LEIA TAMBÉM:"ARQUIVO" e "PÁGINAS"

Dificuldades para comentar? Envie para o email : marcotlin@gmail.com
****************************************************
Mostrando postagens com marcador amizade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amizade. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de outubro de 2015

PACIENTE REBELDE

(Google Imagens)
Tenho um grupo de amigos cujo início da amizade vem do período 1974 a 1983, quando as instalações de computadores engatinhavam. Formávamos, no órgão onde trabalhávamos,  a equipe responsável pela implantação de sistemas de informática pelo Brasil.
Os anos passaram, trocamos de emprego, envelhecemos e perdemos contato. Há três anos montei um grupo Whatzap e resgatei um a um. Hoje conta com vinte pessoas e vez por outra reúne. O encanto desses encontros é o autoconhecimento. Ouvir comentário sobre si possibilita saber quem somos, pela visão do outro. Entre os colegas, cabe destaque ao Hélio, com seu permanente bom humor. Agora mais gordo, de bem com a vida, brinda a mesa com natureza aguçada e presença assídua.
A cada reunião muitas novidades. Nem sempre boas. As vezes se pergunta por alguém e é anunciada a temida partida. Mas Hélio trata esses percalços com brincadeiras e, na maioria das vezes o assunto vira conversa agradável, ao recordar cenas pitorescas do falecido. Aliás, a memória do Hélio é prodigiosa, chega a ser perigosa, quando se fala de relembrar fatos.
Hélio tem a capacidade de transformar acontecimento difícil em agradável, como a seguir descrevo, com sua permissão, claro.
Certa feita, Hélio amanheceu com fortes dores no peito. Cabe esclarecer que andava acima do peso, fumava quatro carteiras de cigarro por dia e tomava generosas doses de pingas e cervejas. “São hábitos saudáveis em qualquer idade.” E a comida? “Torresmo e churrasco de carne gorda, que carne magra é dura”. Tirando o cigarro, todo o resto pratica com assiduidade até hoje.
A família espera dois dias e como as dores só pioravam, a dedicada escudeira, Bela, a esposa, chama a emergência. Já no hospital, o médico consulta os exames e constata enfarto. “Sala de cirurgia já”. É submetido a intervenção e após a  UTI. Todos os dias, no horário de visitas, a filha dá plantão ao lado do pai e só sai quando a segurança mostra o relógio na parede. No terceiro dia, ao chegar, nota o pai triste. Pergunta como está.
— Péssimo — responde. Pergunta por quê.
— Fome — responde mal humorado. —Um buraco aqui ó... — e coloca a mão na barriga. — Preciso urgente comer algo sólido, senão morrerei de inanição —  A nutricionista que passa no corredor, ouve a conversa e fala que prescreverá canja magra, sem sal, para aquela noite. Desanimado com o alimento insosso, o relógio marcando as horas sem fim e a leveza da filha pegando sua mão, adormece.
Acorda sobressaltado, mas decidido. Sussurra instruções ao ouvido da moça, que ainda tenta  argumentar. Como conhece o pai, acaba cedendo.
—  Tá bom, vou buscar!
Pouco depois, volta com pacote na bolsa, fecha as cortinas do box da UTI, abre o embrulho e dá o conteúdo ao pai, que devora rapidamente.
Passaram-se alguns minutos e abrem-se as cortinas. Era a atendente. Instala a mesa portátil, coloca a canja sob supervisão da nutricionista. Ele olha o prato com desdém.
— Como está se sentindo agora, senhor Hélio?” — pergunta.
— Maravilha. Agora estou ótimo — responde.
— Tá vendo? Aos poucos irei introduzir alimentos sólidos com tempero. Amanhã deverá ter alta da UTI e irá para o quarto.— fala sorridente
— A senhora não entendeu. Nem provei essa água turva porque isso não é alimento. Comi três coxinhas fritas com suco de laranja. Deliciosas —  e bate na barriga satisfeito.
A moça arregala os olhos e sai a procura do médico. Atrás dela Hélio acrescenta com voz forte:
— Catupiry, recheadas com queijo catupiry. Uma delícia.

sábado, 7 de junho de 2014

TELEFONEMA DESCONCERTANTE

(Google Imagens)
Trafegava pela avenida de clubes norte rumo ao Hospital Santa Helena quando o celular tocou. Como não atendi, desligaram. Combinara dar carona a um amigo em visita à esposa internada, vítima de acidente. Em frente ao Extra, final da Asa Norte, o telefone toca novamente e reconheço o nome no display. Era R, amigo de Porto Alegre. Desta vez atendo, mando aguardar e coloco o carro no estacionamento coberto do mercado.
R é amigo de infância, filho de ex-banqueiro. Tínhamos na faixa de seis anos quando me mudei para a rua onde R morava. Sua casa, bela mansão com opulento muro, contrastava com a minha, de madeira e cercada de arame com cerca viva disforme, podada por minha avó. Como na infância as diferenças passam despercebidas, R e eu fizemos amizade que durou até o final da adolescência.
Como todas as crianças, tínhamos rotina simples. Diariamente saíamos da escola e, após almoçar, chamávamos os meninos da rua para iniciarmos as brincadeiras. R sempre tinha os melhores brinquedos, e  isso o fazia invejado. Apesar da casa de R ser a mais espaçosa, era na minha as reuniões, pois no porão montamos um clube onde guardávamos os objetos do patrimônio. Eram chaveiros, flâmulas e coleções diversas como a das caixas de fósforo, com exemplares de todo o mundo.
Mas a casa era alugada e um dia o locador pediu a desocupação. Isso provocou meu afastamento da garotada e a distância da nova residência esfriou a amizade. Mais tarde, entendi que o distanciamento também foi provocado pela chegada da maturidade, quando as diferenças sociais ficaram enormes. R era cercado das facilidades do dinheiro e eu, distante das benesses, entendi o estudo como única esperança. Passei no vestibular, entrei para o Exército, comecei a trabalhar e assim cada qual seguiu seu caminho.
Quarenta anos se passaram e soube que R morava em Campinas, São Paulo e que passava por tristes provações. Por intermédio de seu filho, consegui o telefone e liguei. Percebi uma voz cansada pelo sofrimento. Do bom humor da juventude, apenas a risada nervosa a relatar as provações. Queixou-se da vida, das pessoas, dos acontecimentos. Tirei alguns dias no trabalho, viajei para Campinas e constatei a penúria da situação. Fora despejado do estacionamento onde morava e de onde tirava o sustento, lavando e cuidando de carros na faculdade Anhanguera. Solitário, o próximo passo seria as ruas da cidade.
Anos antes, em Porto Alegre, encontrara a mãe dele, que relatou a difícil situação financeira da família. Negócios errados e pessoas de má índole provocaram dívidas impagáveis. A mulher temia pelo filho morar distante. Na ocasião, praticamente solicitara minha interferência para o retorno do filho à terra natal. Lembrar aquele pedido de mãe me tocou o coração, principalmente ao saber que falecera.
Fiz contato com familiares de R que se prontificaram a lhe estender a mão e assim, ele retornou a Porto Alegre. Mas as coisas estavam longe de serem resolvidas. Os parentes tentaram ajudá-lo, porém R, acostumado a receber tudo em mãos, carecia de iniciativa e novamente despencou na miséria.. Por colocar a vida nas mãos dos outros, esqueceu-se de fazer sua parte e novamente se viu abandonado. Acreditava erroneamente que todos tinham obrigação de unir esforços para mantê-lo. Voltou a comer e a residir de favor, vivendo de pequenos bicos, cada vez mais distanciado dos que o auxiliavam. Permanecia o orgulho infundado afastando-o de todos. R, que nos últimos anos sofrera tanto, ainda não percebera os sinais que a vida lhe dera para melhorar a situação. Deveria empreender profunda mudança de dentro para fora.
Tudo passou pela minha cabeça em segundos ao atender o telefone e pressenti que algo grave se avizinhava. Confessou que bebera o dia inteiro. Articulava palavras desconexas e continuava a queixar-se. Durante a conversa, utilizei todos os argumentos exercitados durante trabalho voluntário em central de apoio a pessoas em situação de risco. Encerrou o telefonema de cinquenta minutos dizendo manter ao lado uma arma engatilhada para acabar com a trajetória de vida. Cego pela desesperança, esquecia os anos de vida de opulência financeira e prazeres. Após o telefonema, liguei para o filho dele e relatei a conversa.
Durante os dias seguintes, tentei em vão ligar para R. Dez dias depois, recebo outro telefonema dele. A voz continuava cansada, mas percebi sobriedade. “Como pode ver, estou vivo!”, grita em gargalhada. Após alguns momentos, fica sério. “Tenho pensado muito no que falou. Realmente até os cinquenta anos vivi na opulência, não me faltava nada. Tive tudo.” Fez pequena pausa e continuou. “Minha mãe morreu em 1999 e a partir daí segui sozinho entre Londrina e Campinas, só gastando, como se meu dinheiro nunca fosse acabar. Você tem razão, desesperar é inadmissível, até porque há quinze anos sobrevivo com quase nada. Entendo merecer tudo isto, pois na opulência deixei de prestar ajuda, apenas ostentei o que nem meu era. Segui cercado de gente errada e desprezei aqueles que queriam me ajudar. Se hoje estou nesta penúria, o único culpado sou eu. Concluí que suicidar não é solução”.
Mais alguns minutos, R se despede e desliga o telefone. Percebi claramente uma grande mudança. Ao entender as escolhas erradas, reconhece que a chance de seguir avante com nova trajetória só depende dele mesmo. Subsistir dignamente desde 1999 sem recursos e enfrentando as tribulações é prova de valor pessoal no cumprimento da missão de vida. No mundo em que vivemos,  sobreviver com cinquenta milhões é fácil. Porém é para poucos viver sem nada, principalmente quando se teve tudo em grande quantidade.

domingo, 22 de dezembro de 2013

QUARENTA ANOS DEPOIS

(Linhares - Arquivo pessoal)
.“... Céu é o lugar poético onde estão guardadas as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. Falar "céu" é dizer "esperança de reencontro.” (Rubem Alves).


Final de ano é tempo de reencontros. Turmas de faculdade, de trabalho, de primeiro e segundo graus, de vizinhos, enfim, pessoas que conviveram de alguma forma têm a curiosidade de rever antigos companheiros e trocar informações sobre trajetórias de vida.
No dia vinte de dezembro ocorreu o reencontro com amigos do DENTEL - Departamento Nacional de Telecomunicações. Os anos de convivência foram entre 1974 e 1981, ainda durante o regime militar. Éramos funcionários de vários órgãos do Departamento, e fomos unidos pelo destino em torno de uma motivação desafiadora: implantar sistemas informatizados nos cadastros manuais. O trabalho hercúleo iniciou após um curso de formação na COBRA - Computadores Brasileiros S.A., no Rio de Janeiro.
Usando tecnologia atualizada, criei um grupo Whatzapp e iniciei o garimpo dos colegas. Em quatro dias contava com oito pessoas no grupo e o telefone de outros nove que não usavam o aplicativo. A partir daí, ficou fácil. O pessoal se mobilizou e o encontro aconteceu, totalizando doze participantes. Compareceram Moacir e Mali, Gelson e Divina, Hélio e Bela, eu e Malu, Marisa, Irani, Dioney e Helane. A tônica da conversa foram os anos de convivência, as atividades, as agruras e a superação de obstáculos.
Passagem por doenças, falecimentos de entes queridos e dores foram compartilhadas em irmandade, como se nunca houvéssemos nos separado. A vida encerrou-se prematuramente para três companheiros que poderiam estar presentes e que foram lembrados com respeito e amizade: o Nelson, o Deolindo e o Cláudio.
Na memória, momentos pitorescos, como as festas de São João em minha chácara, onde todos colaboravam. Em uma delas, o Deolindo responsabilizou-se por levar o aparelho de som. À meia-noite, cansados de esperar por ele, contratamos um sanfoneiro que além de bêbado, nada sabia de repertório junino. Tocava apenas uma melodia na sanfona de fole furado que mais soprava vento que som, mas possibilitou a animada quadrilha. Deolindo chegou no dia seguinte com o aparelho de som e passou o resto da tarde, tentando ligá-lo à bateria do carro. Após várias tentativas frustradas e duas baterias em curto, chamamos novamente o sanfoneiro e seguimos com a festa até o dia seguinte. Eram festas que geralmente varavam noites e os participantes dormiam em redes pela sala e varanda.
Para quem compareceu ao reencontro no restaurante Xique-Xique da Asa Norte de Brasília, a sensação é de que a vida, por mais difícil que seja, deve ser levada com alegria, pois se houve momentos penosos, também aconteceram os de contentamento. Após quarenta anos, este foi o primeiro reencontro do grupo. Com o sucesso, outros participantes virão e, com certeza, novas conversas a compartilhar.


sábado, 15 de junho de 2013

A VELHA AMIZADE

Renato e THOR (arquivo pessoal)
“Meu grande problema é que nasci na família errada”. Sem explicações, parece dito por quem faltou oportunidade na vida. Alguém carente de apoio financeiro, que permitisse estudar com qualidade.  Um desafortunado, com poucas chances de desenvolvimento. Ledo engano, a frase proferida deve-se a quem no passado foi filho de banqueiro, nascido em berço de ouro como se diz no jargão da vida endinheirada. Contarei.
Ao buzinar em frente ao estacionamento, THOR, o cão rotweiller se aproximou do portão com cadeado e olhou furtivo, quieto, esperando. Estava de prontidão de olho no invasor. “Já vou”. Gritou a voz dentro do barraco de alvenaria. O cão, com ares de nobre, sentou a espera, calmo, mas vigilante.
Logo após, aparece a figura magra, esguia, roupa surrada. Reconheceu o recém-chegado imediatamente, apesar do tempo que estavam afastados. Não se viam há mais de 40 anos. Atualmente com 58 anos, os dois se olharam e riram como a medir os estragos que o tempo fizera a cada um.
                   “Tá velhão hein meu?”  disse Renato, o morador. “Todos estamos”. Respondeu o visitante. O anfitrião  gritou para Thor entrar no canil. “Espera que vou prender este vira lata filho da puta”. Chamou o cachorro e retirou-se para o fundo do estacionamento.
O recém-chegado constatou que o tempo fora cruel com o velho amigo. Não poderia imaginar encontrá-lo em Campinas naquele estado, morando em casebre pequeníssimo. Conheceram-se quando ambos contavam seis anos de idade e descaminhos da vida os fez vizinhos em Porto Alegre. O homem que prendia o cão, fora  filho de família abastada, menos pelo pai que procedia de família de portugueses remediados, mas pela mãe de procedência alemã, dona de fortuna considerável amealhada com grandes comércios e próspero banco familiar.  A rua praticamente pertencia a família e os membros moravam em palacetes e desfilavam em carros importados. Enquanto fechava o carro para descer, pensava na enorme diferença social entre eles. Naquela época, residia em casa alugada e de madeira. Mas nada disto os distanciara e a amizade iniciou desde as primeiras brincadeiras. Separaram-se quando adolescentes e os objetivos de vida tornaram-se antagônicos.
Após prender Thor, o portão foi aberto e Renato convidou a entrar. Carlos,  viajara cerca de mil quilômetros para visita-lo. Foi difícil encontrar. “Pensei que estava escondido”. Quem passara as pistas fora o filho, batizado com o mesmo do amigo, Carlos. “Teu filho passou  o fone, após me localizar no Orkut”. Renato exibia rugas profundas e sorriso triste marcava o rosto. O semblante era o mesmo, costas eretas, andar balançado pelas longas pernas magras, alternando passadas largas.
“Estava preocupado com vocês”, disse dirigindo-se ao amigo que chegara com a namorada. “Demoraram demais”. Comentou que ao combinarem o encontro pelo fone, ouvira de Carlos que chegaria antes do almoço. Eram três da tarde e isto o incomodara. “Espera no escritório que vou arrumar. Mas não entrem no quarto” demonstrava o receio de ter a intimidade miserável invadida. O escritório era pequeno, com mesa, computador e arquivo de aço com três gavetas. A cadeira atrás da mesa, o único móvel para sentar. Na tela do PC, um jogo pela metade. As paredes sujas passavam impressão de abandono. Aos fundos, a churrasqueira modesta. “Alugo por 50 reais o dia”. Ao lado, o banheiro.
O amigo-visitante senta no escritório e continua o jogo de paciência exibido na tela. A namorada passeia pelo quintal, pois verifica que no escritório não há lugar para dois. Meia hora depois o anfitrião surge na porta. Parece mais velho. O cabelo grisalho encardido,  preso num rabo de cavalo, a camisa xadrez e a calça surrada o apresentam para o almoço. “Preferem uma churrascaria?”.  Estende a toalha bege que um dia foi branca num varal de fio elétrico. Carlos diz que anda afastado da carne vermelha. Prefere peixe e salada. O dono da casa entende o recado. Entram no carro. Muito havia para dizer, mas o silêncio repentinamente se fez entre os três.
Chegam ao restaurante em bairro elegante.
“Estou sem fundos no banco para bancar o almoço”, brincou. “Além do mais serei despejado. Não tenho onde morar a partir do mês que vem”, comenta Renato misturando bom humor com preocupação. “Não se preocupe, a conta é minha”.
“Meu grande problema é que nasci na família errada”. Os três riram.
Apesar da alegria aparente, o caminho de retorno até a casa de Renato aconteceu em profundo silêncio. No hotel, a moça perguntou a Carlos: “Como teu amigo chegou a esta situação”?


domingo, 27 de maio de 2012

SOU MORTAL - O IMPACTO – PARTE II

(Foto Google - Imagem)

Ao receber o diagnóstico, a vontade era sair do consultório correndo pelas ruas, aproveitando os últimos momentos. Mas ao contrário, desanimado, prostrei-me em casa. A partir do dia seguinte, iniciei a romaria de exames e consultas para ouvir segundas e terceiras opiniões. Alimentava a ilusão da opinião contrária, do engano nos resultados dos exames, do erro de diagnóstico ou troca de documentos.
Após ouvir outras opiniões médicas, confirmou-se o diagnóstico e a unanimidade do tratamento. Teria mesmo que fazer cirurgia e quimioterapia. A ficha caiu. Passar por corte no corpo, me aterrorizava, levara no máximo, dois pontos ao cair de bicicleta e machucar o joelho aos dez anos. Abrir a barriga soava como sacrilégio. Sobreviveria? Caso sim, com que qualidade de vida? Havia chegado minha hora? Com 52 anos, me sentia muito bem. Nadava em dias alternados. Abolira o cigarro há muito tempo. É verdade que almoçava fora de casa e aos finais de semana tomava cervejadas com churrasco. Mas milhões fazem isto.
Crescia o sentimento de mudança, não somente pelo que o médico dissera. Era um sentimento interno. Um ciclo se fechava e sabia que desagradaria gente querida. Mas era inevitável. Precisava de coragem para viver de maneira verdadeira comigo mesmo, descartando a vida que esperavam de mim. Na verdade queria me impor e viver o meu modelo, pois entendia que aquele que vivera até então, nada tinha a ver comigo.
Passei a questionar cada vez menos o porquê de acontecer comigo. Queria conhecer a doença para estimar minhas chances e a gravidade da situação. Dedicava-me dia e noite a ler tudo que pudesse. Desvalorizava conversas fúteis. Entendi que os outros seguiam  rumos preocupados com formigas enquanto eu era atacado por leão.
A apatia que me abateu após o diagnóstico, a partir da decisão de conhecer a doença, deu lugar a um ímpeto de luta, de oferecer máxima resistência e, na medida do possível, sair vencedor. Alternava momentos de prostração e euforia.
Era uma luta de fases. Em uma delas, passei a oferecer trocas. Se conseguir me safar disto, serei assim. Buscava barganhar a cura. Se sair bem na cirurgia, prometo ser um ser humano melhor. Passava os dias no balanço das fases.
Enquanto esperava os resultados de exames que habilitariam a cirurgia, o processo de mudança germinava. Passava a vida como um filme. Em um determinado dia peguei o carro e, enquanto percorria a estrada Brasília/Goiânia tentava entender minha solidão perante o problema. As doenças tem a capacidade de nos demonstrar a verdade inexorável de que estamos sós na batalha pela vida. Mesmo cercado da família e de amigos, a luta é solitária. Impossível quem está de fora avaliar isto. Cabia a mim e somente a mim, passar por aquilo. A solidão é verdadeira e, por maior apoio oferecido, a ajuda é de dentro para fora.  Neste dia, fui até Goiânia e retornei. Cheguei de madrugada em casa e, cansado de dirigir e pensar, evitei explicações de onde estava, afinal não podia fraquejar e adoecer, para mim, ainda era profundamente vergonhoso. Assumir que a saúde tinha–se ido, no meu entender, me inferiorizava. Deitei insone. Quieto na cama questionei mais uma vez o porque disto. Sempre fizera tudo tão direitinho. Dois casamentos, sendo três filhos no primeiro, dois no segundo. Sempre cuidara deles, trabalhara muito. Dei a todos o máximo conforto, boa casa, comida, educação de primeira, carinho, boas pensões alimentícias. De repente isto. Com a mudança me assolando, era necessário dominar a ansiedade e enfrentar com otimismo o que vinha pela frente. Quando amanheceu, percebi um dia difícil pela frente. Pouco dormira e, ao perceber-me só em casa, mais uma vez, chorei. Chorei pelo que adiei fazer, chorei por não ter tempo de fazer e, finalmente, chorei pela incapacidade de impor meu modelo existencial. Certamente o futuro se avizinhava incerto.
 Devo deixar claro que tive muito apoio, da família, amigos e amigas que se desdobraram em palavras de conforto.  Muitas pessoas se afastam é verdade, mas as que ficam realmente ajudam. Nem todos sabem se aproximar numa situação destas. E mesmo aqueles que ficaram distante, permaneceram atentos na minha recuperação.
Aproximando a cirurgia, um dia pela manhã recebi o telefonema de uma amiga propondo encontrarmos. Tivera um HPV, que quase desenvolveu a câncer de colo uterino e, após tratamento, levava vida normal. Sugeriu naquele mesmo final de tarde, no estacionamento ao lado da Igreja São Camilo de Lellis na entrequadra 303/304 sul. Chegamos praticamente juntos e estacionamos lado a lado. Abri a porta, entrei no carro dela e percebi um leve perfume que me fez bem. O sorriso era largo e acolhedor. Sentia-me mal emocionalmente o que notou e pegou minha mão. Perguntou, “Marco, você está pensando que vai morrer?”. Foi a primeira vez que ouvi isto de outra pessoa e, ouvir assim a queima roupa, estremeci. Na verdade, até pensava nisto, mas precisava de coragem para encarar.  Demorei a assimilar a frase e senti que choraria novamente. Abraçou-me fraternamente. Seu abraço e a vontade velada de apoiar solidariamente a um amigo, somou-me forças e segurei a mão entre as minhas. Deixou-me chorar silencioso e, após cerca de dez minutos, interrompeu, “ainda não respondeu”. Calmamente, olhando em meus olhos, pois permanecia calado, acrescentou, “pois você sairá muito bem desta, Marco, eu sei”. A convicção desta frase me espantou. Olhei-a nos olhos e percebi que falava sério. Mas de onde tirara aquela afirmação? Conversamos mais um tempo e finalmente articulei a resposta, “não quero morrer”, afirmei. Beijei seu rosto, abri a porta do carro e segui em direção a Igreja, onde permaneci até o padre se aproximar e, colocando a mão em meu ombro, falar no ouvido “o senhor pode voltar amanhã, se quiser”. Eram nove horas da noite. Aquela conversa foi impressionante e, pela primeira vez desde o diagnóstico, dormi a noite toda.
Minha condição avalizava muitas coisas e ao entender isto como ganhos percebi o segundo passo importante da reforma pessoal. Visualizar o positivo nas pequenas coisas. Precisava estar só e preparar a estratégia de luta e isto, no fundo, passou a me trazer otimismo. Nadava, lia, escrevia, ia a cinema, caminhava toda manhã no Jardim Botânico e me preparava da melhor forma possível para enfrentar a cirurgia que se aproximava.

.