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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

ENCONTROS PELOS ARES

(Google Imagens)
A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida
Vinicius de Moraes

— Poderia me dizer que fila é essa?
Recém o alto falante chamara seu voo e estava atordoado com o barulho dos passageiros procurando as filas. Voltou-se e percebeu a jovem mulher sorridente. Por breves instantes, apenas sorriram. O burburinho vindo era ensurdecedor. Aproximou o rosto para ouvir melhor. O hálito da mulher era agradável, a voz macia, a respiração cadenciada. Haviam três filas enormes. Como na dele estava só, imaginou que errara.
— Para ser sincero, não sei. Entrei na outra fila e a moça da companhia aérea apontou para cá. Vai ver pensa que sou político brasileiro — Riram amistosamente. Comentaram sobre as dez horas de voo que enfrentariam até o destino e sobre como a Europa é pequena para tantas línguas.
Quando a atendente abriu a corda e os mandou entrar, as filas iniciaram um movimento lento e tumultuado com a conferencia de passaportes e bilhetes aéreos dos cerca de 600 passageiros.
Antes que se perdessem de vista, o homem gritou para a mulher:
— Ei! Se tiver poltrona vaga ao seu lado, avisa. Assim, vamos conversando e o voo fica curto — A mulher riu e fez sinal com o polegar para cima.
Dentro da aeronave, localizou a poltrona e arrumou a bagagem no guarda-volumes. Preferia comprar o banco de corredor para transitar. Os passageiros chegavam e assumiam as poltronas e os compartimentos guarda-volumes. O banco na janela, permanecia vazio. Percebeu alguém a acenar. Era a mulher da fila. Respondeu ao aceno. Estava cinco bancos a sua frente, na fileira do meio.
— Senhores passageiros, embarque encerrado. Iniciamos procedimentos de portas.
Perguntou à Comissária se poderia convidar a amiga a ocupar a poltrona. Recebeu o consentimento e, ao sinal, a mulher pegou a bagagem de mão e sentou-se ao lado. O avião taxiou lentamente, iniciou a corrida para a decolagem e o continente europeu, em segundos, ficava distante.
— Estava em visita a minha filha em Portugal. Ela passa por problemas. É a primeira vez que mora fora de casa. Com minha visita, percebi melhora — disse a mulher.
Nesse desabafo, notou que era mais bonita do que quando a havia visto no saguão de embarque. A inquietude com a filha, a fez séria. O homem comentou o quanto é difícil para as mães ter filho longe
— As mães custam a cortar o cordão umbilical. Na maioria das vezes, nem conseguem esse feito. Já os pais, são mais realistas. Os filhos precisam disso.
O avião seguia roncando as turbinas rumo ao destino. Vez por outra,  turbulências desconfortáveis aconteciam, pouco percebidas, pois a conversa seguia.
— Quando separei, meu marido desapareceu e tive que lutar sozinha para o sustento e conforto de meu casal de filhos — ficou em silêncio alguns instantes e acrescentou — não sei porque conto detalhes de minha vida, afinal você é um estranho.
— Será que o encontro entre pessoas é um acaso da vida ou existe uma administração a coordenar e facilitar as relações? — Perguntou o homem
— Não sei. Outro dia minha filha e eu íamos de Lisboa para Paris e a companhia aérea colocou tanta dificuldade na troca de poltrona para sentarmos juntas que desisti. Mas hoje foi facílimo. Vá entender.
Eram vinte e uma horas. O serviço de jantar foi iniciado. Durante a refeição, pediram uma taça de vinho tinto e após, outra para fechar a janta. O leve bem-estar, logo se fez sentir entre eles e a conversa passou a rolar solta. Falaram sobre a diferença de qualidade dos vinhos europeus e, principalmente, dos preços. A partir daí, a conversa seguiu pelo emocional.
— Faz tempo que não tenho namorado. Minha criação foi muito rígida e tenho dificuldade com os sentimentos. A relação com meu ex-marido não deixou saudade. Nunca mais nos vimos e nunca procurou os filhos.
— Uma relação que durou o tempo necessário e deu o fruto que tinha que dar. Dois filhos. E pelo jeito que fala deles, tenho certeza que os curte muito.
— É verdade.
O resíduo do jantar foi recolhido e as luzes apagadas para os passageiros dormirem. Entre eles, a penumbra serviu para aproximar melhor. Faltava sono.
— As vezes sinto falta de um companheiro. Principalmente para trocar ideias com relação aos filhos.
— O casamento, aliás, a relação com alguém faz falta e contribui para o crescimento de cada um. — Após breve silêncio, falou baixinho no ouvido da mulher — Está esfriando.
Abriram os cobertores e se taparam para enfrentar a longa noite de travessia do Atlântico.
— Vamos juntar os dois cobertores para esquentar melhor?
— Ok! Vou subir esse apoio de braço que machuca minhas costelas —respondeu o homem.
Riram e a mulher comentou que o sorriso do homem denotava sinceridade. Admitiu desconhecer porque, mas havia contado muita coisa de sua vida que nunca contara a ninguém.
Com a proximidade, encostaram-se e o aquecimento fez bem aos dois. O frio pedia mais agasalho, mas sentados lado a lado, cobertos com dois cobertores, amenizou. Os passageiros se preparavam para dormir. O silêncio confortável entre os dois, era um convite para aproximação.
O avião deu um solavanco e iniciou pequenos tremores para um lado e outro.  Ao anúncio de colocar cintos do comandante, a mulher ajudou o homem a apertar a fivela e nesse movimento as mãos tocaram e percebeu as mãos dela frias e suadas.
Levou as mãos por baixo das cobertas e segurou as da mulher. Ela sorriu e mirou o homem nos olhos. Encostou a cabeça no ombro dele e sentiu conforto.
Permaneceram em silêncio, o tempo necessário para solidificar a relação que rapidamente se fortalecia com a empatia necessária a seguir em frente.
Nos próximos trinta minutos o avião foi jogado com força para os lados e para cima e para baixo. Muitas pessoas, de olhos arregalados, se olhavam apreensivas. Os dois, apoiados entre si, não pareciam perceber o movimento inseguro do aparelho.
— A vida é feita de momentos. Quem viveu aquele momento, viveu, quem se escondeu, perdeu.
— Verdade — concordou a mulher.
De cabeça apoiada no ombro do homem a mulher pensava quem seria esse estranho que tamanho conforto inspirava, tanto física quanto espiritualmente.
— Um menino viajava de avião sozinho, brincando com um quebra-cabeça e observado por um padre sentado ao seu lado — comentou a mulher — repentinamente o avião entrou em meio a violenta tempestade e iniciou a dar saltos e perder altura. Se ouvia o rugido do motor sofrendo para recuperar a altitude perdida, sendo jogado para todos os lados. O padre percebeu que o menino continuava brincando e perguntou se não estava com medo. O menino respondeu que não. O padre insistiu dizendo que o avião passava por violenta tempestade e que os demais passageiros estavam gritando de pavor ao que o menino, parou de brincar e olhou para o padre, “como poderia estar com medo se o piloto é  meu pai?”
Os dois se olharam e riram, imersos na proteção momentânea que representavam um ao outro. Perceberam os passageiros da frente com olhares de reprovação. Queriam sinais de apreensão, cúmplices daquela situação desconfortável que passavam.
Assim como o desconforto iniciou, o avião deu forte sacolejada e estabilizou novamente, como se os buracos da estrada houvessem acabado. Apagaram os anúncios de apertar cintos e o comandante acalmou os passageiros com sua voz profissional, dizendo que os cintos poderiam ser afrouxados e falou que o lanche seria servido.
— Estamos chegando — disse o homem mirando o mapa de voo na tela em frente a sua poltrona. Logo estaremos em solo novamente. Nunca fiz uma viagem mais tranquila que essa.
— Eu também — falou a mulher olhando para o companheiro de viagem.
— Pudera, o piloto era meu pai —acrescentou o homem.
Afirmação que lhes rendeu boas gargalhadas.
Ficaram sérios novamente. O avião aterrissou suavemente e taxiou até a esteira.
— Vamos nos despedir aqui? Vou te dar esse livro que estou lendo de Milan Kundera. É muito bom — A mulher agradeceu e deu um beijo na face do homem.
— Quem sabe um dia faremos um novo voo juntos? Disse o homem. Na saída, perdeu-a de vista ao procurar o passaporte. 
E desceram em separado, cumprindo o destino de companheiros de viagem. Na conferência de passaportes, lembrou que só sabia o nome da mulher, não trocaram nenhum outro dado. Tentou voltar, mas um fiscal impediu colocando a mão em seu peito. Esperou para ver se já havia passado.
— Taxi! — alertou um motorista, pegando sua bagagem.
Mecanicamente, dirigiu-se ao carro, seguindo o homem. Antes de entrar no automóvel, deu uma olhada para a porta do desembarque internacional.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

ITÁLIA – CHEGUEI LÁ

Brasil - Barão do Triunfo foto arquivo
Contava um ano de idade quando cheguei a Uruguaiana, pequeno município localizado na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Meu mundo era composto pelo quintal, a rua limitada a frente da casa e a escola. Aos sete tomei consciência sobre a existência do mundo maior do que conhecia.  Meus pais haviam separados, mãe arrumou as malas e rumamos a Porto Alegre, onde moravam meus tios. Um novo horizonte se abriu e percebi as diferenças entre a pequena Uruguaiana e a capital do estado.
Na fronteira, vez por outra recebia a visita da avó materna. Ela era de pequena estatura, mãos fortes, cabelo curto e grisalho. Vó Joana tinha aspecto meigo e hábito de colocar a mão a frente da boca quando ria. Sua fala era enrolada. Ao ficar brava, xingava palavras de significado incompreensível, momentos de ter paciência para entendê-la. Misturava português, com outra língua que, anos mais tarde, descobri ser italiano. No pouco tempo que passava em Uruguaiana, adorava ouvir suas histórias e de meus bisavós e  aventuras em Barão do Triunfo, município distante cerca de 100 quilômetros de Porto Alegre. Lá, os imigrantes italianos, fixaram residência ao chegar ao Brasil. Vez por outra, vó Joana lançava um olhar perdido pela janela e falava sobre a Itália, “terras do outro lado do mar”, que conhecia somente pelas narrativas de onde vieram seus pais.
Brasil- Barão do Triunfo-foto arquivo
Em Porto Alegre, vó foi morar conosco e tivemos inúmeras oportunidades de conversar. Mantivemos a mesma rotina, ela narrava e eu ouvia atento. Eu estudava na escola pública pela manhã, chegava à casa ao meio dia, almoçava e ficava a mesa, aguardando vó lavar a louça do almoço e arrumar a cozinha. O ambiente tinha cenário esmerado. Colocava na mesa a tigela de doce de abóbora, potes e colheres. Eu o mapa mundi com textos da Enciclopédia Delta Larousse que vó pedia para eu ler. Na verdade ouvia mais do que falava.
Essa proximidade alimentou em mim a necessidade de conhecer tradições e costumes do país longínquo. Ao narrar sobre a terra distante e comentar comigo o que ouvia dos pais, Giuseppe e Adele, meus bisavós, minha imaginação alçava voo. Vó não aprendera a ler e me pedia para ler. Demostrava ssim a curiosidade das terras distantes. Isto me motivou a pesquisar. Principalmente sobre a Itália, até então, somente um ponto no mapa. Após ler os textos, mostrava fotos de monumentos e cidades. Vó se encantava.
Itália - Renazzo - Foto - Arquivo pessoal
Depois localizava o país procurando em um velho mapa mundi. Várias vezes flagrei olhos lacrimejantes por baixo das lentes.
Por muito tempo a vontade de conhecer ficou apenas nos sonhos. Vieram casamentos, filhos, compromissos e a oportunidade parecia estar cada vez mais distante. Obrigações familiares consumiam economias e toda vez que fazia poupança, um gasto extra consumia as esperanças.
Finalmente em julho de 2016 a oportunidade surgiu. Conheci os recantos  onde viveram meus antepassados. Uma grande emoção foi chegar em Roma. Parecia conhecida. Vó Joana sempre falava sobre a capital italiana. Mas foi Cento e as províncias de Corpo Reno e Renazzo que mais impressionaram.  A arquitetura, as pessoas, as ruas simples, limpas e belas. A grande quantidade de flores. O povo acolhedor. Vez por outra me confundia, me sentindo como se estivesse no Barão do Triunfo.
Itália - Cento- rua central-Foto arquivo pessoal
Conhecer a Itália, foi como redimir meus bisavós que depois que chegaram ao Brasil, nunca mais retornaram a seu país natal.

domingo, 31 de julho de 2016

Cento / Ferrara / Itália - A Chegada

Estação de Parma - caminho a Cento

Há muito sonhava viajar no sentido contrário aos meus antepassados e conhecer a cidade de onde saíram. Enquanto preparava as malas para a viagem, imaginava a tensão que enfrentaram as vésperas da jornada rumo ao Brasil. Em 10 de fevereiro do ano de 1889, partiu o navio Solferino 1 do porto de Gênova. Levava o casal Giuseppe Tancredi Tassinari (23) e Adele Tassinari (20), meus bisavós, saídos de Cento, Itália,  rumo a Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Como os pais de Adele impediram que viajasse solteira com o noivo, haviam casado pouco antes do embarque, em 6 de fevereiro. Entre os emigrantes, estavam apenas os pais de Giuseppe, Pacífico Tassinari (55) e Irene Turrini (53). A viagem, odisseia de aproximadamente 30 dias, enfrentou tempestades, calmarias perigosas, epidemias e dietas forçadas por racionamento de comida.
Estação de Samoggia- Caminho a Cento
Diferente de meus bisavós cheguei a Roma a partir de São Paulo, sem atropelos em dez horas de voo, incluso a escala em Frankfurt.
Iniciei a viagem em 06 de julho de 2016. A primeira parte, segui a programação da companhia de turismo. Visitei a capital Roma incluindo o Vaticano; Pompéia, a cidade devastada pelo vulcão Vesúvio em 79 d.C.; Nápoles, terra de Sophia Loren; a ilha de Capri e suas grutas milenares e a pré-histórica Florença. Passeei de gôndola em Veneza com direito a tenor e gaiteiro e caminhei pelas ruas da belíssima Verona, contemplado pela bela história mitológica Romeu e Julieta. Em Milão, conheci a moda sofisticada das grandes grifes mundiais.
Em 12 de julho, encerrou-se o roteiro turístico. Separei-me do grupo e iniciei a execução do plano de conhecer a terra de Giuseppe, que, por pressentimento me acompanhava abrindo portas invisíveis para o sucesso da empreitada.
Informei sobre como chegar a cidade de Cento. Parecia  simples. Saí do hotel em Milão às 09 horas da manhã do dia 13. Encontrei a estação Central de trens de Milão em movimento intenso de passageiros. Depois de andar para lá e para cá, tentando observar o movimento das pessoas nas máquinas para compra dos bilhetes, aceitei ajuda de um menino indiano aparentando doze anos. Disse chamar-se Ravi e falava dialeto incompreensível e italiano enroladíssimo. Nossa comunicação estava sofrível. Ravi e eu posicionamos em frente a máquina de comprar bilhetes. A primeira opção era escolher a língua de operação da máquina. Gesticulando, apontei o botão “espanhol”. Ravi deu de ombros, pressionou e a máquina desandou a dar opções de escolha: trem bala ou trem comum, primeira classe ou segunda, número de pessoas, horários, valores. Fomos escolhendo de acordo com as opções que apareciam e desapareciam a velocidade da luz. Ele tinha pressa. Eu espantado com tantas informações a processar.
Quando a engenhoca apresentou o custo final, enfiei a nota de 50 euros no escaninho. A máquina então imprimiu as passagens e cuspiu o troco. Ravi tentou orientar apontando o rumo da plataforma 21, indicada no bilhete. Peguei-o pelo braço e o fiz entender que seria necessário levar-me. Contrariado, o rapaz assentiu e saiu em disparada. Peguei a mala e saí serpenteando em meio a multidão. Levou-me até a plataforma e me fez ver que a partir dali me virasse. Estendeu a mão. Ofereci 3 euros. Foi embora insatisfeito, queria mais. Depois soube que existem atendentes da própria estação que ajudam a tirar bilhetes operando as máquinas. Sem cobrar nada.
Foram quase três horas no trem, razoavelmente confortável a Bolonha, onde cheguei as 14 horas. Com fome e certo nervosismo pela  aproximação do destino. O calor de Bolonha era intenso. Perguntei a um guarda da estação, num misto de espanhol e mímica, onde poderia comer. Apontou conhecida marca de fast food fora da estação. Coloquei a mochila nas costas e sai em direção a lanchonete, arrastando a mala pelas rodinhas. Almocei salada e frango grelhado e retornei a estação.
Uma das vantagens de viajar de trem é que a mala acompanha o viajante sem necessidade de acondicionar em bagageiros. Esse procedimento facilita e previne extravios durante os percursos.
Para Ferrara, dispensei auxílio para comprar passagem. A estação menor e o simpático guarda foram suficientes. O afastamento dos grandes centros causava inquietação. Afinal, estava em país estranho. Afastei os pensamentos de apreensão e fui tomado, pela primeira vez durante a viagem, de emoção indescritível. Lembrei minha avó e as descrições que fazia da terra natal dos pais. As estações de trem passando uma a uma, recordavam a narrativa da viagem dos emigrantes, feita por Leandro Fallavena em seu livro, Barão do Triunfo, Descobrindo a História. Adormeci por puro cansaço.
Feirão das Quintas Feiras 
Cheguei a Ferrara as 16h30. Aproximei do primeiro taxi e, com o motorista, chegamos a conclusão que o endereço do hotel da reserva discordava do voucher da companhia de turismo. Não poderia ser pior. Passei o número do telefone do hotel ao motorista que ligou imediatamente. Realmente o endereço não era Ferrara e sim Cento a cerca de 50 km. Perguntou se queria ir para a rodoviária. O cansaço desanimou de pegar ônibus e negociei a corrida a 60 euros. Partimos, afinal, estava perto. Chegamos ao hotel as 17h30.
Passeio pela rua central
Antes de subir ao apartamento para descansar, expliquei à atendente sobre as intenções na cidade. Respondeu-me que ligaria a uma amiga, escritora, ex assessora de cultura e, tinha o sobrenome Tassinari. Inicialmente prestei pouca atenção ao que falou. Paulatinamente, percebi a importância do contato. Servidora da cultura, fez a diferença e possibilitou a abertura de portas e registros históricos da cidade. A partir daí, entraram duas comarcas de Cento, igualmente importantes em registros históricos: Corporeno e Renazzo, onde Giuseppe passou infância e adolescência até a idade adulta. Meu bisavô diligentemente, agia para a viagem ser bem sucedida.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CUSCO - PERU – 3.400 METROS

(Centro Artesanal de Cusco - arquivo pessoal)
Terminei de arrumar a bagagem e, no horário marcado, a van esperava a porta do hotel. Após uma hora buzinando pelo intrincado trânsito da capital peruana, ainda cansados pela agitação dos dias intensos, a van chega a porta do terminal.
Como o aeroporto de Lima não anuncia as partidas de voos, feito o chekin,  fui direto ao portão de embarque, onde um jovem casal tagarelava em português sobre peripécias em praias peruanas. Eram surfistas. Perguntei de onde eram e a simpática loira aparentando cerca de vinte e cinco anos, responde alegre “eu, de Florianópolis, ele de Curitiba”. Vinham de temporada em Pico Alto, praia conhecida por suas ondas gigantes, especialidade do jovem. “Eu sou marraqueira”, sorri a moça “surfo em ondas pequenas”. “Há muitos brasileiros praticantes de surfe por aqui”, explica o rapaz.
Fomos interrompidos pela funcionária que chamava aos gritos os passageiros dos voos. Despedimos e embarquei no voo lotado por turistas de diferentes nacionalidades. Acomodei-me na poltrona central. Os espaços reduzidos apertaram meus joelhos. Por mímica, um homem sorridente, perguntava a senhora a minha direita, se queria trocar e sentar na janela. Ele oferecia a cadeira na janela e ela explicava, em inglês, que queria permanecer ao lado do marido, sentado do outro lado do corredor. Percebi o que pretendiam e tentei mediar a situação. Só fiz piorar. Minha atitude provocou ira no rapaz que passou a solicitar insistente que levantássemos para deixá-lo entrar. Quando a manobra acabou e retornei, os dois carrancudos fingiam dormir. O voo seguiu tranquilo até a aproximação de Cusco que, localizada entre montanhas, obriga o piloto a manobras apertadas para alinhar a cabeceira da pista.
O tempo em Cusco estava bom, mas a medida que nos movimentávamos, os efeitos da altitude provocavam extremo mal estar. Ainda no aeroporto recepcionistas ofereciam chá de coca para amenizar os efeitos. Por preconceito, agradeci e não tomei.  Já no  hotel, instruído pelo gerente passei a fazer as atividades mais lentamente e provei o chá que a recepcionista oferecia. “Isto é chá de coca. O senhor se sentirá melhor”. Desta vez aceitei. À medida que fazia efeito, o mal-estar dissipava. Nos dias seguintes, pelo menos três vezes ao dia, me servi do chá para combater o mal das altitudes. Um santo remédio.
(Praça das Armas - Cusco - Arquivo pessoal)
O primeiro dia em Cusco foi dedicado a adaptação com a altitude. Os passeios seriam no dia seguinte. Após o almoço, saí pelo comércio para comprar roupas quentes. Ouvi de outros turistas que fazia muito frio em sítios arqueológicos.
Após comprar agasalhos, a chuva fria me fez abrigar no Centro Artesanal de Cusco, uma feira livre de quinquilharias com cobertura. Algo acontecia, o movimento era nervoso. A pequena feira estava visivelmente abalada. Mulheres aos prantos nos receberam com cartazes e a foto de um menino. DEVOLVAM ADLER, dizia o panfleto. Fiquei perplexo ao receber a notícia do desaparecimento do pequeno Adler Esteban, a criança sumira no dia anterior. “Isto nunca aconteceu em Cusco”, dizia a tia da criança fora de si.
A próxima narrativa será dedicada a contar a incrível e trágica história de Adler, um menino de apenas um ano e oito meses, com a qual tive oportunidade de ajudar com o que estava ao meu alcance.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A SURPRESA

(Google-Imagens)
Esta é uma das tantas histórias entre passageiros. Voo de Porto Alegre a Brasília e a mulher, aparentando cinquenta anos, lê a Bíblia enquanto a aeronave taxia na pista do aeroporto Salgado Filho. Em Brasília, tomará conexão rumo ao Nordeste. O avião decola e rapidamente alcança as nuvens e a leitura é interrompida por intensa turbulência. A mulher fecha o livro sagrado e o guarda no compartimento do banco à frente. Torce as mãos e, na tentativa de conter a ansiedade, puxa conversa com o passageiro ao lado.
— Adoro viajar, mas a turbulência me inquieta.
— Ainda é o meio mais seguro. — fala o passageiro, convincente.
Sorriem e trocam experiências de viagens. Tensa, mas agora confiante, a mulher fala muito. Apresentam-se. Ela é turismóloga ele é escritor.
— Escrevo narrativas, coloco no papel histórias que ouço, mas só as melhores — acham graça.
— Se contar a minha, o senhor publica sem identificar?
— Sim, claro. Para ser conhecida, uma história, deve ser divulgada. Omitida, desaparece — Comenta o homem pronto para ouvir.
A mulher fecha os olhos para concatenar as ideias e inicia a narrativa. As mãos juntas.
— Fui casada por quinze anos com um argentino. Homem de temperamento forte, mas alto, bonito e galanteador. Fazia frequentes viagens de Córdoba, na Argentina, ao Rio Grande do Sul para visitar amigos em Caxias. Quando nos conhecemos, eu era jovem, recém-entrada na idade adulta, inexperiente, apesar de um filho de relação anterior. Apresentados por amigos comuns, desde o início houve empatia, mesmo com a grande diferença de idade, o que nunca levei em conta. Com nove anos de namoro, casamos e fomos para a terra dele, onde exercia importante cargo público. Para ocupar o tempo cursei Belas Artes na Universidade local. — aquieta por instantes, procurando dados na memória.
— Falar com estranho, pode ser melhor que com amigo — instiga o escritor que logo silencia. Sabe a importância de ser ouvido.
— Vivíamos em festas de representação, jantares sociais na alta sociedade, onde ele era influente. Nossa vida era intensa. Mesmo assim, queríamos ter filhos e, como não engravidava, após cinco anos, resolvi fazer tratamento. Não compreendia a dificuldade para engravidar, pois já tinha um filho. Foram muitas tentativas de inseminação e, finalmente, desistimos. Para compensar, meu filho morava conosco e se dava muito bem com o padrasto. Costumavam sair para pescarias e a boa convivência entre eles era meu orgulho e tranquilidade. Isso compensava o tratamento machista que recebia no dia a dia. Sim, meu marido tinha temperamento ríspido, típico do homem portenho.
Vez por outra, o companheiro de viagem massageia o pescoço que dói forçado a olhar para a mulher da poltrona ao lado. O aviso de apertar cintos apaga e as comissárias iniciam o serviço de bordo.
— A posição firme do machista na vida social escondia um homem simples e emotivo, alterado de uma hora para outra quando confrontado com situações de estresse. Procurava entender a criação rígida recebida do pai autoritário e relevava as grosserias, que longe de mudar, só pioravam. Passou a viajar e ausentar-se de casa por longos períodos. Ao longo da convivência, a relação tornava-se burocrática. A vida conjugal cedeu lugar à frieza e praticamente desistimos do contato físico.
 — Quer cappuccino? — pergunta o escritor. A mulher aceita e ele pede dois à comissária. Ao receber os copos, passa um para a mulher, que segue o relato.
— Para preencher o tempo, resolvi aperfeiçoar-me em pintura. Contratei um  conhecido artista plástico, para ministrar aulas semanais em casa, o que se mostrou um hobby ideal. Com dois meses, o artista perguntou-me sobre meu marido o qual nunca havia visto e nem sabia o nome. Conduzi-o até a biblioteca e apontei o enorme pôster do casal, alguns anos mais jovens, presente dele, nas comemorações de dez anos de casados. O artista empalideceu. Perguntei o que acontecera. Pensativo, pediu licença e voltamos ao ateliê. Serviu-se de um copo d’agua. Sem dúvida, o transtorno do mestre aconteceu ao ver a foto. Ao término do horário, despediu-se e saiu. À noite, já de Buenos Aires, o artista liga e informa o cancelamento do contrato de ensino. Fala vagamente sobre compromissos impeditivos.
— As pessoas são agentes das ações do destino — fala o escritor recolhendo os copos vazios dos cappuccinos e colocando-os na mesa da poltrona do corredor.
— Percebi a mudança no artista, sentei na sala de estar e adormeci. Era noite quando meu marido chegou e, como hábito, cobra a janta. Passo o cartão de meu professor e pergunto de onde conhece o mestre da pintura de Buenos Aires. Pense num homem desconcertado. Após explicações inteligíveis, convidou-me para jantar fora. Nos aprontamos rapidamente em silêncio. Rodamos por uma hora, até o pequeno restaurante La Coruña, na estrada para Buenos Aires. Um lugar deserto, de comida cara, mas excelente, bem frequentado pela alta sociedade.
— Permanecemos em silêncio por longo tempo, rompido por ele. Começou a falar sobre a sexualidade reprimida, o assédio na infância pelo padrasto e, para meu espanto, do caso com o mestre Juan Carlos, convívio que arrastou por anos, mesmo após nosso casamento. Meu marido chorou muito, pediu perdão e implorou para permanecermos juntos. Falei sobre a dificuldade em aceitar a vida dele. Afinal, tinha vida dupla entre nossa cama e de outros “amigos”. Argumentou que juntos, eu poderia levar a vida que quisesse. Levantei, nos despedimos e tomei um táxi até um hotel. Nosso divórcio saiu em tempo recorde na Argentina. A homologação no Brasil se arrasta há anos. Somos grandes amigos agora, mas convivência marital é impossível.
O comandante acende avisos de apertar cintos. Descreve o tempo na capital, instrui passageiros em conexão e o avião aderna emparelhando com a pista de pouso.
Foram duas horas e quinze de voo que pareceram dez minutos. A mulher abre a Bíblia e pede licença para ler o Salmo de ajuda ao piloto para aterrissagem tranquila.
No saguão se despedem. Ela segue para a conexão. O escritor pega a bagagem e procura o ponto de táxi.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

DESESPERAR JAMAIS

(Google Imagens)
Romero estaciona a Kombi 1962, desce lentamente apoiado na direção e inicia o trabalho de preencher o engradado vermelho com mercadorias. Falta a agilidade de quando enchia dois engradados e os levava um em cima do outro para dentro da residência. Organiza os mantimentos, pacientemente. Primeiro os tomates, depois abacates, abacaxis, limões, laranjas. “Por cima folhas de alfaces, repolhos, couves-flores,  e rúculas, senão amassa”. Levanta a caixa na altura do peito e a leva à despensa. “As verduras foram escolhidas a dedo”, fala bem humorado ao dono da casa.
Há 35 anos fornece verduras frescas semanalmente. Em uma casa do Lago Sul, almoça toda terça a convite do proprietário. Durante a refeição, senta-se à mesa onde é tratado como membro da família. Serve feijão diretamente da panela de onde extrai paio, carne e linguiça.
Tem ar cansado, o Romero. No rosto, marcas da vida de sacrifícios. “Já fiz de tudo para sobreviver, desde caseiro a carregador de bagagens.”. O trabalho pesado custou hérnia e varizes doloridas, operadas por perigo de trombose. A aposentadoria é pequena. Diariamente, amanhece na Central de Abastecimento (CEASA) onde escolhe verduras e frutas frescas e distribui a compradores fiéis. Na casa onde almoça, dedica especial atenção ao fornecimento dos produtos. “Este casal é muito bom para mim. Aprendi muito com a família. Considero-os segundos pais”. Refere-se ao casal de 85 anos, donos da casa. Fala sobre as dificuldades, sentado à cabeceira oposta ao dono da casa.
“Perdi a mãe aos quatro anos de idade e poucos meses depois, perdi meu pai”. A partir daí, tudo fica difícil para o vendedor. A vizinha se encarrega de cuidar do menino, mas o submete a mãos impiedosas. A qualquer contrariedade, o castiga severamente. Certa vez, na insanidade dos maus-tratos, a mulher arranca-lhe metade de uma das orelhas. “Neste dia, jurei que na primeira oportunidade fugiria daquela tortura”. Acreditava haver um mundo melhor do que o que o acolheu. Aos cinco anos, arquiteta a primeira tentativa de fuga. Tenta uma, duas, três vezes, mas sempre é trazido de volta. A cada vez que retorna, os castigos pioram. No entanto, a cada fuga, adquire experiência e em certo dia de tempestade violenta, em meio aos trovões, foge correndo, alcança a estrada de terra e envereda pelo mundo desconhecido. Temendo ser reencontrado, caminha por três dias em direção incerta.
Dorme pelas ruas, debaixo de bancos e, de favor, em fazendas. Desesperado, à procura de lugar onde se fixar, Romero é abordado por um homem que o leva para casa e apresenta-o a mulher. “Olha quem encontrei na rua, está sem dono”, brinca. A mulher serve um prato de comida ao menino franzino e triste. “Pode ficar conosco. Não temos filhos. Dê ao jovem ocupação, boas roupas, salário e coloque-o na responsabilidade pelas vacas”.
Romero cresce aos cuidados do casal que, bons e hospitaleiros, o tratam como filho. Amadurece em lugar acolhedor e amoroso. Mas a vida prepara mais testes. Certo dia, o dono da fazenda amanhece adoentado e, após exames, é constatada doença terminal. A enfermidade é rápida e em poucos meses o homem falece. A mulher, idosa, assediada por parentes distantes é convencida a vender os bens. Chama Romero e fala que é chegada a hora de seguir caminho. Como ajuda, o indeniza com uma velha bicicleta, a qual será útil para trabalhar. O rapaz enfrenta o mundo novamente. Melhor preparado, mas de novo abandonado pelas pessoas que ama, convida a namorada para acompanhá-lo, fazendo uma irrecusável proposta de casamento. Com família para sustentar, monta o primeiro negócio próprio e, de bicicleta, passa a distribuir leite pelas vilas da vizinhança.
Um dia, em 1957, Romero ouve falar de Brasília: “canteiro de obras no meio do cerrado”. Consulta o mapa de um caminhoneiro, coloca as tralhas na bicicleta, a mulher na garupa e parte para o novo empreendimento.
No Distrito Federal, cresce financeiramente. Em pouco tempo, compra uma Kombi, arrenda uma chácara e passa a plantar para venda. E é com a distribuição de legumes e verduras que forma filhos independentes.
“Por que planos para o futuro? Vivo o presente, sigo as determinações de Deus, que só podem ser boas. Saúde é dádiva que agradeço todos os dias”. Hoje, Romero tem 75 anos e ensina que problemas existem para serem administrados e que dias melhores sempre existirão. “O dia bom, mais cedo ou mais tarde chega. Isso ninguém tira. Como me considero? No lucro”.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A BISNETA E A BISAVÓ

A bisneta e a bisavó (arquivo pessoal)

Avó é considerada mãe duas vezes e avô não o é pai duas vezes. Deve ser por conta da gravidez, da amamentação, coisas de competência exclusiva das mulheres que os homens não têm direito de dar pitaco. Na viagem que fiz com a neta Taíssa para Porto Alegre, me senti avô em tempo integral por uma semana. Tanto que decidi narrar as histórias que presenciei e as peripécias desta menina de oito anos. Quem fala que somente as avós babam pelos netos, é porque nunca presenciou avô viajando com eles, principalmente sem avó para palpitar.
Nosso embarque rumo a Porto Alegre, aconteceu com atraso de duas horas. A escolha das poltronas foi estratégica, sendo uma na janela, para que a neta pudesse viajar vendo os flocos de algodão das nuvens e as cidades de Brasília e Porto Alegre, lá de cima.
Um adeus ao pai que a levou ao aeroporto e entramos no avião pela ala das prioridades. Trajava um macacãozinho vermelho, tênis branco e levava na mão a bolsa, um livro infantil sobre histórias de Leonardo da Vinci e uma garrafinha d’água, caso sentisse sede. Muito precavida a menina, deve ter ouvido que os vôos estão carentes de tudo. Pelo menos mataríamos a sede. Quando chegamos às poltronas, a surpresa, uma intrusa ocupara a da janela e ainda pediu para ficar alegando passar mal no trecho Belém/Brasília e que na janela se sentira melhor. “Afinal”, comentou, “logo que o avião sobe só aparecem nuvens e mais nada.” Brinquei que entendia que deveria viajar ali para respirar ar fresco, mas a permissão dependia da dona da poltrona, e apontei Taíssa. Após o apelo, a contragosto a neta cedeu e, mal o avião decolou, a doente virou para o lado e dormiu durante a viagem inteira. “Ela pediu a janela para dormir, vovô”.  Falei a menina que mentira tem perna curta e ela seguiu lendo o livrinho de Leonardo Da Vinci.
Chegamos a capital gaúcha e ao entrar no túnel de desembarque o calor era abrasador e Taissa sacou fora o casaco que vestira em Brasília. Olhava tudo em volta, e quando viu sua maleta na esteira, correu para pegá-la. O carro alugado nos esperava e rumamos para a casa da bisavó, minha mãe, que esperava para almoçar. No caminho apontou espantada, “vovô, o termômetro da rua está marcando 37 graus, nunca vi disto...”, externou assim a admiração com o clima gaúcho. Em Brasília as amiguinhas disseram que no sul faria muito frio.
Levá-la a Porto Alegre era apresentá-la não somente a cidade, mas também a bisavó, sua mãe três vezes segundo a cronologia popular. Taissa perdeu a avó paterna recentemente, o que ocasionou profunda mudança em sua vida e a viagem serviria de lenitivo. Foram dias de descoberta e aprendizado. Fez inúmeras amizades. Brincou de bonecas com a Eduarda do 104, de casinha com as gêmeas Carol e Bia do 203 e assim não pode reclamar de convivência somente com idosos. Quando perguntei o que mais chamou a atenção, “foi que conheci uma feiticeira de verdade, vovô” referindo-se a uma vizinha da bisa que pratica sessões de Umbanda e oferendas a imagens no apartamento 304, permanecendo a maior parte do dia com as janelas fechadas, abrindo-as somente à noite. Durante o dia, esgueira-se pelo corredor, subindo e descendo escada leve como sombra.
A bisa acostumada a viver sozinha aos oitenta e três anos demorou a acostumar com a bisneta, mas logo a menina dócil e gentil conquistou-a e passou a acompanhá-la aos passeios nos shoppings da cidade. Em casa aprendia com a bisa as lides domésticas, como lavar louça, preparar o café da manhã, arrumar as roupas, a cama e tomar banho só. Com certeza “ensinamentos importantes para se tornar de boa convivência e independente”, segundo a bisa.
Nossa rotina eram os passeios pela cidade e assim certo dia fomos a Rua da Praia onde pasmou com o movimento de pedestres. Acostumada com Brasília, andava direcionada pela mão da bisa e por várias vezes foi desviada aos trancos de passantes que a atropelavam cegos a fugir do calor do centro.
No Shopping Iguatemi, Taissa enfiou os patins, recebeu instruções e iniciou a patinação no gelo. E também os tombos. Era ficar de pé e cair. Quinze minutos de quedas de todo tipo. Até que estabilizou e deslizou melhor e quando parecia que estava tudo sobre controle, levou mais uma queda e desistiu. “Vovô, estou satisfeita, cansei de tanto cair”, disse chorando com a mão no bumbum. Foi atendida pelo bombeiro de plantão e saiu encharcada e mancando pelo shopping. Quando noutro dia, passei em uma pista de patinação e perguntei se queria exercitar, respondeu rapidamente, “não, vovô, nunca mais quero patinar”. Parece que deste esporte os pais estão livres.
No passeio por Ipanema, Taissa perguntou se o Guaíba era rio ou lago e quando respondi lago, abriu os olhinhos curiosos, “muito maior que o de Brasília.” E olhando para o infinito e os morros da cidade de Guaíba, “o que tem do outro lado, vovô?”.
Mas tudo que é bom acaba a semana findou e chegou o dia da volta. Após as despedidas chorosas da bisavó passamos na casa das cucas e rumamos ao aeroporto, loucos para sair do forno que estava Porto Alegre.
Na hora da vistoria das bagagens e da passada no detector de metais, o imprevisto. BI-BI-BI. Taissa foi barrada. Também fui, mas foi só retirar o cinto, o relógio e as moedas e passei. A mocinha retirou a pulseirinha, os brincos, os anéis e ..... BI-BI-BI. Retirou o cinto, por causa da fivela, o tênis, meia e........BI-BI-BI. E aí a fiscal empunhou o detector de metais manual, e ameaçou que passaria no corpo dela. Taíssa sentou no chão e disse “Vovô, o que é isto? Ninguém passa este negócio em mim, isto queima, nunca passei por isto.” Confundira o equipamento com o aparato chapinha usado quente para alisar  cabelos. Fiquei ali apalermado, sem saber o que fazer quando a moça impaciente da fila fez a descoberta que salvou a situação. “Tira o prendedor de cabelos”. Foi sacar fora e pronto. Do incidente sobrou a tosse que manifesta quando sofre estresse. E dei razão à neta por não deixar a fiscal passar o detector, afinal quem tolera tudo é porque não se importa com nada e nós adultos estamos acostumados a tolerar demais. A tosse cessou após tomar uns goles d’água e estávamos aptos a embarcar.
Na fila encontra a Luiza, colega de sala. Pronto, festa completa. A menina que vinha de Bagé, trocou de lugar comigo e viajaram juntas, cheias de novidades para contar. De minha parte, sentei com a mãe da Luiza, que segurava seu bebê de 4 meses. Viemos conversando, trocando fraldas e brincando com o menino.
No aeroporto entreguei Taissa ao pai que a afofou nos braços. Recebia de volta a filha mais experiente, conhecedora de coisas que somente as viagens e seus personagens nos ensinam, porque viajar é conhecer. Avô é para isto mesmo, curtir os netos e entregar aos pais para que eduquem. A viagem proporcionou muitas alegrias e isto permanecerá para sempre. Basta lembrar. E eu finalmente consegui me sentir pai duas vezes. Um avô completo.

sábado, 21 de janeiro de 2012

PIRENÓPOLIS CULTURAL

Loja do Eduardo - O Entalhador (arquivo pessoal)

Amanhece e uma chuva fina paira sobre Pirenópolis. Que fazer na cidade cuja atração principal é visitar doze cachoeiras? A pergunta foi a primeira coisa que ocorreu, mas no decorrer do dia, obtive as respostas. E foi surpreendente! Deixei o carro estacionado em frente ao Pouso do Frade, na Rua do Bonfim onde fiquei hospedado e só lembrei no dia da saída.
Anteriormente, ao visitar a cidade transitava motorizado o tempo todo e rumava para as cachoeiras. Confesso que perdia detalhes e contatos com a hospitaleira gente da cidade, empenhada em interagir com o turista, talvez a principal fonte de renda. Desta vez decidi aproveitar o contratempo da chuva e frio e, munido de casaco, chapéu e guarda-chuva, apelei para criatividade e  caminhei muito.
Logo ao sair da pousada a esquerda, subindo a Rua do Bonfim, no sentido da igreja, encontrei Eduardo, o Entalhador. O artesão de cerca de quarenta anos trabalhava em uma placa de madeira entalhando nome de  restaurante da cidade. Natural de Bonito, Mato Grosso - muita gente do comércio de Pirenópolis é de fora - solteiro e com notável talento manual, esculpia letra a letra com paciência e perícia. Malu e eu paramos e decidimos acompanhar o trabalho por instantes. A cada fincada do formão, uma lasca e letras surgiam como num passe de mágica e na rapidez de dar nó na visão. De acordo com a avaliação do Entalhador, exerce o trabalho a contragosto, encara como “rotineira forma de ganhar o pão de cada dia” e, por incrível que possa parecer, julga melancólica sua labuta diária. Explica que por prazer, tudo bem, mas por obrigação é maçante e isto que, segundo ele, é responsável pela maioria das placas em madeira do comércio municipal. São mais de mil em quinze anos de trabalho. “E muitos comerciantes que fecham seus comércios, devolvem a placa e as guardo de recordação”, na fachada da casa onde mora e trabalha, exibe com orgulho inúmeras inscrições comerciais. Armazéns, pousadas, butiques, bares, restaurantes, lojas, etc.


Igreja do Bonfim (arquivo pessoal)



Mas o dia recém havia começado e seguimos pela rua do Bonfim em direção a igreja de mesmo nome. Estava em restauração. Procurei o responsável pelo processo e fui atendido por Adriano, o Restaurador, jovem alto, usando óculos da moda, de aro grosso, bem falante, paulista morador de Uberlândia. Percebi o refinado gosto pelo trabalho quando uma senhora se aproxima e exibe a pequena mão da estátua que restaurava meticulosamente e fala eufórica “olha, Adriano, achei a mãozinha da santa”. Ele a abraça e pula de alegria. “Você é demais, achou algo valioso, muito importante no nosso trabalho”. Abraça a mulher e a beija carinhosamente no rosto. Custei a identificar a pequena mão de no máximo um centímetro na palma do restaurador. E não apenas eu, os demais brincavam “ei Adriano, pensei que você procurava um braço em tamanho natural e não uma miniatura”. A igreja do Bonfim, uma das mais antigas do estado de Goiás, foi construída entre 1750 e 1754 para abrigar a imagem do Senhor do Bonfim, o Cristo crucificado em madeira, de tamanho natural, encomendada a arquidiocese de Salvador. A viagem de lá até Pirenópolis demorou quatro meses, dada a dificuldade de transporte e a falta de estradas entre os estados da Bahia e Goiás. A estátua foi desmontada, alojada em lombo de burro e acompanhada por duzentos escravos posteriormente aproveitados nas fazendas locais. Adriano apresentou efusivamente a descoberta feita na parede da nave principal do altar. “Ao preparar as paredes para a restauração, visualizei três camadas de restaurações em épocas diferentes”. Algo espantoso de imaginar, pois as modernas técnicas datam de anos recentes. Manifestou-se indignado com o desrespeito pela arte do século dezoito, com a falta de preservação de época numa acintosa remarcação, modernizando aquilo que deveria ser preservado a qualquer custo, para mostrar as novas gerações, a beleza original da obra sacra.

Pouso, Café e Cultura (arquivo pessoal)


Continuando a peregrinação, resolvi ir mais longe a procura de café espresso. O desejo me impulsionou por caminhos e confrontou com situações inesperadas. Quando contornava a praça Santa Cruz, no Centro Histórico, fui agarrado pelo braço por um cidadão pirenopolino que nos convidou para provar um café que, segundo ele, seria o mais gostoso da cidade. Com direito a slogan escrito no cartão de visita entregue com orgulho: DESCUBRA O MELHOR DE PIRENÓPOLIS... VENHA TOMAR UM CAFÉ CONOSCO! Fomos.
Assim conheci Isócrates, o Inesperado. Acima da porta, que abria e gentilmente convidava para entrada, a placa POUSO, CAFÉ E CULTURA. E em letras menores, Uma Reverência a Pirenopolinidade. Em duas salas, uma exposição de objetos raros e antiguidades acumuladas pelo pai, diplomata Isócrates de Oliveira, que serviu em diferentes lugares do mundo. “Meu pai serviu a dois Joãos, do Goulart ao Figueiredo”. A pousada instalada num terreno de cerca de 1 500 metros quadrados, coloca a disposição dos hóspedes, amplo jardim, muito verde e árvores centenárias. As instalações sofisticadas e  confortáveis são administradas pessoalmente por Isócrates, que incansável, explica a história ali guardada. Emocionado, em certo momento durante a leitura sobre o avô Francisco de Sá, nascido em vinte e nove de janeiro de mil oitocentos e sessenta e um, pedi que lesse devagar para facilitar o entendimento. O pirenopolino enxugou as lágrimas com as costas das mãos e afirmou que a história o engasgava. Ao fundo do pátio, exibe seu orgulho, o veleiro Vento Leste que segundo falou, o levará até Buenos Ayres pela bacia hidrográfica sul ou a Belém, pela norte.  Espero ser convidado para comprovar a saída do navegador, que desbravará esta bacia hidrográfica.
E assim, por intermédio destes personagens, conheci outro lado de Pirenópolis. Em comum entre eles a adoração pela arte, pela criação, a conservação e a exposição a nós, aficcionados por história das cidades e pessoas. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

DESCOBRINDO PORTUGAL – PRIMEIRA PARTE



( Foto : arquivo pessoal)







Quando planejei viajar, tinha expectativas preconcebidas. A primeira delas seria a de encontrar um povo taciturno, fechado e preocupado com o futuro. Esperava ouvir falar da economia à bancarrota, o povo triste e desacostumado a altos e baixos financeiros, sem entender a gravidade da situação. Julgava-me privilegiado por morar em país de grandes dimensões, com diversidade de clima e miscigenação de povos. Convivência com descendentes de portugueses, italianos, alemães, franceses e por aí vai.
Logo ao descer no aeroporto, engoli meus preconceitos e na fila, ordenada para carimbar os passaportes, verifiquei a primeira diferença. Não havia furão. Uma senhora de uns sessenta anos, que tentava passar a frente alegando que procurava alguém, descoberta na mentira, foi convidada a passar ao final. A fila enorme, ordeiramente andava direcionada por fitas. Dois funcionários garantiam a ordem e a rapidez de modo que, apesar de grande, nunca parasse. Lá na frente, dez guichês da alfândega, atendiam rapidamente.
Constatei que desembarcara num país de primeiro mundo e que a diferença de idade dos povos marcava a evolução. Como conheço a Argentina e o Uruguai apenas e muito do Brasil, considero poucas alternativas para comparação, mas neste momento tive consciência do que encontraria pela frente.
E assim iniciei a aventura portuguesa, reparando nas diferenças e relacionando à cultura brasileira, arraigado na minha descendência italiana.
O planejamento da viagem a Coimbra esteve atrelado à apresentação
de um trabalho, pela namorada, na Conferência Iberoamericana - Europa de Educação em Enfermagem que ocorreu no período de 18 a 24 de setembro.
Entrar no Velho Continente por Portugal fazia parte de objetivos pessoais para ganhar experiência européia. Começar por país de língua irmã acrescenta valores para almejar novos horizontes. Nos demais países, pretendo fazer uso da língua espanhola, minha segunda língua, da qual faço um treinamento intensivo.
Como o período era curto, de 17 a 25 de setembro, o objetivo foi permanecer em Portugal e conhecer o povo, convivendo no dia a dia. Deixei de lado vários palpites de visitar outros países como Espanha ou Itália, pois faria coleção de fotos, mas pouca curtição, como acontece com as excursões.
No aeroporto nos esperava o ônibus do Congresso terceirizado para o Transfer de Lisboa até os hotéis indicados em Coimbra a cerca de 200 quilômetros da capital. Lá seria a sede das Conferências e das atividades turísticas programadas. O hotel escolhido, propiciou boa mobilidade. É localizado entre a estação de trem Coimbra - Parque e a rodoviária. O Confort Inn Almedina nos serviu plenamente neste aspecto.
Apesar de chegar ao hotel às 15h, após enfrentar 9 horas de avião de Brasília até Lisboa, esperar seis horas para o Transfer lotar com congressistas e mais três horas de viagem entre as cidades, foi largar a bagagem no hotel e sair para a primeira exploração em solo português. O hotel está perto do rio Mondego, o único rio português que nasce e acaba dentro de solo português. Descobrimos no primeiro dia, A Sé Velha de Coimbra, construção do século XII, portanto bem antes do descobrimento do Brasil, mandada executar pelo primeiro Rei de Portugal. Nesta Bastilha, o rei confiava aos monges que rezassem para que ele e seus guerreiros se saíssem bem nas batalhas empreendidas. Uma verdadeira fortaleza, como eram construídas as igrejas da época e talvez a única que não foi desfigurada pela ação de restaurações.
Por perto, muitas ruelas e vários becos que acabavam em espaços maiores aproveitados por barzinhos, cafeterias ou pastelarias. Outros com pequenos comércios como mercearias, tabacarias, açougues, lojas especializadas em todo tido de carne de porco, peixes, roupas, enfim todo tipo de comércio, davam um ar provinciano, mas aconchegante e intimista.
Andamos por estes espaços até cerca de dezenove horas, e, após breve sono de uma hora para recompor, fomos lanchar numa pastelaria e padaria onde finalmente experimentei o delicioso vinho português, o primeiro da série que durante estes dias, nos acompanharam como manjar a parte dos almoços, jantares e lanches.
Um enorme telão na pastelaria, repleta de torcedores, exibia um jogo de Benfica e Acadêmica, com vitória do Benfica por 4 a 1. A cada gol, gestos fanáticos dos torcedores, mas contidos, nem de longe lembravam os do Brasil.
Pude reparar nestes primeiros contatos que o português não explica muito às coisas, preferindo que tiremos as conclusões sobre o que queremos perguntar, antes de apresentar a questão. É comum no Brasil perguntarmos as coisas e esperarmos a resposta do outro, e depois irmos perguntando em cima daquilo que queremos saber. O informante português insiste que esmiucemos a pergunta. Por exemplo, narro o que aconteceu comigo numa estação de comboio (trem):
- Quanto custa a passagem para Lisboa? – pergunto ao atendente.
- Não sei – responde o rapaz.
- Como assim? – pergunto eu.
- Quantas pessoas são? Qual o horário? – Me responde, perguntando inquieto.
- Mas o que o horário tem a ver?
- O senhor me diz o horário que digo qual comboio faz este trajeto. Sem isto não tenho como lhe dar o preço. – Simples assim.
No Brasil, o atendente responderia com os preços dos vários tipos de trens e o cliente perguntaria até chegar a resposta que deseja.

A partir de Coimbra, de trem ou ônibus, conhecemos Aveiro, Fátima e a cidade do Porto, que farão parte das narrativas próximas.

Para terminar, selecionei um texto de um poeta português:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos” (Fernando Pessoa).