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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A DESPEDIDA

Arquivo pessoal
 Estava linda. Tão linda que mais parecia uma boneca de porcelana. A pele branca exibia coloração avermelhada pelo frio intenso na ponte de madeira sobre o pequeno córrego. Esticou a gola do casaco para proteger o pescoço. O sítio era refúgio para finais de semana do intenso trabalho na cidade. Ali montei ateliê de pintura, meu hobby predileto e a miniatura da biblioteca que tinha no escritório.
Sara permanecia imóvel debruçada sobre o parapeito. Olhava a água que corria forte. Vez por outra jogava uma folha ou filtro de cigarro. Nas águas turvas, as últimas chuvas arrastavam objetos pelo riacho e os levavam ao rio. Em alta velocidade, passavam caixas de papelão, latas de cerveja e refrigerante. Peguei suas mãos geladas e as protegi entre as minhas. Olhou-me sem emoção e as retirou.
Havíamos discutido. Eu pedira o divórcio. Há algum tempo percebia que sua cumplicidade pairava com outra pessoa. Ela negava com veemência. Chorara para permanecermos juntos. Ao mesmo tempo, reconhecia pelos movimentos dos últimos dias, que eu sabia mais do que demonstrava. A convivência alcançara limites inaceitáveis. Anos mais tarde, concluí que, se naquele momento, ela tivesse assumido nosso casamento e se declarado disposta a sacrificar a relação para ficarmos juntos, teria cedido. O intolerável era manter a mentira, declarando ser tudo fruto da imaginação.
Sara parecia menina com olhos encharcados e vermelhos. Era a personificação da inocência, o que a deixava mais desamparada. Detesto admitir esse sentimento, mas, naquele momento, estava com pena dela.
Peguei-a pelo braço e a levei ao carro. Ao abrir a porta, livrou-se de minha mão, sentou no banco e bateu a porta, balançando o veículo. Nossa amizade, temia, estava por um fio. Saímos a rodar pela cidade e peguei um retorno para a rodovia federal. Sem destino, liguei o aquecedor e tiramos os casacos. Propus almoçarmos em uma pequena cidade turística do interior. Aceitou dando de ombros. Se pouco conversamos durante o trajeto de ida, na volta, após o almoço, nenhuma palavra.
Assumi que não havia mais nada a tratar. Deixei Sara em casa. Desceu sem se despedir, com o carro em movimento. Saí disposto a não voltar. Considerava terminada a relação. Eram dez horas da noite, quando entrei na loja de conveniência do posto de gasolina. Pedi um uísque duplo e a partir daí só lembro de perceber onde estava ao desligar o carro e ser recebido por meu cachorro no sitio. Abri a porta, fui à cozinha tomar água e desabei na cama.
No dia seguinte, despertei com forte dor de cabeça. Exagerara na bebida. A buzina da moto do carteiro levantou-me da cama mais cedo do que pretendia. Abri o portão ainda com a roupa amassada do dia anterior. Era carta registrada. Remetente, Sara. Dei um troco ao rapaz, agradeci e entrei abrindo o envelope amassado.
Folheei as páginas antes de ler. A escrita começa firme, mas a partir da metade ficava tremida e borrada. Percebi leve perfume conhecido.
Contei vinte duas páginas, o que me fez acreditar ter sido escrita antes da conversa sobre divórcio. Talvez tenha sido a leitura mais difícil que fiz na vida. Fazia um retrospecto de nossa vida em comum. Falava do namoro, seguia pelo período de noivado, casamento, férias anuais, nascimento dos filhos. Descrevia como eu adivinhava seus pensamentos, os desejos mais íntimos. Pressentia nas entrelinhas certa melancolia. Final dolorido de algo importante. Imaginei como fora desconfortável escrever. Na última página, a escrita fraquejou. Parecia difícil seguir as linhas. Após desfiar nossa história, confessou que apesar de me amar, eu tinha razão, envolvera-se com outra pessoa. Minhas constantes viagens para melhorar os ganhos financeiros, só contribuíram para sedimentar a relação entre eles. Um colega de trabalho casado, divorciado, cuja mulher, indignada deixara os filhos menores para que criasse. Sara deveria assumir os pequenos enteados. Demonstrou receio por assumir incumbência pesada com tão pouca idade.
Despediu-se declarando amor por toda vida, independente de onde estivesse.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A VIÚVA

(Google Imagens)
Acorda cedo. É dia de faxina, dia de separar as roupas para a máquina de lavar. Coloca a água para ferver. Adora passar café fresco, principalmente o da manhã. Em pouco tempo o cheiro forte invade a cozinha e a faz recordar o amante da juventude. Na época, era uma jovem viúva com quatro filhos. Tinha trinta e dois anos. Ele dezoito, estudante universitário. Encontravam-se furtivamente em sua casa, onde conversavam e transavam a tarde inteira. Antes dele partir  para a universidade, preparava um bom lanche para alimentar o jovem.
É interrompida pela campainha. Abre a porta. É Bené, a faxineira barulhenta, que dá bom dia e se encaminha ao quarto de serviço.
Gostaria de ter o amante ao lado, pelo menos mais uma vez. Balançou a cabeça para espantar os pensamentos, foi à cozinha e tomou o remédio da pressão. Seria o odor de café que acordara sua memória? Ao ver o calendário, identificou o motivo. Faziam vinte anos da morte do filho, melhor amigo do jovem amante. A lembrança provocou a lágrima que rolou pela face lisa e branca. Teve grandes perdas, sendo a primeira o marido que perdera jovem para uma doença terminal, deixando-a com quatro filhos.
O amante também foi perda difícil de enfrentar, mesmo sabendo ser amor impossível. Logo depois da formatura, o jovem casou com a namorada e mudou de cidade, deixando pais e parentes para trás. Sentiu vontade de confessar os sentimentos a alguém. Falar sobre esse amor que nascera com data de validade. Foi até a área de serviço, mas descartou conversar com Bené, que cantava um funk nada atrativo. Voltou à cozinha. O jovem havia sido o segundo homem, quando recém completara três anos de viuvez. Até a morte do marido, recordava-se em detalhes de como fora feliz. Uma relação sem espaço para brigas que terminou inesperada. Uma manhã de domingo, o companheiro sentiu fortes dores, foi ao hospital e lá ficou.
Enquanto toma café, consulta o Faceboock. Entra no perfil do amor da juventude. O que estaria fazendo? Com quem viveria? Estaria casado? Teria filhos? Que mais? Não lembra. Foi ao quarto, abriu a gaveta do criado mudo e pegou, com cuidado exagerado, o binóculo de teatro. Recebera de presente do rapaz, no dia que completaram um ano de convívio.
No dia anterior, o avistara chegar para a visita mensal aos pais, seus vizinhos. Ficou tão nervosa que não encontrou o aparelho de aproximação. Agora o deixaria no móvel da sala. Toda vez que vinha, ele passava a pé pela frente da casa dela. Desconfia que estacione o carro propositalmente de forma a ser visto. Será que se lembra das tardes passadas juntos? Agora de binóculo, iria aproximá-lo para junto dela.
Da cozinha, a empregada pergunta qual sua idade. Ouve, olha com impaciência para o teto e pensa: “...tenho oitenta, mas...”
— Tenho trinta, Bené, trinta e dois anos — responde com sorriso.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

AMOR MAIOR

(Google Imagens)
Os primeiros tempos após a morte dele foram estranhos. Transformaram-me em uma pessoa com um vazio no peito impossível de suprir. Sentimento inexplicável que me assolou por anos, com a dubiedade entre recordar os tempos que vivemos juntos e a dor de aceitar o imponderável.
Minha criação foi rígida, diluída entre cinco irmãos a obedecerem cegamente à mãe autoritária que surrava ao menor sinal de insubordinação. Meu pai era alcoólatra inofensivo. Costumava chegar alegre em casa e acordava todos com gritos de “hora de levantar preguiçosos”. Católica fervorosa, para a mãe tudo era pecado. Na idade adulta, continuei casta, nervosa e sonhadora.
Meus estudos de primeiro e segundo graus aconteceram no semi-internato em colégio de freiras. Passava os finais de semana triste em casa. O trabalho duro me esperava como recompensa ao estudo dedicado. A escola representava o oásis de uma vida plena de limitações emocionais. Era a melhor aluna, a responsável pela oração antes do almoço.
Anos mais tarde senti falta disso. Minha mãe alegou que estava sobrecarregada e me tirou da escola. Fiquei confinada, ajudando na criação dos irmãos. Preparava as refeições, fazia faxina, lavava louça e era responsável pela irmã mais nova, pronta a ampará-la nas crises de bronquite.
No ano em que completei vinte e oito anos, mãe me mandou acompanhar meus irmãos á quermesse da igreja; que me lembre a única festa que frequentei. Aquele evento representou muito, pois nele nos conhecemos. Conversamos pouco, menos de dez minutos, porém, o suficiente para provocar esquentamento tão avassalador que nunca mais fui a mesma. O encontro com aquele homem deu outro sentido em minha vida. Naquela noite e nas seguintes, ao deitar, custava a adormecer. Sentia um calor intenso no ventre sem entender o que era. Os pensamentos voavam pelos telhados, só repousavam ao encontrá-lo. Houve noites que acordava com a sensação da barba dele espetando. Nos afazeres domésticos, quebrava pratos ao lavar louça, esquecia alimentos torrando no fogo, errava o tempero.
Nossa relação iniciou rápida como exige o amor, graças a uma atitude intempestiva de minha mãe. Ao me surpreender com a boca torneada de batom, obrigou-me a tirar a roupa e surrou-me sem dó. Nesse dia, corri a ele. Sem perceber o estado de embriaguez, deixei-me amparar pelo homem amável e atencioso. Fiquei tão a vontade que entreguei a ele a virgindade.
Do momento em que nos conhecemos, até morarmos juntos, o tempo foi curto. Primeiro passei a frequentar sua casa todas as tardes, nos horários da missa. Confesso que junto ao homem alegre ao me receber, havia forte odor de bebida, o mesmo cheiro de meu pai. Nada mais importava. A casa era simples. Em vez de fogão, um fogareiro, e as cortinas eram surradas, de chitão vermelho de mesmo tecido da toalha de mesa. Morava só, vivia em meio à desorganização. Tudo era novidade para mim, transformava dores em felicidade. Dei minha arrumação geral, organizei tudo e mudei. Mãe tentou argumentar, mas estava surda para as argumentações. Rancorosa, rogou praga, balançou a cabeça, por fim, me expulsou de casa. Peguei sacola de roupas e corri para morar com o homem da minha vida. Com a felicidade que sentia nem suas constantes bebedeiras esmoreciam meu amor.
Com ele conheci outro lado da vida, aprendi que finalmente entrava, mesmo que tardiamente, no compasso certo. Nossa vida era uma poesia da qual tirávamos estrofes de todos os acontecimentos. Seu costume de chegar tarde embriagado, não afetava nossa relação. Trazia sempre um papel de pão com versos apaixonados para recitar. O amor que sentia era infinito. E ele me fazia sentir uma deusa. Vivia totalmente dedicada à casa.
Foram os melhores anos de minha vida. Ele me respeitava e conheci seus amigos seresteiros com os quais amanhecia a cantar e tocar violão. Após sete anos nessa vida de sonho, falei que estava em suas mãos a decisão de termos um filho. A reação foi inesperada, pela primeira vez discutimos muito. Dias depois, acordei só. Meu amor desaparecera.
Continuei a receber noticias esparsas dos amigos. Que casara, tivera quatro filhos. E hoje pela manhã, que morrera.
Tentei ir ao enterro, mas cadê coragem. Andei sem rumo até acalmar e chegar em casa. Meu marido, monge budista, medita na sala com ruído gutural. Espero terminar, nos beijamos no rosto. Como nunca bebeu nem fumou, percebe o hálito de aguardente. Nada comenta. Falo uma desculpa qualquer e vou para o quarto. Olho meu semblante no espelho da penteadeira. Ao ouvir passos no corredor, deito e finjo dormir.
Pensava no rosto de meu amado com semblante sereno deitado ao meu lado. Que enorme tristeza. Acabou-se. Nunca mais tornarei a vê-lo, em pouco tempo seu rosto se apagará de minha memória.
Ele nunca se apagou.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

TROCA DE DESTINO

(Google Imagens)
Paulo contorna o balão de descida à ponte JK e telefona à secretária avisando estar a caminho. Na longa descida rumo ao Plano Piloto, o carro serpenteia pela pista sinuosa. Liga o aparelho de som e escolhe o CD de Nora Jones, que ganhou de Martha. O inicio da música e a linda paisagem o convidam a desacelerar. Distrai-se com o morro gramado geometricamente e o amanhecer do Plano Piloto, emoldurado pela névoa seca que paira sobre a cidade.
A melodia suave o remete a Martha. Há cinco dias se amaram no sofá da sala, no tapete de pele de carneiro que tanto os acolhe nesses momentos. O tempo com Martha parece infinito. Mais do que amantes, uma relação de cumplicidade. Cheira a roupa e o aroma do amor paira em cada costura e botões do paletó que a mulher manuseou para abriga-la do frio. Martha usa pouco perfume. Conhece e respeita a condição do amante, mas seu corpo exala delicioso odor de fêmea no cio. Quando juntos, gosta de pegar nas suas coxas grossas enquanto a beija, algumas vezes ternamente, outras com ardente. Incendiar desejo no  corpo maduro de Martha é o passatempo favorito.
A ponte JK aparece ao fundo da paisagem. Acima do lago crispado pela brisa gélida, pairam os arcos geométricos costurados ao espelho do lago Paranoá.
Lembra-se do último encontro e excita ao recordar os beijos apaixonados de Martha. Tem certeza que a deseja tanto quanto ela. Olha o relógio. No Congresso, seu destino, a secretária recepciona os participantes brasileiros da reunião. Aos executivos americanos, inventa desculpas em inglês doméstico.
Paulo continua suas fantasias e a voz suave da cantora o transporta à presença da amante provocando desejo de vê-la. A sua volta, apenas o trânsito silencioso dos carros que o ultrapassam rumo à travessia da ponte. Liga para Martha. O telefone toca uma, duas, três vezes. "Alô?” atende voz suave, dengosa, preguiçosa, recém-desperta. "Oi, tudo bem?" Ela reconhece a voz. "Como vai, meu amante?" É assim que o trata, carinhosa e acolhedora. "Tudo bem. Te acordei? Sinto sua falta". Diminui a velocidade ainda mais. "Também estou com saudade" fala a mulher. "Como está nossa filha"? Pergunta Paulo com carinho. "Dormiu fora de casa, irá direto ao trabalho. Vamos nos ver hoje?" Propôs a mulher. “Claro, quando quiser, estou louco de tesão por você". “Vem agora”, provoca a mulher. “Estou indo", Paulo é sensível a seus convites.  A mulher desliga e vai ao banho. São assim os encontros. Imprevisíveis, acalorados e nas horas mais inesperadas.
Paulo liga ao escritório e transfere, sob protestos, a reunião para a tarde.
Entra no viaduto do CCBB, faz a tesourinha de retorno e parte ao encontro de Martha. Passarão a manhã juntos. O amor os espera embaixo das cobertas.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A MENINA QUE SE FEZ MULHER

(Google - Imagens)
Rosinha é menina esperta e aos treze anos, entendendo as dificuldades do pai para financiar as despesas, decide trabalhar. Distribui currículos em lojas, shoppings e supermercados, e em pouco tempo coleciona ofertas de emprego. É contratada como vendedora em barraca de peças íntimas, na Feira dos Importados. Como exibe silhueta torneada, esbanjando inocência e sensualidade, se permite o uso de vestes provocantes e maquiagem arrebatadora, como as atrizes das novelas. Da menina que lidava com bonecas e brincadeiras infantis, desabrocha a mulher esbelta exposta à cobiça.
André é mais um a interessar pela menina. Homem feito, 22 anos, casado e proprietário da barraca em frente, reconhece a magia da moça. Rosinha percebe o interesse do rapaz e, decidida a resistir, apenas alimenta sua inquietude sem transparecer interesse. Esperta, identifica nele a maturidade e independência que aos outros faltam.
— Aposto que é virgem — comenta André com o amigo, que comparece diariamente e faz do endereço mirante de observação.
De lindo sorriso, resiste bravamente aos mais ousados convites e continua a mostrar calcinhas, sutiãs e roupas sensuais, alimentando a volúpia dos clientes masculinos. Um dia, Rosinha recebe buquê de rosas com cartão escrito “Te quero. Não desistirei de você. André”. As pernas fraquejam e um calor sobe pelo ventre juvenil. A partir daí passa a reforçar o perfume e brinda o rapaz com belo sorriso.
A oportunidade para André surge no mesmo dia. Uma greve de ônibus. O rapaz se oferece para levá-la em casa e, a partir daí, passam a namorar. Sutilmente, o rapaz transparece que quer algo mais que namoro e Rosinha, sem forças para resistir aos beijos recheados de intenções, procura Sônia, a melhor amiga.
André, insistente, também conhece Sônia, a quem pede ajuda para conseguir o troféu. Ela deverá aconselhar a namorada a entregar a virgindade e, em troca, André a emprega na loja. Rosinha, inocentemente, se aconselha com a amiga, sem reconhecer a trama armada.
— Sabe Sônia, acho que perderei André  ¬ e confia o pedido do rapaz.
— Pois se entregue mesmo, deixe de ser boba, se não o fizer, ele te larga. Homem é assim mesmo — aconselha Sônia.
Naquela noite, Rosinha pouco dorme e quando o faz, sonha com as mãos de André em seu corpo, os beijos quentes e acorda suada. Amanhece decidida a entregar-se a André. À noite, se dirigem a uma esquina escura, perto da casa da moça e, dentro do carro, Rosinha deixa a inocência e entra na maturidade. Passam a sair diariamente e, como esquecem as precauções, a moça engravida.
André, homem maduro, já esperava isso e se dispôs a ampará-la. Rosinha aceita a ajuda, mas quando o jovem fala em casamento, declina e explica que a vida de casada não está nos planos. Com 27 anos, a moça considera a gravidez fora de hora, determinante para sepultamento do projeto de vida. Culpa-se e sofre em silêncio. Os olhos baixos refletem sua melancolia. André formou outra família e a visita três vezes por semana. Quando juntos, a leva para o quarto e a submete da mesma forma de quando a conheceu, na esperança de recuperar a moça brejeira e alegre.
— Gostaria de terminar a relação. Tenho 27 anos e estou presa a este homem — baixa a cabeça, parece envergonhada. — Só faço sexo porque ele quer, não sinto nada. Depois, fico feliz. Feliz porque terei três dias de folga antes que ele me procure novamente — pensativa, o olhar caído, a fala baixa. — Um dia refaço minha vida. Na verdade, nem vivi ainda. Saí da opressão de papai e caí na de André.

domingo, 18 de agosto de 2013

ENCONTRO

(Google-Imagens)
“Bela, suave, olhos castanhos e o jeito de menina que me cativou imediatamente.” O momento exato da ocorrência do amor é dos maiores mistérios da humanidade. Na rua, no ônibus. No sinal de trânsito fechado ao ver o carro ao lado. Em instantes, tudo é observado, o olhar, o sorriso, o movimento de cabelos. Pronto, aconteceu. Nasceram um para o outro. Conforme os poetas, em coração aberto o amor entra sem bater.
Assim acontece com o jovem da história. Ela na parada de ônibus do SESC da 505 sul entrando em um taxi e ele preso no engarrafamento colossal da avenida W3 em um dia de setembro com dez por cento de umidade relativa e temperatura beirando trinta graus. Valdir baixa o vidro escuro do Gol e comenta algo ao  taxista. A resposta nem percebe, importante é a jovem que consulta nervosa o relógio sentada no banco de trás. O coração dispara.
Com o trânsito parado, sai de seu carro, abre a porta do taxi e senta ao lado da moça, sob protestos do profissional. Ela reage timidamente ao interlocutor audacioso. Pergunta o nome e ela fala o primeiro que vem a cabeça, o mesmo usado na internet quando prefere ficar anônima, Alice. Depois de uns quinze minutos de conversa, o trânsito recomeça a andar e Valdir oferece carona. Confere as horas, admite estar atrasada e aceita a oferta. Fala da prova na UNB enquanto o rapaz paga o taxi e a conduz pelo braço a seu carro, que a estas alturas, atrapalha o trânsito que flui normalmente.
A conversa segue fácil até a Universidade. Para Valdir a entrevista de emprego está perdida e o rapaz gentil se prontifica a levá-la de volta. A jovem aceita, abre a porta do carro e desce correndo rumo ao prédio da Filosofia.
Após rodar um bocado atrás de vaga, Valdir, retorna ao local onde deixou Alice e espera por quatro horas, tempo suficiente, acredita, para o término da prova.  A moça não aparece e ele se desloca ao prédio do curso. Solicita informações. O pouco que sabe é insuficiente para garantir novo encontro. Constata que Alice não consta na relação de alunos. No caminho de volta, se culpa por perder a oportunidade de pedir o telefone, endereço, qualquer coisa.
No outro dia e por um mês completo, deparou-se a espiar o local do primeiro encontro. Até hoje, lá vão dez anos, ao passar a parada de ônibus do SESC, onde a viu pela primeira vez, a procura entre os pedestres.
Na época, trocou o curso de Engenharia do Uniceub pelo da UNB. Completou o curso de Filosofia, o mesmo da jovem. Casou, teve dois filhos. Hoje, separado, declara aos amigos que só casa novamente se for com Alice.
“Até as pedras se encontram!” – Afirma e explica. “Meus pais se conheceram em um aeroporto na Europa, ambos em conexões”.

sábado, 26 de janeiro de 2013

LUTA E PAIXÃO

(Google-Imagens)

Na década de sessenta, o bairro da Tristeza em Porto Alegre tinha estacionamento de sobra, não existiam azuizinhos nem parquímetros e o compromisso de namoro começava a partir da primeira pegada na mão da guria. Os dias eram longos e quando a meninada queixava, aparecia algum adulto e mandava comprar meio quilo de pão no armazém Veranópolis, da Wenceslau Escobar. E foi assim, que numa tarde de primavera em que o sol se derramava pela grama do quintal que conheci o significado real do amor.
                        Éramos um grupo de amigos inseparáveis. Guris e gurias, crescidos juntos, como irmãos, desde os cinco, seis anos de idade. Brincávamos sem maldade, sem cobiça, pulando cordas, andando de bicicletas, pescando na orla do Guaíba ou empoleirados em trilhas aéreas montadas nas matas nativas. Nossos pais trabalhavam no centro da cidade e deixavam a gurizada nas mãos dos avós que, atordoados, se desdobravam a fazer bolinhos e doces para enriquecer as proteínas do café das cinco. Assim ficávamos entretidos e esquecíamos as brincadeiras na beira do Guaíba, preocupação crescente dos pais.
                        As manhãs eram ocupadas pela ida a escola e a tarde, após as horas obrigatórias dedicadas aos deveres de casa do Grupo Escolar Três de Outubro, partíamos para brincadeiras das quais participavam garotos e garotas. Vez por outra, entrávamos em crise e as isolávamos. Logo nos arrependíamos. As brincadeiras inventadas pelas meninas, eram mais animadas.
                        Assim crescíamos, éramos vizinhos, irmãos, amigos.
                        Mas a infância foi embora. A adolescência chegou com as primeiras penugens no rosto dos meninos e o uso de pinturas nas faces e cabelos em rabos de cavalo pelas meninas. Os primeiros sinais de seios apontavam por debaixo das camisetas.  Vieram os primeiros bailes no Tristezense e Clube Comercial. Misturávamos Coca-Cola com rum e tomávamos Cuba Libre (mais Coca-Cola menos rum) e curtíamos reuniões dançantes ao ritmo de YE-YE-YE.
                        Assim, ela e eu crescemos. Ela pouco mais velha, 16 e eu 14 anos. Aos poucos tornou-se a musa platônica. Curtir aquela paixão adolescente e solitária me satisfazia. Nunca teria coragem de me declarar. O irmão dela, um grande amigo. Morávamos em casas de frente. Ao ficarmos a sós, sentia-me pouco a vontade, inseguro, tremia sem assunto. Hoje até penso que ela pressentia o desassossego. Certo dia aconteceu o princípio do fim da inocência. Eram cerca de cinco da tarde. Estávamos sós no quintal da casa dela onde costumávamos brincar de lutas, nas quais nunca houve vencedores, apenas micuins da grama coçando o corpo. Não havia malícia nas lutas. Era apenas uma etapa a preencher o longo dia de brincadeiras. Nesta tarde, não a deixei vencer. De repente, como tudo que acontece na vida, um golpe viril, inexplicável, mas com delicadeza, deitei-a na grama e imobilizei. Os rostos distantes dez centímetros um do outro.  O tempo que passamos assim, não consigo precisar. Bastaram alguns minutos e estabeleceu-se a cumplicidade.
                        Nenhum de nós queria apartar. O corpo dela, aquecido junto ao meu retorcia na luta entre afastar e manter onde estava. Nossos ventres em fogo me desconcertava e ali, naquele instante infinito, congelei o tempo e perdi a vontade de levantar. Ficaríamos assim eternamente, não surgisse a mãe dela no jardim. Levantei rapidamente, bati a grama que grudara nas pernas e, deixando-a livre, corri para casa. Entrei no quarto, chaveei a porta e pulei na cama de bruços, o coração na boca, os braços dobrados por baixo do corpo. Desconhecia porque estava assim. No peito um vulcão me consumia.
                        Fiquei inerte, prostrado. Alguém bateu à porta. Era ela. Demonstrava preocupação. Perguntou o que houve. Não abri. “Machucou?”. Fiquei em silêncio esperando que fosse embora. Sentia-me fraco, sem forças. Seu perfume me inundava e por mais que quisesse levantar da cama, o corpo desobedecia. Na verdade, esperava que o turbilhão que assolava meu interior, permanecesse indefinidamente. Nada se comparava aquilo e desejava curtir cada segundo. Respondi com a voz rouca, tremida, baixa. “Hein?” Fraquejei. A voz calava antes de sair. Ela exigia resposta. Gritei forte, rude, secamente “nada, não aconteceu nada”. E esperei que me deixasse só, livre para sonhar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A ETERNA BUSCA

(Google Imagens)

Apesar das inúmeras cobranças de parentes, de ser considerada final da fila pelos amigos e dos sete anos de namoro, Bete permanecia convicta de que casamento é coisa séria, decisão a ser tomada de cabeça fria e amor no coração. Antonio ao contrário, desejava o matrimônio desde os dois primeiros anos. Achava que conhecia Bete suficientemente e isto garantiria relação prazerosa. Nem imaginava que, apesar de gostar muito, a moça desacreditava que a relação fosse dar certo.
O casamento aconteceu e, ao final da primeira semana, apareceram os estranhamentos. Calcinhas e toucas penduradas no box do banheiro e, em cima da pia aparelhos e cremes de barbear e toalha molhada amontoada sobre o vaso sanitário. Objetos fora de lugar que no inicio nada representavam,  passaram a ser os motivos de rusgas.
Dos seis anos de casamento, cinco foram de calmaria e entendimento. Inclusive nos gastos, até porque viviam do salário de Antonio. Precisavam economizar e as despesas eram milimetricamente calculadas. Preferiam assistir filmes em casa a sair com amigos. As sessões de cinema precediam intensos momentos de amor, única diversão intensa do casal que, apesar disto, nem pensava em filhos.
Bete classificou o casamento como troca de dependência : de cuidada pelos pais, passou a ser pelo marido. Fez psicoterapia e mudou a forma de encarar e assim entendeu as atitudes de Antonio que a tratava como “companheira do lar”.
No último ano, as diferenças apareceram gritantes. Ela passou a se queixar de que o marido tinha um gênio difícil e problemático e algumas atitudes a deixaram chateada ao ponto de iniciarem o rompimento, permanecendo dias sem trocarem palavras.
Cada um com seus motivos, quando estavam em casa, passaram a se  comunicar com “amigos” da internet. Permaneciam muito tempo em frente a telinha a teclar com desconhecidos em confidências acaloradas que certamente, ambos entendem hoje, só serviram para distanciá-los.
Ao final, fizeram uma trégua e desfraldaram a bandeira branca e a relação tumultuada deu lugar a convivência amigável, quase de irmãos. Como não era isto que pensavam para a relação a dois, Antonio resolveu sair com  alguém que conhecera num site de relacionamento. Bete, estranhando o pouco interesse, chamou-o para conversar e concluiu após vasculhar o celular do marido ao esquecer para tomar banho, “homem é covarde, faz de tudo para a mulher pedir separação”.
Os procedimentos de desenlace demoraram nove longos meses, período que Antonio classificou de “muito sofrimento”, principalmente porque o pai, que adorava a nora, segundo ele, morreu em decorrência do “desgosto”.
Bete durante o processo de separação se consolava chorando pelos cantos do apartamento vazio e o hábito de assistir filmes, uma das poucas diversões, finalizou melancolicamente ao assistir “Quando a Amor Acaba”, onde gastou as últimas lágrimas. Sozinha, perdeu o interesse em alugar novos títulos.
Filha de pais rígidos, durante o período que permaneceu casada, Bete seguiu a risca a educação paterna, imitando a disciplina herdada. Desde o inicio queixava-se da visão financeira do marido da qual divergiam seriamente. Conheceram-se e casaram em São Paulo e mudaram para Brasília, onde Antonio passara em concurso público.
Na capital, tiveram a primeira oportunidade de convivência sem interferências da família. E foi quando as rusgas aconteceram. Por ficar longo período sem trabalho, Bete pediu cartão adicional da conta salário do marido e nunca o perdoou pelas negativas ríspidas, batidas de porta e silêncio com relação ao assunto. Mais do que para proveito próprio, entendia como uma espécie de segurança para o dia a dia caso ocorresse algo, um acidente ou coisa semelhante deixando-o impossibilitado de passar senhas confidenciais.
Antonio também apresentou queixas financeiras. Quando a mulher passou a trabalhar, solicitou que dividissem as despesas e ela negou, alegando que ganhava pouco, portanto, ele deveria arcar com tudo sozinho.
Bete sempre detestou demonstrar fragilidade e, nos momentos de solidão no apartamento, procurava pensar com otimismo. Aprendeu com ensinamentos de avós japoneses que “na vida os sábios devem ouvir mais e falar menos”. Tem receio de se mostrar e se considera autocrítica e perfeccionista.
Olha pela janela e pensa na juventude. Lembra ser a responsável pela conquista de Antonio e, apesar dos pesares ainda o ama. Mas se ele quiser voltar, não pensa duas vezes “não o quero mais, ficou a experiência negativa de um sonho desfeito a dois”. A mágoa da relação é acreditar que perdeu treze anos de vida. “No final, tanto investimento emocional para nada”, desabafa.
Nem tudo se perdeu para Bete, muitas coisas significantes aconteceram e reconhece “... a relação me trouxe a Brasília, onde conheci muitos amigos e iniciei o processo de independência financeira de minha família”.
Ambos, separadamente, procuram caminhos. Bete dentro de si mesma, abrindo-se a novas relações, conquistando amigos, saindo e dançando. Entre os dois, as conversas escasseiam, não há pontos em comum, pois Antonio está em nova relação e a mulher espera um filho. Por duas vezes encontraram na rua e preferiram passar um pelo outro sem conversar.
Na verdade, procuram relações que espelhem aos pais, que consideram modelos de parcerias. Nada mais errado. São gerações diferentes e o que serve ao homem e a mulher de hoje, certamente se diferencia dos pais.
Os jovens casais buscam nova forma de ambientação para a vida a dois, pois com tantas possibilidades de relacionamentos e tecnologias de redes sociais a disposição, é impossível permanecer isolados. Manter-se conectado o tempo todo conduz jovens casais a pseudo plenitude de relacionamentos virtuais que, mal administrados, passam falsa sensação de completude emocional e de estarem rodeados de pessoas, quando na verdade estão sós.  
As redes sociais, que deveriam cumprir um papel secundário nas relações apenas para comunicação, se tornam um fim em si mesmo, facilitando, apresentando e descartando estranhos.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

RESGATE IMPOSSÍVEL

(Google Imagens)

Élida visita a mãe semanalmente às segundas-feiras, dias de plantão do marido e acaba ficando até o cair da tarde. Os filhos adolescentes sabem se virar, permitindo que espere o marido que a pega ao final do trabalho. Certo dia, ao descer do ônibus, percebeu que um carro a seguia de longe e, a partir daí observou que toda semana estava lá novamente. Sentia-se vigiada e, como era de temperamento decidido, resolveu encarar o problema de frente. Aproximou-se e teve um choque ao perceber que era Francisco, ex-namorado da adolescência. Percebendo-se reconhecido, o rapaz saltou do carro sorrindo.
            – Você continua bonita – Francisco apresentava os cabelos grisalhos e as rugas em volta dos olhos adornavam a aparência madura e viril. Élida tremeu ao reconhecer a voz de tantas juras de amor ditas nos cinemas e bailes da juventude.
            Namoraram quando ambos tinham dezoito anos e sempre às escondidas, pois seu pai cultivava  profunda antipatia por Francisco. O namoro foi de calorosos beijos que plantaram a semente do desejo e manteve acesa a chama por tantos anos. Os corpos lembravam-se um do outro e Élida imaginou-se novamente adolescente e curiosa quanto aquele sentimento, há muito adormecido.  E dominou a vontade de se jogar nos braços do homem.
            – Os cabelos brancos lhe fazem bem. – aproximou-se o bastante para perceber o perfume e lembrar o quanto este odor a atraía. O cuidado de usar a mesma fragrância fora meticulosamente estudada por Francisco.
            – O rabo de cavalo que está usando me transporta para nossa adolescência – Francisco falou timidamente, referindo-se ao modo displicente que Élida prendera os cabelos com uma liga. A mesma timidez velha conhecida da moça e que a frustrou nos planos de tornar-se mulher com este grande amor de sua vida – Fazem três meses que rondo o endereço de sua mãe e resolvi esperar o momento certo para falar contigo. Sei até onde mora.
            – Mamãe nunca quis mudar daqui. Agora que papai morreu, quem sabe – Comenta a moça querendo apenas disfarçar a pretensão de aproveitar ao máximo a oportunidade de terem uma relação que recupere o perdido na adolescência.
            – Casei e fui morar no Espírito Santo – Francisco falou se desculpando – Olha – abriu a carteira e retirou a foto dela jovem. No verso, uma dedicatória apaixonada. A lágrima rolou pelo rosto da moça, emocionada ao descobrir o amor que o homem lhe dedicava há tantos anos. – entendeu que o casamento foi o motivo que o fez desaparecer de sua vida.
– E você a guardou por todo deste tempo? – A sinceridade do rapaz a sensibilizou e chegou-se ainda mais perto.
– Tenho todos os bilhetes que me enviou.
Trocaram endereços de e-mails e iniciaram intensa correspondência. Falavam por telefone frequentemente, por vezes até três ligações diárias. Nos dias que visitava a mãe, tomavam café numa cafeteria perto da casa. E Élida precisou de um mês para convencer o rapaz, até que certo dia, combinaram um encontro mais íntimo. Falou à mãe que chegaria depois do almoço e rumou para um motel com Francisco, onde realizaram o sonho iniciado na adolescência.
Élida sentia-se feliz em encontrar o homem da juventude. Observou que sentimentos e corpo ainda respondiam aos anseios da paixão. Durante todos estes anos, sempre lembrava Francisco e lamentava que nada acontecera entre eles, numa época de tanta repressão com as mulheres. Pretendia agora permanecer assim mesmo, sem compromissos para encontrarem-se e transformar a vida que definia sem graça em algo colorido.
Ao contrário da moça, logo após o primeiro encontro, Francisco caiu em depressão profunda e, mesmo com toda participação amorosa, sentia-se muito mal. Nunca fora infiel a mulher e, mesmo que a paixão entre eles fosse fria, uma amante o deixava abalado e receoso. Temia por sentir tanto amor, coisa que há anos amortecera confinado a ritos religiosos. Como evangélico, preparava-se para ser pastor e a continuidade da relação poderia lhe custar muito. Ao notar que Élida queria apenas curtir momentos, Francisco desiludiu-se e esfriou a relação, afastando-se sem explicações.
Élida notara a frieza do. Haviam saído apenas uma vez e percebeu a insegurança do rapaz. Na hora da relação, teve que acalmá-lo com palavras de conforto e amizade. Após duas semanas se esquivando dela, combinaram um café num shopping e soube da voz de Francisco o quanto a relação mudara a vida.
Encontrar um amor do passado pode ser algo muito bom, mas se as intenções forem a de resgatar algo, pode se tornar num grande problema e Élida, que pretendia apenas ter alguém para momentos de amor, entendeu que o rapaz pensava bem diferente. Francisco alimentava pela moça a grande paixão que o reencontro aflorou.
– Após casar, Élida, nunca beijei outra mulher, o que dizer ter amante. Não dou conta disso. Até gostaria de te encontrar, mas não posso. Muito me arrependi de te seguir e entrar em contato.  – Francisco estava visivelmente transtornado.
            Mas a mulher ainda tinha esperança de continuar a viver esta paixão, sentia-se adolescente e renovar estes sentimentos lhe fazia bem. Naquela noite, a última que viu Francisco, Élida notou que um carro passou várias vezes na madrugada em frente sua casa.
            Quando o dia amanheceu, ligou para Francisco e ouviu a mensagem da operadora:
ESTE NÚMERO NÃO EXISTE, POR FAVOR TENTE NOVAMENTE.