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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

ENCONTROS PELOS ARES

(Google Imagens)
A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida
Vinicius de Moraes

— Poderia me dizer que fila é essa?
Recém o alto falante chamara seu voo e estava atordoado com o barulho dos passageiros procurando as filas. Voltou-se e percebeu a jovem mulher sorridente. Por breves instantes, apenas sorriram. O burburinho vindo era ensurdecedor. Aproximou o rosto para ouvir melhor. O hálito da mulher era agradável, a voz macia, a respiração cadenciada. Haviam três filas enormes. Como na dele estava só, imaginou que errara.
— Para ser sincero, não sei. Entrei na outra fila e a moça da companhia aérea apontou para cá. Vai ver pensa que sou político brasileiro — Riram amistosamente. Comentaram sobre as dez horas de voo que enfrentariam até o destino e sobre como a Europa é pequena para tantas línguas.
Quando a atendente abriu a corda e os mandou entrar, as filas iniciaram um movimento lento e tumultuado com a conferencia de passaportes e bilhetes aéreos dos cerca de 600 passageiros.
Antes que se perdessem de vista, o homem gritou para a mulher:
— Ei! Se tiver poltrona vaga ao seu lado, avisa. Assim, vamos conversando e o voo fica curto — A mulher riu e fez sinal com o polegar para cima.
Dentro da aeronave, localizou a poltrona e arrumou a bagagem no guarda-volumes. Preferia comprar o banco de corredor para transitar. Os passageiros chegavam e assumiam as poltronas e os compartimentos guarda-volumes. O banco na janela, permanecia vazio. Percebeu alguém a acenar. Era a mulher da fila. Respondeu ao aceno. Estava cinco bancos a sua frente, na fileira do meio.
— Senhores passageiros, embarque encerrado. Iniciamos procedimentos de portas.
Perguntou à Comissária se poderia convidar a amiga a ocupar a poltrona. Recebeu o consentimento e, ao sinal, a mulher pegou a bagagem de mão e sentou-se ao lado. O avião taxiou lentamente, iniciou a corrida para a decolagem e o continente europeu, em segundos, ficava distante.
— Estava em visita a minha filha em Portugal. Ela passa por problemas. É a primeira vez que mora fora de casa. Com minha visita, percebi melhora — disse a mulher.
Nesse desabafo, notou que era mais bonita do que quando a havia visto no saguão de embarque. A inquietude com a filha, a fez séria. O homem comentou o quanto é difícil para as mães ter filho longe
— As mães custam a cortar o cordão umbilical. Na maioria das vezes, nem conseguem esse feito. Já os pais, são mais realistas. Os filhos precisam disso.
O avião seguia roncando as turbinas rumo ao destino. Vez por outra,  turbulências desconfortáveis aconteciam, pouco percebidas, pois a conversa seguia.
— Quando separei, meu marido desapareceu e tive que lutar sozinha para o sustento e conforto de meu casal de filhos — ficou em silêncio alguns instantes e acrescentou — não sei porque conto detalhes de minha vida, afinal você é um estranho.
— Será que o encontro entre pessoas é um acaso da vida ou existe uma administração a coordenar e facilitar as relações? — Perguntou o homem
— Não sei. Outro dia minha filha e eu íamos de Lisboa para Paris e a companhia aérea colocou tanta dificuldade na troca de poltrona para sentarmos juntas que desisti. Mas hoje foi facílimo. Vá entender.
Eram vinte e uma horas. O serviço de jantar foi iniciado. Durante a refeição, pediram uma taça de vinho tinto e após, outra para fechar a janta. O leve bem-estar, logo se fez sentir entre eles e a conversa passou a rolar solta. Falaram sobre a diferença de qualidade dos vinhos europeus e, principalmente, dos preços. A partir daí, a conversa seguiu pelo emocional.
— Faz tempo que não tenho namorado. Minha criação foi muito rígida e tenho dificuldade com os sentimentos. A relação com meu ex-marido não deixou saudade. Nunca mais nos vimos e nunca procurou os filhos.
— Uma relação que durou o tempo necessário e deu o fruto que tinha que dar. Dois filhos. E pelo jeito que fala deles, tenho certeza que os curte muito.
— É verdade.
O resíduo do jantar foi recolhido e as luzes apagadas para os passageiros dormirem. Entre eles, a penumbra serviu para aproximar melhor. Faltava sono.
— As vezes sinto falta de um companheiro. Principalmente para trocar ideias com relação aos filhos.
— O casamento, aliás, a relação com alguém faz falta e contribui para o crescimento de cada um. — Após breve silêncio, falou baixinho no ouvido da mulher — Está esfriando.
Abriram os cobertores e se taparam para enfrentar a longa noite de travessia do Atlântico.
— Vamos juntar os dois cobertores para esquentar melhor?
— Ok! Vou subir esse apoio de braço que machuca minhas costelas —respondeu o homem.
Riram e a mulher comentou que o sorriso do homem denotava sinceridade. Admitiu desconhecer porque, mas havia contado muita coisa de sua vida que nunca contara a ninguém.
Com a proximidade, encostaram-se e o aquecimento fez bem aos dois. O frio pedia mais agasalho, mas sentados lado a lado, cobertos com dois cobertores, amenizou. Os passageiros se preparavam para dormir. O silêncio confortável entre os dois, era um convite para aproximação.
O avião deu um solavanco e iniciou pequenos tremores para um lado e outro.  Ao anúncio de colocar cintos do comandante, a mulher ajudou o homem a apertar a fivela e nesse movimento as mãos tocaram e percebeu as mãos dela frias e suadas.
Levou as mãos por baixo das cobertas e segurou as da mulher. Ela sorriu e mirou o homem nos olhos. Encostou a cabeça no ombro dele e sentiu conforto.
Permaneceram em silêncio, o tempo necessário para solidificar a relação que rapidamente se fortalecia com a empatia necessária a seguir em frente.
Nos próximos trinta minutos o avião foi jogado com força para os lados e para cima e para baixo. Muitas pessoas, de olhos arregalados, se olhavam apreensivas. Os dois, apoiados entre si, não pareciam perceber o movimento inseguro do aparelho.
— A vida é feita de momentos. Quem viveu aquele momento, viveu, quem se escondeu, perdeu.
— Verdade — concordou a mulher.
De cabeça apoiada no ombro do homem a mulher pensava quem seria esse estranho que tamanho conforto inspirava, tanto física quanto espiritualmente.
— Um menino viajava de avião sozinho, brincando com um quebra-cabeça e observado por um padre sentado ao seu lado — comentou a mulher — repentinamente o avião entrou em meio a violenta tempestade e iniciou a dar saltos e perder altura. Se ouvia o rugido do motor sofrendo para recuperar a altitude perdida, sendo jogado para todos os lados. O padre percebeu que o menino continuava brincando e perguntou se não estava com medo. O menino respondeu que não. O padre insistiu dizendo que o avião passava por violenta tempestade e que os demais passageiros estavam gritando de pavor ao que o menino, parou de brincar e olhou para o padre, “como poderia estar com medo se o piloto é  meu pai?”
Os dois se olharam e riram, imersos na proteção momentânea que representavam um ao outro. Perceberam os passageiros da frente com olhares de reprovação. Queriam sinais de apreensão, cúmplices daquela situação desconfortável que passavam.
Assim como o desconforto iniciou, o avião deu forte sacolejada e estabilizou novamente, como se os buracos da estrada houvessem acabado. Apagaram os anúncios de apertar cintos e o comandante acalmou os passageiros com sua voz profissional, dizendo que os cintos poderiam ser afrouxados e falou que o lanche seria servido.
— Estamos chegando — disse o homem mirando o mapa de voo na tela em frente a sua poltrona. Logo estaremos em solo novamente. Nunca fiz uma viagem mais tranquila que essa.
— Eu também — falou a mulher olhando para o companheiro de viagem.
— Pudera, o piloto era meu pai —acrescentou o homem.
Afirmação que lhes rendeu boas gargalhadas.
Ficaram sérios novamente. O avião aterrissou suavemente e taxiou até a esteira.
— Vamos nos despedir aqui? Vou te dar esse livro que estou lendo de Milan Kundera. É muito bom — A mulher agradeceu e deu um beijo na face do homem.
— Quem sabe um dia faremos um novo voo juntos? Disse o homem. Na saída, perdeu-a de vista ao procurar o passaporte. 
E desceram em separado, cumprindo o destino de companheiros de viagem. Na conferência de passaportes, lembrou que só sabia o nome da mulher, não trocaram nenhum outro dado. Tentou voltar, mas um fiscal impediu colocando a mão em seu peito. Esperou para ver se já havia passado.
— Taxi! — alertou um motorista, pegando sua bagagem.
Mecanicamente, dirigiu-se ao carro, seguindo o homem. Antes de entrar no automóvel, deu uma olhada para a porta do desembarque internacional.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

RECADOS

Fonte Google Imagens
Seis horas, manhã fria em Porto Alegre, o despertador me arrebata do pesadelo de ser encurralado por monstros em caverna escura e irrespirável. A fresta da janela sopra o vento minuano.
Debaixo das cobertas, tudo parecia normal. O choque foi quando descobri os braços e senti a atmosfera fria. O nariz gelado e entupido indicava gripe a caminho. Levanto com preguiça. Em finais de julho o inverno no sul é o maior castigo de quem trabalha cedo. Abro a torneira, água quase congelada. Finjo lavar o rosto. Separo cerolões, camiseta, camisa, pulôver de lã, cachecol, capote e, como chovesse, por cima de tudo coloquei capa impermeável de gabardina. As galochas, calcei na porta e, parecendo E.T., saio a rua. Pesava quase 30 quilos de excesso.
Na parada do ônibus, o mal-estar piorou e soltei um espirrei. O coletivo aponta na curva de descida da Pedra Redonda. Avalio mais ou menos o local que abrirá a porta, posicionei e, quando para, salto dentro. O calor é aconchegante. Alguém solta espirro escandaloso no corredor.
Sentia-me febril. “vou matar o trabalho”, pensei, “recolho hoje e, amanhã, estarei pronto para o batente”.
Decidido, fiz sinal e desci na parada de tia Tereza. Ela teria medicação caseira. Salvadora da família e vizinhança, cultivava no quintal chazinhos, folhas, arbustos, cascas, sementes, o necessário para curar qualquer coisa.
Além disso, tia Tereza tinha telefone, coisa rara naqueles tempos. Ligo ao chefe. 
— Construtora Martins, as suas ordens – respondem do outro lado da linha. Reconheci a voz do colega de trabalho.
— Alcides, Paulo. — Espero o tempo de reconhecer a voz. — pode dar um recado para o Dr. Benjamim?
—Claro, fale — disse, solicito. Alcides era o único que não poderia atender meu telefonema. Tento explicar o mais claro possível.
—Diga que não vou trabalhar. Cheguei a sair de casa e tomar o ônibus. Mas a indisposição venceu. Estou com febre, calafrios, acredito ser resfriado. Agora estou em casa da tia curandeira que prepara chá de erva santa milagrosa. Após beber, volto a minha casa. Amanhã, estarei inteiro.
—Beleza Paulo — silêncio — fique tranquilo. Darei o recado direitinho.
No dia seguinte, chego disposto ao trabalho.
De porta aberta, me esperava Dr. Benjamim, que fez sinal para ir a sala de reuniões. Foi abrir a porta e iniciar o sermão.
—Muito bem, Sr. Paulo – disse com cara de mofo – então foi tomar chá com a titia e não pode trabalhar. Teve bolo de milho e bolachinhas? — Acrescentou irônico, sem defesa.— Pois saiba, terás descontado o dia.
E saiu porta afora. Mal ouvi o que falou. Preparava o retorno com Alcides, repassador de recados de meia tigela.

domingo, 29 de julho de 2018

NOTICIAS

(Foto Google Imagens)
Era uma carta. Simples. porém teve um poder de meteoro em minha vida. O carteiro chegou, o cachorro latiu insistente como sempre. Perguntei da janela para quem era, só ouvi "registrada". Fiz sinal que esperasse  vestir a capa. Chovia forte quando saí a rua.
Esperava noticias há cerca de dois meses e a carta representava muito para mim. Enquanto me dirigia a frente da casa onde se localizava a caixa de correios, me perguntei o motivo que a teria feito ir embora. Não recordava. Teria outro?
— Precisa ir embora? — perguntei com um nó na garganta.
Nada respondeu e fiquei no apartamento sozinho. Lembro que anoiteceu rapidamente e, sentado no escuro, pensava nos acontecimentos daquele dia, pouco antes dela chegar e anunciar a decisão de ir embora.
Estávamos juntos há cinco anos, sendo os últimos três meses em uma quitinete de fundos na Vila Assunção. Eu perdera o emprego terceirizado no governo e passei a fazer trabalhos de tradução e revisão literária, o que me causava profundo tédio. Izabel sustentava a situação financeira sem reclamar, mas com visível insatisfação. O aperto financeiro nos obrigou a cortar gastos importantes como a escola do nosso filho Rafael e os almoços fora de casa aos finais de semana. Havia parado minha natação e ela as aulas de piano, o curso de espanhol e o sonho de cursar MBA na Fundação Getúlio Vargas. Ultimamente andava fria e confesso que eu também. Meu livro estagnara. A situação acabara com a inspiração.
O leve perfume de Izabel no envelope denunciou o remetente. Coloquei-o de lado e preparei o desjejum. O envelope pardo, pelo tamanho e peso, indicava várias folhas.
O dia chuvoso parecia encomendado. Abri as cortinas e deixei entrar a claridade. Confesso que retardava a leitura. Acendi a lareira para esquentar o ambiente gelado do inverno gaúcho. O café quente me saciara e, com o calor da lenha queimando, leve satisfação tomou conta de meu corpo. Peguei novamente o envelope e olhei contra a luz, pela textura eram três folhas de papel oficio, escritas a mão, como era seu hábito.
O perfume era o que usava quando saiamos com casais de amigos ou sozinhos para lanchar.
Com certeza seria uma carta cheia de lamúrias pela situação ter chegado ao ponto que chegou. Ou talvez de queixa por ficar esperando que eu arrumasse outro emprego, enquanto a situação da casa ficou por conta dela. Mas não tenho culpa pela crise que o pais passa. Ontem mesmo o Jornal da TV apresentou a queda alarmante do índice de emprego.
E se o conteúdo fosse outro? Quem sabe se arrependera e queria reatar. Uma carta de descrição de nossa relação, do sentimento de perda do pequeno Rafael. Apresentação de nova tentativa de ficarmos juntos. Afinal escrevia bem e certamente apostava que eu quebraria meu mutismo de dois meses de falta de contato. Se fiquei mudo por dois meses, ela também não fez questão nenhuma de contatar.
O celular interrompeu meus pensamentos. Era Izabel. Deixei tocar. Certamente cobraria alguma posição referente a proposta da carta. Voltei a lareira, peguei o envelope e, já estava me aninhando no sofá para abrir, quando levantei e, sem pensar duas vezes, joguei o envelope na lareira.

terça-feira, 22 de maio de 2018

O DESLIZE

<Foto do Google>
A jovem confere o endereço com a placa da esquina. Rua Bonifácio Andrade, 525. A descrição confirma. Casa de madeira azul, janelas e portas marrons, pequena varanda com duas cadeiras de vime. Percebe o papagaio no poleiro da parede lateral. Um vaso com rosas vermelhas fora colocado ao pé da escada de cimento.
Deposita a mala ao chão, com a mochila em cima e toca a campainha. Após pequena demora, pensa em apertar novamente. O leve movimento da cortina da janela, deixa a  mostra, mesmo que rapidamente, um rosto de mulher. Finge não perceber e imagina que a casa abriga pessoas amáveis, de fácil relacionamento. O papagaio grita algo imperceptível e a porta abre, por onde surge uma sorridente mulher de meia idade com cabelos presos num rabo de cavalo.
As duas se analisam. A dona da casa aproxima com a chave do portão. A visitante se desconcerta frente a dona de casa e esvanece o que havia pensado em dizer. Treinara meticulosamente mas esquecera tudo.
— Boa tarde — A mulher nota o embaraço e estende a mão à recém-chegada — meu nome é Izabel. O que deseja? Entre!
A jovem pensa em dizer que a conhecia de nome mas fica calada. Coloca a mochila nas costas e pega a mala. A dona da casa afasta-se e a moça segue o curto caminho de pedras irregulares. Sobe os três degraus e entra. A sala pequena, de mobília antiga, arrumada com esmero exalava leve perfume de odorizador ambiental.
— Meu nome é Alice. Posso sentar? — Pergunta.
— Sim, claro. Procura por alguém? — Insiste.
— Nem sei por onde começar — A pausa espanta a anfitriã. — Sou de Nonoai. Cheguei a Porto Alegre ontem e procurei por uma tia, irmã de minha mãe, mas mudou de endereço, disse distraída, coçando o pelo do gato preto que deitara em seu colo.
— Entendi. Vou fazer um café, fique com a Salomé, fará sala a você. — Isabel retira-se para a cozinha, deixando-a com a gata no colo.
O silêncio é quebrado, quando o portão da garagem abre com estardalhaço. A moça assusta e pensa em sair porta afora e terminar com aquilo. Diferentemente, decide levar o caso até o fim. O motor do carro é desligado e o silêncio volta a dominar o ambiente, cortado pelo sussurro da mulher que  conta algo imperceptível a alguém. Como resposta, o sussurro masculino. Mais alguns instantes, a mulher retorna com bandeja de café e biscoitos. Atrás, um homem franzino, se movimenta silenciosamente. A mulher senta, ele se posiciona ao lado.
A jovem procura na memória a descrição feita pela mãe. Teve certeza. Era ele.
— Essa moça procura a tia. Você é taxista, pode ajudá-la — e dirigindo-se a moça — Esse é Francisco, meu marido. A levará de volta a rodoviária. A passagem, pagaremos.  Estou fazendo o almoço, você irá após alimentar. Dá licença. — E sai deixando a moça com a xícara na mão e o homem em pé ao lado da poltrona vazia. A gata segue a mulher.
— Como encontrou o endereço? — pergunta o homem com voz baixa.
— Mamãe deu antes de entrar na sala de cirurgia. — responde também sussurrando — Disse que se acontecesse algo, era para procurar você. Ela morreu.
O homem desmonta sentado no sofá. Os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos cravados no chão. Ao levantar a cabeça, visualiza Izabel a sua frente. Na mão, o cabo de vassoura desce sobre sua testa e provoca um filete de sangue.
— Eu sabia que essa menina tinha história para contar. Cretino. Salafrário. Não tem vergonha? — vocifera e baixa o cabo de vassoura sobre o marido. Franzino, se defende como pode.
— Desembucha infeliz, quem é você? — grita para Alice que se encolhe num canto da sala. — qual tua idade?
— Tenho 20 anos. — grita a moça e baixa a cabeça. Espera que o ambiente fique mais calmo e, olhando para o chão, começa com voz trêmula — Mamãe conheceu Francisco durante a lua de mel de vocês. Ela era camareira no hotel. — levanta firmemente o olhar e vê a fotografia de casamento na estante, em frente ao hotel em Nonoai.
— Não é bem assim, Izabel... — Francisco tentou se explicar.
— Cala a boca, safado — grita a mulher. — Você não tem vez. Ouça a menina.
  — Nasci nove meses depois — Continua Alice — Papai ajudava financeiramente e aparecia todo mês para visitar mamãe  — tomou um gole de café e continuou — Nos ajuda para meus estudos e alimentação.
— Então essa é a explicação para o cliente que levava a Nonoai toda semana? — Izabel chispa os olhos em Francisco.
Quantos sacrifícios haviam passado com o dinheiro escasso. O marido a convencera a evitar filhos, alegava como motivo seus ganhos apertados como motorista. Eram casados há 21 anos, fizera dois abortos e agora essa historia. Alcança um pano para o marido enxugar o sangue. Compara pai e filha e constata que ambos têm nariz e olhos semelhantes. Izabel percebe que a moça estava decidida. Veio para ficar e conclui que a vida se transformará.
— Vamos lá, Alice, irei preparar seu quartinho nos fundos. Preciso mesmo de alguém para fazer serviços de casa. Traga a bandeja de café para  a cozinha — e complementa decidida — aqui não há espaço para ficar sem fazer nada. É estudar a noite e trabalhar de dia. Outra coisa importante — olha furtivamente para os lados, como para ninguém ouvir e baixa o tom de voz — ninguém saberá que Francisco é seu pai. Terá que tratá-lo com cerimônia de empregador.
Alice encara o pai que baixa a cabeça.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

DELAÇÃO PREMIADA

(Google Imagens)
Eram dezesseis metros quadrados de área total. Ao fundo, o banheiro com vaso sanitário instalado de través, permitia uso enviesado. Encostado na parede, faltava uma perna no banco de madeira. Na parede contrária a porta, beliche de ferro, sem colchões, apenas estrado, lençol e um cobertor barato. A janela encostada no teto exibe um filete de sol e projeta uma forma geométrica no piso sujo. Barras de ferro com porta no meio ocupavam a parte frontal. A cela em frente, dividida entre dois homens sempre calados, com ritual pouco convidativo. O preso grandalhão caminha de lado a outro, o dia inteiro enquanto o menor, sentado na cama de cimento, lê a Bíblia em voz alta.
Suspira fundo, marca mais um traço na parede e senta pesadamente, após completar mais um passeio. 
Completava um mês de cumprimento do mandato de prisão expedido pela Policia Federal. Fora algemado em casa às oito horas da manhã durante o desjejum com a família na mansão onde residia no Lago Sul de Brasilia. Relembra os detalhes. Era um dia chuvoso e os filhos se preparavam para a escola. Viajaria para a Lisboa naquele dia. Iniciaria com a mulher uma longa viagem pela Europa. Sentia necessidade de usufruir da fortuna que amealhara desviando verbas de programas sociais do governo. “Não sou corrupto”, repetia ao terapeuta toda vez que fazia a sessão, “o que faço é pelo meu pai que precisa de tratamento nos Estados Unidos! E é muito caro!.” Assim referenciava a vultosa quantia que o aguardava em bancos de paraísos fiscais. O turismo seria para usufruir do dinheiro que guardava no teto rebaixado  do banheiro da empregada.
Dentro da prisão espera ansioso o resultado das apelações montadas por advogados caríssimos, pagos com recursos das negociatas. A dificuldade de soltura, está atrelada a campanha de moralização desencadeada pelos altos escalões do Governo. Para tentar se safar, fizera acordo de delação com o qual se comprometia a entregar os principais envolvidos em troca da liberdade com tornozelera eletrônica por dois meses e depois passaporte liberado o aguardava.
Ouve passos no corredor e a porta abre. A cela pouco iluminada durante o dia dificulta ver o rosto dos recém-chegados. Reconhece o carcereiro que acompanha um homem algemado com rosto familiar. “Vamos deixá-lo por aqui mesmo, pois o doutor está sozinho”, diz o agente, com um palito dançando entre os dentes de um lado a outro da boca. Retira as algemas do homem que esfrega os punhos. “Faça as honras para seu novo vizinho”. Fala o guarda enquanto empurra o novo preso para dentro e se afasta as gargalhadas.
Encara o recém-chegado. Era o doleiro que delatara vinte dias atrás a Policia Federal. Correu à porta da cela. “Ei, não quero dividir cela com esse cara!”. Ninguém o atende. O corredor vazio e as luzes apagadas, indicam o horário de descanso na penitenciária. Na cela em frente, o leitor da Bíblia aumenta o tom de voz e o olha com ar caridoso.
Gira sobre os calcanhares e percebe a faca na mão e o sorriso irônico  do doleiro que fala com raiva.
— Você me delata e agora está com medo, verme?
Pega a caneca de alumínio e corre à porta de entrada. Esfrega em desespero nas barras de ferro. Pede socorro aos da cela em frente. O da Bíblia, faz o sinal da cruz e aumenta o tom da leitura. O grandalhão esconde no banheiro.
Sente a lâmina fria entrando no rim direito e cai de joelhos

terça-feira, 27 de setembro de 2016

ITÁLIA – CHEGUEI LÁ

Brasil - Barão do Triunfo foto arquivo
Contava um ano de idade quando cheguei a Uruguaiana, pequeno município localizado na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Meu mundo era composto pelo quintal, a rua limitada a frente da casa e a escola. Aos sete tomei consciência sobre a existência do mundo maior do que conhecia.  Meus pais haviam separados, mãe arrumou as malas e rumamos a Porto Alegre, onde moravam meus tios. Um novo horizonte se abriu e percebi as diferenças entre a pequena Uruguaiana e a capital do estado.
Na fronteira, vez por outra recebia a visita da avó materna. Ela era de pequena estatura, mãos fortes, cabelo curto e grisalho. Vó Joana tinha aspecto meigo e hábito de colocar a mão a frente da boca quando ria. Sua fala era enrolada. Ao ficar brava, xingava palavras de significado incompreensível, momentos de ter paciência para entendê-la. Misturava português, com outra língua que, anos mais tarde, descobri ser italiano. No pouco tempo que passava em Uruguaiana, adorava ouvir suas histórias e de meus bisavós e  aventuras em Barão do Triunfo, município distante cerca de 100 quilômetros de Porto Alegre. Lá, os imigrantes italianos, fixaram residência ao chegar ao Brasil. Vez por outra, vó Joana lançava um olhar perdido pela janela e falava sobre a Itália, “terras do outro lado do mar”, que conhecia somente pelas narrativas de onde vieram seus pais.
Brasil- Barão do Triunfo-foto arquivo
Em Porto Alegre, vó foi morar conosco e tivemos inúmeras oportunidades de conversar. Mantivemos a mesma rotina, ela narrava e eu ouvia atento. Eu estudava na escola pública pela manhã, chegava à casa ao meio dia, almoçava e ficava a mesa, aguardando vó lavar a louça do almoço e arrumar a cozinha. O ambiente tinha cenário esmerado. Colocava na mesa a tigela de doce de abóbora, potes e colheres. Eu o mapa mundi com textos da Enciclopédia Delta Larousse que vó pedia para eu ler. Na verdade ouvia mais do que falava.
Essa proximidade alimentou em mim a necessidade de conhecer tradições e costumes do país longínquo. Ao narrar sobre a terra distante e comentar comigo o que ouvia dos pais, Giuseppe e Adele, meus bisavós, minha imaginação alçava voo. Vó não aprendera a ler e me pedia para ler. Demostrava ssim a curiosidade das terras distantes. Isto me motivou a pesquisar. Principalmente sobre a Itália, até então, somente um ponto no mapa. Após ler os textos, mostrava fotos de monumentos e cidades. Vó se encantava.
Itália - Renazzo - Foto - Arquivo pessoal
Depois localizava o país procurando em um velho mapa mundi. Várias vezes flagrei olhos lacrimejantes por baixo das lentes.
Por muito tempo a vontade de conhecer ficou apenas nos sonhos. Vieram casamentos, filhos, compromissos e a oportunidade parecia estar cada vez mais distante. Obrigações familiares consumiam economias e toda vez que fazia poupança, um gasto extra consumia as esperanças.
Finalmente em julho de 2016 a oportunidade surgiu. Conheci os recantos  onde viveram meus antepassados. Uma grande emoção foi chegar em Roma. Parecia conhecida. Vó Joana sempre falava sobre a capital italiana. Mas foi Cento e as províncias de Corpo Reno e Renazzo que mais impressionaram.  A arquitetura, as pessoas, as ruas simples, limpas e belas. A grande quantidade de flores. O povo acolhedor. Vez por outra me confundia, me sentindo como se estivesse no Barão do Triunfo.
Itália - Cento- rua central-Foto arquivo pessoal
Conhecer a Itália, foi como redimir meus bisavós que depois que chegaram ao Brasil, nunca mais retornaram a seu país natal.

domingo, 31 de julho de 2016

Cento / Ferrara / Itália - A Chegada

Estação de Parma - caminho a Cento

Há muito sonhava viajar no sentido contrário aos meus antepassados e conhecer a cidade de onde saíram. Enquanto preparava as malas para a viagem, imaginava a tensão que enfrentaram as vésperas da jornada rumo ao Brasil. Em 10 de fevereiro do ano de 1889, partiu o navio Solferino 1 do porto de Gênova. Levava o casal Giuseppe Tancredi Tassinari (23) e Adele Tassinari (20), meus bisavós, saídos de Cento, Itália,  rumo a Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Como os pais de Adele impediram que viajasse solteira com o noivo, haviam casado pouco antes do embarque, em 6 de fevereiro. Entre os emigrantes, estavam apenas os pais de Giuseppe, Pacífico Tassinari (55) e Irene Turrini (53). A viagem, odisseia de aproximadamente 30 dias, enfrentou tempestades, calmarias perigosas, epidemias e dietas forçadas por racionamento de comida.
Estação de Samoggia- Caminho a Cento
Diferente de meus bisavós cheguei a Roma a partir de São Paulo, sem atropelos em dez horas de voo, incluso a escala em Frankfurt.
Iniciei a viagem em 06 de julho de 2016. A primeira parte, segui a programação da companhia de turismo. Visitei a capital Roma incluindo o Vaticano; Pompéia, a cidade devastada pelo vulcão Vesúvio em 79 d.C.; Nápoles, terra de Sophia Loren; a ilha de Capri e suas grutas milenares e a pré-histórica Florença. Passeei de gôndola em Veneza com direito a tenor e gaiteiro e caminhei pelas ruas da belíssima Verona, contemplado pela bela história mitológica Romeu e Julieta. Em Milão, conheci a moda sofisticada das grandes grifes mundiais.
Em 12 de julho, encerrou-se o roteiro turístico. Separei-me do grupo e iniciei a execução do plano de conhecer a terra de Giuseppe, que, por pressentimento me acompanhava abrindo portas invisíveis para o sucesso da empreitada.
Informei sobre como chegar a cidade de Cento. Parecia  simples. Saí do hotel em Milão às 09 horas da manhã do dia 13. Encontrei a estação Central de trens de Milão em movimento intenso de passageiros. Depois de andar para lá e para cá, tentando observar o movimento das pessoas nas máquinas para compra dos bilhetes, aceitei ajuda de um menino indiano aparentando doze anos. Disse chamar-se Ravi e falava dialeto incompreensível e italiano enroladíssimo. Nossa comunicação estava sofrível. Ravi e eu posicionamos em frente a máquina de comprar bilhetes. A primeira opção era escolher a língua de operação da máquina. Gesticulando, apontei o botão “espanhol”. Ravi deu de ombros, pressionou e a máquina desandou a dar opções de escolha: trem bala ou trem comum, primeira classe ou segunda, número de pessoas, horários, valores. Fomos escolhendo de acordo com as opções que apareciam e desapareciam a velocidade da luz. Ele tinha pressa. Eu espantado com tantas informações a processar.
Quando a engenhoca apresentou o custo final, enfiei a nota de 50 euros no escaninho. A máquina então imprimiu as passagens e cuspiu o troco. Ravi tentou orientar apontando o rumo da plataforma 21, indicada no bilhete. Peguei-o pelo braço e o fiz entender que seria necessário levar-me. Contrariado, o rapaz assentiu e saiu em disparada. Peguei a mala e saí serpenteando em meio a multidão. Levou-me até a plataforma e me fez ver que a partir dali me virasse. Estendeu a mão. Ofereci 3 euros. Foi embora insatisfeito, queria mais. Depois soube que existem atendentes da própria estação que ajudam a tirar bilhetes operando as máquinas. Sem cobrar nada.
Foram quase três horas no trem, razoavelmente confortável a Bolonha, onde cheguei as 14 horas. Com fome e certo nervosismo pela  aproximação do destino. O calor de Bolonha era intenso. Perguntei a um guarda da estação, num misto de espanhol e mímica, onde poderia comer. Apontou conhecida marca de fast food fora da estação. Coloquei a mochila nas costas e sai em direção a lanchonete, arrastando a mala pelas rodinhas. Almocei salada e frango grelhado e retornei a estação.
Uma das vantagens de viajar de trem é que a mala acompanha o viajante sem necessidade de acondicionar em bagageiros. Esse procedimento facilita e previne extravios durante os percursos.
Para Ferrara, dispensei auxílio para comprar passagem. A estação menor e o simpático guarda foram suficientes. O afastamento dos grandes centros causava inquietação. Afinal, estava em país estranho. Afastei os pensamentos de apreensão e fui tomado, pela primeira vez durante a viagem, de emoção indescritível. Lembrei minha avó e as descrições que fazia da terra natal dos pais. As estações de trem passando uma a uma, recordavam a narrativa da viagem dos emigrantes, feita por Leandro Fallavena em seu livro, Barão do Triunfo, Descobrindo a História. Adormeci por puro cansaço.
Feirão das Quintas Feiras 
Cheguei a Ferrara as 16h30. Aproximei do primeiro taxi e, com o motorista, chegamos a conclusão que o endereço do hotel da reserva discordava do voucher da companhia de turismo. Não poderia ser pior. Passei o número do telefone do hotel ao motorista que ligou imediatamente. Realmente o endereço não era Ferrara e sim Cento a cerca de 50 km. Perguntou se queria ir para a rodoviária. O cansaço desanimou de pegar ônibus e negociei a corrida a 60 euros. Partimos, afinal, estava perto. Chegamos ao hotel as 17h30.
Passeio pela rua central
Antes de subir ao apartamento para descansar, expliquei à atendente sobre as intenções na cidade. Respondeu-me que ligaria a uma amiga, escritora, ex assessora de cultura e, tinha o sobrenome Tassinari. Inicialmente prestei pouca atenção ao que falou. Paulatinamente, percebi a importância do contato. Servidora da cultura, fez a diferença e possibilitou a abertura de portas e registros históricos da cidade. A partir daí, entraram duas comarcas de Cento, igualmente importantes em registros históricos: Corporeno e Renazzo, onde Giuseppe passou infância e adolescência até a idade adulta. Meu bisavô diligentemente, agia para a viagem ser bem sucedida.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

VITÓRIO

(Google Imagens)
Ao receber o oficio de apresentação para assumir uma paróquia no Brasil, Vitório fraquejou, os olhos marejaram. Monsenhor Giuseppe Baggio, chefe da Missão Sacerdotal da Santa Sé para o Brasil, entregou o documento e o mirou firme, “você foi avisado que após os estudos sacerdotais, serviria em terra distante com missão de dedicar sua vida a comunidade, fortalecendo os dogmas da santa madre igreja”. Vitório baixou a cabeça, fez reverência dobrando o joelho esquerdo e retirou-se sem dar as costas. Olhou demoradamente o mapa-múndi da entrada do seminário São Francisco de Assis, onde estudara por seis anos. Cravou um alfinete em Palmas no interior do Paraná outro em Roma. Com um barbante avaliou a distância. Mais tarde recolhido ao quarto, ajoelhado em frente a imagem de Santo Agostinho, alternou orações e lágrimas.
O navio sairia em três dias. Seriam quarenta de viagem por mares tormentosos, segundo relatos de viajantes. Mirou o céu. Um pássaro voava nas alturas. Imaginou um meio de transporte rápido e seguro, que voe como as aves, que faça a travessia em menos tempo.
Arrumou duas malas grandes com roupas. Livros e exemplares da Bíblia destinadas aos párocos novatos armazenou em caixa de madeira e lacrou. Despediu demoradamente dos pais, cientes das dificuldades da missão do filho único na terra distante.
O apito forte e triste desperta Vitório de pensamentos profundos. O navio se afasta do porto lentamente. Abana aos pais até se tornarem um ponto minúsculo no horizonte. A viagem, diferente das previsões do tempo, começou melancólica, mas logo no segundo dia, enfrentou tormentas fortíssimas quando chegou em alto mar. Ora eram dias turbulentos e noites calmas, ora ao contrário. Uma febre, proveniente de alimentos mal conservados, dizimou metade dos tripulantes e passageiros. Vitório pode assim iniciar a missão sacerdotal encomendando as almas dos mortos, o que causava profundo pesar. Após quarenta dias, o navio chega ao porto do Rio de Janeiro. Dez quilos mais magro, Vitório é levado a um hospital, onde passa três semanas se tratando e após alta, cumpre estágio no seminário São José. Assim, reinicia a segunda e última parte da odisseia. Quinze dias até Palmas, vilarejo com cerca de três mil habitantes a 1.300 metros acima do nível do mar.
Depois de se apresentar ao diácono local e ao prefeito, é encaminhado a paróquia, onde esperava Maria dos Anjos. Morena da cor de canela, cabelos e olhos negros, era descendente de índios caingangues. O rapaz ficou impressionado pela cor da pele da pequena índia. Olharam-se longamente, percebido pelo diácono que tossiu com força e os tirou do transe. Mas o destino já se definia. Os olhos azuis da cor do mediterrâneo do bonito sacerdote de vinte e cinco anos, ao pousarem na moça, irradiaram o calafrio dos apaixonados. Naquela noite nenhum dos dois dormiu. Cada um em seus aposentos, passaram por intensos suores e sonhos. O padre acordava seguidamente em pensamentos que teimavam afastá-lo da missão sacerdotal.
Amanheceu com fortes dores no ventre. Mal ouviu a batida na porta. Abotoou a roupa de dormir, abriu o alojamento e foi dominado por uma alegria indisfarçada. Era Maria adornada pelos raios amarelos do sol. O homem, que passara a noite acordado pensando na indiazinha, foi ofuscado pelo auge dos dezoito anos da moça, viçosa e pura. O desejo que dominou o rapaz se definia mais forte que a resistência. Pegou-a suavemente pela cintura e puxou-a para dentro do quarto. Naquele instante, pressentiu que a cidade continuaria sem vigário. Amaram-se com a paixão de quem pouco conhece do sentimento, mas com a certeza que tudo mudaria em suas vidas.
Nos dias seguintes, Vitório tentou seguir a missão paroquial, organizando as missas, mas sucumbiu. Mudou para os fundos da  casa do diácono e levou Maria. O restante foi uma sucessão de acontecimentos que culminaram no pedido de licença ao Vaticano. O quase vigário entregou a missão a outro.
Mas a situação para os jovens estava longe de ser fácil. Maria logo ficaria grávida e Vitório teve que colocar em prática toda sua criatividade para sustentar  a família.
Procurou exercitar os ofícios que aprendera em seus tempos na Itália. Lembrou-se do avô, ator de teatro. Com a participação da prefeitura, montou o primeiro teatro da cidade, atividade aprendida com o avô materno. Passou a Escrever as peças, encenar e treinar os artistas. Como sobrava tempo e ainda faltavam recursos, montou o cinema de Palmas, onde exibia filmes de produtora europeia. Mas as películas mudas o inquietavam e um dia, após viagem a terra natal para apresentar a mulher aos pais, teve a ideia de importar um piano. Incumbiu Maria de aprender a tocar e em pouco tempo, auxiliada pela mulher do diácono, se tornou expert e ficou conhecida como a primeira executora de trilhas sonoras de filmes mudos exibidos no interior paranaense.  Maria ajudava muito Vitorio nas iniciativas. Treinava piano por horas e ainda teve tempo de criar os onze filhos do casal.  Vitório morreu antes de ver o terceiro sonho realizado, um hotel de três andares. Só acompanhou até a construção do segundo. Um dia amanheceu com dores nas costas e febre. Removido as pressas a um hospital de Curitiba, faleceu de pneumonia. Deixou Maria com onze filhos e as lembranças de uma união de vinte anos.
Do legado de Vicente, nada vingou. A viúva pouco sabia de negócios e foi perdendo os bens. Dois filhos de Vicente foram viver na Itália, aproveitando a dupla nacionalidade. Os demais se dividiram entre a capital do estado e a cidade natal, onde vive Maria e as recordações.

terça-feira, 22 de março de 2016

A PASSAGEM

(Crematório J. Metropolitano - Foto Google Imagens)
Eram cinco horas da manhã quando o telefone toca e a voz metálica informa que Hilton acabara de falecer. Com setenta e oito anos, expirou profundamente ouvido apenas pela enfermeira que, com sono leve, dormia na cama ao lado. Hilton estava exausto de resistir a quem lhe queria levar desde o início de janeiro. A resistência ao chamado só é explicada porque “...ninguém morre antes da hora”. Acabava assim a vida de imprevistos e caminhos inesperados, trilhados sem questionamentos.
Quando solteiro, fora alegre folião que, com sua fantasia colorida, brincava o carnaval em conhecido bloco carioca. Após o uso, guardava as alegorias cuidadosamente para o próximo ano. Hábito abandonado ao conhecer Cris. Com ela, viúva, quatro filhos de casamento anterior, iniciou a vida responsável, assumindo-os como seus. A nova família teve inúmeras dificuldades, o que não impediu de serem felizes por cinquenta anos.
Teve dedicação exemplar ao trabalho, mesmo em missões espinhosas. Trabalhos que renderam condecorações e medalhas, mas que custaram pesados prejuízos emocionais. Todas cumpridas com afinco até o fim, mesmo que conflitantes com sua índole. Em casa era pacato, rígido apenas na educação aos enteados que assumira como filhos.
Sete meses antes de sua morte, ficara viúvo inesperadamente. A morte de Cris desmontou o guerreiro e os planos de envelhecimento em companhia um do outro. Permanecera com os quatro filhos de Cris. A única enteada, cuidadosa com o padrasto, preparou o apartamento vizinho ao dela, para dar conforto. Mas Hilton tinha outros planos. Não queria incomodar os filhos da falecida Cris e, impulsionado pelo inexplicável e uma paixão recente, fora morar com a irmã e o marido, dez anos mais velhos que ele, em outra cidade, onde tinha planos de fixar residência com a nova companheira. Hilton trocou de cidade para morrer três meses depois, sem concretizar esse plano.
Foram sessenta dias hospitalizado, transferido duas vezes a UTI para tratamentos dolorosos.
Hilton perdeu a batalha. Na véspera, recebera a visita da irmã, do cunhado e do enteado mais jovem. Passaram assim momentos de despedidas, adivinhando o desfecho dali a poucas horas. Hilton os ignorava. Nada mais era importante. Na última semana estava reflexivo, solitário. Encapsulado. A função renal substituída pela hemodiálise.  A qualidade de vida o abandonara. A única recompensa foi o esticar do tempo de preparo a viagem final.
A enfermidade abortou os planos de casar e ter nova vida. Ao filho mais jovem, confidenciou no leito de morte: “gosto muito de minha namorada, mas quero mesmo é morrer e reencontrar tua mãe, minha Cris, meu grande amor”.

Os momentos finais da existência são dedicados aos resgates das relações. Hilton e os enteados perderam esse compasso no momento que ele trocou o Rio de Janeiro por Brasília. Ceifou-se a oportunidade de aparar arestas criadas ao longo das relações. Os enteados perderam a chance de cuidar do padrasto. Nas despedidas, na antessala do crematório, Carlos, um dos enteados, agradeceu ao falecido tudo que fez por ele e desejou “que vá com Deus”. O filho mais jovem, que o acompanhou aos últimos momentos, ainda em vida, fraquejou. Emocionado, manteve-se fora da sala, “sou fraco nesses momentos, no velório de mamãe foi a mesma coisa.” Seguiu o cortejo ao local de incineração, após o caixão fechado. Vilmondes, o terceiro filho que havia visitado o padrasto uma semana antes da morte, permaneceu na cidade onde mora. Estava abalado pelas cenas que assistiu no leito do hospital. Maria, a enteada, profundamente emocionada pelos acontecimentos viajou ao Templo de Nossa Senhora Aparecida em São Paulo de onde canalizou orações aos pais, “recém perdi mamãe e agora o papai, não tenho forças para viajar”, informou aos parentes. Ela, que contava apenas seis anos quando Cris e Hilton casaram, foi quem mais sofreu quando o pai resolveu trocar o Rio por Brasília. No final da vida, não poderia dar assistência ao homem que a mãe escolheu para ser seu padrasto.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

COMA

O caminho incerto - Arquivo pessoal
Hilton sempre fora um homem quieto, que evitava sair da rotina. Sargento da Guarda Nacional, exemplo de pontualidade e obediência as ordens superiores. Como prova, conta com orgulho que certa vez teve de ser salvo de morrer afogado em um lago da Amazônia, por ocasião de manobra militar. O comandante do pelotão logo após ordenar a tropa “em frente, marche”, se distraiu com um telefonema e Hilton seguiu adiante água a dentro sem saber nadar. Só não morreu afogado, porque o comandante o retirou da situação.
Com tanta dedicação a farda e as coisas da carreira, Hilton teve pouco tempo para dedicar a vida pessoal. Permaneceu solteiro boa parte da vida, conhecendo Cristiane durante o velório da avó. Logo prestou atenção a mulher que o amparava no momento difícil. Cristiane era viúva e mãe de três filhos adolescentes. Aconselhado pelo pai que temia o filho solteiro, Hilton providenciou a papelada e em menos de um ano, estavam casados. Por acordo, o casal decidiu não ter filhos e assim Hilton dedicou-se a cuidar dos filhos da mulher, a dar-lhes educação, amparo e orientação para seguirem suas vidas. Teria sido uma vida igual a tantas outras não fosse o destino tocar com sua varinha modificadora e a vida de Hilton tomar outro rumo aos setenta anos. A fiel companheira Cris, em tarde que assistiam a um filme na sala de estar, passou mal, deu um grito e caiu em frente a televisão sem vida, num ataque do coração fulminante.
Hilton, acostumado à convivência com a companheira desde que fora para a reserva, desenvolveu depressão profunda e só não morreu porque em visita a irmã para espairecer da viuvez trágica, conheceu Laura. Morena de olhos verdes, quarenta anos, moça simples, mas possuidora de uma meiguice  que cativou o militar na primeira olhadela.
Laura fora casada com um beberrão que lhe tratava com grosseria e a havia abandonado com três filhos. No militar, Laura encontrou exatamente o contrário, um homem carinhoso e carente, ainda sofrendo com a perda da mulher. Hilton, por sua vez, deixou-se levar pelos sinais do coração e iniciou o planejamento da vida a dois. Juntos sonhavam com um ninho para viverem seu amor. Ele vivia na casa de parentes e andava cansado do desconforto. Ela, em casa pequena e simples em região rural. Mas a vida arquitetava das suas.
Em uma noite, após momentos de amor a dois, na qual o apaixonado tomara a pílula do amor para fortalecer sua libido, Hilton sentiu-se mal. A amada chamou a emergência. Eles chegaram rapidamente e a médica foi categórica, “vamos levá-lo a um hospital, o homem está quase morrendo”. Mandou o motorista abrir a sirena do veículo e saíram em disparada.
Os dias passam rápidos. O homem dorme profundamente. Do quarto da UTI, onde passou quase três semanas, é transferido para o quarto do hospital militar. Vez por outra abre o olho, mas olha sem ver. O olhar brilhoso da paixão despertada, deu lugar a opacidade indiferente. Ao seu lado, Laura espera incansável que seu homem acorde. Reza e faz promessas a todos os santoss. Um dia Hilton sairá do adormecimento e continuará seus planos com a mulher que o tirou da depressão. Ou morrerá docilmente a olhar para lugar nenhum. A vida é assim, corre para um lado e outro em rumos indefinidos. Todos acompanham.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A DESPEDIDA

Arquivo pessoal
 Estava linda. Tão linda que mais parecia uma boneca de porcelana. A pele branca exibia coloração avermelhada pelo frio intenso na ponte de madeira sobre o pequeno córrego. Esticou a gola do casaco para proteger o pescoço. O sítio era refúgio para finais de semana do intenso trabalho na cidade. Ali montei ateliê de pintura, meu hobby predileto e a miniatura da biblioteca que tinha no escritório.
Sara permanecia imóvel debruçada sobre o parapeito. Olhava a água que corria forte. Vez por outra jogava uma folha ou filtro de cigarro. Nas águas turvas, as últimas chuvas arrastavam objetos pelo riacho e os levavam ao rio. Em alta velocidade, passavam caixas de papelão, latas de cerveja e refrigerante. Peguei suas mãos geladas e as protegi entre as minhas. Olhou-me sem emoção e as retirou.
Havíamos discutido. Eu pedira o divórcio. Há algum tempo percebia que sua cumplicidade pairava com outra pessoa. Ela negava com veemência. Chorara para permanecermos juntos. Ao mesmo tempo, reconhecia pelos movimentos dos últimos dias, que eu sabia mais do que demonstrava. A convivência alcançara limites inaceitáveis. Anos mais tarde, concluí que, se naquele momento, ela tivesse assumido nosso casamento e se declarado disposta a sacrificar a relação para ficarmos juntos, teria cedido. O intolerável era manter a mentira, declarando ser tudo fruto da imaginação.
Sara parecia menina com olhos encharcados e vermelhos. Era a personificação da inocência, o que a deixava mais desamparada. Detesto admitir esse sentimento, mas, naquele momento, estava com pena dela.
Peguei-a pelo braço e a levei ao carro. Ao abrir a porta, livrou-se de minha mão, sentou no banco e bateu a porta, balançando o veículo. Nossa amizade, temia, estava por um fio. Saímos a rodar pela cidade e peguei um retorno para a rodovia federal. Sem destino, liguei o aquecedor e tiramos os casacos. Propus almoçarmos em uma pequena cidade turística do interior. Aceitou dando de ombros. Se pouco conversamos durante o trajeto de ida, na volta, após o almoço, nenhuma palavra.
Assumi que não havia mais nada a tratar. Deixei Sara em casa. Desceu sem se despedir, com o carro em movimento. Saí disposto a não voltar. Considerava terminada a relação. Eram dez horas da noite, quando entrei na loja de conveniência do posto de gasolina. Pedi um uísque duplo e a partir daí só lembro de perceber onde estava ao desligar o carro e ser recebido por meu cachorro no sitio. Abri a porta, fui à cozinha tomar água e desabei na cama.
No dia seguinte, despertei com forte dor de cabeça. Exagerara na bebida. A buzina da moto do carteiro levantou-me da cama mais cedo do que pretendia. Abri o portão ainda com a roupa amassada do dia anterior. Era carta registrada. Remetente, Sara. Dei um troco ao rapaz, agradeci e entrei abrindo o envelope amassado.
Folheei as páginas antes de ler. A escrita começa firme, mas a partir da metade ficava tremida e borrada. Percebi leve perfume conhecido.
Contei vinte duas páginas, o que me fez acreditar ter sido escrita antes da conversa sobre divórcio. Talvez tenha sido a leitura mais difícil que fiz na vida. Fazia um retrospecto de nossa vida em comum. Falava do namoro, seguia pelo período de noivado, casamento, férias anuais, nascimento dos filhos. Descrevia como eu adivinhava seus pensamentos, os desejos mais íntimos. Pressentia nas entrelinhas certa melancolia. Final dolorido de algo importante. Imaginei como fora desconfortável escrever. Na última página, a escrita fraquejou. Parecia difícil seguir as linhas. Após desfiar nossa história, confessou que apesar de me amar, eu tinha razão, envolvera-se com outra pessoa. Minhas constantes viagens para melhorar os ganhos financeiros, só contribuíram para sedimentar a relação entre eles. Um colega de trabalho casado, divorciado, cuja mulher, indignada deixara os filhos menores para que criasse. Sara deveria assumir os pequenos enteados. Demonstrou receio por assumir incumbência pesada com tão pouca idade.
Despediu-se declarando amor por toda vida, independente de onde estivesse.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

FERIADÃO NO RIO DE JANEIRO

(Esculturas em Copacabana-Fotos de arquivo)
O feriadão seguia seu rumo e minha programação incerta e livre me levou a orla de Copacabana onde um mar de gente caminhava. Alguns preguiçosos que nem eu, outros rápidos, talvez treinando para alguma maratona. Era uma noite agradável, com brisa deliciosa. O dia ensolarado passara nas sombras dos jardins do Museu da República no Flamengo lendo lições de vida de Sigmund Freud. Só interrompi a leitura para um lanche na excelente e alegre lanchonete local.
Paro em frente a escultura de areia. Uma obra perfeita de engenharia feita com miniaturas de monumentos da Cidade Maravilhosa e das Olimpíadas 2016. O Rio respira festas, o povo alegre curte cada canto da cidade. Idosos passeiam calmamente, até porque a velocidade das caminhadas pararam de ser objetivo da melhor idade.
O escultor da areia assiste fazer fotos. Aproxima. Euclides, mora há três anos no Rio de Janeiro. É gaúcho da longínqua Erexim, no Rio Grande do Sul. Saiu de casa aos 15 anos brigado com o pai para ganhar o mundo. Conhece vários países da Europa e, a cada local onde será a copa do mundo de futebol ou as olimpíadas, lá está a preparar sua arte. Fala que é contratado pelos Comitês Olímpicos ou pela Fifa, para esculpir imagens onde ocorrerão os eventos.
A escultura, feita com esmero, representa atrações cariocas, como o Cristo Redentor, o Pão de açúcar, os Arcos da Lapa, o Maracanã e várias outras dentro do plano de trabalho do artista serão feitas. Confessa que dispensa o projeto no papel. Memoriza a obra completa e executa tudo com “o dom que Deus me deu”. No total o projeto conterá monumentos cariocas com mais de 50 anos de construído.
Tem dois filhos. O mais velho com a moradora de favela do Rio de Janeiro, já falecida e o segundo, da qual ganhou um apartamento para viver, de uma americana de Nova York.
Euclides tem saudade de Erexim, onde nasceu, mas vê a cidade com limitações, com a ótica de alguém que já ganhou o mundo. Mulheres? Euclides teve muitas. Uma ou mais a cada cidade que passou. Lugar que mais gostou? “ Indonésia onde vivi sete anos”. E quer voltar para rever “uma loirinha estupenda com quem convivi por dois anos”.
É assim. Enquanto tem no peito o coração pulsando pela motivação do mais sagrado para viver: o amor. Atualmente, tem três paixões apenas, “minha neta, Deus e a minha obra.” Mas por pouco tempo. Sonha em ganhar o mundo e pensa nas próximas cidades sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas onde poderá realizar novos projetos em sua vida errante, repleta de aventuras. Projeto a curto prazo? “Ao final das Olimpíadas 2016, passarei uma temporada na Indonésia.”

sábado, 3 de outubro de 2015

PACIENTE REBELDE

(Google Imagens)
Tenho um grupo de amigos cujo início da amizade vem do período 1974 a 1983, quando as instalações de computadores engatinhavam. Formávamos, no órgão onde trabalhávamos,  a equipe responsável pela implantação de sistemas de informática pelo Brasil.
Os anos passaram, trocamos de emprego, envelhecemos e perdemos contato. Há três anos montei um grupo Whatzap e resgatei um a um. Hoje conta com vinte pessoas e vez por outra reúne. O encanto desses encontros é o autoconhecimento. Ouvir comentário sobre si possibilita saber quem somos, pela visão do outro. Entre os colegas, cabe destaque ao Hélio, com seu permanente bom humor. Agora mais gordo, de bem com a vida, brinda a mesa com natureza aguçada e presença assídua.
A cada reunião muitas novidades. Nem sempre boas. As vezes se pergunta por alguém e é anunciada a temida partida. Mas Hélio trata esses percalços com brincadeiras e, na maioria das vezes o assunto vira conversa agradável, ao recordar cenas pitorescas do falecido. Aliás, a memória do Hélio é prodigiosa, chega a ser perigosa, quando se fala de relembrar fatos.
Hélio tem a capacidade de transformar acontecimento difícil em agradável, como a seguir descrevo, com sua permissão, claro.
Certa feita, Hélio amanheceu com fortes dores no peito. Cabe esclarecer que andava acima do peso, fumava quatro carteiras de cigarro por dia e tomava generosas doses de pingas e cervejas. “São hábitos saudáveis em qualquer idade.” E a comida? “Torresmo e churrasco de carne gorda, que carne magra é dura”. Tirando o cigarro, todo o resto pratica com assiduidade até hoje.
A família espera dois dias e como as dores só pioravam, a dedicada escudeira, Bela, a esposa, chama a emergência. Já no hospital, o médico consulta os exames e constata enfarto. “Sala de cirurgia já”. É submetido a intervenção e após a  UTI. Todos os dias, no horário de visitas, a filha dá plantão ao lado do pai e só sai quando a segurança mostra o relógio na parede. No terceiro dia, ao chegar, nota o pai triste. Pergunta como está.
— Péssimo — responde. Pergunta por quê.
— Fome — responde mal humorado. —Um buraco aqui ó... — e coloca a mão na barriga. — Preciso urgente comer algo sólido, senão morrerei de inanição —  A nutricionista que passa no corredor, ouve a conversa e fala que prescreverá canja magra, sem sal, para aquela noite. Desanimado com o alimento insosso, o relógio marcando as horas sem fim e a leveza da filha pegando sua mão, adormece.
Acorda sobressaltado, mas decidido. Sussurra instruções ao ouvido da moça, que ainda tenta  argumentar. Como conhece o pai, acaba cedendo.
—  Tá bom, vou buscar!
Pouco depois, volta com pacote na bolsa, fecha as cortinas do box da UTI, abre o embrulho e dá o conteúdo ao pai, que devora rapidamente.
Passaram-se alguns minutos e abrem-se as cortinas. Era a atendente. Instala a mesa portátil, coloca a canja sob supervisão da nutricionista. Ele olha o prato com desdém.
— Como está se sentindo agora, senhor Hélio?” — pergunta.
— Maravilha. Agora estou ótimo — responde.
— Tá vendo? Aos poucos irei introduzir alimentos sólidos com tempero. Amanhã deverá ter alta da UTI e irá para o quarto.— fala sorridente
— A senhora não entendeu. Nem provei essa água turva porque isso não é alimento. Comi três coxinhas fritas com suco de laranja. Deliciosas —  e bate na barriga satisfeito.
A moça arregala os olhos e sai a procura do médico. Atrás dela Hélio acrescenta com voz forte:
— Catupiry, recheadas com queijo catupiry. Uma delícia.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O CHEIRO QUE DÓI

Google Imagens
Para garantir que poucas pessoas sintam seu odor, Severino levanta antes do sol nascer. Toma um gole da cachaça em cima da mesa, come um sanduiche de mortadela e segue para mais um dia de trabalho. Acena para Manoelzinho, marido de Lindaura, sua ex-mulher.
— Vá lá pra trás — grita o motorista do ônibus, enquanto os passageiros  afastam para ele passar. Senta no último banco. Na falta do que fazer, pega a revista do chão e a folheia. O sacolejar do ônibus, parece querer jogá-lo para fora. Os passageiros evitam aproximar. Deveria ter ido a pé.
Talvez no lugar deles, fizesse o mesmo. Sente-se estranho. Dá sinal de descida e caminha até a porta. As pessoas se afastam tapando o nariz. Salta do ônibus em movimento. Inicia a caminhada de uma hora até o trabalho do dia. O homem que o contratou espera no portão.
— Sou Severino — apresenta-se. O homem rejeita a mão estendida e o encaminha ao fundo do quintal.
— Aqui — aponta o buraco fétido, cheio até o topo.
— É fundo? — pergunta colocando a mão aberta abaixo do peito.
— Mais ou menos — fala o proprietário, apontando o barraco onde pode trocar de roupa.
Severino coloca o calção amassado, tira o chinelo, a camisa e toma um gole de aguardente. O fedor que sai do buraco deixa de incomodar. Há trinta anos limpa latrinas. Entorna meia garrafa de cachaça, para dar coragem e enfia o pé no buraco onde a pasta fétida fermenta soltando bolhas. Inicia a descida.
Desce lentamente e o líquido toma conta do corpo. Alcançando os genitais, a cintura, o peito, finalmente o pescoço antes do pé apoiar  em terreno firme.
— Pensei que tinha menos profundidade — comenta Severino.
— Isso aí tem conteúdo de uns cinco anos — exclama o contratante com uma gargalhada.
Com a chegada do ajudante, Severino enche o primeiro balde. Levará o dia inteiro a retirar o produto.
As tres da tarde, após completar duas garrafas de aguardente, retira o último balde e entrega ao ajudante, que o coloca na caixa da carroça contratada. O cavalo desajeitado sai reclamando. Severino agarra a borda do buraco e pula para fora escorrendo lama marrom, viscosa. Quando ajeita o corpo, perde o equilíbrio e, na tentativa de se manter em pé, segura no braço proprietário que grita e afasta. Rapidamente o auxiliar toma Severino pelo braço e o senta no chão. Com a mangueira do jardim dá jatos nas costas, pés,  peitos, braços. A água limpa e gelada reanima Severino. Pede que dê um jato em seu rosto. O proprietário, traz-lhe sabão em pó e escova e o ajudante  esfrega o patrão com rigidez.
Quando o filho chega para busca-lo termina a lavação e seguem para casa lado a lado. Apesar de cansado, pai e filho seguem a pé, os ônibus não param pegar Severino.
— Pai, porque o senhor saiu da casa da frente? — Severino espanta-se com a pergunta e demora a responder.
— Sua mãe pediu e mudei para o barraco dos fundos — fez breve silêncio — Acho que enojou com meu cheiro. Logo depois tio Manoelzinho tomou conta da casa.
O resto do caminho foi em silêncio. Ao chegarem, ouviu o resmungo do homem que ocupara seu lugar ao lado da mulher.
— Já, já levarei a janta — Lindaura sorri da janela com o perfume de leite de rosas que o conquistou na juventude.
— Boa noite Severino, deposita o dindinho aqui ó, na mão do gerente do banco — esticou o braço rindo, Manoelzinho. Com a outra mão, apertava o nariz trancando a respiração.
O filho entrou na casa, ele seguiu pelo portãozinho lateral até os fundos. Desabou no banco de madeira. Perto das oito da noite, a ex-mulher chegou com o prato de arroz, feijão e carne assada. Depositou-o na mesa, junto com o boleto do IPTU e deu as costas com a respiração suspensa.
Severino raspa o prato com miolo de pão. Olha o boleto e percebe que vencimento seria no dia seguinte. Passa a mão na garrafa de cachaça, deita na cama e mira o teto de zinco.  No dia seguinte teria duas fossas para limpar. Fecha os olhos e adormece ao som do violão vindo da casa da mulher. Manoelzinho toca e canta Nelson Gonçalves todos os dias para sua amada antes de dormir..

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A VIÚVA

(Google Imagens)
Acorda cedo. É dia de faxina, dia de separar as roupas para a máquina de lavar. Coloca a água para ferver. Adora passar café fresco, principalmente o da manhã. Em pouco tempo o cheiro forte invade a cozinha e a faz recordar o amante da juventude. Na época, era uma jovem viúva com quatro filhos. Tinha trinta e dois anos. Ele dezoito, estudante universitário. Encontravam-se furtivamente em sua casa, onde conversavam e transavam a tarde inteira. Antes dele partir  para a universidade, preparava um bom lanche para alimentar o jovem.
É interrompida pela campainha. Abre a porta. É Bené, a faxineira barulhenta, que dá bom dia e se encaminha ao quarto de serviço.
Gostaria de ter o amante ao lado, pelo menos mais uma vez. Balançou a cabeça para espantar os pensamentos, foi à cozinha e tomou o remédio da pressão. Seria o odor de café que acordara sua memória? Ao ver o calendário, identificou o motivo. Faziam vinte anos da morte do filho, melhor amigo do jovem amante. A lembrança provocou a lágrima que rolou pela face lisa e branca. Teve grandes perdas, sendo a primeira o marido que perdera jovem para uma doença terminal, deixando-a com quatro filhos.
O amante também foi perda difícil de enfrentar, mesmo sabendo ser amor impossível. Logo depois da formatura, o jovem casou com a namorada e mudou de cidade, deixando pais e parentes para trás. Sentiu vontade de confessar os sentimentos a alguém. Falar sobre esse amor que nascera com data de validade. Foi até a área de serviço, mas descartou conversar com Bené, que cantava um funk nada atrativo. Voltou à cozinha. O jovem havia sido o segundo homem, quando recém completara três anos de viuvez. Até a morte do marido, recordava-se em detalhes de como fora feliz. Uma relação sem espaço para brigas que terminou inesperada. Uma manhã de domingo, o companheiro sentiu fortes dores, foi ao hospital e lá ficou.
Enquanto toma café, consulta o Faceboock. Entra no perfil do amor da juventude. O que estaria fazendo? Com quem viveria? Estaria casado? Teria filhos? Que mais? Não lembra. Foi ao quarto, abriu a gaveta do criado mudo e pegou, com cuidado exagerado, o binóculo de teatro. Recebera de presente do rapaz, no dia que completaram um ano de convívio.
No dia anterior, o avistara chegar para a visita mensal aos pais, seus vizinhos. Ficou tão nervosa que não encontrou o aparelho de aproximação. Agora o deixaria no móvel da sala. Toda vez que vinha, ele passava a pé pela frente da casa dela. Desconfia que estacione o carro propositalmente de forma a ser visto. Será que se lembra das tardes passadas juntos? Agora de binóculo, iria aproximá-lo para junto dela.
Da cozinha, a empregada pergunta qual sua idade. Ouve, olha com impaciência para o teto e pensa: “...tenho oitenta, mas...”
— Tenho trinta, Bené, trinta e dois anos — responde com sorriso.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

AMOR MAIOR

(Google Imagens)
Os primeiros tempos após a morte dele foram estranhos. Transformaram-me em uma pessoa com um vazio no peito impossível de suprir. Sentimento inexplicável que me assolou por anos, com a dubiedade entre recordar os tempos que vivemos juntos e a dor de aceitar o imponderável.
Minha criação foi rígida, diluída entre cinco irmãos a obedecerem cegamente à mãe autoritária que surrava ao menor sinal de insubordinação. Meu pai era alcoólatra inofensivo. Costumava chegar alegre em casa e acordava todos com gritos de “hora de levantar preguiçosos”. Católica fervorosa, para a mãe tudo era pecado. Na idade adulta, continuei casta, nervosa e sonhadora.
Meus estudos de primeiro e segundo graus aconteceram no semi-internato em colégio de freiras. Passava os finais de semana triste em casa. O trabalho duro me esperava como recompensa ao estudo dedicado. A escola representava o oásis de uma vida plena de limitações emocionais. Era a melhor aluna, a responsável pela oração antes do almoço.
Anos mais tarde senti falta disso. Minha mãe alegou que estava sobrecarregada e me tirou da escola. Fiquei confinada, ajudando na criação dos irmãos. Preparava as refeições, fazia faxina, lavava louça e era responsável pela irmã mais nova, pronta a ampará-la nas crises de bronquite.
No ano em que completei vinte e oito anos, mãe me mandou acompanhar meus irmãos á quermesse da igreja; que me lembre a única festa que frequentei. Aquele evento representou muito, pois nele nos conhecemos. Conversamos pouco, menos de dez minutos, porém, o suficiente para provocar esquentamento tão avassalador que nunca mais fui a mesma. O encontro com aquele homem deu outro sentido em minha vida. Naquela noite e nas seguintes, ao deitar, custava a adormecer. Sentia um calor intenso no ventre sem entender o que era. Os pensamentos voavam pelos telhados, só repousavam ao encontrá-lo. Houve noites que acordava com a sensação da barba dele espetando. Nos afazeres domésticos, quebrava pratos ao lavar louça, esquecia alimentos torrando no fogo, errava o tempero.
Nossa relação iniciou rápida como exige o amor, graças a uma atitude intempestiva de minha mãe. Ao me surpreender com a boca torneada de batom, obrigou-me a tirar a roupa e surrou-me sem dó. Nesse dia, corri a ele. Sem perceber o estado de embriaguez, deixei-me amparar pelo homem amável e atencioso. Fiquei tão a vontade que entreguei a ele a virgindade.
Do momento em que nos conhecemos, até morarmos juntos, o tempo foi curto. Primeiro passei a frequentar sua casa todas as tardes, nos horários da missa. Confesso que junto ao homem alegre ao me receber, havia forte odor de bebida, o mesmo cheiro de meu pai. Nada mais importava. A casa era simples. Em vez de fogão, um fogareiro, e as cortinas eram surradas, de chitão vermelho de mesmo tecido da toalha de mesa. Morava só, vivia em meio à desorganização. Tudo era novidade para mim, transformava dores em felicidade. Dei minha arrumação geral, organizei tudo e mudei. Mãe tentou argumentar, mas estava surda para as argumentações. Rancorosa, rogou praga, balançou a cabeça, por fim, me expulsou de casa. Peguei sacola de roupas e corri para morar com o homem da minha vida. Com a felicidade que sentia nem suas constantes bebedeiras esmoreciam meu amor.
Com ele conheci outro lado da vida, aprendi que finalmente entrava, mesmo que tardiamente, no compasso certo. Nossa vida era uma poesia da qual tirávamos estrofes de todos os acontecimentos. Seu costume de chegar tarde embriagado, não afetava nossa relação. Trazia sempre um papel de pão com versos apaixonados para recitar. O amor que sentia era infinito. E ele me fazia sentir uma deusa. Vivia totalmente dedicada à casa.
Foram os melhores anos de minha vida. Ele me respeitava e conheci seus amigos seresteiros com os quais amanhecia a cantar e tocar violão. Após sete anos nessa vida de sonho, falei que estava em suas mãos a decisão de termos um filho. A reação foi inesperada, pela primeira vez discutimos muito. Dias depois, acordei só. Meu amor desaparecera.
Continuei a receber noticias esparsas dos amigos. Que casara, tivera quatro filhos. E hoje pela manhã, que morrera.
Tentei ir ao enterro, mas cadê coragem. Andei sem rumo até acalmar e chegar em casa. Meu marido, monge budista, medita na sala com ruído gutural. Espero terminar, nos beijamos no rosto. Como nunca bebeu nem fumou, percebe o hálito de aguardente. Nada comenta. Falo uma desculpa qualquer e vou para o quarto. Olho meu semblante no espelho da penteadeira. Ao ouvir passos no corredor, deito e finjo dormir.
Pensava no rosto de meu amado com semblante sereno deitado ao meu lado. Que enorme tristeza. Acabou-se. Nunca mais tornarei a vê-lo, em pouco tempo seu rosto se apagará de minha memória.
Ele nunca se apagou.

terça-feira, 14 de julho de 2015

GRANADINO CENTENÁRIO

(Google Imagens - Plaza Bib-Rambla-Granada Espanha)
A.C. está sentado no banco de pedra da Praça Bib Rambla em Granada. Sem encosto para escorar, descansa as mãos em cima da bengala preta com cabo dourado, apoiada no chão. “Com licença” sento ao lado. Comento sobre a pomba que come pipoca na mão do garotinho com a babá. A resposta é bem humorada, “esses animaizinhos arriscam tudo por um petisco”. A ironia é sutil e fico na dúvida a quem se refere. Resolvo praticar espanhol. Entendo tudo que fala. Tem 92 anos, viúvo. Até se aposentar , trabalhou com fabricação e venda de móveis em sociedade com quatro irmãos. O negócio os sustentou até a idade avançada afastá-los. Esperavam ser substituídos pelos filhos.
Como não se tem controle sobre as gerações, seus três filhos abriram mão do negócio. Os primos então assumiram a incumbência de administrar a empresa. Inicialmente, a fizeram prosperar, porém, após algum tempo, a fábrica passou a encolher. Seguiram-se aportes financeiros dos patriarcas até estabilizar em tamanho e lucro bem menor do que quando assumiram.
Cada um dos irmãos de A.C tratou de cuidar da própria independência financeira. Alguns compraram ações na bolsa, outros investiram em negócios pequenos, mas sem exceção, assistiram minguar as economias em sucessivos empréstimos para suprir a baixa lucratividade da empresa moveleira.
Na contramão dos sócios, meu amigo da praça investiu boa parte do capital poupado na construção de um prédio. Um conjunto de lojas e quitinetes para alugar. Ao ouvir que era brasileiro, pediu desculpas, depois falou da sua experiência há vinte anos com um conterrâneo meu. “Minha mulher ainda era viva e esse homem chegou muito simpático, falando em espanhol sem sotaque. Conquistou minha família”. A. C. vivia do aluguel das lojas e apartamentos que estavam mais da metade fechados por falta de inquilinos. “A situação econômica do país estava difícil e ninguém queria arriscar”.
O brasileiro convenceu A.C. a alugar o imóvel inteiro a ele. Garantiu que havia investidores na Espanha interessados em aplicar. Ele acreditou no estranho de aparência tranquila. Visualizou a oportunidade de obter ganhos com apenas um inquilino. “Até então, era necessário cobrar o aluguel de várias pessoas e isto era desgastante para mim”. Desocupou o imóvel e o entregou ao estranho sem imaginar que ali se iniciava a maior dor de cabeça da sua idade madura. O homem permaneceu cinco anos com o prédio. Deixou de ocupar e de pagar o aluguel do edifício desde o primeiro dia após pegar as chaves. Após anos de luta na justiça, ganhou a sentença em seu favor para receber os aluguéis, com o direito de reaver o prédio. De nada adiantou, pois o brasileiro desapareceu. “Coisas da vida” desabafa o granadino. “Um dia se perde outro se ganha. Nada contra seu povo, adoro os brasileiros, este foi exceção que poderia ser de qualquer lugar”, completa resignado. Ao final do relato, levanta ágil. “Vou embora, hoje é dia de faxina e a moça me expulsou de casa porque sou alérgico”, fala jovialmente, sai a passos rápidos com a bengala em cadência de causar inveja a muito sessentão.

sábado, 13 de junho de 2015

AS JARDINEIRAS DE CARMEM

(Rua das Jardineiras-Sitges-Arq Pessoal)
 Voltar da Espanha sem experimentar a temperatura do Mar Mediterrâneo é pior do que deixar de visitar Alhambra. E queria algo mais original do que enfiar os pés nas águas da Barceloneta, praia central dos catalães. Indicaram-me uma cidade a quarenta minutos de trem a partir de Barcelona: Sitges. Consultei o Google. É tomar o metro até a estação de Gracia e seguir de trem da Renfe. A cidade realmente é linda. Tem cerca de vinte e seis mil habitantes e casas que parecem feitas em miniatura, com pequenas varandas e jardineiras floridas. A praça central onde desembarquei, harmoniza um pequeno comércio, o ponto de taxi e a casa de informações turísticas, tudo muito limpo. A partir daí, ruas estreitas acessam a orla. Algumas trafegam somente motos. Outras mais largas com mão única. Vive do turismo e é conhecida como Ibiza espanhola.
Em uma das ruas, rumando ao Mediterrâneo, conheci Carmem. Caminhava distraído clicando fotos por todos os lados, encantado com flores bem cuidadas e a limpeza da cidade, quando percebi a mulher que, do alpendre da casa olhava desconfiada. Baixei a máquina de fotos para deixa-la a vontade e ela me recebe com sorriso amistoso. Tem pouco mais de metro e meio, magra e veste chambre azul claro, meias brancas com pantufas azuis da cor do roupão. O cabelo branco preso ao lado da cabeça com pequeno grampo dourado, contrasta com o rosto alvo e os olhos verdes calmos e risonhos. Puxo assunto no melhor sotaque espanhol que consigo, “minha mãe tem oitenta e seis anos e mora sozinha”. “De onde vocês são?” Pergunta curiosa se referindo a Malu e eu. “Do Brasil”. Acena com a mão indicando que entendeu a distância. Olha para cima. “Muitas horas de avião. Tenho muito medo.” Após meia dúzia de comentários, vencida a desconfiança, a espanhola cria coragem e fala do que é inofensivo segredar a um viajante.
“Tenho oitenta e quatro e vivo com meu filho, que voltou a morar comigo após a separação da mulher. Me chamo Carmem e nasci em Córdoba. Aos dezesseis anos mudei para Sitges, a fim de cuidar dos filhos de minha irmã que mora aqui. Em um baile conheci Ramirez, dez anos mais velho, o único homem de minha vida, com quem casei e tive dois filhos. A vida era difícil naquela época”. Olhou fixamente um ponto qualquer no arquivo da memória, certamente se referia a Revolução Civil Espanhola. “Meu marido tinha negócios em Madri e para lá seguia de motocicleta toda semana. Condução barata que preocupa. Um dia quando meu filho menor completava seis meses, foi e não voltou mais. Ele e o amigo com quem dividia despesas de viagem encontraram o carro na contramão que os matou”. Se já era difícil, piorou e Carmem passou a trabalhar incansavelmente para criar os filhos.
Orla de Sitges-Arq. Pessoal)
Diz não gostar de Sitges. Ama a cidade natal. Talvez pelas grandes dificuldades que a vida lhe apresentou. Os filhos lhe deram netos e estes, bisnetos, motivos suficientes para permanecer na cidade. Sobre casamento, “é para somente uma vez. Não casei e não casarei nunca mais”. Vive na mesma casa que nasceu o marido, filho único. Carmem a recebeu de herança. “Ficará para os filhos. Façam o que quiserem, quando eu morrer”. A casa é um sobradinho com o térreo alugado a um comércio. Mora no andar de cima. Aponta para a escada “subo e desço trinta e cinco degraus todos os dias. Limpo, varro e tiro a poeira. Detesto sujeira”. Distraio com as varandinhas com jardineiras floridas e bem cuidadas do andar de cima. “Essas plantinhas são meus mimos. Cuido-as como cuidei de meus filhos e netos. Dos bisnetos não cuido. Eles têm mãe”! Dá uma risada marota como se fosse uma confidência.
Carmem abaixa e pega agilmente o papel de bala perto de meu pé. “Isso não é meu,” esclarece “mesmo assim, recolho e o colocarei na lixeira lá de casa”. Despeço-me com abraço e beijo nas faces. Ao fechar a porta, acrescenta: “Um beijo em sua mãe”. Faço sinal positivo com o polegar e chamo Malu para continuarmos pela rua até o Mediterrâneo.