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domingo, 14 de outubro de 2012

COINCIDÊNCIA OU DESTINO?

(Google Imagens)

Rodrigo chegou à frente do túmulo do pai, abaixou-se e naquele areão de pedras e barro que se transformou o cemitério de Luziânia após as chuvas de fevereiro, estilizou com o dedo a figura de um homem. De longe, Canindé percebeu a solidão que massacrava o rapaz. O vento frio e as nuvens escuras anunciavam a chegada do outono.
Na época dos acontecimentos, Canindé realizava trabalho com jovens infratores em um centro de reabilitação de Brasília dedicado a recuperação de delinquentes. Um trabalho difícil e perigoso, que o psicanalista executava com esmero e dedicação, voluntariamente. Rodrigo, o desenhista da tumba do pai, era especialmente o mais violento da instituição, sendo tratado como monstro.
– Sem recuperação, matou o próprio pai – comentou a assistente social ao apresentar a ficha do infrator.
Mesmo após os comentários desanimadores e o exame da extensa ficha criminal, o analista acreditava contribuir para a recuperação do jovem. E foi com este raciocínio que aceitou, entre tantos menores menos devastados psicologicamente, ajudar o que matou o pai.
Eram quatro horas da tarde de uma terça-feira, quando foi apresentado a ele no refeitório. Menino mirrado parecendo contar dez anos, na verdade tinha dezesseis. Olhar parado e triste, sobrancelhas arqueadas e um sorriso de canto de boca, como que fazendo coro com o ar melancólico e tímido. Nem de longe a aparência fazia jus à fama. Esticou a mão para apertar a dele e teve a sensação de amassar seus ossos caso forçasse. Com a mão presa pelo terapeuta, encarou-o esperando que evitasse o olhar firme, mas como recebeu o sorriso experiente do profissional, desviou-se para mirar a rua. O terapeuta sentiu empatia pelo adolescente e, naquele rosto infantil com rugas precoces no canto da boca, percebeu semelhanças com o próprio filho.
– Minha ficha é longa – falou o rapaz, fazendo referência a passagem pelo crime desde tenra idade. A reação de Canindé foi calcada nos anos de experiência lidando com delinquentes juvenis.
– Ah é? – respondeu sem dar relevância.
– Você não tem medo, cara? – Apelou tentando nova forma de se apresentar, firme e ameaçador.
– Meu nome é Canindé e sou psicanalista. Fui designado para atendê-lo – falou sem desviar o olhar.
– Só aceito conversar lá fora – chegou a janela e apontou – Lá. – Canindé se aproximou e avistou no outro lado do pátio da instituição, uma frondosa árvore a espalhar sombra acolhedora. O jovem demonstrava aceitar o atendimento, desde que em ambiente escolhido por ele. Fazia de tudo para desestabilizar o terapeuta.
– Amanhã e toda quarta-feira às dez horas conversaremos embaixo da mangueira – encerrou a conversa, apertou a mão da assistente social, despediu-se do rapaz e saiu apressado pela porta do refeitório.
Antes dele, outros dois especialistas em comportamento iniciaram um tratamento com o rapaz e, rechaçados nas primeiras sessões, desistiram.
Os encontros entre Canindé e Rodrigo aconteciam sempre às dez da manhã, embaixo da mangueira como exigiu. Aos poucos, o rapaz se abria e falava abertamente. Sua fala era pesada, quase gutural. Às vezes trazia chicletes e os mastigava nervosamente de queixo erguido, demonstrando arrogância que mascarava a própria fragilidade. Foram quatro meses de trabalho em conjunto, em um aprendizado muitas vezes orientado pelo próprio analisando. Para ajudar Canindé deveria também aprender.Pelo olhar, gestos, falas e emoções.
O pai do menor era alcoólatra e diariamente chegava a casa esbravejando e, sem motivo, batia duramente na mãe. Após as constantes sessões de tortura, a mulher abraçava a Rodrigo, que era o filho mais velho e chorava copiosamente. Muitas vezes ele percebia o sangue que brotava dos ferimentos e assim, misturando as lágrimas e o sangue da mãe aos seus, alimentava profundo ódio ao pai. No decorrer das sessões, Canindé observou a origem do instinto criminoso do rapaz. O assassino estava sendo forjado ao assistir as surras sofridas pela mãe, seguidas pelos abraços ensanguentados e choros convulsivos.
A uma das sessões escolheu a imagem de quando contava apenas cinco anos. Nela, a lembrança do pai aplicar a maior de todas as surras neles e recordou, em meio à lágrimas e ódio, o agressor sair porta afora e desaparecer por dez anos.
Começou então uma fase de aparente calmaria naquela casa e, dos cinco aos quinze anos de idade, a raiva ao pai, transformou-se em profunda sede de vingar a mãe, só amortecida pela ausência do algoz. Um dia o inferno voltou a rondar e o pai retornou barbudo e maltrapilho. Na primeira noite, comemorando o retorno, bebeu todas e aplicou nova surra nos dois.
Recém introduzido na adolescência, ainda com penugens no rosto, o adolescente colocou as mãos na cabeça e exclamou desanimado “meu Deus, vai começar tudo de novo.”
Após o massacre, abraçou-se a mãe e da mistura dos rostos ensanguentados, ressurgiu o ódio que o cegou. Correu ao quarto e voltou munido do revólver calibre 32 do irmão e o apontou para o pai que ria com a  idiotice dos embriagados. Anestesiado pela cachaça, sem um gemido, o homem tombou varado por cinco tiros desferidos pelo filho, que naquele momento inaugurou a desastrada vida adulta. Mal teve tempo de correr a esquina e foi pego pela polícia e recolhido a instituição de menores infratores.
Contou tudo de supetão após Canindé oferecer a segurança da ajuda.
– Não te preocupe. Ninguém conhecerá o conteúdo do que falarmos. Você está sob sigilo profissional.
– Posso pedir algo? – sussurrou o menor olhando para os lados.
– Claro, porque não? – o analista se dispunha a atender o que ajudasse o tratamento.
– Quero visitar o túmulo de meu pai – Canindé num primeiro momento ficou desconcertado, mas logo entendeu o que se passava. O analisando precisava enterrar o passado e seus fantasmas. Mas era preciso cuidado.
– Faça o seguinte, pense nisto uns dois dias e falaremos novamente – Sair dali com aquele menor poderia ser uma operação de alto risco, pois o rapaz estava jurado de morte pelos irmãos. Além do mais, nada garantia que uma vez na rua, não empreendesse movimento de fuga.
O terapeuta queria tempo para pensar.
            Naquele mesmo dia procurou o diretor da instituição e obteve a primeira negativa. Começou uma peregrinação pelo sistema prisional e, após muitas alegações, conseguiu um mandado judicial assinado pelo juiz da Infância e Adolescência, dando direito e responsabilidade a conduzir o infrator. Em conjunto com a direção do Centro, marcou a data de saída.
            No dia combinado, ao chegarem ao cemitério, rumaram diretamente a tumba, localizada no dia anterior por Canindé que, previdente, queria evitar perambular pelas alamedas arriscando o reconhecimento do menor infrator por qualquer pessoa.
            Rodrigo continuava fazendo desenhos no barro e, pressentindo a chegada do terapeuta, pos-se de pé. Emocionado, ombros e braços caídos, o rapaz estava desolado.            
Canindé o abraçou ternamente e percebeu a fragilidade física e emocional. Rodrigo, então arrogante e imaturo, desmanchou a carapuça e chorou sacudindo os ombros em longo desabafo. Naquele momento, Canindé percebeu que o luto se completou. Após atirar no pai, Rodrigo foi preso e impedido de participar das cerimônias fúnebres. Permaneceu apenas o vazio e era preciso resgatar. A falta de acompanhar o velório e os demais procedimentos formaram um imenso vazio que agora se preenchia.
– Canindé, – perguntou o menor virando o rosto – queria fazer outra pergunta muito importante, agora do lado profissional – e assumiu um ar sério, maduro.
–Claro, Campeão – havia intimidade entre o psicanalista e o jovem.
– Meu pai matou meu avô, será que isto acontecerá comigo?
– Como assim? Não entendi. – Canindé se fez de desentendido.
– Meu pai matou meu avô e eu matei meu pai. Será que meu filho me matará?
Rodrigo hoje cumpre pena sob regime semi-aberto, frequenta o sétimo semestre de Direito e estagia no Ministério Público.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O BLOG

(arquivo pessoal)

A ideia de montar o blog ocorreu há quatro anos. Conversava com Fabio, meu filho, quando ao final da conversa me presenteou com um livro sobre o assunto. Logo o devorei e fui seduzido pela idéia. Naquele singelo presente de filho, acompanhado de delicioso prato de tilápia com alcaparras no Carpe-Dien do Casa Park, estava sacramentado. Junto do livro, elencou algumas dezenas de endereços da internet para visitar. Visitei todos. Sem exceção, eram da ala progressista, coisa de jovem pleno de ideais.
Mas ainda não seria desta vez que o projeto vingaria. Em 2009, durante um curso de Jornalismo Literário em Goiânia, o professor Edvaldo Pereira Filho, o Ed, novamente reforçou a idéia. Toda vez que apresentava os textos no curso, recebia o incentivo daquele jornalista experimentado, forjado dentro das redações de jornais, revistas e professor da USP. A criação do blog era questão de tempo. Sempre fui muito crítico e experimentava a sensação de ser verde na arte literária. O contato com o Ed reforçou minha auto-estima jornalística.
Apesar da data inaugural ser maio de 2009, postei o primeiro texto em agosto deste ano. Após isto, passei longo tempo com escassas publicações, talvez esquentando os motores. O incremento aconteceu a partir de 2010, mais precisamente setembro, com o  texto Recanto do Coração publicado em 22/09/2010, onde descrevi minhas impressões sobre o bairro Tristeza em porto Alegre, onde passei a infância e adolescência. Este texto mereceu publicação no caderno Zona Sul da Zero Hora de Porto Alegre e o considero a primeira obra do blog. A partir daí, não parei mais. Hoje em dia, quando passo duas semanas sem postar, sinto que estou em falta, pois sei que os leitores querem sempre ler algo novo e, de preferência, todos os dias. Ocorre que tenho compromissos e muita preocupação com o esmero e o gosto de postar sempre textos revisados e enxutos o que dá um trabalho danado. Além disso quero publicar assuntos satisfatórios ao leitor e que acrescente novidade.
Até este mês foram publicadas 72 narrativas, mais 11 em espanhol, minha segunda língua. Pretensioso, exibi algumas telas que fiz em óleo sobre tela e apresentei fotos de viagem, como as de Portugal, as de viagens a fronteira gaúcha, as visitas a pequenas cidades brasileiras como Nova Veneza, Pirinópolis, Caldas Novas e Goiás Velho no estado de Goiás e Barão do Triunfo no estado do Rio Grande do Sul.
Recebo atualmente um total  de 11.500 leitores o que é enorme responsabilidade. São cerca de 500 leitores todo mês que me visitam, e isto pesa na qualidade do que me proponho apresentar. Considero que publicar os textos é algo sério e só o faço quando está tão próximo do ótimo quanto possível, mas mesmo assim conto com comentários de alguns leitores, o que acho muito bom.
Pode o leitor ter certeza que nas minhas narrativas, grande parte é composta de realidade, mas como a ficção dá o gostinho saboroso nas histórias, também existe. Na verdade até nos documentários cabe ficção. Escrever para o blog é por demais prazeroso e muitos textos provocaram comentários interessantes e cada vez que os recebo, melhoro mais um pouco. O escritor e o leitor se harmonizam num processo de criação e perfeição constantes. 

sábado, 22 de setembro de 2012

O FILHOTE QUE CAIU DO NINHO ANTES DE VOAR

(Google Imagens)

Histórias de desventuras familiares de dependente químico existem inúmeras. Chocantes, podem conter superações incríveis, principalmente quando o adicto assume a doença e conscientiza que só ele pode tratar. Esta, ilustra a problemática e diz respeito ao casal que conheci em viagem a Porto Alegre.
A afinidade com a família aconteceu no aeroporto, enquanto esperávamos o embarque. Iniciou com assunto corriqueiro mas o estado de ansiedade de ambos, gerou a empatia necessária para um diálogo transformador. Acompanhavam o filho para internação em clínica. Os três estavam exauridos pela situação.
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1 – A expulsão de casa

Com apenas 26 anos este rapaz viveu intensa e perigosamente. Foram sumiços de objetos dentro de casa para sustentar o vício, roubos, assaltos simples, depois a mão armada e por fim prisões e ameaças de morte. Piorou quando os pais cansaram das estripulias e o expulsaram de casa. Sentiam-se impotentes perante a adicção e resolveram abrir mão do filho.
A saída de casa foi traumática e, sem compreender nada da vida, o jovem se viu na rua sem teto e comida. Num primeiro momento, odiou os pais.  Anos mais tarde, amou-os pela atitude corajosa.
– Só compreendi a gravidade da situação e o problema que causava a família, ao ser colocado para fora de casa – fala pausada, parecia dopado por forte medicação. As palavras saíam devagar, forçadas e vez por outra desconexas. – Doeu-me sair de casa moço, não desejo isso a ninguém.
Minha posição no avião facilitava ouvir pai e filho. Sentara no corredor por comodidade de acesso ao banheiro. Ao meu lado direito o pai, na janela a mãe, olhando a pista que se distanciava. Do lado esquerdo, após o corredor, o rapaz, pouco mais que um menino. As mãos queimadas pelo vício. Ficamos em silêncio enquanto o comandante prestava informações sobre o vôo que já iniciara a plena altura. Logo agradeceu, desligou o microfone e voltamos a falar. Comentei sobre as dificuldades da vida e o jovem  entendeu a senha para continuar o relato.
– Quando meu pai me expulsou, estava ameaçado de morte pelos traficantes e naquela noite recebi cobrança dura. Enquanto caminhava sem rumo pela rua, uma moto cortou a frente. Duas figuras desceram. Reconheci e, antes que encostassem em mim, falei precisar de tempo. Um deles fez a volta e veio por trás e recebi violento golpe na nuca. Desabei sem forças, mas  consciente.
Interessei-me pelo relato e virei o corpo para ficar de frente ao perceber que certas coisas um estranho ouve melhor. O pai aguçou o ouvido, demonstrando desconhecer a parte da história. Percebi no tom de voz, nos olhos úmidos e na fala mansa, palavras vindas do coração, de uma profundidade doída de quem padecera na carne.



2 – A vida ensina

– Após este primeiro golpe, lembro apenas que caí e um chute no rosto brotou o gosto de sangue na boca. Acho que desmaiei. Perdi a noção do tempo que fiquei desacordado. – Encurvado, relembrava os fatos pela primeira vez e percebi a inocência de menino. Ofereci o lenço de papel que carrego. Aceitou e assuou o nariz com estardalhaço. A senhora ao lado, encolheu-se. Ao viver as ruas, adquirira hábitos do meio. Continuou.
– Acordei na esquina da rua que depois soube ser de cidade satélite. Em frente ao nariz um coturno e quando olhei para cima, vi o vulto fardado. Polícia. Eram três. Levei um chute no estômago e foi só. Deixaram-me. Não merecia atenção. Acompanhei-os com os olhos e, com dificuldade levantei cambaleando. Estava fraco do espancamento do dia anterior. Sentia-me um caco de madeira triturada e lembrei da minha cama. Caí no chão e dormi de novo. Acordei a noite, moído e ensanguentado. A vontade de usar a droga me assolava e ao ver um menino com tênis, ameacei-o e roubei. Corri para a boca e troquei pela primeira pedra de crack do dia. Depois juntei a três desconhecidos e roubamos a bolsa de uma mulher. Compramos dez pedras com o dinheiro e dividimos. Dormi dopado esta noite e ao acordar, o sol alto e o calor mormacento me incomodaram. Senti fome. Lembrei do café da manhã de mãe. O corpo era uma dor só. Não dava para saber onde doía mais. Consegui levantar e comecei a busca por comida. Ao dobrar uma rua, avistei o cartaz de supermercado. Apressei o passo até a lixeira, onde vi um pacote de papel. Sem parar, peguei-o e abri caminhando em direção a sombra do estacionamento, escondendo dos seguranças. Sentei ao lado de um rato que olhava desconfiado. Era um sanduíche e, ali mesmo comi, não como mendigo, mas como aprendera, mastigando vagarosamente, com a boca fechada. Senti o gosto da carne, do catchup, da maionese e do pão. Alguém o descartara quase inteiro. – Interrompeu a narrativa buscando minha cumplicidade e complementou – O senhor se surpreenderia ao ver o desperdício que o povo descarta. Graças a Deus, pois assim o pessoal de rua tem o que comer.
Conversar em avião tem inconveniente, fica-se com o pescoço torcido. Olhei para o outro lado, onde estavam os pais. A mãe solitária e distante, estava alienada pelo barulho dos motores, mesmo se ouvisse o rapaz, não choraria. As lágrimas secaram. O pai, mais perto, se emocionava. Coloquei a mão sobre seu ombro e ele baixou a cabeça.
Retornei atenção ao jovem, que continuou.
– A fome continuava e voltei às lixeiras, onde fui premiado por quatro bananas e um yogurte pela metade. Agora estava alimentado e saudável. Ou quase. Novas investidas da droga assolavam. Levantei e caminhei as seis horas seguintes até o anoitecer, sem rumo. Parava em algum muro, deitava e dormia e o tempo passava. Juntei-me a um grupo que seguia para boca de fumo. A cabeça só pensava no consumo e, quando percebi chegamos. Era no local de onde tinha o débito. Tentei voltar, mas era tarde. Uns quatro me cercaram e, diante de minha negativa em pagá-los, começaram a bater. No início até sentia dores das pancadas, mas logo o corpo adormeceu e a voz deles ficou distante e perdi os sentidos. – Sua fragilidade pode ser comparada ao filhote de pássaro que cai do ninho antes de aprender a voar.


3 – A redenção

O jovem olhou o pai e pediu que continuasse o relato. Antes de começar, o homem secou a coriza que teimava em pingar da ponta do nariz. Depois iniciou uma fala difícil, muito baixa.
– Eram seis horas da manhã quando recebi o telefonema do hospital avisando que nosso filho fora encontrado sangrando na rua. Minha mulher e eu atendemos ao chamado imediatamente e saímos sem café. Naquela manhã chovia muito, mas mesmo assim, fizemos o trajeto do Plano a Samambaia em quinze minutos. Quantas vezes ainda teríamos que aguentar isto? – A voz do pai era gutural e rouca e percebi que a mãe ouvia e as lágrimas ainda existiam. Baixou a cabeça e secou-as num lencinho rosa. Quando se recuperou, continuou a narrativa.
– Quando chegamos ao hospital, o médico recebeu de pé. Disse que achou o número do telefone colado na carteira de identidade e que agora o menino estava em coma induzido. O maxilar estava quebrado, assim como um braço, a perna esquerda e, o mais grave, quatro coágulos no cérebro estavam drenando. A situação era grave e impossível de precisar o que vinha pela frente. Foram 45 dias de dor com visitas diárias a UTI e nosso garotinho entre a vida e a morte. Após este tempo, saiu do coma e passou por várias cirurgias. No dia que recebeu alta, pediu ajuda e declarou querer uma clínica de recuperação.
Ficamos todos em silêncio e percebi naquela família destroçada o quanto um elemento pode afetar a harmonia e a paz. O problema deles está longe do fim. Os pais precisam ter consciência de sua impotência e que o filho deve ser o responsável pelo tratamento. O adicto deve promover seu cuidado, pois são os melhores cuidadores de si mesmos.
Após a pausa, a mãe se sentiu fortalecida a continuar.
– Nosso filho parecia um indigente no hospital. O pé inchado e cascudo. O senhor não imagina. – fiz sinal que sim, que podia imaginar e ela continuou em tom de confidência. – Ao ver meu menino na UTI, lembrei quando o acalentava a chorar no bercinho. Muitas noites acordei para verificar se respirava, chegava a colocar um espelho na frente do nariz. – a dor da mãe contaminava, fez um silêncio breve absorvida em recordações e continuou – sempre foi um menino fraco, de peso aquém da idade. Tivemos que tratá-lo diferente dos outros.
O comandante avisou para apertarmos os cintos, pois o vôo chegara em Porto Alegre. Um a um suspiramos.
O avião aterrissou com forte impacto na pista. Quando estacionou, nos despedimos dentro da aeronave. Perguntei ao pai se poderia publicar a história sem identificar as pessoas e recebi um sinal que sim com cabeça e complementou que poderia ser útil aos leitores.
No saguão, acenamos. Como estava com bagagem de mão dirigi-me a porta principal do aeroporto Salgado Filho que, quando abriu deixou entrar um vento gelado.
Puxei o casaco da maleta. Três graus na capital gaúcha.

sábado, 15 de setembro de 2012

PORTO ALEGRE É DEMAIS

(Google Imagens)

Frequentemente viajo a Porto Alegre e por isso identifico dois tipos de habitantes, quando o tema é a violência. Há os que vivem presos dentro de casa, intimidados com notícias geradas pela televisão, jornais e revistas. Deslocam-se ao trabalho e voltam correndo a casa onde se aferrolham por trás de trancas, cercas elétricas e, alguns moradores de condomínio, se entregam a vigilância armada, espreitando pelas frestas o mundo lá fora. Os outros são os que mesmo sabendo de tudo, ignoram, acreditando que nada lhes acontecerá, desde que sigam o exemplo dos escoteiros e fiquem “sempre alerta”. Com certo cuidado, seguem a vida normal. Pertenço ao segundo time. Quando chego à cidade, procuro despir-me dos medos, porque entregar-me é ficar preso dentro de casa, acreditando em uma  realidade assustadora formatada pelos meios de comunicação. Transito pelas ruas, de ônibus como nos velhos tempos que morava na cidade ou de carro, procurando locais para diversão. Durante o dia, a pé, miro a bela paisagem do Guaíba onde nos  tempos de adolescente nadava e pescava lambaris que vó fritava para o almoço.
Hospedo na casa de mãe na zona sul e por lá mesmo percebo a multiplicação dos enclausurados. As cercas elétricas emendam umas as outras e chego a conclusão que vivo em uma situação irreal, baseada nos anos que por lá era tranquilo de viver. Às vezes tenho a sensação que pouco conheço sobre a realidade de Porto Alegre.
Muitos moradores de hoje não conheceram a zona sul quando totalmente aberta aos moradores, e com vizinhos tomando mate e conversando sentados nas calçadas. São pessoas que economizaram muito para aquisição de suas casas e acabaram escravizadas dentro delas. Só saem para outra clausura, a dos shoppings. E assim entram no círculo vicioso de trabalhar para consumir. Neurose que está levando os moradores a desconhecerem quem mora ao lado. Porque lugar para consumir em Porto Alegre é o que mais tem. Sem contar os pequenos, são cerca de dez shoppings entre médio e grande porte.  Conto por baixo, pois alguns nem conheço. Nos bairros, pequenos shoppings com seguranças e estacionamento para o conforto dos frequentadores, mas também ali, impera a sensação da clausura.
Leio um artigo no jornal local que Porto Alegre foi roubada dos Porto-alegrenses. Pura verdade. A capital está reclusa. Além do laser, as compras se restringem aos shoppings. Quem hoje vai ao centro comprar uma camisa, calça, sapatos ou aparelhos eletro/eletrônicos? Nem sei como sobrevivem estas lojas.
Em Brasília, vivo acostumado a frequentar shopping. Desde que decidi morar na capital federal, em 1974, é o único local que a maioria do brasiliense conhece para comprar. Só me dirijo ao comércio de entre quadras para adquirir pregos, parafusos ou achar um sapateiro. De resto, frequento os mega comércios, pois Brasília assim foi construída, para os habitantes não terem o trabalho de caminhar para consumir. Aliás, foi na capital federal que conheci shopping, como também acostumei a locomover apenas de carro tal o descaso com transporte coletivo, pois a capital federal foi propositalmente concebida para o automóvel. O que não entendo é como Porto Alegre, que possui bom sistema de transporte, seja surrupiada dos habitantes pela bandidagem.
Escrevo sobre isto para deixar claro que nego enclausurar em Porto Alegre. Só vou a shopping quando é preciso e para levar mãe para passeio seguro, banheiros limpos, alimentação diversificada, possibilidades de compras sem atropelos e onde inexistem degraus de calçadas para tropeçar.
Ao contrário, prefiro passeios por Ipanema para vigiar o por do sol que continua lindo e exercitar na Avenida Diário de Notícias. À noite, frequento os barzinhos ou vou a algum clube de dança, que por lá existem muitos. Prefiro curtir a sensação de segurança, talvez pelo tempo afastado da capital gaúcha o que provoca falsa imunidade que pretendo cultivar. Afinal, tenho meus direitos de ir e vir na capital gaúcha.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O MUNDO DÁ VOLTAS, BACELAR

(Google Imagens)

Após dois dias em coma, Bacelar acorda e, ao tentar mexer pernas,  braços ou simplesmente os dedos dos pés, percebe completa inanição. A única sensação de estar vivo foi o zoar do aparelho de monitoramento cardíaco. Guardava na lembrança a fisgada no lado esquerdo do rosto, a forte dor de cabeça e o repuxar teimoso do lado direito que o fez cruzar sinal de trânsito vermelho com o pé no acelerador. As fortes luzes do teto queimavam os olhos e neste cenário, todo branco, com odor de éter, onde o tempo deixava de ter importância, ouviu a voz familiar de Graça sua filha, que o alegrou e a seguir a do genro que o entristeceu. Percebeu-os aos pés da cama em conversa sussurrada.
– O que ouve com o bode velho teimoso? – falou Gerson a mulher.
– Parece que brigou com um diretor e acabou sofrendo um AVC de grau cinco, o mais grave segundo o médico. Mas pelo amor de Deus, pára de chamar meu pai assim – disse a filha, abatida e desanimada. – afinal, tudo que temos é graças a seu trabalho duro. Mamãe demorou a avisar achando que era coisa passageira.
O paciente ouvia tudo na solidão e imobilidade da doença e pensava o quanto aquele idiota do genro tivera parcela de participação.
Desde o início do namoro, dizia à mulher querer um homem melhor para a filha. Antes da chegada do “intruso”, como se referia, a família era unida e os planos seguiam de vento em popa. A fábrica estava na melhor fase e programava a exportação de produtos a China. A coisa desandou quando a filha única conheceu Gerson e quatro meses depois engravidou, garantindo assim prevalecer seu desejo de se casar com o rapaz. Em seis meses casaram em uma cerimônia aquém da programada.  Todo o movimento contrário ao casamento esmorecera frente ao amor entre os jovens. Amor capaz de  remover obstáculos e dobrar o pai furioso. Na época do casamento, a mulher o convenceu a patrocinar uma grande festa, que foi desprezada pelo genro soberbo e o enlace aconteceu na igreja perto dos pais do noivo e a festa no salão paroquial, embalada por música de pagodeiros, regada a cerveja e doces encomendados no supermercado. Bacelar então montou casa para os jovens, que foi abandonada e o casal passou a residir em casa vizinha aos pais do marido.
Gerson era rapaz de hábitos simples e até o casamento, morava em casa de dois cômodos com os pais na Ceilândia, cidade satélite de Brasília. Mal terminara o segundo grau, a filha do empresário, administradora de empresa, fora preparada para gerenciar os negócios. O pai não contava é com Graça fisgada pelo coração sonhador e simples do rapaz. Bacelar tinha certeza que fora a busca da filha por alguém parecido com ele, também de origem humilde o que influenciou na escolha.
Na única vez que foi visitar a filha, Bacelar não economizou palavras para exprimir a precariedade da moradia e tanto humilhou como desafiou o genro a dar o mesmo conforto que Graça tinha antes do casamento. Desta única vez que os visitou, floresceu a dor de cabeça do pai que nunca mais o deixou. O desgosto tomou conta da mansão do empresário que permanecia quieto e solitário em casa, pouco falando com a mulher.  
As tentativas de reaproximação entre os dois, feitas por Graça, para que o rapaz trabalhasse na fábrica, eram rechaçadas pelo pai que afirmava categórico:

– Um dia, minha filha, você irá voltar para casa sem “o intruso” e terá novamente as roupas de grife que você adora usar. Hoje você veste somente roupas de feirão. Este idiota não tem condições de assumir a empresa.
Bacelar, imerso forçadamente em pensamentos era observado pelo neto que olhava o avô como a um fantasma. Dor não tinha. Notou a visão turva mas os ouvidos estavam atentos e assim escutou a mulher  cumprimentar a todos e a ele, dirigir apenas um comentário maldoso, feito por não saber que o marido a tudo escutava.
– Ta vendo no que dá querer mandar em todo mundo? Agora, todos mandam em você.
– Filha, agora você pode pensar em voltar para casa, o médico falou que não há prazo para recuperação. O caso é grave e acredita em recuperação gradativa e muito lenta.
A mulher fez uma pausa para se certificar que foi entendida e continuou em tom grave.
– Agora a fábrica é sua e de Gerson e o melhor é assumir imediatamente para manter a continuidade. Falei com o contador, que amanhã reunirá a diretoria com o advogado para assumirem a gerência legalmente. Seu pai após a alta será instalado no quartinho da Clotilde no andar térreo lá de casa, onde ficará confortável.
Bacelar ouvia atentamente, impedido de qualquer reação. Apenas a mente trabalhava. A mulher saiu da sala e deixou o casal a conversar na frente do enfermo.
– Por mim, colocava o velho numa casa de saúde, afinal está um vegetal mesmo! – o rapaz destilava veneno recebido do sogro ao longo dos anos e fazia questão de demonstrar. Mesmo se soubesse que o sogro a tudo ouvia, era bem capaz de falar assim mesmo.
– Pára com isto, querido, papai sempre quis nosso conforto. Fazia tudo para mim e você usufruiu muito disto – a filha era grata ao pai.
Na verdade Gerson lembrava apenas que o sogro o humilhava a mesa nos almoços de domingos e nas reuniões familiares o classificava de formas negativas.
– Pois saiba que há tempos tomei ciência do andamento das finanças, querida. Não andam nada boas e expandir para a China é péssimo negócio, assim mandei abortar os planos. Temos que focar no Distrito Federal. Teremos que reduzir a empresa a dez por cento do que é hoje, para se manter no mercado.
Na cama, prostrado, Bacelar percebeu que nada podia fazer. Dependia de decisões de outros e concluiu que a empresa, sua propriedade e que proporcionara tanto prazer e conforto e até mesmo a filha que criou e educou nas melhores escolas, não mais lhe pertenciam. 
Fechou os olhos e passou a viver de fantasia.

domingo, 19 de agosto de 2012

RAINHA DA BATERIA

Google imagens

A maquiagem de Rosilene  estava borrada quando chegou em casa. Eram dez horas da manhã e o marido havia saído para o trabalho. No pequeno e único quarto do barraco dormiam os dois filhos de sete e quatro anos. Cansada jogou-se na cama e adormeceu rapidamente e ainda ao som da bateria da escola de samba nos ouvidos e dos aplausos dos assistentes, sonhou com a avenida, as roupas e a alegria que a dominava uma vez por ano.
A semana dura de trabalho e os preparativos para o desfile envolveram-na completamente às vésperas do evento. “Carnaval é apenas uma vez por ano”, dizia ao marido quando reclamava que a perdia durante esta fase. Rosilene amava desfilar. Há dez anos, durante os meses de fevereiro era envolvida no turbilhão dos preparativos. Corte da fantasia, costura, ensaios atrasavam a chegada a casa até altas horas da noite. Por várias ocasiões amanhecera na rua. Em algumas noites, nem dormia, era chegar e iniciar os preparativos para sair. Tomar o ônibus para a Zona sul e enfrentar a dura faxina do apartamento dos patrões em Ipanema.
Nunca reclamava da rotina. É verdade que, passados os dias de folia, a culpa a abatia e se penitenciava em negligenciar o marido, os filhos, mas a sensação de desfilar na avenida compensava. Teria o que contar aos netos. Mas prometeu ao marido e filhos que este era o último ano a desfilar.
Todos os anos, durante a hora e meia do desfile, Rosilene brilhava e, ovacionada pelo público, a rainha da bateria requebrava com ancas espertas e plenas de sensualidade. Sentia-se verdadeira deusa aplaudida pela multidão que naqueles momentos a via de forma especial. Joca, o marido ficava em casa. “Prefiro ver pela televisão”. Na verdade, a preferência do marido era ficar em casa, assistindo juntos a evolução das escolas de samba na Marquês de Sapucaí, “muito mais confortável e tranquilo”, falava com convicção de quem fora assaltado durante os carnavais da juventude.
Após a semana dedicada ao rei Momo, escrevia a família no Piauí.  Rosilene então colocava no envelope a foto atualizada com a fantasia daquele ano. Explicava não ter tempo de viajar e prometia, sem a preocupação de cumprir, que logo viajaria para os visitar e levar os filhos para que conhecessem. Mas, encantada pelo próximo desfile, após o carnaval, iniciava a economia, não para a viagem prometida, mas rumo ao evento do ano seguinte.
Desta vez prometera e cumpriria, “é o último ano que desfilo”. Atenderia aos pedidos dos filhos e do marido para gastar as energias e seu dinheiro em outras coisas, talvez quem sabe até na viagem ao nordeste, que o marido sozinho não dava conta de bancar. Parar com os desfiles era um esforço supremo e o marido reconhecia que conseguir isto da mulher era importante.
Acordou às três da tarde e correu ao banheiro para um banho. Precisava  aprontar e ficar bonita para fechar com chave de ouro a última noite de desfiles. Sua escola entraria na avenida as onze horas. A rede de televisão avisara que sua despedida seria destaque no principal programa da emissora no domingo seguinte.  Telefonou para o organizador e soube do repórter que a esperava. Deveria chegar, no máximo, oito da noite. Sem atrasos. De pé, tomou o caldo do feijão que o marido deixara e saiu porta afora, sem esperá-lo.
Ao ganhar à calçada, caminhava apressada até a parada de ônibus quando percebeu correria de pessoas a fugir do banco da esquina. Rosilene ficou na ponta dos pés e esticou o pescoço. No momento seguinte, percebeu um jovem com mochila nas costas que corria em sua direção. Passou por ela rapidamente perseguido por três policiais. Ouviu disparos e a vida da sambista, até então festiva, extinguiu-se.