos na lateral do Hotel da Ponte, impossibilitando o acesso ao prédio. Ruíra parte do muro de contenção e fitas amarelas isolavam o local. No monumento da cabeceira da ponte que dá acesso a casa de Cora Coralina, a ambulância dos Bombeiros estacionada espreitava o rio ameaçador e dava a dimensão do risco. O cenário remetia a enchente de janeiro de 2001, quando a cidade apareceu no noticiário afogada pelas águas do rio Vermelho que teimava em pular do leito.

Estacionei num comércio de doces para provar cocada e usar o banheiro. A comerciante rememorou a história do transbordo do rio e a ameaça a casa de Cora Coralina. “Houve um grande prejuízo material mas, graças à Deus, tudo foi recuperado. Na época a ponte ruiu seu moço”. A cidade, que vive a beira da memória da escritora, temeu pelo futuro. Faz cerca de dez anos que aconteceu e tudo está recuperado. Quase. O trauma não. Quando as chuvas de janeiro caem pesadas ou algum temporal desaba, os moradores recordam o fantasma da tragédia.

Arcelina Helena foi colega de pós graduação em Jornalismo Literário em Goiânia. Jornalista, professora aposentada da Universidade de Brasília é oblata beneditina do Mosteiro da Anunciação. Foi fácil encontrar a morada dos monges. Infelizmente, até porque minha visita foi inesperada, Arcelina viajara a casa de parentes em São Paulo. Lamentei desperdiçar a oportunidade de abraçá-la A informação foi dada pelo jovem monge José Maria que apresentou as instalações e convidou para hospedagem.

Localizado após o mercado Público, na rua Padre Felipe Leddet, o Mosteiro é um lugar bucólico, com jardins bem cuidados de pedras incrustadas e grama bem aparada compondo o cenário do verde macio e da rudeza da pedra natural. Não há luxo. A mobília e as instalações são simples, mas há conforto inegável nesta simplicidade e aura de harmonia e paz em tudo que se faz, que se ouve e se pensa. No hall de entrada do alojamento permaneci por muitas horas a ler o romance turco de Orhan Pamuk, O Museu da Inocência do qual destaquei para este momento de minha viagem a frase de início do livro que peço licença ao autor para transcrever aqui “Era o momento mais feliz de minha vida, mas eu não sabia. Se soubesse, se tivesse dado o devido valor a essa dádiva, tudo teria acontecido diferente?”

A suíte oferecida era a única do mosteiro, os demais são quartos, a cada dois dividem um banheiro. O carro ficou em segurança, numa garagem privativa. Apesar da rigidez dos horários aos religiosos, tinha liberdade de chegada e saída. Bastava entrar, fechar o portão, calçar o carro para não escorregar na rampa íngreme do estacionamento e apagar as luzes que facilitavam o acesso noturno ao alojamento. Os monges recolhem cedo, levantam com o sol e seguem a rotina de orações e preces, numa vida dedicada ao trabalho com Deus, com as obras sociais e no cuidar do Mosteiro com esmero.

Pela manhã, éramos acordados pelo sino a indicar o início das atividades monásticas. Hóspedes estavam desobrigados a participar. Seguia dormindo. Sempre atento, o irmão José Maria indicava locais turísticos a visitar e onde fazer refeições e assim na primeira noite conduziu ao quiosque onde provei um delicioso caldo de feijão com espetinho de churrasco ao som do telão com dupla sertaneja. Terminei a noite com novo amigo. Um gatinho que adestrei alimentando com pedaços de carne espetadas na ponta de palito, mas apenas quando sentava e unia as patas dianteiras para merecer o petisco. Imagino que agora está fazendo esta firula esperando recompensa dos frequentadores.

À noite, cansados, recolhemos cedo, para um merecido descanso, embalados pela serenata de grilos, coaxar de sapos e o ruído do rio Vermelho, cuja água desliza em leito de pedras caindo com força de cachoeira.

Amanheci renovado e visitei as instalações do Mosteiro. Percorri a horta com todo tipo de verduras em amplas plantações cobertas, sem agrotóxicos, protegida dos predadores por rede. Senti-me frustrado em hospedar na época de férias das cozinheiras do Mosteiro e assim perder a oportunidade de lá fazer as refeições. Irmão Zé Maria indicou o mercado público para o desjejum. E foi mais uma sugestão acatada e aprovada vinda do religioso. Lambuzei com o delicioso pastel recheado de queijo feito na hora, acompanhado de suco de laranja, seguido de café com leite e bolinho de arroz que se tornou o petisco das manhãs.

O segundo dia reservei a casa de Cora Coralina. Algo dizia ser um local mágico. Quando entrei, a emoção que senti até agora não consegui definir. Existe uma vibração muito grande naquela casa. Nos utensílios, na cozinha, nas panelas, nas fotos. O quarto com a cama que dormia, os objetos de uso da mulher que considero um ícone de sabedoria de vida. Ler seus textos e saborear a simplicidade das palavras e reflexões de vida dentro da casa, observar os objetos que manuseou por anos, a cadeira enviesada pelo recostar da cabeça, a bengala de madeira que a apoiou até o fim, nunca mais esquecerei. A fama tardia após os 75 anos, a amizade com Maria dos Grampos, a moradora de rua acolhida no porão da casa, somam a história emocionante desta mulher. Ainda existe vida dela em tudo. Tive a impressão que sua figura nos faria surpresa. Cora Coralina é prova de poder o que se quer. Que nunca é tarde para construir um legado para a humanidade, basta esperar o momento certo, deixando agir dentro de cada um a vontade e a magia da vida. Evoluímos exercitando. A acomodação em situações fúteis e preguiçosas só serve para estagnar a passagem pela existência.

A tarde, passamos pelo Museu dos Arcos. Quando capital de Goiás, era dali que os governadores emitiam os decretos. O guia, um funcionário público falante e gentil se ofereceu para fazer fotos pitorescas sugerindo posições políticas na mobília imponente. Aproveitou para abrir o coração e queixar da insensibilidade do governo com a preservação da história do país. Alegou trabalhar com abnegação e quase sem recursos, inclusive humanos. “Há necessidade de se fazer concurso para garantir a continuidade do cuidado com o acervo goiano”, desabafou.

A tardinha, descansamos num banco da praça do Coreto enquanto jovens chegavam esbanjando vitalidade. Desfilavam em carros cheios de alto-falantes acompanhados de lindas moças. Tudo natural e respeitando o espaço alheio. Quando o segundo carro também com som potente chegou, abafando o que estava na praça, desligaram-se os sons e a partir daí restaram somente o murmúrio das conversas. Casais de namorados passeavam em volta da praça e, a cada sombra, paravam para longos beijos. Esta praça recordou a do bairro Tristeza em Porto Alegre onde passei a adolescência. Também naquela ficávamos sentados nos bancos a paquerar as meninas que não cansavam de dar voltas, olhando apenas quando os garotos estavam distraídos.

Há algumas diferenças entre Pirenópolis e Cidade de Goiás. Enquanto naquela há grande movimentação na rua do álcool, onde pedestres consomem o comércio farto e turistas sentados comem e bebem nas mesas de restaurantes e pubs, em Goiás o movimento noturno se dá em volta da praça do Coreto, onde jovens conversam bebendo preparados em garrafas de refrigerante. O comércio de Goiás não abre a noite. Há dois ou três barzinhos superlotados que disputam clientes e é nítido que se respira literatura e cultura. Parece mais organizada. Pirenópolis é mais desordenada, as pessoas ficam mais soltas, o centrão de laser é maior e o comércio forte. As duas cidades tem seu charme, e acredito também seu público. Morador de Pirenópolis, Isócrates, dono da pousada Pouso, Café e Cultura, garantiu que o formato turístico de Goiás é melhor. Mais ordeiros e preservadores, praticam turismo sustentável.

Os restaurantes de Cidade de Goiás são intimistas e oferecem pratos bem preparados. Para quem gosta de refeições a base de peixe, há várias opções de escolha, todas especiais e com cartas de bom vinho. As cafeterias são bem decoradas, os comerciantes atenciosos e a cidade oferece um bom turismo a curtir.

No domingo, a convite do monge, assisti a missa celebrada pelo bispo de Goiás. Realizada em templo redondo possibilitou ampla visão entre o celebrante e os frequentadores, na maioria membros da população local. Na Homilia, em linguagem simples e num tom natural, discorreu sobre a missão do ser humano, que deve ser simplificada, pois se complexa pode se transformar um entrave para a execução.

À saída, Irmão Zé Maria, conduzia um grupo de visitantes pelas instalações e acenou para mim e Malu desejando o tradicional “vão com Deus”. Enquanto manobrava pela ladeira e pegava a estrada, pensava no quanto é possível crescer convivendo com os habitantes das cidades. Ao aceitar o convite para hospedar no Mosteiro abriu-se a oportunidade de acrescentar a minha vida uma história rica e um aprendizado ecumênico importante.

sábado, 21 de janeiro de 2012

PIRENÓPOLIS CULTURAL

Loja do Eduardo - O Entalhador (arquivo pessoal)

Amanhece e uma chuva fina paira sobre Pirenópolis. Que fazer na cidade cuja atração principal é visitar doze cachoeiras? A pergunta foi a primeira coisa que ocorreu, mas no decorrer do dia, obtive as respostas. E foi surpreendente! Deixei o carro estacionado em frente ao Pouso do Frade, na Rua do Bonfim onde fiquei hospedado e só lembrei no dia da saída.
Anteriormente, ao visitar a cidade transitava motorizado o tempo todo e rumava para as cachoeiras. Confesso que perdia detalhes e contatos com a hospitaleira gente da cidade, empenhada em interagir com o turista, talvez a principal fonte de renda. Desta vez decidi aproveitar o contratempo da chuva e frio e, munido de casaco, chapéu e guarda-chuva, apelei para criatividade e  caminhei muito.
Logo ao sair da pousada a esquerda, subindo a Rua do Bonfim, no sentido da igreja, encontrei Eduardo, o Entalhador. O artesão de cerca de quarenta anos trabalhava em uma placa de madeira entalhando nome de  restaurante da cidade. Natural de Bonito, Mato Grosso - muita gente do comércio de Pirenópolis é de fora - solteiro e com notável talento manual, esculpia letra a letra com paciência e perícia. Malu e eu paramos e decidimos acompanhar o trabalho por instantes. A cada fincada do formão, uma lasca e letras surgiam como num passe de mágica e na rapidez de dar nó na visão. De acordo com a avaliação do Entalhador, exerce o trabalho a contragosto, encara como “rotineira forma de ganhar o pão de cada dia” e, por incrível que possa parecer, julga melancólica sua labuta diária. Explica que por prazer, tudo bem, mas por obrigação é maçante e isto que, segundo ele, é responsável pela maioria das placas em madeira do comércio municipal. São mais de mil em quinze anos de trabalho. “E muitos comerciantes que fecham seus comércios, devolvem a placa e as guardo de recordação”, na fachada da casa onde mora e trabalha, exibe com orgulho inúmeras inscrições comerciais. Armazéns, pousadas, butiques, bares, restaurantes, lojas, etc.


Igreja do Bonfim (arquivo pessoal)



Mas o dia recém havia começado e seguimos pela rua do Bonfim em direção a igreja de mesmo nome. Estava em restauração. Procurei o responsável pelo processo e fui atendido por Adriano, o Restaurador, jovem alto, usando óculos da moda, de aro grosso, bem falante, paulista morador de Uberlândia. Percebi o refinado gosto pelo trabalho quando uma senhora se aproxima e exibe a pequena mão da estátua que restaurava meticulosamente e fala eufórica “olha, Adriano, achei a mãozinha da santa”. Ele a abraça e pula de alegria. “Você é demais, achou algo valioso, muito importante no nosso trabalho”. Abraça a mulher e a beija carinhosamente no rosto. Custei a identificar a pequena mão de no máximo um centímetro na palma do restaurador. E não apenas eu, os demais brincavam “ei Adriano, pensei que você procurava um braço em tamanho natural e não uma miniatura”. A igreja do Bonfim, uma das mais antigas do estado de Goiás, foi construída entre 1750 e 1754 para abrigar a imagem do Senhor do Bonfim, o Cristo crucificado em madeira, de tamanho natural, encomendada a arquidiocese de Salvador. A viagem de lá até Pirenópolis demorou quatro meses, dada a dificuldade de transporte e a falta de estradas entre os estados da Bahia e Goiás. A estátua foi desmontada, alojada em lombo de burro e acompanhada por duzentos escravos posteriormente aproveitados nas fazendas locais. Adriano apresentou efusivamente a descoberta feita na parede da nave principal do altar. “Ao preparar as paredes para a restauração, visualizei três camadas de restaurações em épocas diferentes”. Algo espantoso de imaginar, pois as modernas técnicas datam de anos recentes. Manifestou-se indignado com o desrespeito pela arte do século dezoito, com a falta de preservação de época numa acintosa remarcação, modernizando aquilo que deveria ser preservado a qualquer custo, para mostrar as novas gerações, a beleza original da obra sacra.

Pouso, Café e Cultura (arquivo pessoal)


Continuando a peregrinação, resolvi ir mais longe a procura de café espresso. O desejo me impulsionou por caminhos e confrontou com situações inesperadas. Quando contornava a praça Santa Cruz, no Centro Histórico, fui agarrado pelo braço por um cidadão pirenopolino que nos convidou para provar um café que, segundo ele, seria o mais gostoso da cidade. Com direito a slogan escrito no cartão de visita entregue com orgulho: DESCUBRA O MELHOR DE PIRENÓPOLIS... VENHA TOMAR UM CAFÉ CONOSCO! Fomos.
Assim conheci Isócrates, o Inesperado. Acima da porta, que abria e gentilmente convidava para entrada, a placa POUSO, CAFÉ E CULTURA. E em letras menores, Uma Reverência a Pirenopolinidade. Em duas salas, uma exposição de objetos raros e antiguidades acumuladas pelo pai, diplomata Isócrates de Oliveira, que serviu em diferentes lugares do mundo. “Meu pai serviu a dois Joãos, do Goulart ao Figueiredo”. A pousada instalada num terreno de cerca de 1 500 metros quadrados, coloca a disposição dos hóspedes, amplo jardim, muito verde e árvores centenárias. As instalações sofisticadas e  confortáveis são administradas pessoalmente por Isócrates, que incansável, explica a história ali guardada. Emocionado, em certo momento durante a leitura sobre o avô Francisco de Sá, nascido em vinte e nove de janeiro de mil oitocentos e sessenta e um, pedi que lesse devagar para facilitar o entendimento. O pirenopolino enxugou as lágrimas com as costas das mãos e afirmou que a história o engasgava. Ao fundo do pátio, exibe seu orgulho, o veleiro Vento Leste que segundo falou, o levará até Buenos Ayres pela bacia hidrográfica sul ou a Belém, pela norte.  Espero ser convidado para comprovar a saída do navegador, que desbravará esta bacia hidrográfica.
E assim, por intermédio destes personagens, conheci outro lado de Pirenópolis. Em comum entre eles a adoração pela arte, pela criação, a conservação e a exposição a nós, aficcionados por história das cidades e pessoas. 

domingo, 27 de novembro de 2011

MANAUS ONTEM E HOJE

(Teatro Amazonas- arquivo pessoal)









O sobrevôo sobre a cidade e a leve inclinação da asa esquerda, alinhando a aterrissagem, evidenciou a diferença da Manaus de agora com há de trinta anos. Em oitenta estive a trabalho na cidade e a zona franca fervilhava de turistas atrás de novidades importadas a preços módicos. Naquele ano, viajei por três ocasiões. Em cada uma, permaneci por períodos de trinta dias banhado pelo calor dos trópicos.
Em finais de semana procurava aprender danças típicas e assim, meio por acaso, conheci o forró nordestino. Fui cativado imediatamente. Lembro do quanto transpirei ao som de Morena Tropicana animado por shows ao vivo na potente e melodiosa voz de Alceu Valença. Muitas noites de forró dancei com Moema, charmosa índia amazonense que me iniciou pacientemente nos primeiros passos da dança. Ainda hoje ao ouvir forró, não resisto e balanço até o sol raiar.
Retornar a Manaus representava mais do que simples passeio. Era o reencontro com a cidade que desabrochou da floresta como a mangueira que cresceu no meio da selva. Para Malu, representava rever a filha jornalista, que fixou residência e trabalha na Rádio Amazonas.
O mormaço se instalou na passarela de desembarque e reportou o mal estar daqueles tempos. Certo dia ao beber tacacá no centro da cidade, sentei na calçada. Ameaçava desabar por queda de pressão. Tacacá é bebida calórica, fervente que, servida à temperatura ambiente de quase quarenta graus, derruba turistas desavisados. Na verdade, Manaus carecia de estrutura para enfrentar o mormaço intenso dia e noite. Agora, a situação é outra. Em todos os lugares há aparelhos de ar condicionado e ventiladores. Até em bancas de revista.
A diversidade de restaurantes e bares chamou a atenção de Malu. Em lugares pitorescos dentro da mata acolhedora, as margens da estrada ou em praças de alimentação ao ar livre que recebem o povo manauara e turistas com exótico encanto. A variedade de opções nos cardápios aguça o apetite com os pratos a base de peixe das cidades ribeirinhas. A culinária manauara é de pescados, deliciosamente preparados. Pratos como lombo de Pirarucu e Tambaqui na brasa, melhores peixes da região, competem com as carnes vermelhas em qualidade. O pirarucu é conhecido como o bacalhau brasileiro e a fama faz jus. Ao provar, remeti a cidade do Porto em Portugal. O vinho importado, pela proximidade com outros países, tem bom preço, mesmo em restaurantes sofisticados.
O trânsito? Uma loucura! Copiando as grandes metrópoles, o número de carros excede a capacidade das avenidas largas e sinalizadas, que em nada lembram a dos anos oitenta, cortada por ruas estreitas e esburacadas.
Em passeio no centro da cidade, no conjunto de ruas que formavam a famosa zona franca, lembrei os aromas que exalavam das lojas de artigos importados. O odor de material plástico, da tinta dos tecidos indianos, dos biombos, dos baús da China e nas famosas fragrâncias dos perfumes franceses. Muito percorri o comércio atrás de novidades para três filhos indóceis aguardando presentes em Brasília. Na infância, tive um amigo que possuía o ferrorama, brinquedo caro, fora de alcance. As mãos coçavam para tocar os vagões e assumir o controle do comboio, mas o amigo zeloso só permitia a observação. Pois foi o presente dado aos filhos, que mais curti. Comprei, mas só liberava se brincassem comigo. Era a oportunidade de resgatar a infância e o comando do brinquedo.
Com a zona franca desativada, as ruas que abrigavam as enormes lojas de artigos importados, foram substituídas por camelôs em barracas amontoadas pelas calçadas, vendendo produtos de procedência duvidosa.
Em compensação, Manaus recebeu inúmeras fábricas favorecidas pela política de impostos. Instaladas em ritmo veloz, colocam no mercado os produtos “Made in Manaus”, custando cerca de vinte por cento menos que no restante do país.
O teatro Amazonas, decorado com a arte européia, esbanja a riqueza do estado, obtida da extração da borracha natural das seringueiras. Os atores das peças que atuavam no teatro eram franceses ou italianos. Para a apresentação, navegavam três meses, apresentavam-se por um mês e retornavam em mais três meses pelo oceano Atlântico. Permaneciam, portanto, cerca de sete meses longe de casa. O cachê, quatro vezes superior ao praticado no país de origem, era justificado pelo medo da contaminação por malária. Na pintura do teto da sala de descanso dos atores, executada em tela, na Itália, outra curiosidade. Ao ser trazida ao Brasil foi escoltada pelo artista que acompanhou a colagem no teatro. Depois do trabalho concluído, ao retornar a cidade natal, morreu de malária. Se soubesse o quanto custaria a tela, penso que não a executaria. Um turista preocupado, perguntou a guia se entre visitantes acontecera algum caso semelhante. Ela ignorou a indagação e passou a outra sala onde narrou: “Até então, as mulheres da realeza usavam nove anáguas engomadas para armar as roupas e valorizar quadris e seios passando a impressão de boas parideiras e amamentadoras. A inteligente esposa de Napoleão III, para substituir a quantidade de panos, projetou uma armação de ferro e mandou confeccionar pela fábrica de espetos francesa Peugeot. O artefato foi aprovado pela nobreza e o fabricante recebeu tantas encomendas que foi salvo da falência. Aproveitou o bom momento e investiu em fabricação de guarda-chuvas, bicicletas e automóveis. Além de causar bom efeito visual nas mulheres, o produto facilitou a higiene das partes íntimas, melhorando a saúde das usuárias.”
Turismo obrigatório aconteceu na novíssima ponte sobre o Rio Negro, que une a pequena Iranduba à Manaus. Inaugurada a cerca de um mês, durante as festividades de aniversário da capital, tem cerca de três quilômetros e meio de extensão. Orgulho dos manauaras serviu para encurtar caminho entre as cidades. Após a ponte, a rodovia é cercada por mata nativa que exala o odor da vegetação exuberante. A umidade dificulta a respiração dos brasilienses acostumados com a seca do cerrado. Árvores altas com copas fechadas e no pé com vegetação espessa, dificultam o acesso. Ao entrar dez metros mata adentro, mergulhará na escuridão dificultando o retorno.
Por estrada de terra esburacada chega-se a beira do rio Negro, onde o cais flutuante evidenciou que o rio nas cheias, deve ser respeitado. Iranduba é a cidade com maior quantidade de hotéis de selva, pena que com diárias inacessíveis ao turista médio brasileiro, sendo fortemente visitados por turistas estrangeiros.
Na chegada ao cais de Iranduba encontramos o prefeito de Manaquiri que, antes de embarcar ao destino, falou sobre a construção de mais uma nova ponte na região. A ligação a Fonte Boa, visa integrar a região sul do estado. A conversa só acabou com a noite que esparramou um manto negro sobre o rio, libertando os mosquitos que adoram sangue de turista. O prefeito se despediu, embarcou na voadeira e afastou-se da margem velozmente para vencer os cento e quarenta quilômetros até Manaquiri.
Pitoresco foi a revisita a Ponta Negra, cujas transformações foram profundas. O trajeto por lamaçal, de difícil acesso, foi substituído por larga avenida de duas pistas. O tambaqui, curtido num piquenique ao pé da mata, preparado em folha de bananeira e cozido em braseiro de chão, desta vez comi temperado com sal grosso, em restaurante refrigerado. As árvores nativas a beira do Rio Negro, sob as quais caminhei colhendo murici, foram substituídas por prédios de luxo. Hoje a orla do rio é comparável a beira mar das principais cidades brasileiras. Edifícios habitados por parcela da classe média alta, dividindo águas com frequentadores menos abastados.
Manaus é das cidades que mais crescem no Brasil e é considerada como a capital brasileira que mais evoluiu em qualidade de vida nos últimos dez anos. Não é a toa que é das doze capitais que sediará jogos da Copa do mundo 2014.
A chegada ao aeroporto foi em cima da hora. Malu e eu despachamos a bagagem, subimos ao avião e, exauridos, sentamos. À medida que o avião subia, a mata transformava em imenso tapete espesso e verde. Fechei os olhos e adormeci. Vez por outra acordava, abria os olhos e percebia as clareiras das áreas desmatadas pelas mãos do maior depredador do planeta. Voltava a dormir embalado pelo ronco das turbinas e pelos soluços contidos de Malu com saudades da filha.

domingo, 23 de outubro de 2011

DESCOBRINDO PORTUGAL - FINAL

Shopping COLOMBO-Lisboa (arquivo pessoal)


Tudo que começa, termina e assim acabou a aventura de visitar Portugal, conhecer a estrutura de transportes, os pratos saborosos, os vinhos, as maneirices dos habitantes e os turistas. Encontramos gente de todas as partes do mundo que visitavam o país, de gente hospitaleira e forma peculiar de ser e falar. E conhecemos muitos brasileiros que por motivo ou outro trocaram o país natal para residir na Europa.
Ani (Daniani), paulista com cerca de 30 anos, estava na fila quando Malu e eu comprávamos passagens para retornar a Lisboa. Iria também. O tempo era curto e o balconista aconselhou tomar taxi para, na estação Coimbra-2, embarcar no trem - bala rumo a capital, nosso último destino no país. Ao ver dois conterrâneos atrapalhados, Ani propôs rachar o taxi, solução bem brasileira para economizar a corrida.
Natural de São Paulo, moradora da Áustria, a moça participara do Congresso de saúde do qual Malu fez a conferência em Coimbra. Por curiosidade perguntei como foi parar no país tão distante, de língua difícil como o alemão. Ani disse que foi mistura, “coisas do coração com destino.” E contou. Morava em São Paulo, cursava enfermagem e vivia com os pais que certo dia ofereceram a residência para intercâmbio. Abriram possibilidade a um estudante estrangeiro residir no Brasil enquanto cursasse universidade paulista. Assim, chegou à casa um jovem engenheiro civil austríaco para residir durante o mestrado. Foi amor a primeira vista. Ao retornar, deixou o coração no Brasil, bem cuidado por Ani. Como a longa distância tornara-se um martírio, casaram-se e foram para a Áustria.
Se correrias para identificar vagão de trem e embarcar é angustiante, imaginem somado a malas, mochilas e sacolas. Pois Ani ajudou acomodar tudo no maleiro e a nós, nas poltronas. A ajuda foi importante e aliviou o estresse estampado nos rostos devido a bagagem, a trens velozes, e embarques nos labirintos das estações. Ajudou inclusive o desembarque em Lisboa. E mais, nos convidou para visitar a Áustria. Espero que leia este texto e envie e-mail para contato.
Almoçamos carregados com malas e demais apetrechos no shopping Vasco da Gama, as margens do rio Tejo acompanhados por gaivotas que brincavam de escorregar no telhado de vidro do restaurante. Fomos servidos por jovem paranaense, casada com catarinense. Há muitos brasileiros em Portugal, oh, raios!
No caminho para o hotel, o taxista desfiou um rosário de queixas. Falou do limite de produção do país ditado pela Comunidade Econômica Européia; de Portugal ter de comprar tudo de fora; que as companhias de obras de rua fazem buracos no asfalto e depois os fecham com preguiça. E enalteceu o Brasil falando ser auto-sustentável, desde o petróleo até aço, ferro, comida. A conclusão da conversa é que o país do vizinho é sempre melhor que o da gente.
Chegando ao hotel, contratei empresa de turismo para os passeios por Lisboa no dia seguinte e fomos para o metrô. Descemos no Shopping Colombo, vizinho ao colossal estádio do Benfica. Imaginei a região em dia de clássico.
Às vésperas do retorno ao Brasil, passeamos em ônibus de excursão, explorado por uma das duas únicas empresas prestadoras do serviço na capital portuguesa. Parece até monopólio, mas achei o preço de 30 euros por pessoa, justo, pois inclui passeios durante 24 horas a passageiros que podem descer e tomar os ônibus em qualquer ponto. Inclui ainda as linhas em operação na cidade com os mesmos passes.
Conhecemos monumentos históricos como o forte de Belém, o Museu Arqueológico, o Mosteiro de São Jerônimo e os monumentos erguidos aos grandes descobridores. Portugueses homenageados no país com enormes estátuas como Vasco da Gama, Infante Dom Henrique, Cristóvão Colombo e por aí vai.
No centro de Lisboa, o almoço constou de sardinhas fritas e a digestão aconteceu caminhando entre monumentos e demonstrações de artistas que imitavam estátuas vivas, como o soldado armado, o cavaleiro sedutor e o recordista do Guiness Boock que se equilibrava no ar. Procurei a explicação e um garçom de restaurante que ali permanecia desde cedo, desmistificou o equilibrista. Confidenciou que havia armação de ferro muito bem elaborada a segurá-lo.
Portugal estava desvendado. Visitá-lo em outra ocasião estará sempre nos planos. Malu e eu voltamos exauridos de cansaço, mas satisfeitos em praticar turismo por conta própria, permanecendo sem atropelos o tempo necessário em cada local visitado. Portugal é matriz da história brasileira. Queiramos ou não estamos atrelados àquele país.
Como diz um amigo meu, “viaje com alguém e descobrirá os defeitos e virtudes da pessoa”. Pois Malu e eu fizemos bom par. Toda programação foi executada a dois, sem que pesasse para nenhum em particular. A relação de viagem a tornou uma aventura instigante, exploratória e econômica em todos os sentidos.
Para os viajantes os votos de que o (a) parceiro (a) ou companheiro (a), também goste e tenha bom humor para enfrentar situações por vezes muito adversas.
Aos leitores e amigos que acompanharam as peripécias, resumidas em cinco partes, agradeço e espero continuar recebendo suas visitas ao blog, acompanhando as publicações semanais.

sábado, 15 de outubro de 2011

DESCOBRINDO PORTUGAL – QUARTA PARTE

(Pontes de Porto - arquivo pessoal)

Há quatro dias em Portugal, após visitar Coimbra, Fátima e Aveiro, a cidade do Porto intensificou a percepção das semelhanças existentes entre aquele país e o Brasil. Descendo as ladeiras rumo à cidade baixa, em meio a ruelas estreitas, entre moradias, observava as roupas penduradas nos varais em frente aos sobrados. No centro histórico de Salvador, pude observar este mesmo quadro. Peguei-me inúmeras vezes a racionalizar que estava fora do Brasil. A semelhança entre cidades dos dois países, iniciou-se em Coimbra, onde lembrei Porto Alegre, meu torrão natal, construída em 1772 por casais portugueses açorianos. A partir daí, passei a reconhecer ruas semelhantes à Rua da Praia. Malu comentou só agora entender o costume brasileiro de colocar pedras portuguesas nas ruas. Na livraria Lello encontrou livros que exibem a graça dos desenhos nas calçadas. Lá como cá e por influência destes colonizadores, as calçadas causam impacto pela beleza.
Cheguei a pensar que perderia a oportunidade de conhecer Porto, última cidade a visitar antes do retorno a Lisboa. O dia amanheceu com nuvens escuras prenunciando aguaceiro. A temperatura de treze graus também não ajudava, e despertamos em torno de nove horas. Mas Malu e eu estávamos decididos. Após o desjejum reforçado no hotel, compramos duas mochilas para melhor acomodar os pertences de mão e tomamos o trem bala. Em uma hora estávamos em Porto.
Ao chegar à cidade o dia frio e a chuva fina pareciam atrapalhar os planos.
Li que o melhor acesso ao centro era o metrô, o mais moderno do país. Seguimos para a estação, onde um jovem brasileiro de Governador Valadares, morador de Portugal, indicou onde comprar passagem. Só faltava encontrar o embarque no labirinto da estação da segunda cidade de Portugal e entender onde desembarcar. Buscava a rua Santa Catarina.
Malu resolveu abordar uma senhora de uns setenta anos, dona Dinamérica. Esta senhora, acompanhada da irmã, explicou que deveríamos descer na estação Bolhões, mesmo caminho delas, bastava segui-las. O cuidado dela se manifestava a todo momento ao olhar para trás, certificando-se que a seguíamos. Além de indicar a estação, desceu conosco, alegando que compraria crédito para o telemóvel, denominação do celular.
A rua Santa Catarina é extensa e após caminhar algumas quadras, procuramos local onde almoçar. Ao perceber o shopping Via Catarina, reconheci o lugar ideal para refeição rápida. Seguimos à praça da alimentação, igual às outras do mundo. A diferença entre as lojas que conhecemos, são as grifes, marcas européias afastadas do Brasil pela arraigada cultura às novidades americanas. O almoço no restaurante da venezuelana Guadalupe foi o tradicional e conhecido frango com salada pois confesso que Malu e eu não tivemos coragem de comer Tripas à Moda do Porto, prato típico da cidade, indicado pela gerente do hotel. Quem sabe da próxima vez, experimentamos. A dona, sempre com bom humor, ao ver o garçom dançar fado em meio às mesas, disse adorar o povo português, “pela gaiatice e sorriso fácil.”
À tarde dedicamos visita aos monumentos, igrejas, museus e, como não poderia deixar de ser, a livraria Lello, local ímpar pela arquitetura e cuidado na conservação de obras históricas. No passeio por entre as estantes percebi a fama da casa. Folheei livros das conquistas portuguesas e conheci parte das orientações dadas aos navegadores, incluindo Cabral ao partir para conquistar terras brasileiras. Mas o tempo era curto e logo saímos. Malu pagou os livros em euros, a livraria não recebe cheques nem de Portugal, não aceita cartão e não emite nota fiscal, nem recibo de vendas. Senti-me em casa.
A cidade do Porto é banhada pelo Rio Douro, que abriga inúmeras pontes e um teleférico e é por isto conhecida como Cidade das Pontes, cada qual mais bonita. Uma delas possibilita a entrada e saída dos trens à cidade, a grande altura.
Para chegar à margem do Rio Douro seguimos um caminho em ziguezague de ruas estreitas e prédios antigos que lembram as favelas do Rio de Janeiro. Roupas estendidas nos varais das janelas e prédios coloridos emprestam um aspecto mundano e ao mesmo tempo cultural. A região é tombada pela UNESCO e mostra a preocupação pela memória da primeira capital de Portugal e ponto de partida dos grandes navegadores. O povo se orgulha de Infante Don Henrique, um dos filhos mais ilustres.
Ao avistarmos o Rio Douro, lembrei de Porto Alegre e fiquei pensando na nostalgia que os fundadores açorianos experimentaram quando, as margens do rio Guaíba, fixaram a pedra fundamental da capital. Penso que olhar o rio gaúcho, os remetia ao distante quinhão natal, hoje distante nove horas de avião, na época, quarenta e cinco dias em caravelas. Realmente estafante, mas melhor espaço do que entre os bancos da classe econômica.
Malu e eu margeamos o Rio Douro e avistamos um prédio monumental do outro lado, no topo do morro. De construção antiga numa das pontas e na continuidade com muros altos, que não pareciam da mesma obra. Aguçou a curiosidade e aproximei de dois portugueses que discutiam em altos brados defendendo os times do coração. Antes que pudessem reclamar da intromissão, tasquei a pergunta sobre os prédios. Um deles me olhou vermelho, irado da discussão e mirando nos meus olhos, de frente para o antagonista, falou, “aquilo é o Mosteiro da Serra do Pilar, oh! raios”. Ainda insatisfeito, perguntei, “e os muros altos?” e a resposta “um quartel”. Pronto, estava respondido, agradeci e complementei “podem continuar a discussão”. Não testemunhei, mas percebi que a pergunta não aplacou a contenda.
Sair da cidade baixa para a alta foi penoso, estávamos exaustos de caminhar e a subida íngreme, obrigou descansar diversas vezes. Numa das paradas entrei num café e tomei um espresso. Aproveitamos para refletir sobre a angústia de estar longe da terra natal e como afeta pessoas em turismo solitário. Pior quando em país de língua diferente.
Neste dia descobri que azeite de oliva português é forte mesmo. Bom remédio para prisão de ventre.
Talvez o retorno da viagem tenha sido o mais tranquilo do período turístico em Portugal. O cansaço nos prostrou na poltrona do trem-bala e dormirmos ao chacoalhar da carruagem.
Na estação Coimbra – 2, local de baldeação obrigatória entre comboios, embalados pelos acontecimentos de cada dia, cantarolei uma valsa e Malu e eu dançamos assistidos por passageiros curiosos que talvez pensassem “de onde será o casal?”.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

DESCOBRINDO PORTUGAL – TERCEIRA PARTE

(arquivo pessoal)


Conhecer Aveiro foi uma aventura a parte. A cidade tem charme e não é a toa que é conhecida como “A Veneza Portuguesa”. Isto porque, a partir de um centro geométrico, é cortada por canais navegáveis que deságuam no mar.
Um passeio ao estrangeiro inclui a convivência com o povo, conhecer costumes e saborear os pratos de cada lugar. Procuro assim, narrar em detalhes acontecimentos que culminaram com mais esta aventura portuguesa. O projeto era conhecer a cidade, passeando de barco.
Na estação Coimbra-2, onde comprei as passagens para Aveiro, Malu perguntou pelos pontos turísticos a uma moça do guichê. Teve como resposta um nome que nos intrigou: Aveiro é a cidade da RIA.
Abro parêntese para explicações. RIO é a corrente de água que se origina de nascente. RIA é quando não existe nascente, a água é formada pelo braço do mar que adentra a terra. Na definição dos portugueses, a RIA é o resultado do recuo do mar, com a formação de cordões litorais que, a partir do séc. XVI formaram uma laguna. A RIA constitui um dos mais importantes e belos acidentes hidrográficos da costa portuguesa. Fecho o parêntese.
Algo muito interessante acontecia ao descer nas estações das cidades que visitávamos. Tínhamos dificuldade em identificar o lado onde estava a cidade. Imagino pela falta de hábito em andar de trem. Em Aveiro, após identificar o caminho a seguir, descemos pela rua principal rumo a RIA. No caminho, por várias vezes entramos em restaurantes para almoçar, pois o mais forte sentimento era o de fome. No entanto, sabíamos de outras jornadas, que não se come ao primeiro impulso e resolvemos priorizar um restaurante com bom cardápio.
No caminho, diante da demora em divisar a orla, perguntei a um balconista de banca de revista, onde estaria o rio (até então, ignorava que era RIA) recebi a resposta com a lógica portuguesa “vá em frente, mas com cuidado, pois poderá cair dentro dele e afogar”. Tinha razão, a orla onde está o cais apareceu uns vinte passos a nossa frente. Fizemos o reconhecimento do local onde iniciaríamos o passeio de barco e zarpamos atrás de restaurante.
Na praça central da cidade, em frente a um velho casarão do século XV, encontramos o local e, assessorados pelo garçom, pedimos bacalhau a Lagarero acompanhado de vinho tinto alentejano. Almoçamos devagar saboreando a refeição, o vinho e a música espanhola. Após o cafezinho, saímos satisfeitos para a navegação na RIA.
No cais, barcos de turismo não descansam no ir e vir dos canais, abarrotados de turistas. Tomamos assento no da vez, com um grupo de espanhóis idosos e alegres e sentamos bem na frente. Na fila para os passeios, reparei em excursões de várias partes da Europa, predominantemente de espanhóis, italianos e alemães, além dos próprios portugueses que são os que mais movimentam o turismo no país.
No circuito, de mais ou menos duas horas, cruzamos por todos os canais, e conhecemos a cidade navegando, num passeio romântico, narrado pela guia em italiano, espanhol e português. Como era portuguesa, tínhamos a vantagem de entender as informações e as respostas aos questionamentos. A guia narrava tudo e deteve-se nas salinas, um dos principais meios econômicos de Aveiro, apesar da extração ser artesanal. A certa altura do passeio desconcentrei da narrativa da guia que tagarelava em três idiomas e reparei um casal que namorava a beira da RIA, sentados num banco de madeira. Alguns passageiros, como eu, notamos a mão do rapaz a descer displicente para o traseiro da moça. Gritei “cuidado com a mão” e eles olharam rindo. Os passageiros gargalharam. Isto mereceu um comentário de Malu, que é carioca: “a linguagem da gozação é universal mesmo”.
Ao final do passeio, paramos para experimentar ovos moles, um doce delicioso da região. E aí conheci mais um pouco da cortesia portuguesa. Um idoso simples, de simpatia ímpar, se acercou, sentou-se à mesa e puxou assunto. Perguntou de onde éramos. Mas sem ouvir a resposta, falou de si. Disse ser natural de Aveiro, e trabalhara até aposentar, na Áustria. Contou a história de lutas e desconfortos passados fora da terra natal. Ficara solteiro e entendi que voltara a seu país, aposentado, para descansar junto aos parentes após a luta pela vida com glórias e fracassos. As marcas da batalha avivaram o olhar, mas marcaram seu rosto e os cantos de sua boca incapacitando-o de sorrir. Ao final, quis pagar a conta, o que julguei desconfortável aceitar. Quando me flagrou tentando pagar diretamente no caixa se ofendeu e recuei, agradecendo e aceitando a oferta. Realmente fiquei espantado, principalmente por ser desconhecido. Malu e eu refletimos que o fato ocorrera de forma casual. Talvez por tratar-se de pessoa simples que recebeu atenção de turistas. Explicação plausível até certo ponto, afinal o povo europeu anda com recursos financeiros escassos. Melhor acreditar que nos julgou merecedores.
Fomos para a estação ainda sob o impacto do acontecimento.
O retorno foi a jato. Tomamos um trem-bala e, na velocidade de duzentos e cinquenta quilômetros por hora dormi até Coimbra. Chegamos a tempo de pegar a sopa na padaria ao lado do hotel e assistir a mais um jogo do Benfica.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

DESCOBRINDO PORTUGAL – SEGUNDA PARTE





(Arquivo pessoal)


Todo dia o amanhecer em Portugal me obrigava a exercitar a consciência e localizar onde estava. A arquitetura de Coimbra, cidade onde dormíamos, guarda semelhanças com Salvador e Rio de Janeiro, conferindo que os portugueses aplicaram nas duas cidades brasileiras, ambas ex-capitais, a arquitetura que conheciam. Quem sabe para aplacar a nostalgia da terra natal. Se hoje, com potente meio de transporte, nos sentimos distantes, imagino em meados dos séculos XVI, XVII.
O passeio a Fátima aconteceu em um misto de curiosidade e obrigação. Amigos que souberam da programação de viagem, falavam com entusiasmo sobre o santuário fazendo comentários tipo “ir a Portugal e não visitar o Santuário de Fátima é morrer na praia”. Ora, pois, pois, então iremos. E mereceu um capítulo a parte pela magia e grandiosidade do local. Nem necessitou um dia inteiro e as impressões são relevantes de narrar.
Antes de tomar o ônibus para Fátima, Malu e eu almoçamos em Coimbra privilegiando frutos do mar. Pescada amarela, com salada e batata cozida, acompanhado de vinho do Porto, que nos deixou com uma ponta de preguiça. Observei que nas refeições não é costume servir arroz com a comida. Como não sou adepto do alimento, não senti falta. Após o almoço, seguimos para a rodoviária, onde esperava o que mais chamou atenção em solo português quando o assunto é transporte: ônibus confortável que contribuiu para a soneca depois do almoço. Dormir bem neste percurso de pouco mais de uma hora, garantiu que chegássemos novos em folha e, como a rodoviária é perto do santuário, nos deslocamos a pé, fazendo fotos da vegetação, semelhante à brasileira do sul.
Íamos distraídos quando, por detrás de árvores centenárias, surge o colossal prédio do complexo. Era o templo principal que nos impressiona pela grandeza. Os portugueses capricharam, com razão, a visita ao Santuário é responsável por dez por cento de todo turismo que acontece no país. Em 2005, chegaram a mais de 4 milhões de peregrinos. O templo da Santíssima Trindade, construção mais recente do complexo de templos tem capacidade para nove mil pessoas sentadas.
À frente da porta de duas toneladas, a grandiosidade do pátio central remete a miniatura de nosso significado como seres humanos. O número de pessoas que visitavam o complexo conosco, era significante, mas não preenchia o espaço a disposição. Mesmo neste enorme pátio, o silêncio era quebrado apenas pelos sussurros de orações na missa que acontecia na Capela das Aparições. Os peregrinos, gente de todas as classes sociais e de todos os países do mundo, estavam ali por diversos motivos. A maioria por motivações religiosas. Mas mesmo os que lá comparecem por outras finalidades, acabam se envolvendo em alguma atividade do ritual litúrgico, como assistir missa, sussurrar orações, andar ajoelhado penitência na passarela dos sacrifícios, colocar velas no castiçal ou depositar moeda de 50 centavos de euro na fenda do balcão de uma vitrine para acender uma vela elétrica, entre as centenas que ali estão instaladas.

Um prédio ao fundo, atrás da bastilha, abriga uma bateria de banheiros, bem cuidado e com papéis a disposição. Saliento por não estar acostumado com estes confortos no Brasil.
Em determinado momento, ao passarmos embaixo de um pinheiro, uma pinha desprendeu-se do galho e caiu com estrondo. Nunca vira uma daquele tamanho. Ficamos inertes por alguns instantes, admirando-a, mas logo Malu deu a idéia “vamos levar para o Brasil”. Apanhei-a do chão e se tornou nosso souvenir de Fátima. Não somos adeptos a comprar lembranças de pontos turísticos a preços exorbitantes.
Após cumprir a tradição de acender uma vela num tanque, começamos a nos afastar vagarosamente do templo, pois anoitecia e lá cerra suas portas as sete horas. Acompanhamos com o olhar alguém que, ajoelhado, fazia penitência dolorida arrastando com dificuldade os joelhos na pista dos sacrifícios. Ficamos longo tempo em silêncio, caminhando de mãos dadas, perdidos em reflexões sobre a fé humana e, seu significado, manifestações, símbolos e crenças.
Lanchamos perto do santuário, um doce chamado Feijão, feito com ovos moles. O passeio não ultrapassou três horas e logo estávamos retornando a rodoviária.
As oito da noite tomamos o ônibus e voltamos para Coimbra. Fátima foi ficando para trás com todo seu esplendor e significado litúrgico. Colossal monumento erguido ao povo crédulo que procura significado para a morte e sentido para a vida.
Antes de dormir entramos num pequeno restaurante, aconchegante, intimista, decorado com quadros do século XVIII. O dono, um senhor de meia idade, atendia pessoalmente seus clientes, que, pelo porte do local, não poderiam passar de vinte por vez. A apresentação do cardápio decorado com bom gosto. Atrás do balcão uma senhora que parecia sua mulher, esmerava orientando dois cozinheiros. Quase imperceptível, uma música francesa pairava docemente transformando o ambiente em algo preguiçoso. Pedi duas porções de caldo com grão de bico e legumes e, enquanto esperava, conversávamos sobre os acontecimentos do dia e seu significado. Na mesa ao lado uma moça de uns vinte e poucos anos, lia um livro com título francês. Tentei ler o autor, mas não consegui. As demais mesas estavam todas ocupadas. As conversas eram reservadas e contidas, e havia um limite de som aceitável entre os clientes. Passados trinta minutos, um jovem aparentando mais de trinta anos, entrou e se aproximou da moça do livro. Ela levantou para recebê-lo. Cumprimentaram-se com carinho e sentaram um de frente ao outro. Tentaram falar em português. Não deu certo. Em alemão não conseguiram ir muito longe. Acertaram o diálogo em francês. O sussurro dos dois, o vinho branco que pediram, o prato a base de lula, tornou a atmosfera romântica naquele canto do restaurante. Fomos contagiados e nos recolhemos cedo ao hotel. A noite fria em Portugal pode ser bem aconchegante.