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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A DESPEDIDA

Arquivo pessoal
 Estava linda. Tão linda que mais parecia uma boneca de porcelana. A pele branca exibia coloração avermelhada pelo frio intenso na ponte de madeira sobre o pequeno córrego. Esticou a gola do casaco para proteger o pescoço. O sítio era refúgio para finais de semana do intenso trabalho na cidade. Ali montei ateliê de pintura, meu hobby predileto e a miniatura da biblioteca que tinha no escritório.
Sara permanecia imóvel debruçada sobre o parapeito. Olhava a água que corria forte. Vez por outra jogava uma folha ou filtro de cigarro. Nas águas turvas, as últimas chuvas arrastavam objetos pelo riacho e os levavam ao rio. Em alta velocidade, passavam caixas de papelão, latas de cerveja e refrigerante. Peguei suas mãos geladas e as protegi entre as minhas. Olhou-me sem emoção e as retirou.
Havíamos discutido. Eu pedira o divórcio. Há algum tempo percebia que sua cumplicidade pairava com outra pessoa. Ela negava com veemência. Chorara para permanecermos juntos. Ao mesmo tempo, reconhecia pelos movimentos dos últimos dias, que eu sabia mais do que demonstrava. A convivência alcançara limites inaceitáveis. Anos mais tarde, concluí que, se naquele momento, ela tivesse assumido nosso casamento e se declarado disposta a sacrificar a relação para ficarmos juntos, teria cedido. O intolerável era manter a mentira, declarando ser tudo fruto da imaginação.
Sara parecia menina com olhos encharcados e vermelhos. Era a personificação da inocência, o que a deixava mais desamparada. Detesto admitir esse sentimento, mas, naquele momento, estava com pena dela.
Peguei-a pelo braço e a levei ao carro. Ao abrir a porta, livrou-se de minha mão, sentou no banco e bateu a porta, balançando o veículo. Nossa amizade, temia, estava por um fio. Saímos a rodar pela cidade e peguei um retorno para a rodovia federal. Sem destino, liguei o aquecedor e tiramos os casacos. Propus almoçarmos em uma pequena cidade turística do interior. Aceitou dando de ombros. Se pouco conversamos durante o trajeto de ida, na volta, após o almoço, nenhuma palavra.
Assumi que não havia mais nada a tratar. Deixei Sara em casa. Desceu sem se despedir, com o carro em movimento. Saí disposto a não voltar. Considerava terminada a relação. Eram dez horas da noite, quando entrei na loja de conveniência do posto de gasolina. Pedi um uísque duplo e a partir daí só lembro de perceber onde estava ao desligar o carro e ser recebido por meu cachorro no sitio. Abri a porta, fui à cozinha tomar água e desabei na cama.
No dia seguinte, despertei com forte dor de cabeça. Exagerara na bebida. A buzina da moto do carteiro levantou-me da cama mais cedo do que pretendia. Abri o portão ainda com a roupa amassada do dia anterior. Era carta registrada. Remetente, Sara. Dei um troco ao rapaz, agradeci e entrei abrindo o envelope amassado.
Folheei as páginas antes de ler. A escrita começa firme, mas a partir da metade ficava tremida e borrada. Percebi leve perfume conhecido.
Contei vinte duas páginas, o que me fez acreditar ter sido escrita antes da conversa sobre divórcio. Talvez tenha sido a leitura mais difícil que fiz na vida. Fazia um retrospecto de nossa vida em comum. Falava do namoro, seguia pelo período de noivado, casamento, férias anuais, nascimento dos filhos. Descrevia como eu adivinhava seus pensamentos, os desejos mais íntimos. Pressentia nas entrelinhas certa melancolia. Final dolorido de algo importante. Imaginei como fora desconfortável escrever. Na última página, a escrita fraquejou. Parecia difícil seguir as linhas. Após desfiar nossa história, confessou que apesar de me amar, eu tinha razão, envolvera-se com outra pessoa. Minhas constantes viagens para melhorar os ganhos financeiros, só contribuíram para sedimentar a relação entre eles. Um colega de trabalho casado, divorciado, cuja mulher, indignada deixara os filhos menores para que criasse. Sara deveria assumir os pequenos enteados. Demonstrou receio por assumir incumbência pesada com tão pouca idade.
Despediu-se declarando amor por toda vida, independente de onde estivesse.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A MENINA QUE SE FEZ MULHER

(Google - Imagens)
Rosinha é menina esperta e aos treze anos, entendendo as dificuldades do pai para financiar as despesas, decide trabalhar. Distribui currículos em lojas, shoppings e supermercados, e em pouco tempo coleciona ofertas de emprego. É contratada como vendedora em barraca de peças íntimas, na Feira dos Importados. Como exibe silhueta torneada, esbanjando inocência e sensualidade, se permite o uso de vestes provocantes e maquiagem arrebatadora, como as atrizes das novelas. Da menina que lidava com bonecas e brincadeiras infantis, desabrocha a mulher esbelta exposta à cobiça.
André é mais um a interessar pela menina. Homem feito, 22 anos, casado e proprietário da barraca em frente, reconhece a magia da moça. Rosinha percebe o interesse do rapaz e, decidida a resistir, apenas alimenta sua inquietude sem transparecer interesse. Esperta, identifica nele a maturidade e independência que aos outros faltam.
— Aposto que é virgem — comenta André com o amigo, que comparece diariamente e faz do endereço mirante de observação.
De lindo sorriso, resiste bravamente aos mais ousados convites e continua a mostrar calcinhas, sutiãs e roupas sensuais, alimentando a volúpia dos clientes masculinos. Um dia, Rosinha recebe buquê de rosas com cartão escrito “Te quero. Não desistirei de você. André”. As pernas fraquejam e um calor sobe pelo ventre juvenil. A partir daí passa a reforçar o perfume e brinda o rapaz com belo sorriso.
A oportunidade para André surge no mesmo dia. Uma greve de ônibus. O rapaz se oferece para levá-la em casa e, a partir daí, passam a namorar. Sutilmente, o rapaz transparece que quer algo mais que namoro e Rosinha, sem forças para resistir aos beijos recheados de intenções, procura Sônia, a melhor amiga.
André, insistente, também conhece Sônia, a quem pede ajuda para conseguir o troféu. Ela deverá aconselhar a namorada a entregar a virgindade e, em troca, André a emprega na loja. Rosinha, inocentemente, se aconselha com a amiga, sem reconhecer a trama armada.
— Sabe Sônia, acho que perderei André  ¬ e confia o pedido do rapaz.
— Pois se entregue mesmo, deixe de ser boba, se não o fizer, ele te larga. Homem é assim mesmo — aconselha Sônia.
Naquela noite, Rosinha pouco dorme e quando o faz, sonha com as mãos de André em seu corpo, os beijos quentes e acorda suada. Amanhece decidida a entregar-se a André. À noite, se dirigem a uma esquina escura, perto da casa da moça e, dentro do carro, Rosinha deixa a inocência e entra na maturidade. Passam a sair diariamente e, como esquecem as precauções, a moça engravida.
André, homem maduro, já esperava isso e se dispôs a ampará-la. Rosinha aceita a ajuda, mas quando o jovem fala em casamento, declina e explica que a vida de casada não está nos planos. Com 27 anos, a moça considera a gravidez fora de hora, determinante para sepultamento do projeto de vida. Culpa-se e sofre em silêncio. Os olhos baixos refletem sua melancolia. André formou outra família e a visita três vezes por semana. Quando juntos, a leva para o quarto e a submete da mesma forma de quando a conheceu, na esperança de recuperar a moça brejeira e alegre.
— Gostaria de terminar a relação. Tenho 27 anos e estou presa a este homem — baixa a cabeça, parece envergonhada. — Só faço sexo porque ele quer, não sinto nada. Depois, fico feliz. Feliz porque terei três dias de folga antes que ele me procure novamente — pensativa, o olhar caído, a fala baixa. — Um dia refaço minha vida. Na verdade, nem vivi ainda. Saí da opressão de papai e caí na de André.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

VERDES MARES DO NORDESTE


(Cumbuco-CE - Arquivo Pessoal)
São quilômetros e quilômetros da linda beira mar oeste. Aqui e ali coqueiros carregados oferecem frutos para o viajante sedento. O sol forte clareia a paisagem de amarelo ouro e vez por outra aparece alguma lagoinha salgada para banho puro e sem ondas.
Como diria Ana Miranda, poeta cearense,
E quando ali retornarmos
Verás que nunca nos fomos
Pois o lugar onde estamos
O lugar onde estaremos
É sempre o lugar que somos

Assim reencontrei o litoral cearense, após dois anos. Desta vez, foram quatro dias intensos de emoções, conhecimento e restauração de energias. Compartilho com quem gosta das pequenas coisas da vida e que, como eu, julgam ser as verdadeiramente importantes.

(Pousada Ondas do Mar - Arquivo Pessoal)
 Hospedamos em encantadora pousada na região de Barramar de Taíba, a cerca de 70 quilômetros de Fortaleza. O acesso acontece por estrada de terra trabalhosa, esburacada, cheia de pedras, mas o destino recompensa. Propriedade de casal italiano, a pousada Ondas do Mar é aconchegante e intimista e os donos, Milton e Maura, estão sempre dispostos a resolver quaisquer problemas que apareçam. Com eles, revivemos cenas dos meus ancestrais também vindos da Península Ibérica em fins do século XIX. Situação semelhante a deste casal, fugiram da situação calamitosa que se abatia sobre a Europa. Em princípio do século XXI, novamente o caos econômico se abate sobre o Velho Continente e obriga famílias inteiras a emigrar e ao que parece o Brasil novamente é o destino. No final do ano estarão se radicando definitivamente no país e trarão a única filha, o genro e o neto para trabalharem na pousada. Encontrei vários empresários europeus, principalmente italianos, espanhóis e franceses investindo no litoral cearense, montando comércios, resorts, hotéis, restaurantes, pousadas e outros negócios. Louvam as possibilidades que o país oferece para estabelecer. O que chama a atenção deles é o clima, “calor o tempo todo”, fala Milton apontando para a camiseta regata, bermuda e chinelos confortáveis.
Meus planos desta vez era conhecer Paracuru, praia distante de onde estávamos apenas 30 quilômetros. E isto aconteceu no segundo dia. Na ida, querendo economizar tempo aventurei-me em estrada de terra pedregosa e poeirenta, mas alternativa de atalho substancial. O que nos deu chance de fazer a foto de um cajueiro, entre as centenas existentes em plantação nativa. Malu e eu fomos ciceroneados por Karina, minha filha que mora na praia de Taíba e o namorado Nacélio. Ao chegar a cidade, na primeira oportunidade, colocamos os pés na água e constatamos a temperatura extremamente confortável. Enquanto o sol contornava em volta da barraca do Kaká, sem nos atingir, conversávamos embalados pela brisa amena que amansava o calor abrasador. O céu carregado de kitesurfs com suas pipas amarelas, lisas, estampadas, desenhadas, amarelas, azuis ajudava ao assanhamento dos turistas de várias idades e nacionalidades, ávidos de usufruir da boa vida tropical. Casquinha de caranguejo foi a entrada, acompanhada de refrescante caipirosca e porções de camarão, dos grandes. No almoço, um delicioso dourado com saladas. Postas fartas preparadas com esmero. O cachorro ao lado da mesa cansou de esperar e foi embora, certamente percebeu que daquele mesa não teria sobras. Sem pressa, alongamos o papo por pelo menos seis horas. Esticamos ao máximo, pois sabíamos que cada minuto era importante considerando o pouco tempo de estada em solo cearense. Saímos de Paracuru ao entardecer e paramos em uma lagoa para conhecer e tomar água de coco. Logo fomos cercados por famílias de ovelhas protegidas por um bode ranzinza que me encarou várias vezes, gansos, patos e um pavão que teimou em deixar o longo rabo colorido fechado. Durante todo tempo acompanhamos a sedução de um peru, este sim de rabo aberto em leque, que de nada adiantou pois a perua estava firme no propósito de manter a guarda fechada. Ao anoitecer, retornamos a Taíba para tomar açaí na tigela, a delicia do norte/nordeste. O retorno aconteceu pela estrada asfaltada, claro, pois de poeirão bastou a ida.
(Altar em Cumbuco - Arquivo pessoal)

No terceiro dia, Malu e eu testemunhamos o casamento de filhos de amigos de Brasília na praia do Tabuba, em Cumbuco, distante 30 quilômetros de onde estávamos, sentido retorno a Fortaleza. A cerimônia foi montada em um altar simbólico e singelo, com galhos de árvores nativas fincados a beira mar. Emoldurando a cena, um belíssimo por do sol e alguns surfistas que cortavam ondas em pranchas velozes. No céu, pipas de kitesurf ondulavam em vai e vem lento. A noiva, com o mais belo dos calçados, os próprios pés, bailava com o vento e com a felicidade que só as noivas sabem e comentou que “não cabia em si mesma de tão contente”. Transbordava a alegria para convidados, na grande maioria, viajantes que deslocaram cerca de dois mil quilômetros participar do evento paradisíaco. Ao final da festa, o noivo, com o calor que fazia, dispensou o paletó e abriu os botões da camisa, celebrando o clima de descontração emprestado a festa. Uma bela e ao mesmo tempo singela cerimônia que satisfez os gostos mais exigentes, com simplicidade, carinho e alegria.
Ao final da festa, retornamos a pousada. À nossa direita, fomos homenageados  pela noite do Ceará, que ofereceu a lua a pratear o mar, a estrada e a vegetação durante todo caminho de volta.
O dia seguinte amanheceu mais bonito que os outros, como se  fosse possível. Tomamos café, tiramos algumas fotos finais com Karina e o namorado na pousada onde residem e, duas horas depois estávamos no aeroporto de Fortaleza. A aventura chegou ao fim. O sentimento é de tempo  bem aproveitado. Constatamos que temos tudo para conhecer lugares e pessoas interessantes. Basta boa vontade, olhos abertos e disposição. Lugar de descansar é em casa. Todos os minutos foram curtidos por inteiro e os compartilho tal e qual ocorreu.
Espero que o litoral resista a erosão crescente, provocada pelo oceano e pelas areias que tomaram várias obras a beira mar.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O MUNDO DÁ VOLTAS, BACELAR

(Google Imagens)

Após dois dias em coma, Bacelar acorda e, ao tentar mexer pernas,  braços ou simplesmente os dedos dos pés, percebe completa inanição. A única sensação de estar vivo foi o zoar do aparelho de monitoramento cardíaco. Guardava na lembrança a fisgada no lado esquerdo do rosto, a forte dor de cabeça e o repuxar teimoso do lado direito que o fez cruzar sinal de trânsito vermelho com o pé no acelerador. As fortes luzes do teto queimavam os olhos e neste cenário, todo branco, com odor de éter, onde o tempo deixava de ter importância, ouviu a voz familiar de Graça sua filha, que o alegrou e a seguir a do genro que o entristeceu. Percebeu-os aos pés da cama em conversa sussurrada.
O que ouve com o bode velho teimoso? – falou Gerson a mulher.
Parece que brigou com um diretor e acabou sofrendo um AVC de grau cinco, o mais grave segundo o médico. Mas pelo amor de Deus, pára de chamar meu pai assim – disse a filha, abatida e desanimada. – afinal, tudo que temos é graças a seu trabalho duro. Mamãe demorou a avisar achando que era coisa passageira.
O paciente ouvia tudo na solidão e imobilidade da doença e pensava o quanto aquele idiota do genro tivera parcela de participação.
Desde o início do namoro, dizia à mulher querer um homem melhor para a filha. Antes da chegada do “intruso”, como se referia, a família era unida e os planos seguiam de vento em popa. A fábrica estava na melhor fase e programava a exportação de produtos a China. A coisa desandou quando a filha única conheceu Gerson e quatro meses depois engravidou, garantindo assim prevalecer seu desejo de se casar com o rapaz. Em seis meses casaram em uma cerimônia aquém da programada.  Todo o movimento contrário ao casamento esmorecera frente ao amor entre os jovens. Amor capaz de  remover obstáculos e dobrar o pai furioso. Na época do casamento, a mulher o convenceu a patrocinar uma grande festa, que foi desprezada pelo genro soberbo e o enlace aconteceu na igreja perto dos pais do noivo e a festa no salão paroquial, embalada por música de pagodeiros, regada a cerveja e doces encomendados no supermercado. Bacelar então montou casa para os jovens, que foi abandonada e o casal passou a residir em casa vizinha aos pais do marido.
Gerson era rapaz de hábitos simples e até o casamento, morava em casa de dois cômodos com os pais na Ceilândia, cidade satélite de Brasília. Mal terminara o segundo grau, a filha do empresário, administradora de empresa, fora preparada para gerenciar os negócios. O pai não contava é com Graça fisgada pelo coração sonhador e simples do rapaz. Bacelar tinha certeza que fora a busca da filha por alguém parecido com ele, também de origem humilde o que influenciou na escolha.
Na única vez que foi visitar a filha, Bacelar não economizou palavras para exprimir a precariedade da moradia e tanto humilhou como desafiou o genro a dar o mesmo conforto que Graça tinha antes do casamento. Desta única vez que os visitou, floresceu a dor de cabeça do pai que nunca mais o deixou. O desgosto tomou conta da mansão do empresário que permanecia quieto e solitário em casa, pouco falando com a mulher.  
As tentativas de reaproximação entre os dois, feitas por Graça, para que o rapaz trabalhasse na fábrica, eram rechaçadas pelo pai que afirmava categórico:

Um dia, minha filha, você irá voltar para casa sem “o intruso” e terá novamente as roupas de grife que você adora usar. Hoje você veste somente roupas de feirão. Este idiota não tem condições de assumir a empresa.
Bacelar, imerso forçadamente em pensamentos era observado pelo neto que olhava o avô como a um fantasma. Dor não tinha. Notou a visão turva mas os ouvidos estavam atentos e assim escutou a mulher  cumprimentar a todos e a ele, dirigir apenas um comentário maldoso, feito por não saber que o marido a tudo escutava.
– Ta vendo no que dá querer mandar em todo mundo? Agora, todos mandam em você.
Filha, agora você pode pensar em voltar para casa, o médico falou que não há prazo para recuperação. O caso é grave e acredita em recuperação gradativa e muito lenta.
A mulher fez uma pausa para se certificar que foi entendida e continuou em tom grave.
– Agora a fábrica é sua e de Gerson e o melhor é assumir imediatamente para manter a continuidade. Falei com o contador, que amanhã reunirá a diretoria com o advogado para assumirem a gerência legalmente. Seu pai após a alta será instalado no quartinho da Clotilde no andar térreo lá de casa, onde ficará confortável.
Bacelar ouvia atentamente, impedido de qualquer reação. Apenas a mente trabalhava. A mulher saiu da sala e deixou o casal a conversar na frente do enfermo.
– Por mim, colocava o velho numa casa de saúde, afinal está um vegetal mesmo! – o rapaz destilava veneno recebido do sogro ao longo dos anos e fazia questão de demonstrar. Mesmo se soubesse que o sogro a tudo ouvia, era bem capaz de falar assim mesmo.
– Pára com isto, querido, papai sempre quis nosso conforto. Fazia tudo para mim e você usufruiu muito disto – a filha era grata ao pai.
Na verdade Gerson lembrava apenas que o sogro o humilhava a mesa nos almoços de domingos e nas reuniões familiares o classificava de formas negativas.
– Pois saiba que há tempos tomei ciência do andamento das finanças, querida. Não andam nada boas e expandir para a China é péssimo negócio, assim mandei abortar os planos. Temos que focar no Distrito Federal. Teremos que reduzir a empresa a dez por cento do que é hoje, para se manter no mercado.
Na cama, prostrado, Bacelar percebeu que nada podia fazer. Dependia de decisões de outros e concluiu que a empresa, sua propriedade e que proporcionara tanto prazer e conforto e até mesmo a filha que criou e educou nas melhores escolas, não mais lhe pertenciam. 
Fechou os olhos e passou a viver de fantasia.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

RESGATE IMPOSSÍVEL

(Google Imagens)

Élida visita a mãe semanalmente às segundas-feiras, dias de plantão do marido e acaba ficando até o cair da tarde. Os filhos adolescentes sabem se virar, permitindo que espere o marido que a pega ao final do trabalho. Certo dia, ao descer do ônibus, percebeu que um carro a seguia de longe e, a partir daí observou que toda semana estava lá novamente. Sentia-se vigiada e, como era de temperamento decidido, resolveu encarar o problema de frente. Aproximou-se e teve um choque ao perceber que era Francisco, ex-namorado da adolescência. Percebendo-se reconhecido, o rapaz saltou do carro sorrindo.
            – Você continua bonita – Francisco apresentava os cabelos grisalhos e as rugas em volta dos olhos adornavam a aparência madura e viril. Élida tremeu ao reconhecer a voz de tantas juras de amor ditas nos cinemas e bailes da juventude.
            Namoraram quando ambos tinham dezoito anos e sempre às escondidas, pois seu pai cultivava  profunda antipatia por Francisco. O namoro foi de calorosos beijos que plantaram a semente do desejo e manteve acesa a chama por tantos anos. Os corpos lembravam-se um do outro e Élida imaginou-se novamente adolescente e curiosa quanto aquele sentimento, há muito adormecido.  E dominou a vontade de se jogar nos braços do homem.
            – Os cabelos brancos lhe fazem bem. – aproximou-se o bastante para perceber o perfume e lembrar o quanto este odor a atraía. O cuidado de usar a mesma fragrância fora meticulosamente estudada por Francisco.
            – O rabo de cavalo que está usando me transporta para nossa adolescência – Francisco falou timidamente, referindo-se ao modo displicente que Élida prendera os cabelos com uma liga. A mesma timidez velha conhecida da moça e que a frustrou nos planos de tornar-se mulher com este grande amor de sua vida – Fazem três meses que rondo o endereço de sua mãe e resolvi esperar o momento certo para falar contigo. Sei até onde mora.
            – Mamãe nunca quis mudar daqui. Agora que papai morreu, quem sabe – Comenta a moça querendo apenas disfarçar a pretensão de aproveitar ao máximo a oportunidade de terem uma relação que recupere o perdido na adolescência.
            – Casei e fui morar no Espírito Santo – Francisco falou se desculpando – Olha – abriu a carteira e retirou a foto dela jovem. No verso, uma dedicatória apaixonada. A lágrima rolou pelo rosto da moça, emocionada ao descobrir o amor que o homem lhe dedicava há tantos anos. – entendeu que o casamento foi o motivo que o fez desaparecer de sua vida.
– E você a guardou por todo deste tempo? – A sinceridade do rapaz a sensibilizou e chegou-se ainda mais perto.
– Tenho todos os bilhetes que me enviou.
Trocaram endereços de e-mails e iniciaram intensa correspondência. Falavam por telefone frequentemente, por vezes até três ligações diárias. Nos dias que visitava a mãe, tomavam café numa cafeteria perto da casa. E Élida precisou de um mês para convencer o rapaz, até que certo dia, combinaram um encontro mais íntimo. Falou à mãe que chegaria depois do almoço e rumou para um motel com Francisco, onde realizaram o sonho iniciado na adolescência.
Élida sentia-se feliz em encontrar o homem da juventude. Observou que sentimentos e corpo ainda respondiam aos anseios da paixão. Durante todos estes anos, sempre lembrava Francisco e lamentava que nada acontecera entre eles, numa época de tanta repressão com as mulheres. Pretendia agora permanecer assim mesmo, sem compromissos para encontrarem-se e transformar a vida que definia sem graça em algo colorido.
Ao contrário da moça, logo após o primeiro encontro, Francisco caiu em depressão profunda e, mesmo com toda participação amorosa, sentia-se muito mal. Nunca fora infiel a mulher e, mesmo que a paixão entre eles fosse fria, uma amante o deixava abalado e receoso. Temia por sentir tanto amor, coisa que há anos amortecera confinado a ritos religiosos. Como evangélico, preparava-se para ser pastor e a continuidade da relação poderia lhe custar muito. Ao notar que Élida queria apenas curtir momentos, Francisco desiludiu-se e esfriou a relação, afastando-se sem explicações.
Élida notara a frieza do. Haviam saído apenas uma vez e percebeu a insegurança do rapaz. Na hora da relação, teve que acalmá-lo com palavras de conforto e amizade. Após duas semanas se esquivando dela, combinaram um café num shopping e soube da voz de Francisco o quanto a relação mudara a vida.
Encontrar um amor do passado pode ser algo muito bom, mas se as intenções forem a de resgatar algo, pode se tornar num grande problema e Élida, que pretendia apenas ter alguém para momentos de amor, entendeu que o rapaz pensava bem diferente. Francisco alimentava pela moça a grande paixão que o reencontro aflorou.
– Após casar, Élida, nunca beijei outra mulher, o que dizer ter amante. Não dou conta disso. Até gostaria de te encontrar, mas não posso. Muito me arrependi de te seguir e entrar em contato.  – Francisco estava visivelmente transtornado.
            Mas a mulher ainda tinha esperança de continuar a viver esta paixão, sentia-se adolescente e renovar estes sentimentos lhe fazia bem. Naquela noite, a última que viu Francisco, Élida notou que um carro passou várias vezes na madrugada em frente sua casa.
            Quando o dia amanheceu, ligou para Francisco e ouviu a mensagem da operadora:
ESTE NÚMERO NÃO EXISTE, POR FAVOR TENTE NOVAMENTE.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

ALTO PREÇO

(Foto Google Imagens)

Diariamente quando chegava a casa, Rodolfo aplicava tremenda surra em Isaura. Destemperado, tratava a todos como raça inferior e descarregava os dissabores da rua contra a mulher. Os filhos evitavam interferir e o provedor perdulário, comprava esta cumplicidade com mimos financeiros. Sem apoio, após a violência recebida a esposa chorava escondida no quarto da filha. Após a violência, esvaziado da tensão, o homem se empanturrava de comida, jogava os cento e dez quilos na cama e roncava até seis da manhã, quando acordava como se nada houvesse acontecido.
A família, moradora de bela mansão em região nobre de Brasília, ostentava o alto poder aquisitivo desfilando roupas de griffe e automóveis novos. Coniventes com os destemperos do pai, os filhos exigiam caras compensações, as quais, uma vez prometidas, Rodolfo cumpria a risca. Para  bancar as exigências, retirava altos ganhos de sua empresa de construção civil. Até Isaura usufruía das benesses. Em compensação, vivia sobrecarregada e submissa, pois o marido queria servidão total a si e aos filhos.
A fortaleza do homem era abalada apenas por uma única fraqueza. A apnéia do sono. Costumava acordar agoniado nas madrugadas, tentando respirar. Para minimizar o problema, que poderia se transformar em tragédia, após exames o médico receitou o uso de aparelho de oxigênio para ser colocado ao dormir. Como o homem deitava alcoolizado, Isaura, ao dormir, colocava a máscara no marido.
Quando a filha mais nova completou dezoito anos, ganhou seu carro novo e, além de ignorar as brigas dos pais, passou também a desmerecer a genitora, já que estudava psicologia e começava a entender a mecânica das relações.
– Mãe, você o conhece muito bem. Pára com estes faniquitos. A relação doentia de vocês me enoja – e, na hora da chegada do pai, saía com amigos.
Um dia Isaura cansou. Revoltou-se, colocou óculos escuros para esconder o olho roxo e correu a Delegacia da Mulher registrar queixa.
A delegada, de seus cinquenta anos, cabelo preso num rabo de cavalo, olhou-a por cima dos óculos, chamou a escrivã e as duas ouviram a mulher que falava sem parar. Isaura chorou e falou por duas horas, até que, exausta, resumiu sua dor.
– Sim, todos os dias há vinte anos. Agora cansei – a delegada ouvia pacientemente e a escrivã lavrava o Boletim de Ocorrência, séria e solidária. Mas logo o ar policial se transformaria em espanto. Ao consultar os arquivos pelo CPF da reclamante, a delegada verificou que constavam oito queixas por agressão do marido nos últimos cinco anos. Em todas desistira da ação.
Em casa o martírio continuou por mais uma semana, quando, sete horas da manhã do sexto dia, a campainha tocou e a empregada atendeu.
– Poderia chamar o senhor Rodolfo? – pergunta a visitante.
A mulher chama o patrão que chega se arrastando com cara de poucos amigos por ser incomodado tão cedo na segunda-feira.
– Sou oficial de justiça – anuncia, apontando a linha pontilhada para assinatura – intimação para audiência na delegacia da Mulher.
Na sala, Isaura esperava apreensiva, avisada pela serviçal. O homem ao passar colocou o dedo em riste em seu nariz.
– Bem, vou te esclarecer. Ta vendo a chave da Mercedes que te dei de aniversário? Vou levar e saiba que está no nome do meu irmão. Esta casa é de meu pai e a fazenda, de Clarinha. – e o marido desfiou todos os bens e os nomes dos “laranjas”, da própria família. – Mas tudo bem, irei a Delegacia na data marcada. Pode arrumar minhas malas – E saiu porta afora. À noite, o motorista pegou a bagagem do patrão e levou ao apartamento da asa sul, que estava vazio.
Não se viram até a audiência, quando Rodolfo chegou na hora marcada.
– Senhor Rodolfo, sua esposa retirou a queixa. O senhor está isento de prestar depoimento, mais uma  vez. Fique avisado que dona Isaura sempre terá a lei do lado – no íntimo, a delegada demonstrava indignação com a ex-reclamante.
A saída, Isaura esperava encostada na BMW do marido.
– Rodolfo, você ganhou, cadê a chave da Mercedes? – e estendeu a mão enquanto o homem entrava no carro.
– Está embaixo do tapete da sala. – gritou à mulher – agora vou trabalhar. Prepara janta leve para mim, volto para casa hoje – E ordenou ao motorista que arrancasse com o carro.
A delegada afastou a persiana e espiou Isaura andando decidida ao ponto de ônibus, com óculos escuros, sapatos baixos e roupas simples. Diferente da mulher plena de jóias e roupas caras quando registrou queixa.
– Mais uma desistência de ação – Comentou com a escrivã que rasgou o documento e jogou na lixeira, balançando a cabeça.
Isaura chegou cedo a casa preparou a janta e sentou-se a espera de Rodolfo. Logo ouviu o carro que entrava na garagem e avaliou o estado da embriaguês pelo ruído do motor. Esperou-o na porta da garagem com suco de caju.
Preparou janta a base de saladas e logo após, sem banho nem escovação de dentes, Rodolfo a chamou para o amor obtendo plena participação da mulher com direito a gritinhos e suspiros.
Após amor intenso, Isaura retirou-se ao banheiro. Ligou o aparelho de som e, enquanto esperava a banheira encher, dançava sensualmente ao som de Zizi Possi. Colocou sais aromatizantes e iniciou o banho relaxante.
Absorta pelo som, saciada pelo êxtase da noite e aquecida pela água morna, a mulher não escutou o marido desesperado acometido por crise de apnéia no quarto.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

MULHER DE UM HOMEM SÓ

(Foto: Google Imagens)


A primeira vez que Lívia entrou na casa de um homem após o divórcio, comemorou como vitória. Representava a tentativa de reciclagem, a marca da nova postura frente a vida e o enfrentamento do mundo com desenvoltura. Sentia-se instigada pelo desconhecido e pelo inusitado da situação. Eduardo, de mesma idade, divorciado e colega de trabalho, há algum tempo a chamava para sair. Demorou a aceitar, pois acreditava na importância da aproximação gradativa. Até então, a vida emocional foi de dificuldades. Limitações físicas importantes contribuíam com a baixa auto-estima.

Fortes problemas de visão desde os oito anos impediam uma vida normal. Mas deu a volta por cima e, estimulada pelo pai, cresceu e conquistou um lugar no mundo, obteve bom emprego, casamento com o homem que amava e duas filhas. A única coisa que avalia como erro foi o rompimento com Nestor após dezoito anos de casados. O casamento desde o início foi uma sucessão de desencantos.

Amigo do irmão, Nestor foi o primeiro namorado e Lívia, que crescera nas barbas da família, aceitou a proposta do noivo de fazê-la mulher. Envolvida pela perda da virgindade, a moça seguiu apaixonada até o casamento. Anos depois, concluiu que Nestor casou pelo estigma desta obrigação.

Até os problemas com a visão, que o marido no início citava como motivo de orgulho, passaram a ser tratados com humilhação em rodas de amigos.

A separação desmoronou o sonho de família feliz e unida com força destrutiva de bomba. Nem a guarda das filhas minimizou a perda da convivência com o “chefe da casa”. Os pais a prepararam para fazer do casamento, felicidade e da dedicação ao lar, objetivo de vida. Lívia sentiu-se fracassar como mulher.

Esperava do marido uma semelhança ao pai, preocupado com a mãe e brincalhão com os filhos. De temperamento frio, pouca atenção dispensava a mulher. Ao chegarem a Brasília, costumavam beber vinho com amigos. Durou pouco. Nestor passou a chegar tarde e Lívia, sozinha em casa, experimentou uma profunda tristeza e passou a consumir medicamentos tarja preta.

Dedicado ao trabalho, Nestor logo galgou altos cargos que culminaram com o assédio de mulheres e a adulação de subordinados. De família humilde do interior, esta combinação serviu para inflar o ego e a personalidade. A consequência foi a transformação de valores e a convicção dele de que vivia num casamento falido. Lívia, solitária na incumbência de salvar a relação, experimentou algumas mudanças de comportamento, boicotadas uma a uma pelo marido desinteressado. Manter a família tornou-se fardo difícil.

Lívia analisa que Nestor tinha conceito de família bem diferente dela. Ainda pequeno foi abandonado pelo pai e, já adulto, avisado do estado terminal, se mostrou desinteressado em conhecê-lo.

Considera-se a parte frágil da relação, única sacrificada. “Sempre fui cuidadora de marido e filhas. Cresci numa família de mulheres com esta característica. Na terapia aprendi a recorrência em abrir mão de mim em favor dos outros.”

Desde o início, Nestor deixou claro que frequentar reuniões familiares era um sacrifício. Lívia ignorava os sinais e dava ouvidos a recomendação materna de que “com o tempo, se acostuma”. O afastamento aumentava e passou a ir só com as filhas. Em qualquer data, mesmo Natais, Nestor preferia passar só ou com a família no interior de São Paulo. Ele desenvolvia o que Lívia classificou como “mania de perseguição”. Acreditava que a família da mulher o colocava fora das conversas e seria alvo de cochichos nas rodas familiares.

Lívia fez várias tentativas para manter a relação. Aumentar a prole, uma delas, se mostrou um fracasso. Nestor não aprovava e perdeu dois filhos, o segundo no sexto mês de gravidez. Segurou a gravidez na terceira tentativa e tiveram a segunda menina. O nascimento da filha trouxe fôlego ao casamento, mas logo a relação novamente foi por água abaixo.

Em outra fase, a filha mais velha assumiu para si a incumbência de manter os pais unidos e declarou que gostaria de um irmão. O desejo da filha acelerou o desenlace e Lívia mesmo reticente aceitou, apesar de preferir continuar casada.

Já se passaram três anos e Lívia ainda ama o ex-marido e admite que se quisesse reatar, o aceitaria de volta. “Fui educada para o casamento único e terei dificuldade em nova relação.” Nas noites solitárias, quando as filhas saem, sente falta da vida a dois.

Em mais de duas décadas juntos, afirma nunca se sentir amada e isto alimenta a baixa auto-estima e o sentimento de abandono, controlados com terapias semanais.

Nem tudo na relação foi perdido e reconhece ganhos positivos importantes. O maior deles, as filhas, perseverantes como o pai naquilo que se propõem. Com ele Lívia aprendeu a ter garra e crescer mesmo nas horas difíceis. “Hoje posso afirmar que conheço a solidariedade e isto devo a Nestor”.

“É ótimo pai, trata as meninas muito bem e é presente quando se trata de resolver os problemas”. O que incomoda Lívia é o afastamento que experimentou quando o ex-marido apareceu com namorada. Na terapia trabalha isto e a inserção social para afastar a sensação da solidão. O auxílio profissional a fez planejar as perspectivas de curto, médio e longo prazos e ensinou a ver beleza e graça na vida.

Isto deu frutos. Angariou novas amizades e conheceu Eduardo com o qual divide bons momentos em barzinhos, cinemas, teatros ou conversas a dois, quando trocam confidências e ampliam a amizade. Quem sabe até chegam a intimidades bem resolvidas.

Lívia entrou no apartamento de Eduardo, rodeou a mesa de centro da sala e fixou-se no porta-retrato dourado que a enfeitava. “Meus pais”, explicou o anfitrião. Sorriu e aceitou a taça de champanhe oferecida.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

LAURINDA E AS FILHAS

(foto Google Imagens)

No dia do casamento de Laurinda, na volta da igreja, o pai comentou ao ouvido da mulher, “tudo que nossa filha desejava na vida era casar e realizou”. E iniciou comentários irônicos e risadas até chegarem ao portão de casa. Ao descer do taxi, a mãe indignada falou já brava, “cala a boca, Carlos, nossa filha é santa, Fred foi o primeiro namorado.” O taxista assustou com o gargalhar frenético do pai.

Os noivos alugaram um apartamento de quarto e sala em um bairro longe do centro da cidade e o rapaz, chaveiro num quiosque no centro da cidade, a partir da mudança passou a chegar a casa diariamente com a cara cheia de cachaça surrando a mulher que, passivamente, aceitava o fardo por entender que se o marido a ajudara a realizar o sonho do casamento, deveria suportar calada as mazelas impostas. Enfrentava o bafo de bebida na hora do amor e os tapas provenientes dos ciúmes exagerados do marido com a benevolência dos mártires. Enquanto isto, remoía as palavras do pai às vésperas do casamento, que advertia “ filha, está cega ao comportamento do rapaz, é um beberrão”.

A rotina diária pesou para a professora. Além de afazeres domésticos, preparo da comida, lavação de roupas e arrumação da casa, trabalhava quarenta horas em escola pública da periferia. A noite se desmanchava de amores ao marido que chegava insatisfeito, bêbado.

Planejou o primeiro filho a partir do aniversário de um ano de casados, com esperança do marido amainar a irreverência.

A barriga crescia e a moça constatou que o marido detestava crianças, passando a gestação inteira ameaçada de abortar. Com a proximidade do nascimento, o dinheiro ficou escasso e mudaram para a casa dos pais onde o marido entendeu ser desaforo morar no quarto nos fundos do quintal e exigiu que os sogros mudassem para lá, liberando a casa ao casal.

A gravidez adiou a rotina de sofrimentos e o marido parou de beber por obra e graça do pastor Bené, amigo de uma vizinha, que diariamente os visitava e rezava por bom parto e felicidade do casal.

Laurinda deu a luz uma menina loira como a mãe, mas no décimo mês de nascida, apresentou retardo no desenvolvimento. Uma vizinha que a acompanhava desde o nascimento, aconselhou a família a consultar um médico o quanto antes o qual, após exames, indicou cirurgia cerebral urgente. Após a terceira operação na cabeça da criança, com intervalos de seis meses, o médico desalentado adiantou que não via solução. Diagnosticou paralisia cerebral e previu que viveria somente até adolescência. Naquela noite Laurinda trancou-se no quarto e chorou copiosamente. Não tinha como dividir a tristeza e refletir sobre o que passara e ainda viria pela frente com o marido beberrão e a filha naquele estado.

A menina crescia dependente da mãe e da avó que agora ajudava com afinco nos cuidados com a neta, que as requisitava dia e noite a medida que o peso aumentava e apareciam sinais da adolescência como a menstruação.

Desgostoso com a situação, quando soube que a mulher ficara grávida pela segunda vez, arrumou as malas, aplicou a última surra nela, deu as costas e desapareceu. No meio de um inverno rigoroso, nasceu a criança e, com a ajuda do pastor Bené e de doações da comunidade, teve fôlego para seguir sua vida.

O parto da segunda filha foi esperado com apreensão, logo tranqüilizado pelo pediatra que diagnosticou uma criança saudável. Esta criança aliviou a rotina da casa e a alegria voltou. Passaram a ouvir novamente o radinho de pilhas que a moça ganhara quando solteira e as mulheres dançavam durante a faxina na velha casa de madeira, toda carcomida pelos cupins.

Quando a pequenina estava com sete anos, as vésperas de Natal correu a acordar o avô que descansava da preparação dos enfeites da noite anterior, e o encontrou mole e gelado. O velho faleceu dormindo de ataque cardíaco fulminante. Seis meses depois, a avó, deprimida após a morte do marido, amanheceu com falta de ar e acabou morrendo de pneumonia, deixando Laurinda a cuidar sozinha das meninas.

O prognóstico do médico com relação à filha doente demonstrou ser completamente errado e ela sobreviveu até a vida adulta, quando em uma gelada manhã, a menina parou de respirar devido a deformação no tórax que apertou o pulmão até asfixiá-la.

Com a morte da filha deficiente, Laurinda passou a ver o mundo de outra forma e procurou a filha mais nova para conversar. Receava que a idade com suas mazelas a impossibilitassem de contar detalhes da vida. No primeiro dia de conversas, fez a moça sentar no sofá rasgado da sala de jantar e iniciou o relato dizendo que o verdadeiro pai dela não era o constado no registro de nascimento. “Fred após o nascimento de tua irmã retornou a beber e, em represália, parei de manter relações sexuais com ele e assim permanecemos até ele sair de casa.

A moça ouvia a mãe atentamente. Laurinda queixou-se da rotina, acrescentando que isto a fazia alimentar fantasias e permissões, única forma de suportar a situação. Acendeu-se nela um fogo interno que minou a resistência ao pastor Bené que os visitava para orações as sextas feiras. No início, Fred participava, mas passou a desprezar e, como chegava bêbado, caía na cama e os deixava a sós. “Aos poucos, ganhamos confiança nas bebedeiras e passamos a namorar no sofá da sala, este mesmo que você está sentada”. A mãe suspirou fundo “confesso que aos poucos fomos nos descuidando”. Foi a cozinha buscar água para as duas e continuou o relato. Em uma noite tempestuosa, que o marido desmaiara na cama e ela e o pastor amaram-se esquecidos após a oração, Fred levantou no meio da noite e surpreendeu-os nus e abraçados.

Na verdade, Laurinda pensava em separar, mas as coisas a partir daí tomaram outro rumo e o marido saiu de casa. Na surra de despedida quase perdeu a criança. “Bené e eu continuamos a encontrar semanalmente e, quando você nasceu, não pode te registrar por ser casado. Procurei um cartório no interior e expliquei que seu pai desaparecera logo que engravidei e queria te registrar. Consegui com facilidade, desembolsando certa quantia ao escrivão. É por isso que na certidão consta o nome de Fred.

“Atualmente, teu pai, é pároco na igreja da Quintino Bocaiúva, mas não quero que o procure”.

A filha nem ouviu o último comentário da mãe. Saiu porta afora disposta a conhecer o pastor. Ao chegar à igreja, mal disfarçava a inquietude e perguntou pelo pai ao pastor que molhava as plantas.

“Bené faleceu há dois meses, moça, teve um mal súbito ao discutir com um bêbado que o procurou durante o culto”.