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terça-feira, 27 de setembro de 2016

ITÁLIA – CHEGUEI LÁ

Brasil - Barão do Triunfo foto arquivo
Contava um ano de idade quando cheguei a Uruguaiana, pequeno município localizado na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Meu mundo era composto pelo quintal, a rua limitada a frente da casa e a escola. Aos sete tomei consciência sobre a existência do mundo maior do que conhecia.  Meus pais haviam separados, mãe arrumou as malas e rumamos a Porto Alegre, onde moravam meus tios. Um novo horizonte se abriu e percebi as diferenças entre a pequena Uruguaiana e a capital do estado.
Na fronteira, vez por outra recebia a visita da avó materna. Ela era de pequena estatura, mãos fortes, cabelo curto e grisalho. Vó Joana tinha aspecto meigo e hábito de colocar a mão a frente da boca quando ria. Sua fala era enrolada. Ao ficar brava, xingava palavras de significado incompreensível, momentos de ter paciência para entendê-la. Misturava português, com outra língua que, anos mais tarde, descobri ser italiano. No pouco tempo que passava em Uruguaiana, adorava ouvir suas histórias e de meus bisavós e  aventuras em Barão do Triunfo, município distante cerca de 100 quilômetros de Porto Alegre. Lá, os imigrantes italianos, fixaram residência ao chegar ao Brasil. Vez por outra, vó Joana lançava um olhar perdido pela janela e falava sobre a Itália, “terras do outro lado do mar”, que conhecia somente pelas narrativas de onde vieram seus pais.
Brasil- Barão do Triunfo-foto arquivo
Em Porto Alegre, vó foi morar conosco e tivemos inúmeras oportunidades de conversar. Mantivemos a mesma rotina, ela narrava e eu ouvia atento. Eu estudava na escola pública pela manhã, chegava à casa ao meio dia, almoçava e ficava a mesa, aguardando vó lavar a louça do almoço e arrumar a cozinha. O ambiente tinha cenário esmerado. Colocava na mesa a tigela de doce de abóbora, potes e colheres. Eu o mapa mundi com textos da Enciclopédia Delta Larousse que vó pedia para eu ler. Na verdade ouvia mais do que falava.
Essa proximidade alimentou em mim a necessidade de conhecer tradições e costumes do país longínquo. Ao narrar sobre a terra distante e comentar comigo o que ouvia dos pais, Giuseppe e Adele, meus bisavós, minha imaginação alçava voo. Vó não aprendera a ler e me pedia para ler. Demostrava ssim a curiosidade das terras distantes. Isto me motivou a pesquisar. Principalmente sobre a Itália, até então, somente um ponto no mapa. Após ler os textos, mostrava fotos de monumentos e cidades. Vó se encantava.
Itália - Renazzo - Foto - Arquivo pessoal
Depois localizava o país procurando em um velho mapa mundi. Várias vezes flagrei olhos lacrimejantes por baixo das lentes.
Por muito tempo a vontade de conhecer ficou apenas nos sonhos. Vieram casamentos, filhos, compromissos e a oportunidade parecia estar cada vez mais distante. Obrigações familiares consumiam economias e toda vez que fazia poupança, um gasto extra consumia as esperanças.
Finalmente em julho de 2016 a oportunidade surgiu. Conheci os recantos  onde viveram meus antepassados. Uma grande emoção foi chegar em Roma. Parecia conhecida. Vó Joana sempre falava sobre a capital italiana. Mas foi Cento e as províncias de Corpo Reno e Renazzo que mais impressionaram.  A arquitetura, as pessoas, as ruas simples, limpas e belas. A grande quantidade de flores. O povo acolhedor. Vez por outra me confundia, me sentindo como se estivesse no Barão do Triunfo.
Itália - Cento- rua central-Foto arquivo pessoal
Conhecer a Itália, foi como redimir meus bisavós que depois que chegaram ao Brasil, nunca mais retornaram a seu país natal.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

AMIZADE TEM LIMITES

(Google Imagens)

- Eram três da tarde quando cheguei ao apartamento de Zoraia.- conta Roberto enquanto senta na poltrona em frente ao amigo..
- Como a conheceu? – Pergunta Marinho. 
- Você não prestou atenção, mas tudo bem repito. Ainda casado e morando em São Paulo, diariamente Zoraia e eu corríamos no Ibirapuera pela manhã. Pura amizade. Um dia foi transferida para o Rio e montou apartamento no Leblon. Recebi o endereço por um torpedo e o convite para quando fosse ao Rio, visita-la. A chance apareceu quando separei da Maria. Precisava espairecer e aceitei a oferta. Agora entendeu? – perguntou Roberto.
- Claro, prossiga.
Se conheciam há mais de vinte anos e nada acontecia com um que o outro ignorasse.
- Pois bem, Zoraia abriu a porta vestida apenas com camisola vermelha e convidou a entrar. O apartamento era de quarto e sala, decorado com imitação de cabine de navio com janelas tipo escotilha de gesso branco.  A um canto, um timão de barco e luminária dourada completavam a decoração. Parecia incomodada ao me perceber medindo o apartamento e  ressaltou que avisara sobre o tamanho. Tive de dormir no sofá na sala. 
- Pensei que dormiriam na mesma cama, afinal, divorciados, nada os impediria. – Marinho sabia que o amigo não desperdiçaria a chance, principalmente se tratando de Zoraia, morena linda e disponível no mesmo teto.
- Já te falei que nunca tivemos nada, apenas aceitei o convite para hospedar. Precisava espairecer durante o período crítico da separação. Fazer o luto da convivência com Maria. Enquanto Zoraia trabalhava, eu caminhava na praia. 
- Ora, eu mereço, conta outra. Durante o dia, Zoraia trabalhava e você curtia praia. Ela chegava, deitava e dormia. Faça-me o favor – Marinho abriu uma ceveja e dividiu em dois copos.
Roberto prosseguiu.
- No sábado ao acordar, observei um pacote de baseados na mesa. Algo mais seria servido no apartamento naquele dia, além da cerveja na geladeira.  Arrumei minhas coisas e saí sem despedir. No caminho, encontrei um policial com cão farejador que me cheirou dos pés a cabeça e só me liberaram após o bicho interessar pelo cheiro do apartamento de Zoraia. De mansinho, ganhei a rua. Tomei o metrô e cá estou. Amanhã quero praia e até lá, abrigar na tua casa. 
Marinho percebeu a intensão do amigo de terminar as férias em sua casa e o encaminhou para o quarto vago. Ao passar pela cozinha, percebeu o olho comprido do amigo para a irmã e avisou:
- Se der em cima de Alice, te boto porta afora. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

FÉRIAS

(Porto Alegre-Arquivo pessoal)

 Estive de férias. Estava desaparecido do convívio por 15 dias a partir do ano novo. Não necessito avisar chefe, pedir licença, ser substituído. Estou em fase de vida que decido, junto com o bolso, onde tirar férias. Algumas vezes fico quieto e assim, curto a casa. Aí, alivio as tarefas, não compareço a reuniões, falto a compromissos. Em férias se fica de papo pro ar.
Fui ao Rio Grande do Sul e lá, curti a praia de Cidreira, que apresentava, como sempre, água turva e ondas bravas como, aliás, todo o mar do estado gaúcho. Na entrada da maturidade, ao decidir veranear, excursionava com amigos em Santa Catarina, onde o mar, na maioria das praias, é azul e manso. Eram estradas livres, com pista simples, onde tínhamos cuidado com curvas traiçoeiras que não impediam as viagens, eventos divertidíssimos desde a saída até a volta apesar de exaustos.
(Brasília-Arquivo pessoal)
Porto Alegre em janeiro e fevereiro é tudo de bom. A cidade fica com trânsito leve e a balbúrdia ao longo do ano é amortecida consideravelmente pela evasão dos carros rumo às praias. De acordo com estatísticas, dos cerca de 10 milhões de gaúchos no estado, quatro milhões se deslocam ao litoral. Imaginem as cidades que de hora para outra, triplicam suas populações. Porto Alegre pelo contrário, há fartura. Vagas em estacionamento, lugares nos restaurantes, pistas livres, enfim a cidade fica entregue aos turistas que, como eu, curtem as facilidades da capital.
Pude curtir por do sol e comparei ao de Brasília. Os candangos, assim como os porto alegrenses, possuem lindo espetáculo. A diferença é que na capital gaúcha há mais locais para assistir. Pode-se escolher a vontade, desde a Usina do Gasômetro até o Barrashoping, a orla da Vila Assunção, Ipanema e por aí vai. A beira do rio é livre e se passeia sem transtornos. O caminho da orla proporciona passeio tranquilo com vista do astro rei se pondo magnífico do centro a Zona Sul.
(Brasilia-Google Imagens)
Na capital candanga, o por do sol na maioria dos locais está restrito a residências que invadiram a beleza natural na orla do lago Paranoá. Há mansões de três andares que eliminam a chance da boa vista ou foto. Identifiquei poucos pontos de acesso a beira do lago. A ponte JK, O Píer 21, O Pontão e a Ermida Dom Bosco são alguns, nos Clubes o evento é cativo dos associados. Mas porque preocupar com o sol, se há casarões dignos de fotos? Dirão alguns. Particularmente julgo a natureza bem mais importante e fotogênica do que qualquer edificação.
Para ilustrar o que digo, coloquei algumas fotos. Até as ciclovias que iriam margear o lago Paranoá, não saíram do papel, há cercas e muros que entram lago a dentro e impedem o livre trânsito na orla.
Porto Alegre conseguiu se adiantar a esta exploração imobiliária e proporciona a liberdade do passeio de carro, banhado pelos raios amarelados do anoitecer. Felicito os gaúchos que sorvem chimarrão a beira do Guaíba ao entardecer.  Enquanto isto torço pelos brasilienses. Torço por um político corajoso que liberte o por do sol, reeditando o projeto das ciclovias na beira do lago Paranoá, com bancos para a população.
O sol e o romantismo agradecem.
(Porto Alegre-Arquivo pessoal)
Feliz 2013 a todos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

TEMPESTADE VAI, TEMPESTADE VEM

(Foto: Google Imagens)

Em janeiro de 1990 curti férias no Morro dos Conventos, Distrito do município de Araranguá, estado de Santa Catarina, onde hospedei em um  camping com excelentes  instalações. Dispõe de cabanas, bons banheiros, restaurante com cozinha de qualidade, supermercado, butique, quadras de esporte, enfim, todo conforto para aproveitar férias.
Naquele ano havia adquirido uma carreta-barraca que engatava na traseira do meu Monza 1986 e viajava pelo Brasil com a casa a reboque, igual caramujo, economizando hotel. Assim, sobrava dinheiro para abusar no consumo de bons pratos da culinária local, basicamente composta de peixe. Cheguei ao camping no início da noite, instalei rapidamente a parafernália na área de moto homes e dormi. Viajara cerca de sete horas na BR 101, verdadeira maratona em estrada congestionada de turistas argentinos que gastam as economias no atrativo comércio local e nas lindas praias do litoral catarinense.
O dia seguinte foi de sol, banho de mar e pescaria. À tarde encontrei um amigo de Brasília, hospedado em cabana com a família que convidou para um churrasco. Ainda cansado da viagem, respondi que depois do almoço tiraria um cochilo e, quem sabe, aceitaria o convite à noite. Enquanto conversávamos, olhei por cima dos morros e percebi nuvens escuras a subir vagarosamente. Após a refeição, me dirigi para a barraca aconchegante. Ao entrar ouvi dois zeladores que comentavam a previsão do rádio para o tempo, “...vento Noroeste se prepara para hoje...”. Não dei muita atenção, fechei o zíper da entrada, estirei no colchão e dormi.
A carreta-barraca é muito confortável e, com duas cervejas saboreadas no almoço, acabei estendendo o sono mais do que pretendia.
Acordei na completa escuridão sobressaltado com o tranco forte da barraca deitando para o lado esquerdo. Saí tateando de quatro atrás da lanterna e, quando encontrei, conferi o relógio. Eram oito horas. Novamente a carreta tombou a esquerda e depois pesadamente à direita e a lona estufou violentamente para dentro. Peguei a televisão portátil que me acompanhava aos acampamentos e saí à rua. Levei forte lufada de vento no rosto e gigantes pingos de chuva molharam minhas costas. Árvores centenárias que nos dias de sol ofereciam sombra generosa se debatiam e enormes galhos se soltavam perigosamente. Em meio a este caos, corri para buscar abrigo na administração central. No caminho, uma rama desprendeu-se e caiu no capô de um carro estacionado. Mal cheguei ao prédio e uma forte claridade anunciou o estrondo de trovão.
Não havia energia elétrica nas dependências e os hóspedes se apertavam procurando lugares seguros para enfrentar o que parecia o fim do mundo. A administração estava entupida de aflitos e corri ao restaurante e pude perceber o primeiro sinal de perigo. As cozinheiras haviam acendido velas não para iluminar, pois choravam ajoelhadas no chão, mas sim para rezar com rosários de contas grandes, em meio a mãos crispadas. Reconheci nas faces o medo da natureza raivosa. A tempestade amedrontava o pessoal da região.
Depositei a televisão portátil em cima da mesa e me aboletei embaixo de outra onde uma jovem tremia e rezava em voz baixa com seu rosário surrado. Tentei puxar assunto para saber mais acerca da tempestade, mas me cortou rezando em voz alta. Tinha medo de perder a cadência e decidi deixá-la concentrada.
Mais alguns arrancos do vento, chuva com clarões e estrondos e a tempestade amansou deixando atrás de si um rastro de destruição. Saí de baixo da mesa seguido pelas cozinheiras que se benziam e davam graças pela resistência das instalações.
Ao aproximar da barraca percebi-a desmontada e a ferragem torta. Bem melhor que o trailer ao lado que sustentava um galho quebrado. Só restou juntar o que era de valor e ir para hotel, afinal, a rezadeira, amiga de mesa esclareceu que as tempestades costumam vir do mar ao continente e horas depois voltam para o oceano com mais força.
No dia seguinte procurei o amigo que, aparentemente com medo da ventania, fechou a conta e saiu esquecido do churrasco.