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terça-feira, 25 de agosto de 2015

A VIÚVA

(Google Imagens)
Acorda cedo. É dia de faxina, dia de separar as roupas para a máquina de lavar. Coloca a água para ferver. Adora passar café fresco, principalmente o da manhã. Em pouco tempo o cheiro forte invade a cozinha e a faz recordar o amante da juventude. Na época, era uma jovem viúva com quatro filhos. Tinha trinta e dois anos. Ele dezoito, estudante universitário. Encontravam-se furtivamente em sua casa, onde conversavam e transavam a tarde inteira. Antes dele partir  para a universidade, preparava um bom lanche para alimentar o jovem.
É interrompida pela campainha. Abre a porta. É Bené, a faxineira barulhenta, que dá bom dia e se encaminha ao quarto de serviço.
Gostaria de ter o amante ao lado, pelo menos mais uma vez. Balançou a cabeça para espantar os pensamentos, foi à cozinha e tomou o remédio da pressão. Seria o odor de café que acordara sua memória? Ao ver o calendário, identificou o motivo. Faziam vinte anos da morte do filho, melhor amigo do jovem amante. A lembrança provocou a lágrima que rolou pela face lisa e branca. Teve grandes perdas, sendo a primeira o marido que perdera jovem para uma doença terminal, deixando-a com quatro filhos.
O amante também foi perda difícil de enfrentar, mesmo sabendo ser amor impossível. Logo depois da formatura, o jovem casou com a namorada e mudou de cidade, deixando pais e parentes para trás. Sentiu vontade de confessar os sentimentos a alguém. Falar sobre esse amor que nascera com data de validade. Foi até a área de serviço, mas descartou conversar com Bené, que cantava um funk nada atrativo. Voltou à cozinha. O jovem havia sido o segundo homem, quando recém completara três anos de viuvez. Até a morte do marido, recordava-se em detalhes de como fora feliz. Uma relação sem espaço para brigas que terminou inesperada. Uma manhã de domingo, o companheiro sentiu fortes dores, foi ao hospital e lá ficou.
Enquanto toma café, consulta o Faceboock. Entra no perfil do amor da juventude. O que estaria fazendo? Com quem viveria? Estaria casado? Teria filhos? Que mais? Não lembra. Foi ao quarto, abriu a gaveta do criado mudo e pegou, com cuidado exagerado, o binóculo de teatro. Recebera de presente do rapaz, no dia que completaram um ano de convívio.
No dia anterior, o avistara chegar para a visita mensal aos pais, seus vizinhos. Ficou tão nervosa que não encontrou o aparelho de aproximação. Agora o deixaria no móvel da sala. Toda vez que vinha, ele passava a pé pela frente da casa dela. Desconfia que estacione o carro propositalmente de forma a ser visto. Será que se lembra das tardes passadas juntos? Agora de binóculo, iria aproximá-lo para junto dela.
Da cozinha, a empregada pergunta qual sua idade. Ouve, olha com impaciência para o teto e pensa: “...tenho oitenta, mas...”
— Tenho trinta, Bené, trinta e dois anos — responde com sorriso.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A MENINA QUE SE FEZ MULHER

(Google - Imagens)
Rosinha é menina esperta e aos treze anos, entendendo as dificuldades do pai para financiar as despesas, decide trabalhar. Distribui currículos em lojas, shoppings e supermercados, e em pouco tempo coleciona ofertas de emprego. É contratada como vendedora em barraca de peças íntimas, na Feira dos Importados. Como exibe silhueta torneada, esbanjando inocência e sensualidade, se permite o uso de vestes provocantes e maquiagem arrebatadora, como as atrizes das novelas. Da menina que lidava com bonecas e brincadeiras infantis, desabrocha a mulher esbelta exposta à cobiça.
André é mais um a interessar pela menina. Homem feito, 22 anos, casado e proprietário da barraca em frente, reconhece a magia da moça. Rosinha percebe o interesse do rapaz e, decidida a resistir, apenas alimenta sua inquietude sem transparecer interesse. Esperta, identifica nele a maturidade e independência que aos outros faltam.
— Aposto que é virgem — comenta André com o amigo, que comparece diariamente e faz do endereço mirante de observação.
De lindo sorriso, resiste bravamente aos mais ousados convites e continua a mostrar calcinhas, sutiãs e roupas sensuais, alimentando a volúpia dos clientes masculinos. Um dia, Rosinha recebe buquê de rosas com cartão escrito “Te quero. Não desistirei de você. André”. As pernas fraquejam e um calor sobe pelo ventre juvenil. A partir daí passa a reforçar o perfume e brinda o rapaz com belo sorriso.
A oportunidade para André surge no mesmo dia. Uma greve de ônibus. O rapaz se oferece para levá-la em casa e, a partir daí, passam a namorar. Sutilmente, o rapaz transparece que quer algo mais que namoro e Rosinha, sem forças para resistir aos beijos recheados de intenções, procura Sônia, a melhor amiga.
André, insistente, também conhece Sônia, a quem pede ajuda para conseguir o troféu. Ela deverá aconselhar a namorada a entregar a virgindade e, em troca, André a emprega na loja. Rosinha, inocentemente, se aconselha com a amiga, sem reconhecer a trama armada.
— Sabe Sônia, acho que perderei André  ¬ e confia o pedido do rapaz.
— Pois se entregue mesmo, deixe de ser boba, se não o fizer, ele te larga. Homem é assim mesmo — aconselha Sônia.
Naquela noite, Rosinha pouco dorme e quando o faz, sonha com as mãos de André em seu corpo, os beijos quentes e acorda suada. Amanhece decidida a entregar-se a André. À noite, se dirigem a uma esquina escura, perto da casa da moça e, dentro do carro, Rosinha deixa a inocência e entra na maturidade. Passam a sair diariamente e, como esquecem as precauções, a moça engravida.
André, homem maduro, já esperava isso e se dispôs a ampará-la. Rosinha aceita a ajuda, mas quando o jovem fala em casamento, declina e explica que a vida de casada não está nos planos. Com 27 anos, a moça considera a gravidez fora de hora, determinante para sepultamento do projeto de vida. Culpa-se e sofre em silêncio. Os olhos baixos refletem sua melancolia. André formou outra família e a visita três vezes por semana. Quando juntos, a leva para o quarto e a submete da mesma forma de quando a conheceu, na esperança de recuperar a moça brejeira e alegre.
— Gostaria de terminar a relação. Tenho 27 anos e estou presa a este homem — baixa a cabeça, parece envergonhada. — Só faço sexo porque ele quer, não sinto nada. Depois, fico feliz. Feliz porque terei três dias de folga antes que ele me procure novamente — pensativa, o olhar caído, a fala baixa. — Um dia refaço minha vida. Na verdade, nem vivi ainda. Saí da opressão de papai e caí na de André.

domingo, 14 de outubro de 2012

COINCIDÊNCIA OU DESTINO?

(Google Imagens)

Rodrigo chegou à frente do túmulo do pai, abaixou-se e naquele areão de pedras e barro que se transformou o cemitério de Luziânia após as chuvas de fevereiro, estilizou com o dedo a figura de um homem. De longe, Canindé percebeu a solidão que massacrava o rapaz. O vento frio e as nuvens escuras anunciavam a chegada do outono.
Na época dos acontecimentos, Canindé realizava trabalho com jovens infratores em um centro de reabilitação de Brasília dedicado a recuperação de delinquentes. Um trabalho difícil e perigoso, que o psicanalista executava com esmero e dedicação, voluntariamente. Rodrigo, o desenhista da tumba do pai, era especialmente o mais violento da instituição, sendo tratado como monstro.
– Sem recuperação, matou o próprio pai – comentou a assistente social ao apresentar a ficha do infrator.
Mesmo após os comentários desanimadores e o exame da extensa ficha criminal, o analista acreditava contribuir para a recuperação do jovem. E foi com este raciocínio que aceitou, entre tantos menores menos devastados psicologicamente, ajudar o que matou o pai.
Eram quatro horas da tarde de uma terça-feira, quando foi apresentado a ele no refeitório. Menino mirrado parecendo contar dez anos, na verdade tinha dezesseis. Olhar parado e triste, sobrancelhas arqueadas e um sorriso de canto de boca, como que fazendo coro com o ar melancólico e tímido. Nem de longe a aparência fazia jus à fama. Esticou a mão para apertar a dele e teve a sensação de amassar seus ossos caso forçasse. Com a mão presa pelo terapeuta, encarou-o esperando que evitasse o olhar firme, mas como recebeu o sorriso experiente do profissional, desviou-se para mirar a rua. O terapeuta sentiu empatia pelo adolescente e, naquele rosto infantil com rugas precoces no canto da boca, percebeu semelhanças com o próprio filho.
– Minha ficha é longa – falou o rapaz, fazendo referência a passagem pelo crime desde tenra idade. A reação de Canindé foi calcada nos anos de experiência lidando com delinquentes juvenis.
– Ah é? – respondeu sem dar relevância.
Você não tem medo, cara? – Apelou tentando nova forma de se apresentar, firme e ameaçador.
– Meu nome é Canindé e sou psicanalista. Fui designado para atendê-lo – falou sem desviar o olhar.
– Só aceito conversar lá fora – chegou a janela e apontou – Lá. – Canindé se aproximou e avistou no outro lado do pátio da instituição, uma frondosa árvore a espalhar sombra acolhedora. O jovem demonstrava aceitar o atendimento, desde que em ambiente escolhido por ele. Fazia de tudo para desestabilizar o terapeuta.
– Amanhã e toda quarta-feira às dez horas conversaremos embaixo da mangueira – encerrou a conversa, apertou a mão da assistente social, despediu-se do rapaz e saiu apressado pela porta do refeitório.
Antes dele, outros dois especialistas em comportamento iniciaram um tratamento com o rapaz e, rechaçados nas primeiras sessões, desistiram.
Os encontros entre Canindé e Rodrigo aconteciam sempre às dez da manhã, embaixo da mangueira como exigiu. Aos poucos, o rapaz se abria e falava abertamente. Sua fala era pesada, quase gutural. Às vezes trazia chicletes e os mastigava nervosamente de queixo erguido, demonstrando arrogância que mascarava a própria fragilidade. Foram quatro meses de trabalho em conjunto, em um aprendizado muitas vezes orientado pelo próprio analisando. Para ajudar Canindé deveria também aprender.Pelo olhar, gestos, falas e emoções.
O pai do menor era alcoólatra e diariamente chegava a casa esbravejando e, sem motivo, batia duramente na mãe. Após as constantes sessões de tortura, a mulher abraçava a Rodrigo, que era o filho mais velho e chorava copiosamente. Muitas vezes ele percebia o sangue que brotava dos ferimentos e assim, misturando as lágrimas e o sangue da mãe aos seus, alimentava profundo ódio ao pai. No decorrer das sessões, Canindé observou a origem do instinto criminoso do rapaz. O assassino estava sendo forjado ao assistir as surras sofridas pela mãe, seguidas pelos abraços ensanguentados e choros convulsivos.
A uma das sessões escolheu a imagem de quando contava apenas cinco anos. Nela, a lembrança do pai aplicar a maior de todas as surras neles e recordou, em meio à lágrimas e ódio, o agressor sair porta afora e desaparecer por dez anos.
Começou então uma fase de aparente calmaria naquela casa e, dos cinco aos quinze anos de idade, a raiva ao pai, transformou-se em profunda sede de vingar a mãe, só amortecida pela ausência do algoz. Um dia o inferno voltou a rondar e o pai retornou barbudo e maltrapilho. Na primeira noite, comemorando o retorno, bebeu todas e aplicou nova surra nos dois.
Recém introduzido na adolescência, ainda com penugens no rosto, o adolescente colocou as mãos na cabeça e exclamou desanimado “meu Deus, vai começar tudo de novo.”
Após o massacre, abraçou-se a mãe e da mistura dos rostos ensanguentados, ressurgiu o ódio que o cegou. Correu ao quarto e voltou munido do revólver calibre 32 do irmão e o apontou para o pai que ria com a  idiotice dos embriagados. Anestesiado pela cachaça, sem um gemido, o homem tombou varado por cinco tiros desferidos pelo filho, que naquele momento inaugurou a desastrada vida adulta. Mal teve tempo de correr a esquina e foi pego pela polícia e recolhido a instituição de menores infratores.
Contou tudo de supetão após Canindé oferecer a segurança da ajuda.
– Não te preocupe. Ninguém conhecerá o conteúdo do que falarmos. Você está sob sigilo profissional.
– Posso pedir algo? – sussurrou o menor olhando para os lados.
– Claro, porque não? – o analista se dispunha a atender o que ajudasse o tratamento.
– Quero visitar o túmulo de meu pai – Canindé num primeiro momento ficou desconcertado, mas logo entendeu o que se passava. O analisando precisava enterrar o passado e seus fantasmas. Mas era preciso cuidado.
– Faça o seguinte, pense nisto uns dois dias e falaremos novamente – Sair dali com aquele menor poderia ser uma operação de alto risco, pois o rapaz estava jurado de morte pelos irmãos. Além do mais, nada garantia que uma vez na rua, não empreendesse movimento de fuga.
O terapeuta queria tempo para pensar.
            Naquele mesmo dia procurou o diretor da instituição e obteve a primeira negativa. Começou uma peregrinação pelo sistema prisional e, após muitas alegações, conseguiu um mandado judicial assinado pelo juiz da Infância e Adolescência, dando direito e responsabilidade a conduzir o infrator. Em conjunto com a direção do Centro, marcou a data de saída.
            No dia combinado, ao chegarem ao cemitério, rumaram diretamente a tumba, localizada no dia anterior por Canindé que, previdente, queria evitar perambular pelas alamedas arriscando o reconhecimento do menor infrator por qualquer pessoa.
            Rodrigo continuava fazendo desenhos no barro e, pressentindo a chegada do terapeuta, pos-se de pé. Emocionado, ombros e braços caídos, o rapaz estava desolado.            
Canindé o abraçou ternamente e percebeu a fragilidade física e emocional. Rodrigo, então arrogante e imaturo, desmanchou a carapuça e chorou sacudindo os ombros em longo desabafo. Naquele momento, Canindé percebeu que o luto se completou. Após atirar no pai, Rodrigo foi preso e impedido de participar das cerimônias fúnebres. Permaneceu apenas o vazio e era preciso resgatar. A falta de acompanhar o velório e os demais procedimentos formaram um imenso vazio que agora se preenchia.
– Canindé, – perguntou o menor virando o rosto – queria fazer outra pergunta muito importante, agora do lado profissional – e assumiu um ar sério, maduro.
–Claro, Campeão – havia intimidade entre o psicanalista e o jovem.
– Meu pai matou meu avô, será que isto acontecerá comigo?
– Como assim? Não entendi. – Canindé se fez de desentendido.
– Meu pai matou meu avô e eu matei meu pai. Será que meu filho me matará?
Rodrigo hoje cumpre pena sob regime semi-aberto, frequenta o sétimo semestre de Direito e estagia no Ministério Público.