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sábado, 3 de outubro de 2015

PACIENTE REBELDE

(Google Imagens)
Tenho um grupo de amigos cujo início da amizade vem do período 1974 a 1983, quando as instalações de computadores engatinhavam. Formávamos, no órgão onde trabalhávamos,  a equipe responsável pela implantação de sistemas de informática pelo Brasil.
Os anos passaram, trocamos de emprego, envelhecemos e perdemos contato. Há três anos montei um grupo Whatzap e resgatei um a um. Hoje conta com vinte pessoas e vez por outra reúne. O encanto desses encontros é o autoconhecimento. Ouvir comentário sobre si possibilita saber quem somos, pela visão do outro. Entre os colegas, cabe destaque ao Hélio, com seu permanente bom humor. Agora mais gordo, de bem com a vida, brinda a mesa com natureza aguçada e presença assídua.
A cada reunião muitas novidades. Nem sempre boas. As vezes se pergunta por alguém e é anunciada a temida partida. Mas Hélio trata esses percalços com brincadeiras e, na maioria das vezes o assunto vira conversa agradável, ao recordar cenas pitorescas do falecido. Aliás, a memória do Hélio é prodigiosa, chega a ser perigosa, quando se fala de relembrar fatos.
Hélio tem a capacidade de transformar acontecimento difícil em agradável, como a seguir descrevo, com sua permissão, claro.
Certa feita, Hélio amanheceu com fortes dores no peito. Cabe esclarecer que andava acima do peso, fumava quatro carteiras de cigarro por dia e tomava generosas doses de pingas e cervejas. “São hábitos saudáveis em qualquer idade.” E a comida? “Torresmo e churrasco de carne gorda, que carne magra é dura”. Tirando o cigarro, todo o resto pratica com assiduidade até hoje.
A família espera dois dias e como as dores só pioravam, a dedicada escudeira, Bela, a esposa, chama a emergência. Já no hospital, o médico consulta os exames e constata enfarto. “Sala de cirurgia já”. É submetido a intervenção e após a  UTI. Todos os dias, no horário de visitas, a filha dá plantão ao lado do pai e só sai quando a segurança mostra o relógio na parede. No terceiro dia, ao chegar, nota o pai triste. Pergunta como está.
— Péssimo — responde. Pergunta por quê.
— Fome — responde mal humorado. —Um buraco aqui ó... — e coloca a mão na barriga. — Preciso urgente comer algo sólido, senão morrerei de inanição —  A nutricionista que passa no corredor, ouve a conversa e fala que prescreverá canja magra, sem sal, para aquela noite. Desanimado com o alimento insosso, o relógio marcando as horas sem fim e a leveza da filha pegando sua mão, adormece.
Acorda sobressaltado, mas decidido. Sussurra instruções ao ouvido da moça, que ainda tenta  argumentar. Como conhece o pai, acaba cedendo.
—  Tá bom, vou buscar!
Pouco depois, volta com pacote na bolsa, fecha as cortinas do box da UTI, abre o embrulho e dá o conteúdo ao pai, que devora rapidamente.
Passaram-se alguns minutos e abrem-se as cortinas. Era a atendente. Instala a mesa portátil, coloca a canja sob supervisão da nutricionista. Ele olha o prato com desdém.
— Como está se sentindo agora, senhor Hélio?” — pergunta.
— Maravilha. Agora estou ótimo — responde.
— Tá vendo? Aos poucos irei introduzir alimentos sólidos com tempero. Amanhã deverá ter alta da UTI e irá para o quarto.— fala sorridente
— A senhora não entendeu. Nem provei essa água turva porque isso não é alimento. Comi três coxinhas fritas com suco de laranja. Deliciosas —  e bate na barriga satisfeito.
A moça arregala os olhos e sai a procura do médico. Atrás dela Hélio acrescenta com voz forte:
— Catupiry, recheadas com queijo catupiry. Uma delícia.

domingo, 22 de dezembro de 2013

QUARENTA ANOS DEPOIS

(Linhares - Arquivo pessoal)
.“... Céu é o lugar poético onde estão guardadas as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. Falar "céu" é dizer "esperança de reencontro.” (Rubem Alves).


Final de ano é tempo de reencontros. Turmas de faculdade, de trabalho, de primeiro e segundo graus, de vizinhos, enfim, pessoas que conviveram de alguma forma têm a curiosidade de rever antigos companheiros e trocar informações sobre trajetórias de vida.
No dia vinte de dezembro ocorreu o reencontro com amigos do DENTEL - Departamento Nacional de Telecomunicações. Os anos de convivência foram entre 1974 e 1981, ainda durante o regime militar. Éramos funcionários de vários órgãos do Departamento, e fomos unidos pelo destino em torno de uma motivação desafiadora: implantar sistemas informatizados nos cadastros manuais. O trabalho hercúleo iniciou após um curso de formação na COBRA - Computadores Brasileiros S.A., no Rio de Janeiro.
Usando tecnologia atualizada, criei um grupo Whatzapp e iniciei o garimpo dos colegas. Em quatro dias contava com oito pessoas no grupo e o telefone de outros nove que não usavam o aplicativo. A partir daí, ficou fácil. O pessoal se mobilizou e o encontro aconteceu, totalizando doze participantes. Compareceram Moacir e Mali, Gelson e Divina, Hélio e Bela, eu e Malu, Marisa, Irani, Dioney e Helane. A tônica da conversa foram os anos de convivência, as atividades, as agruras e a superação de obstáculos.
Passagem por doenças, falecimentos de entes queridos e dores foram compartilhadas em irmandade, como se nunca houvéssemos nos separado. A vida encerrou-se prematuramente para três companheiros que poderiam estar presentes e que foram lembrados com respeito e amizade: o Nelson, o Deolindo e o Cláudio.
Na memória, momentos pitorescos, como as festas de São João em minha chácara, onde todos colaboravam. Em uma delas, o Deolindo responsabilizou-se por levar o aparelho de som. À meia-noite, cansados de esperar por ele, contratamos um sanfoneiro que além de bêbado, nada sabia de repertório junino. Tocava apenas uma melodia na sanfona de fole furado que mais soprava vento que som, mas possibilitou a animada quadrilha. Deolindo chegou no dia seguinte com o aparelho de som e passou o resto da tarde, tentando ligá-lo à bateria do carro. Após várias tentativas frustradas e duas baterias em curto, chamamos novamente o sanfoneiro e seguimos com a festa até o dia seguinte. Eram festas que geralmente varavam noites e os participantes dormiam em redes pela sala e varanda.
Para quem compareceu ao reencontro no restaurante Xique-Xique da Asa Norte de Brasília, a sensação é de que a vida, por mais difícil que seja, deve ser levada com alegria, pois se houve momentos penosos, também aconteceram os de contentamento. Após quarenta anos, este foi o primeiro reencontro do grupo. Com o sucesso, outros participantes virão e, com certeza, novas conversas a compartilhar.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

AMIZADE TEM LIMITES

(Google Imagens)

- Eram três da tarde quando cheguei ao apartamento de Zoraia.- conta Roberto enquanto senta na poltrona em frente ao amigo..
- Como a conheceu? – Pergunta Marinho. 
- Você não prestou atenção, mas tudo bem repito. Ainda casado e morando em São Paulo, diariamente Zoraia e eu corríamos no Ibirapuera pela manhã. Pura amizade. Um dia foi transferida para o Rio e montou apartamento no Leblon. Recebi o endereço por um torpedo e o convite para quando fosse ao Rio, visita-la. A chance apareceu quando separei da Maria. Precisava espairecer e aceitei a oferta. Agora entendeu? – perguntou Roberto.
- Claro, prossiga.
Se conheciam há mais de vinte anos e nada acontecia com um que o outro ignorasse.
- Pois bem, Zoraia abriu a porta vestida apenas com camisola vermelha e convidou a entrar. O apartamento era de quarto e sala, decorado com imitação de cabine de navio com janelas tipo escotilha de gesso branco.  A um canto, um timão de barco e luminária dourada completavam a decoração. Parecia incomodada ao me perceber medindo o apartamento e  ressaltou que avisara sobre o tamanho. Tive de dormir no sofá na sala. 
- Pensei que dormiriam na mesma cama, afinal, divorciados, nada os impediria. – Marinho sabia que o amigo não desperdiçaria a chance, principalmente se tratando de Zoraia, morena linda e disponível no mesmo teto.
- Já te falei que nunca tivemos nada, apenas aceitei o convite para hospedar. Precisava espairecer durante o período crítico da separação. Fazer o luto da convivência com Maria. Enquanto Zoraia trabalhava, eu caminhava na praia. 
- Ora, eu mereço, conta outra. Durante o dia, Zoraia trabalhava e você curtia praia. Ela chegava, deitava e dormia. Faça-me o favor – Marinho abriu uma ceveja e dividiu em dois copos.
Roberto prosseguiu.
- No sábado ao acordar, observei um pacote de baseados na mesa. Algo mais seria servido no apartamento naquele dia, além da cerveja na geladeira.  Arrumei minhas coisas e saí sem despedir. No caminho, encontrei um policial com cão farejador que me cheirou dos pés a cabeça e só me liberaram após o bicho interessar pelo cheiro do apartamento de Zoraia. De mansinho, ganhei a rua. Tomei o metrô e cá estou. Amanhã quero praia e até lá, abrigar na tua casa. 
Marinho percebeu a intensão do amigo de terminar as férias em sua casa e o encaminhou para o quarto vago. Ao passar pela cozinha, percebeu o olho comprido do amigo para a irmã e avisou:
- Se der em cima de Alice, te boto porta afora. 

sábado, 26 de janeiro de 2013

LUTA E PAIXÃO

(Google-Imagens)

Na década de sessenta, o bairro da Tristeza em Porto Alegre tinha estacionamento de sobra, não existiam azuizinhos nem parquímetros e o compromisso de namoro começava a partir da primeira pegada na mão da guria. Os dias eram longos e quando a meninada queixava, aparecia algum adulto e mandava comprar meio quilo de pão no armazém Veranópolis, da Wenceslau Escobar. E foi assim, que numa tarde de primavera em que o sol se derramava pela grama do quintal que conheci o significado real do amor.
                        Éramos um grupo de amigos inseparáveis. Guris e gurias, crescidos juntos, como irmãos, desde os cinco, seis anos de idade. Brincávamos sem maldade, sem cobiça, pulando cordas, andando de bicicletas, pescando na orla do Guaíba ou empoleirados em trilhas aéreas montadas nas matas nativas. Nossos pais trabalhavam no centro da cidade e deixavam a gurizada nas mãos dos avós que, atordoados, se desdobravam a fazer bolinhos e doces para enriquecer as proteínas do café das cinco. Assim ficávamos entretidos e esquecíamos as brincadeiras na beira do Guaíba, preocupação crescente dos pais.
                        As manhãs eram ocupadas pela ida a escola e a tarde, após as horas obrigatórias dedicadas aos deveres de casa do Grupo Escolar Três de Outubro, partíamos para brincadeiras das quais participavam garotos e garotas. Vez por outra, entrávamos em crise e as isolávamos. Logo nos arrependíamos. As brincadeiras inventadas pelas meninas, eram mais animadas.
                        Assim crescíamos, éramos vizinhos, irmãos, amigos.
                        Mas a infância foi embora. A adolescência chegou com as primeiras penugens no rosto dos meninos e o uso de pinturas nas faces e cabelos em rabos de cavalo pelas meninas. Os primeiros sinais de seios apontavam por debaixo das camisetas.  Vieram os primeiros bailes no Tristezense e Clube Comercial. Misturávamos Coca-Cola com rum e tomávamos Cuba Libre (mais Coca-Cola menos rum) e curtíamos reuniões dançantes ao ritmo de YE-YE-YE.
                        Assim, ela e eu crescemos. Ela pouco mais velha, 16 e eu 14 anos. Aos poucos tornou-se a musa platônica. Curtir aquela paixão adolescente e solitária me satisfazia. Nunca teria coragem de me declarar. O irmão dela, um grande amigo. Morávamos em casas de frente. Ao ficarmos a sós, sentia-me pouco a vontade, inseguro, tremia sem assunto. Hoje até penso que ela pressentia o desassossego. Certo dia aconteceu o princípio do fim da inocência. Eram cerca de cinco da tarde. Estávamos sós no quintal da casa dela onde costumávamos brincar de lutas, nas quais nunca houve vencedores, apenas micuins da grama coçando o corpo. Não havia malícia nas lutas. Era apenas uma etapa a preencher o longo dia de brincadeiras. Nesta tarde, não a deixei vencer. De repente, como tudo que acontece na vida, um golpe viril, inexplicável, mas com delicadeza, deitei-a na grama e imobilizei. Os rostos distantes dez centímetros um do outro.  O tempo que passamos assim, não consigo precisar. Bastaram alguns minutos e estabeleceu-se a cumplicidade.
                        Nenhum de nós queria apartar. O corpo dela, aquecido junto ao meu retorcia na luta entre afastar e manter onde estava. Nossos ventres em fogo me desconcertava e ali, naquele instante infinito, congelei o tempo e perdi a vontade de levantar. Ficaríamos assim eternamente, não surgisse a mãe dela no jardim. Levantei rapidamente, bati a grama que grudara nas pernas e, deixando-a livre, corri para casa. Entrei no quarto, chaveei a porta e pulei na cama de bruços, o coração na boca, os braços dobrados por baixo do corpo. Desconhecia porque estava assim. No peito um vulcão me consumia.
                        Fiquei inerte, prostrado. Alguém bateu à porta. Era ela. Demonstrava preocupação. Perguntou o que houve. Não abri. “Machucou?”. Fiquei em silêncio esperando que fosse embora. Sentia-me fraco, sem forças. Seu perfume me inundava e por mais que quisesse levantar da cama, o corpo desobedecia. Na verdade, esperava que o turbilhão que assolava meu interior, permanecesse indefinidamente. Nada se comparava aquilo e desejava curtir cada segundo. Respondi com a voz rouca, tremida, baixa. “Hein?” Fraquejei. A voz calava antes de sair. Ela exigia resposta. Gritei forte, rude, secamente “nada, não aconteceu nada”. E esperei que me deixasse só, livre para sonhar.

domingo, 12 de agosto de 2012

NEM DEPOIS DA MORTE

(Google Imagens)

Às dezessete horas chega Nicanor ao enterro do amigo. Ainda fora da capela, pede licença e abre caminho entre alguns conhecidos. Entra na sala mortuária e procura o corpo como se conhecer o dito cujo garantisse salvo conduto de permanência. Rodeavam o falecido coberto com flores, os filhos e alguns amigos comuns que o cumprimentaram com sorrisos breves e acenos de cabeça. Os de pé olhavam para o esquife. Os sentados conversavam animadamente sobre o julgamento das ações do mensalão pelo STF. Ao fundo, com cara de quem chorou a noite toda a viúva que, reconhecendo o recém-chegado, se aproxima cordial e afetuosa.
– Olá, há quanto tempo – falou a mulher estendendo a mão. – Já chorei muito, mas não de pena, de raiva mesmo – ciente do rosto inchado e sem maquiagem.
– Olá. – respondeu o recém-chegado perplexo pelo comentário – Cerca de trinta anos que não nos vemos. – E referindo-se ao morto – Agora descansará em paz, a doença o pegou em cheio. Fiquei sabendo.
– É mesmo, ficou com braços e pernas muito finos, só pele e osso. Soube que voltou para casa há uns seis meses? – Fez uma pausa para ver a reação. – Foi para morrer e tratei-o da melhor forma. Na verdade nem merecia este cachorro. – e olhou firme para o defunto, como querendo que ouvisse o comentário raivoso. – A gente tem que relevar, mortos são indefesos – Resignou-se.
            Nicanor espantou com a sinceridade da mulher e preferiu não alimentar a discussão. A amizade de quarenta anos andava meio apartada ultimamente e percebeu que pouco sabia da vida do amigo. Tentou aproximar quando soube da doença, mas recebeu de Mateus um esfriamento cheio de desculpas esfarrapadas. O amigo vivia recluso e sem amigos.
Certa vez foi visitá-lo no sítio na região rural onde vivia há seis anos, localizado a cerca de 50 kilômetros da cidade. Encontrou-o depressivo, cabisbaixo e embriagado. Percebeu o livro aberto de Platão, o cd Nova Era e a garrafa de uísque vazia sobre a pequena mesa com o tampo rachado. Passou a mão e sentiu-a grossa de poeira.  Naquele dia entendeu que algo andava errado, pois Mateus desconsiderou a presença. Nicanor, que foi visitar o amigo, saiu da casa da mesma forma que entrou, sem ser percebido. Um ano depois, cá estava, testemunha do sepultamento.
            Os filhos se aproximaram com pálpebras inchadas.
            – Quem é mãe? – pergunta o rapaz.
            – O Nicanor, amigo de longa data de seu pai.
            Cumprimentam Nicanor com aperto de mão e voltam para junto ao defunto. A menina rearranja as flores que cobrem o pai.
            – Você que foi grande amigo, pode responder algo íntimo sobre Mateus? – A mulher olha firme para o rosto do amigo e espreita a qualidade da resposta. Nicanor percebe o forte interesse e fala com a maior sinceridade que pode demonstrar.
            – Claro, nada tenho a esconder, pelo menos de quando éramos chegados. Quantos churrascos fizemos juntos, lembra? – Referia-se Nicanor há mais de quarenta anos, quando recém-formados, faziam piqueniques em cachoeiras nos arredores da cidade.
            – Então, – começa a mulher, baixando mais ainda o tom de voz, para garantir não ser ouvida – você acha que Mateus pode ter sido homossexual? Já li sobre isto e é mais comum do que se imagina.
            Nicanor se apruma, pigarreia e percebe de soslaio a mulher muito séria, demonstrando claramente a curiosidade feminina. Certifica-se que ninguém escuta e fica desconfortável ao rever o rosto indiferente no caixão.
Ao perceber o desconforto, a viúva insiste com revelações íntimas.
            – Pergunto isto, pois sempre falou que detestava sexo e além disso nunca deixou pistas sobre amantes.       
Amigo de Mateus de outra época, nunca percebeu Mateus em situação que pudesse afirmar tal coisa. Achou foi estranha a pergunta. Até que se fosse outro dia, quem sabe pudesse soar diferente, no entanto na hora do enterro foi pego de surpresa. Lembrava que em algumas ocasiões viajaram juntos, mas não recordava atitudes que definissem a preferência. É bem verdade que nunca o vira em farra com mulheres, como o próprio Nicanor costumava fazer, mas daí a defini-lo como gostando disto ou daquilo a distância era grande.
A viúva continuava martelando sem folga.
            – Eu sou de carne e osso e tive minhas necessidades na juventude sempre fui  chegada nas coisas sexuais e ele detestava, definia como coisa suja – continuava – Certa vez propôs que arranjasse amante, desde que de bom nível, para mim. Olha que coisa nojenta. Não sou destas bandalheiras.
            Alguém de preto se aproxima e salva o embaraço.
            – Senhora, posso fechar o caixão para levar o falecido? Temos horário a cumprir.
            A mulher faz que sim com a cabeça e é envolvida pela tensão. Os presentes se perfilam numa oração de encomenda guiados por sacerdote devidamente paramentado.
            Nicanor aproveita o momento de distração e se afasta em princípio devagar e depois apressado sai da sala e ganha a rua. Entra no carro e fica satisfeito de ter colocado película escura nos vidros, escondendo-se convenientemente da situação.
            – Foi bom ter permanecido aqui, a mulher desconfia há muito tempo. Chega a pensar que Mateus era homossexual. – Comenta com a pessoa que o esperou dentro do carro.
            – Nossa relação morreu com sua morte. – oferece bala de café a Nicanor.
Os dois esperam em silêncio dentro do carro com os vidros fechados. Um rapaz se aproxima, abre a porta e senta no banco de trás.
– Papai descansou mãe. Estava com aspecto sereno. – fala com carinho – Me acharam parecido com ele. – Sorri.
– Meu filho, ninguém deve saber que era seu pai. Ao se referir a Mateus trate de mencionar como amigo. – E virando-se – Nicanor vamos para casa. Quero preparar a janta e, para acompanhar, aquele vinho que ganhamos no Natal.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A FOFOCA

(foto google imagem)


Existem os donos da verdade. Os que se julgam acima dos demais e, nesta condição, dispostos a criticar, culpar, julgar e condenar. Capazes de tudo para crescer e aparecer. Até colocam palavras na boca dos outros.
Chegam disfarçados. Perigosos são aqueles que chegam na condição de conhecidos e se acham no direito de definir o certo e errado. Na concepção deles, estão acima de qualquer suspeita. Julgam-se infalíveis. Analisam a vida do outro e sabem tudo profundamente.
Outras vezes aparecem na pele de ex-marido ou de ex-mulher e nesta condição, aparecem na condição de expert em relacionamentos e defeitos. Dos outros, claro. E quando amigos ou conhecidos dos ex, piorou. Por saber detalhes saborosos daquela relação, rompida muitas vezes há tempos, são plenos de informações comprometedoras.
Pena que sempre há os dispostos a ouvir. Sem estes, não teriam platéia para divulgação e montar pontes de informações, vulgarmente chamadas fofocas.
Um amigo foi vítima de um caso destes e achei interessante contar. Faço referência às pessoas envolvidas, com nomes fictícios.
Luis Carlos tem cinquenta e poucos anos, divorciado, gosta de cinema, teatro, escreve com texto até razoável, lê muito e é servidor num órgão público federal. Certo dia esperava na fila para comprar ingresso a um filme no Parkshopping, quando reconheceu um ex-colega de trabalho do qual há muito se afastara.
Descobriram-se ambos descasados e, como Luis Carlos e Diógenes, se conheciam da época de casados com outras mulheres, a conversa correu sobre as agruras da vida a dois, das dificuldades das relações e de como as separações influenciam os familiares dos ex-companheiros.
Em determinado momento, Diógenes desandou a falar da família da ex-mulher do Luis a qual conhecia. E falou tudo que veio a cabeça, desabafou mazelas passadas, as festas em família regadas a chopp e churrascos e teceu comentários maldosos sobre a vida dos membros, só sabidas por quem convivera por longa data.
Luis Carlos assustou de tanto falatório. Desculpou-se que o cinema começaria em instantes e entraria cedo, apesar da poltrona numerada, mesmo sabendo que o tempo que faltava era bastante.
- Um mês depois - falou-me Luis Carlos - recebi um recado da minha ex-mulher para que parasse as fofocas sobre a família. Espantei-me e após muito pensar, descobri o motivo. O Diógenes, que também é amigo dela, falou tudo o que conversamos no encontro do cinema. Com apenas um detalhe: me referenciou como autor das observações.
Diógenes falara da família da ex-mulher de Carlos, atribuindo a este o falatório.
Existem tratados sobre este tipo de comportamento. Falei ao Carlos que mais cedo ou mais tarde as coisas se encaixarim. “Que no andar da carroça as abóboras se acomodam.”
Luis Carlos espantou com o fato da ex-mulher acreditar nas conversas.
- Emprestar ouvido a fofocas é contribuir com a poluição sonora que habita a audição. E fechou o assunto:
- É uma mulher madura e deveria ter assuntos mais importantes para cuidar na vida do que ouvir fofocas de ex-marido de amigas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NUDEZ DECOROSA

(Google Imagens)





Ainda morava em São Paulo, quando recebi o convite para passar o final de semana com Alfredo e Laura no sitio da família. Iriam reunir colegas para um bate-papo sobre experiências de consultório. Fomos em seis casais dos quais três levaram filhos adolescentes.
Éramos professores na mesma universidade e montávamos palestras para psicanalistas. Apesar do contato puramente profissional, falava do sítio e afirmava que “quando os quartos de hóspedes estiverem prontos, programarei um final de semana para conhecerem”.
O convite não poderia ter ocorrido em melhor hora. Zuleica e eu tínhamos o Felipe de apenas dois anos e precisávamos descansar após um ano cumprindo agenda superlotada, voltada basicamente a atendimentos sociais.
Localizadas no interior serrano do estado, as terras tinham acesso por meio de estrada de chão batido de cinco quilômetros. A casa fora construída no topo de um morro, com ampla varanda envidraçada e linda vista de uma lagoa artificial com lancha de passeio, piscina em forma de L, haras com cavalariças para muitos cavalos e, ao fundo, o sopé de um morro com mata nativa. Lembrar este cenário transmite sensação de tranquilidade, bem distante dos dias enlouquecedores na paulicéia.
Combináramos encontrar no posto da Polícia Rodoviária, de onde saímos em comitiva. Chegamos por volta de três da tarde e Alfredo esperava com uma jarra de suco de graviola bem gelado. Alegremente, indicou a área reservada ao estacionamento com sombra de um mangueiral.
Descemos a bagagem e fomos encaminhados aos aposentos para nos instalarmos. Após breves momentos de descanso nos dirigimos à varanda onde esperava o anfitrião, com o livro de sonhos de Freud embaixo do braço. Psicanalista como nós, certamente discutiríamos assuntos desta área de conhecimento.
Alguém perguntou pela esposa.
“Laura foi à vila”, respondeu alegremente com forte sotaque paulistano do interior. Permaneceu sentado em posição de yoga, as mãos apoiadas nos joelhos, dedos indicador e polegar fechados nas pontas, “daqui a pouco chegará”, completou a resposta.
Realmente correspondia a tudo que falara. O local era magnífico. Mais aconchegante do que imaginávamos.
Falávamos sobre as dificuldades com o próprio corpo. De como este desassossego interfere no social, causando sintomatologias diversas como sudorese, taquicardia ou até casos mais graves como fobias sociais e síndrome do pânico.
Ouvia os comentários mas me deliciava com a paisagem. Observava um cavalo Manga Larga que trotava em círculo, preso a um adestrador. A elegância e desprendimento do animal contrastavam com a conversa.
Ao longe, um carro levantava poeira densa na estrada de terra. Rapidamente se aproximou e percebi ser dirigido por uma mulher que estacionou na mesma sombra dos outros.
Desceu do carro e acompanhei-a, imaginado quem seria, até chegar a nós. Teria uns sessenta anos e demonstrava jovialidade. Quando a percebeu, Alfredo levantou e correu ao encontro. Trocaram algumas palavras, apanhou as sacolas de compras da mulher e vieram de mãos dadas até nós.
“Pessoal, esta é Laura.“ A mulher cumprimentou a todos com largo sorriso. “Muito prazer. Um beijo a todos.” Esbanjava simpatia e iniciou um movimento inesperado. Reclamando do calor exorbitante, retirou a roupa peça por peça, até ficar completamente nua a frente de todos. Os convidados se olhavam aturdidos. Zuleica olhou-me como a perguntar o que significava aquilo. A anfitriã já completamente nua, falava sobre a vila, a estrada. Perguntou pelo clima na capital. As pessoas pareciam congeladas.
Passados os primeiros momentos, Laura foi conquistando os presentes com a sua espontaneidade, o que contribuiu para a aceitação de sua iniciativa. Na verdade, ela estava acostumada a ficar nua em casa e, mais tarde, soubemos que assim agindo, demonstrava estar à vontade com os amigos do marido.
Após algum tempo pediu licença e saiu, voltando em seguida com um lenço amarrado na cintura. Os seios a mostra.
Laura transitou entre nós, sem roupas, com naturalidade, durante o final de semana até a despedida. No domingo, algumas das mulheres presentes, timidamente, ensaiaram top-less a beira da piscina. Reprimidas pelos olhares dos maridos, vestiram novamente as peças do biquíni. Alfredo manteve a sunga, mas demonstrou estar acostumado com o hábito da mulher.
Quando voltamos às considerações sobre o corpo, novas teorias se apresentaram. Uma das presentes acrescentou que a experiência de nudez vivida com naturalidade, não choca a sociedade e dita o comportamento do grupo.
Mesmo os que não adotaram o hábito, passaram por profunda transformação e abriram diferentes formas de lidar com a liberdade de escolhas e comportamentos.
Ao chegarmos de volta a São Paulo, Zuleica confessou que teve desejo de também tirar a roupa. E só não o fez por imaginar como me sentiria.
Nada lhe falei, mas também me senti atraído pela idéia e cheguei a pensar em falar-lhe. Liberá-la para que se assim o desejasse o fizesse sem culpa.
Mas...

domingo, 24 de julho de 2011

LOS PESCADORES DE LA VILLA NUEVA

foto 1 - Marco arquivo pessoal)
Quando viajei a Porto Alegre em maio deste ano, pressenti como seria o inverno de 2011. E confesso que frio não é minha praia. Quem gosta é turista. Por ter laços familiares, frequento a capital gaúcha mês sim, mês não, exceto no inverno. Pulo junho, julho e agosto. Em maio, o frio nem foi estas coisas, mas liguei a velha estufa da casa da mãe.
O melhor aquecimento vem do convívio com amigos em Porto Alegre. “E amigos de meus amigos são também amigos”. Constatei isto com Jorge, cuja amizade remonta aos tempos de infância. Vez por outra passamos meses sem conversar e no reencontro, iniciamos do ponto que parou. Amizade é isto, saber puxar o assunto que interessa ao outro. Perdemos contato, com minha mudança para Brasília. Anos depois o reencontro aconteceu graças a internet. Hoje em Porto Alegre, encontro o grupo do Jorge, Arturzinho, Chicão, judeuzinho e as duas Reginas.
Outro grupo Jorge queria me apresentar. Falava deles com amizade “são os pescadores da Vila Nova. Quando não planejam pescarias a Argentina, fazem churrascadas na casa do Laerte toda quarta-feira.” Apesar da curiosidade, faltava-me tempo. As idas a Porto Alegre são rápidas e plenas de compromissos.
Em dezoito de maio, a oportunidade chegou. Na hora combinada, Jorge e o filho Ivan, chegaram à porta de minha casa. Peguei casaco pesado esperando a friagem.
Por volta das sete entramos no estacionamento do sítio. Laerte preparava a churrascada. Ficamos bebericando um delicioso vinho artesanal enquanto o grupo chegava e as apresentações aconteciam. Receberam-me como se fosse integrado ao grupo há anos. A condição de morador de Brasília não foi poupada. Perguntaram se eu era deputado.

El extraño en la casa a su llegada es recibido con un asado gaucho y la amistad.

A casa do Velho Laerte, como o chamam, tem a cara do dono. Os convidados são recebidos num galpão com pé direito de cerca de três metros. Ao fundo, a churrasqueira estrategicamente na ponta mais estreita, com visibilidade de todo o ambiente, dando a Laerte a posição de timoneiro. Pela cor escura dos tijolos bem curtidos, a carne não pára de assar ali há muitos anos. Faz questão de pilotar a churrasqueira, preparar a carne, espetar, assar e, como manda a tradição gaúcha, servir a todos. “O açougueiro escolhe a melhor carne, separa e eu busco nas quartas-feiras” vangloria Laerte no alto dos 78 anos.

Ao centro, a mesa para cerca de vinte pessoas revela que o Velho gosta de receber. Na lateral, enorme e rústica estante, onde mantém objetos curiosos. Cada um com sua história.

Pacientemente, Laerte guarda aquilo que representou algo em sua vida. Predominam estatuetas de cavalos, aviões de aeromodelismo, fotos de aventuras, entalhes em madeira, livros, coleção da Delta Larousse, da Barsa, machadinha medieval, carrinhos em madeira, frascos diversos com ou sem líquidos. Sobram inutilidades como aparelhos elétricos, torradeira, forninho elétrico e televisor fora de uso. Todos com desculpas para estar ali, “um dia servirão para alguma coisa”.

Objetos que representan a un hombre salva a su historia de vida.

Saí para conhecer o quintal, que não é grande, mas muito charmoso. Um riacho ao fundo, com uma pequena ponte apresenta aos visitantes ares de casario europeu.
Quando retornei ao galpão, o churrasco era servido e a alegria imperava ao redor da mesa. Laerte fazia questão de levar carne aos convidados com carinho fraterno.

El viejo quiere inmortalizar los grandes momentos.

Sobre o grupo reunido, faço algumas observações, retiradas da visão do Jorge, que os conhece há mais tempo. A descrição foi baseada na foto 1 do grupo, da esquerda para a direita. Começa pelo uruguaio Gustavo, excelente cavaleiro e professor de equitação. Na pescaria é considerado principiante. É candidato, assim como eu, a frequentar os rios argentinos.
De boné azul, Capitão Carlos, filho do Laerte, o Milico, advogado, dono do ônibus que transporta os pescadores. O seguinte é Marco Aurélio, primo do Jorge, aposentado da Receita Federal, tem 71 anos “de luz negra”, como diz Jorge. Este é dos mais animados. Ao fundo, o Iloni, mais conhecido como Capivara ou simplesmente Capi. Sobre quem se conta a seguinte história acontecida num hotel da Argentina. Todos tomavam o café da manhã, quando Capi chama a garçonete e proclama “Yo quiero más queso” A moça respondeu prontamente, “Usted quieres es mantequilla, porque no hay queso”. Capivari nunca mais se viu livre das brincadeiras em cima deste mico portenho. Mas garante que leva na esportiva, como bom pescador.
De costas na foto, Édio, que trabalha numa loja de autopeças e está sempre de bom humor, um grande contador de histórias. Nunca foi visto carrancudo.
O próximo é Zezinho, que trabalha para o Milico, na chácara do Laerte. Já participou de algumas pescarias com a turma. Depois, Marco que participou de duas pescarias, seguido por Artur, advogado, considerado bom parceiro.
Logo após o Jorge, entusiasta destas amizades que cultiva desde menino. Considera Laerte seu segundo pai. Ao lado o filho Ivan, que apesar de freqüentar o grupo e comer churras, está em treinamento para se tornar pescador.
Na sequência, Marcão, engenheiro do DMAE, “ótimo pescador”, de acordo com o Jorge. A seguir Élder, o Bistrica, o maior contador de piadas da turma. Goza a cara de todo aquele que paga mico e, juntamente com Milico, campeão de idas a Argentina.
Por último o Vitalino, aposentado da CRT prestativo e baita parceiro. Dele contam um episódio que virou marca registrada. “Certa vez estávamos chegando a Corrientes, e Vitalino chamou a atenção para a baita cancha reta que surgia a esquerda. Todos olharam e a gargalhada foi geral. Era a pista de pouso do Aeroporto de Corrrientes. Ele envaretou. Mas bom cabrito não berra.” Vitalino disfarça toda vez que citam o mico nas reuniões. Pois confundir pista de corrida de cavalos com aeroporto...

Onze horas e a reunião perdeu força, afinal a maioria trabalhava no dia seguinte. Por mim varava a noite, afinal estava a passeio e queria ouvir as histórias. Saímos todos ao mesmo tempo, eles com a certeza do reencontro na próxima quarta-feira, eu, com convicção de que aumentei meu círculo de amizades. Unidos pela afeição, este grupo encontra tempo para curtir a amizade, num mundo cada vez mais individualista e solitário.

“Y ahora tengo la convicción de que amigos de mis amigos también son mis amigos.”

domingo, 17 de julho de 2011

ARRAIÁ DO ZÉ

(foto da festa)



Cheguei a Brasília, vindo de Porto Alegre em 1974 aos 24 anos, recém formado na faculdade de Engenharia de Porto Alegre. Nove e meia da noite do dia 03 de janeiro. O primeiro registro desta chegada à capital foi a Torre de TV da Esplanada dos Ministérios que, iluminada para o Natal, ostentava lâmpadas vistas a quilômetros de distância. Depois descobri que desta torre, partiam todas as transmissões de estações de TV e algumas de rádio da cidade.
Fora contratado para coordenar a montagem dos transmissores de alta potência da Rádio Nacional, no Parque do Rodiador, perto de Sobradinho. A noite se avistava o belíssimo colorido das luzes do Plano Piloto, ainda em construção. Durante o dia, o poeirão.
O Presidente Médici inaugurou o projeto dos transmissores em 31 de março. No dia seguinte, passou o cargo da República ao General Geisel que, numa das primeiras decisões de governo, enxugou o quadro de pessoal da rádio. Fiquei desempregado. Mas a capital oferecia enorme quantidade de mão de obra e fui admitido no Ministério das Comunicações.
No Minicom, formei o primeiro círculo de amizades. Éramos jovens na faixa dos vinte anos com filhos ainda pequenos.
Naqueles tempos a capital carecia de divertimentos e a recreação deveria ser programada por nós mesmos. Churrascos, festas de aniversários, piquenique as margens das cachoeiras da região, além de torneios de xadrez, cartas e damas.
Hoje muitos são avós de cabelos grisalhos que mesmo assim programam encontros. Basta dar a idéia que os amigos se alvoroçam.
Há dois anos, Moacir e Mali, reuniram em seu lindo e confortável sítio. Lá estavam o Marinho, o Gelson, o Paulo, eu e outros tantos.
Paulo é outro festeiro. Em 2010 comemorou seu aniversário num barco que navegou suavemente pelo lago Paranoá onde juntou cerca de 50 amigos que se divertiram ao som de um DJ.
Em 09 de julho passado, o convite partiu de Marisa e Zé Ricardo. Aconteceu uma festa de São João na casa de final de semana no condomínio RK, perto de Sobradinho. Era para eu comparecer pilchado com vestes de gaúcho, mas não o fiz. As botas se perderam no tempo e a bombacha ostentava cheiro de mofo. Nem por isso deixei de ir. De chapéu preto, aba dura e barbicacho, típico da região sulista.
Lá estavam Augusto e Bira, com as respectivas esposas, amigos dos filhos dos donos da casa que enfeitaram com juventude e eu com a namorada Maria Lúcia. Lamento apenas que muitos amigos convidados não compareceram. Estão esmorecendo. O frio os espanta das noites, impelindo a ficar em casa vendo novelas.
O forró estava solto e Marisa anunciou que haveria quadrilha. Fiquei animado. Mas para minha decepção, não aconteceu. Fiquei na saudade.
A comida estava farta e os convidados levaram pratos típicos. Foi um manancial de amendoins, bolos, cachorro quente, vatapá, empadão goiano, canjica, quentão, e tudo o mais que embala boa festa de São João.
Marisa lembrou as fanfarras promovidas pelos anos 80 em minha chácara no Vale das Andorinhas. Por ser distante, quem pensava em permanecer, levava rede e estendia na sala ou varanda. Dormia ao som do sanfoneiro que de tão bêbado tocava três notas numa gaita de sete baixos, por horas a fio.
No segundo andar da casa, Zé Ricardo construiu um varandão de onde tem belíssima vista da cidade de Sobradinho. Nas noites quentes de verão, ele e Marisa sentam e passam a limpo suas vidas. São quase 40 anos de casados.
Zé Ricardo gosta de fazer pizzas no forno a lenha. Prometeu que na próxima fornada chamará a todos novamente. Estou preparado.
Ao final da festa, avistei um rosto familiar. Estava de saída e nos olhamos desconfiados, procurando traços que indicassem algo. Era o Alexandre. Com dezoito quilos mais “forte” e eu dez, os atletas da juventude ficaram para trás.
Ao final, tive a convicção que encontrar amigos é uma forma de nos ver por outro ângulo. São donos de parte da memória e ajudam a reviver acontecimentos esquecidos.
Encontrar amigos é saber que com eles sou feliz em ser eu mesmo.