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domingo, 29 de dezembro de 2013

PRAZO DE VALIDADE

(Foto Google-Imagens)
Assisti à luta de Anderson Silva, mais por ser brasileiro e querer engrossar a torcida, do que pela representação do esporte. Aliás, acho o UFC extremamente violento e afirmo ter audiência apenas pelo número de brasileiros nas lutas do programa sanguinário. Assim, assisti ao vivo o martírio do Silva, posteriormente repetido à exaustão. Foi demais quebrar a fíbula e a tíbia em golpe provocado por ele e defendido pelo americano. O fato, pela gravidade, pode ocasionar aposentadoria.
O acontecimento trágico sobressaltou algo esquecido no dia a dia: o prazo de validade. Seja humano, animal ou vegetal, enfim, todo ser vivo passa pelas fases de nascimento, crescimento e envelhecimento. A morte, por ser o fim da vida, nem cito.
Certa vez assisti à entrevista com Emerson Fittipaldi logo após a queda de ultraleve em 1997, por ocasião de passeio. Saiu da fazenda no interior de São Paulo e desapareceu por onze horas. Emerson declarou que, após o acidente, colocou colete protetor para reforçar uma vértebra. Na ocasião, assumiu que o risco de sequela grave era grande devido à idade, inimiga que roubava reflexos e retardava a recuperação. Isso acelerou a aposentadoria do campeão, cogitada desde o acidente de Michigan em 1996, onde também rompeu vértebras da coluna.
Nelson Piquet, nosso outro piloto campeão, após abandonar a Fórmula 1 fechou contrato com a Indy. Pretendia estender a capacidade de pilotar em alta velocidade nas pistas por muitos anos. Piquet tinha 39 anos quando bateu forte no autódromo de Indianápolis. Escapou com vida por milagre e abandonou de vez as pistas oficiais. Decidiu tocar a vitoriosa carreira de empresário. Entendeu que reflexos, resistência física e outros quesitos imprescindíveis são potencializados pela juventude e perdidos à medida que o tempo se esvai.
Talvez tenha sido esse entendimento que faltou a Anderson Silva. Um médico ortopedista entrevistado pela Globo News, cogitou que a perna atingida do Spider poderia estar com ossos comprometidos, não somente pela idade do nosso campeão, como também pelo número de vezes que a usou para derrubar adversários. Tanto isso é verdade, que certa vez o campeão quebrou a perna de um antagonista com violenta pernada, o que provocou nocaute prematuro.
A hora de parar sempre chega. Quanto maior o esforço do organismo para praticar o esporte, mais o atleta é exigido e precisa reconhecer o momento de parar. Afinal, organismos sofrem fadiga e até máquinas se desgastam.
Ilusão achar que isso ocorre somente nos esportes. Cuidados especiais também devem acontecer na procriação. Jovens casais que adiam a reprodução podem ter surpresas. Inúmeros problemas na idade avançada dos pais influenciam na formação genética dos descendentes.

sábado, 16 de novembro de 2013

PRISIONEIRO

(Google Imagens)
A fechadura abre com barulho ensurdecedor, a porta escancara e entra intensa luminosidade que fere os olhos do prisioneiro, acostumados a escuridão. Aparece a silhueta do homem que diariamente faz tremer o rapaz algemado ao banco de madeira aplicando métodos de tortura para obriga-lo a entregar amigos. Sempre a mesma gravata surrada, calças e sapatos pretos. Encara o rapaz com desdém. O prisioneiro entende que a sessão de tortura iniciará. Se igual às anteriores, o fim está próximo. O sangue gela, como acontece sempre que antecede as sessões. O recém-chegado acende a potente lamparina da mesa e foca no prisioneiro.
Atrás do homem de preto, entra outro, de avental branco e longo bigode grisalho. Fecha a porta e aproxima-se do prisioneiro. Levanta a pálpebra esquerda e pergunta o nome:
- José P. – responde após longo silêncio, rouco, voz baixa, quase imperceptível. O desânimo toma conta do rapaz.
- Dificilmente resistirá a mais uma sessão. – o homem de avental branco fala pausado, com experiência de médico de pronto socorro. Detesta o torturador, classifica-o como frio e sanguinário. Já atendera prisioneiros  passados pelas mãos do homem.
- Se quiser viver, que assine a confissão. – o carrasco fala alto, esbraveja que não é problema dele e reafirma que fará o trabalho. Atira uma folha de papel na frente do prisioneiro. A assinatura, bem sabia o médico, não afiançava a vida do torturado.
- A saúde está comprometida pelos maus tratos no pau de arara, os eletrochoques e dias sem comida e água. – reafirma.
José P. fora retirado de casa acusado de terrorismo, levado de pijama para um porão e submetido a toda sorte de sevícias. Taxado de terrorismo contra o Estado, o estado do rapaz era lastimável, com olhos vermelhos  emoldurados por profundas marcas negras. Na boca, um hematoma que pululava gosma branca a escorria peito abaixo.
- Que diga o que tem a dizer, por bem ou por mal. Basta assinar o documento sobre a mesa. – o torturador exultava os momentos que antecediam o início do interrogatório.
- Não posso atestar pela saúde do prisioneiro. Deve ser internado em um hospital imediatamente. Posso ter o diploma cassado. – o médico se preocupa com a reputação e isto enraivece o torturador.
- Pouco me interessa. Iniciarei a sessão -. Vira e liga o equipamento de som. A sala inunda o ambiente com música clássica. Abre o volume ao máximo, e enfia um par de luvas cirúrgicas.
O médico percebe o prisioneiro fixado no revólver em cima da mesa. Por instantes, se entreolham, costurando tenra cumplicidade.
Alheio aos acontecimentos, cego de raiva, o torturador coloca as luvas, o capuz, a soqueira, toma água. Ouve dois estampidos. A dor lancinante e instantânea o impede de respirar. Volta-se, leva a mão à cintura a procura da arma. Percebe-a na mão do prisioneiro. Mais dois estampidos e cai em agonia.
Enquanto o médico atende o carrasco, ouve outro tiro. Apressado larga o moribundo e atende ao rapaz que, sem coragem de tirar a própria vida, acertara o teto da cela.

terça-feira, 26 de março de 2013

QUANDO O DIA AMANHECE

(Google Imagens)

Eram duas horas da manhã quando o avião taxiou na pista a caminho da plataforma de desembarque. A moça ergueu da poltrona e deixou-se cair novamente. Estava exausta. Leve dor de cabeça a incomodava desde a partida. Os dedos queimados a denunciavam.
Esperou o último passageiro descer. A comissária perguntou o destino e, sem responder, levantou-se e rumou a porta de saída. Da esteira de bagagens acenou ao irmão que esperava no desembarque. Pegou as malas e apressou-se a abraçá-lo. Por sobre os ombros, reconheceu os pais e impressionou-se com a mudança nas fisionomias e, por um momento, avistou o próprio semblante na porta de vidro. Pálida, olhos fundos e magérrima sentiu fraqueza, segurando-se no carrinho de bagagem.
Separados pelas paredes de vidro, todos se espiavam em silêncio enquanto a moça seguia ao encontro familiar. Abraçou o pai que a acalentou demoradamente, esfregando a mão quente nas costas onde salientavam as costelas. O homem tentava identificar o rosto enterrado em seu ombro, se da filha ou de uma desconhecida.
Com os olhos localizou a mãe. A jovem foi abraçada. Os braços da mãe eram tentáculos que a  entrelaçavam e formavam grossa rede de proteção do mundo que conhecera. Abraçaram-se fortemente e a jovem derramava  lágrimas que não sabia ser de felicidade ou dor reprimida por sentir-se abandonada por si mesma ao seguir a direção de terras estranhas e hábitos doentios mergulhando-a na onda de vícios. Impassível diante do abraço da filha, a mãe demonstrava claramente a distância entre as duas. Anos de ausência quase romperam o elo entre as duas. O abraço apesar de afetuoso, não indicava mudanças. Eram duas estranhas que buscavam nos rostos o resto da familiaridade perdida.
Em silêncio, pai, irmão e a recém chegada tomaram o rumo da clínica de reabilitação e, em pouco mais de uma hora, estavam em frente ao médico plantonista que, avisado previamente, os esperava acolhedor. Foram duas horas de entrevistas, perguntas e preparativos. A manhã fria de outono climatizava a despedida à saída da clínica. Pai e irmão partiram. Sozinha na sala de espera a jovem chorava atormentada pela abstinência. Preparava-se para enfrentar as primeiras setenta e duas horas, parte dolorosa e importante do tratamento. Ouvira do médico sobre as chances de sair saudável da internação, escassas, caso não houvesse comprometimento pessoal com o tratamento. Levantou a gola do casaco para proteger do frio e acendeu um cigarro. Enquanto aspirava a fumaça quente e seca, reviu o filme de sua vida, e ao lembrar a imagem na porta do aeroporto, foi dominada por um frio na barriga. Pensou nas filhas que ainda não vira e mais uma vez as lágrimas rolaram. Precisava dominar a doença das drogas. O choro compulsivo sacudiu o peito magro de seios murchos. O médico mandou preparar medicação e a cama para a nova interna. Invadida por profunda tristeza, cabisbaixa seguiu para o alojamento.

sábado, 22 de setembro de 2012

O FILHOTE QUE CAIU DO NINHO ANTES DE VOAR

(Google Imagens)

Histórias de desventuras familiares de dependente químico existem inúmeras. Chocantes, podem conter superações incríveis, principalmente quando o adicto assume a doença e conscientiza que só ele pode tratar. Esta, ilustra a problemática e diz respeito ao casal que conheci em viagem a Porto Alegre.
A afinidade com a família aconteceu no aeroporto, enquanto esperávamos o embarque. Iniciou com assunto corriqueiro mas o estado de ansiedade de ambos, gerou a empatia necessária para um diálogo transformador. Acompanhavam o filho para internação em clínica. Os três estavam exauridos pela situação.
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1 – A expulsão de casa

Com apenas 26 anos este rapaz viveu intensa e perigosamente. Foram sumiços de objetos dentro de casa para sustentar o vício, roubos, assaltos simples, depois a mão armada e por fim prisões e ameaças de morte. Piorou quando os pais cansaram das estripulias e o expulsaram de casa. Sentiam-se impotentes perante a adicção e resolveram abrir mão do filho.
A saída de casa foi traumática e, sem compreender nada da vida, o jovem se viu na rua sem teto e comida. Num primeiro momento, odiou os pais.  Anos mais tarde, amou-os pela atitude corajosa.
– Só compreendi a gravidade da situação e o problema que causava a família, ao ser colocado para fora de casa – fala pausada, parecia dopado por forte medicação. As palavras saíam devagar, forçadas e vez por outra desconexas. – Doeu-me sair de casa moço, não desejo isso a ninguém.
Minha posição no avião facilitava ouvir pai e filho. Sentara no corredor por comodidade de acesso ao banheiro. Ao meu lado direito o pai, na janela a mãe, olhando a pista que se distanciava. Do lado esquerdo, após o corredor, o rapaz, pouco mais que um menino. As mãos queimadas pelo vício. Ficamos em silêncio enquanto o comandante prestava informações sobre o vôo que já iniciara a plena altura. Logo agradeceu, desligou o microfone e voltamos a falar. Comentei sobre as dificuldades da vida e o jovem  entendeu a senha para continuar o relato.
– Quando meu pai me expulsou, estava ameaçado de morte pelos traficantes e naquela noite recebi cobrança dura. Enquanto caminhava sem rumo pela rua, uma moto cortou a frente. Duas figuras desceram. Reconheci e, antes que encostassem em mim, falei precisar de tempo. Um deles fez a volta e veio por trás e recebi violento golpe na nuca. Desabei sem forças, mas  consciente.
Interessei-me pelo relato e virei o corpo para ficar de frente ao perceber que certas coisas um estranho ouve melhor. O pai aguçou o ouvido, demonstrando desconhecer a parte da história. Percebi no tom de voz, nos olhos úmidos e na fala mansa, palavras vindas do coração, de uma profundidade doída de quem padecera na carne.



2 – A vida ensina

– Após este primeiro golpe, lembro apenas que caí e um chute no rosto brotou o gosto de sangue na boca. Acho que desmaiei. Perdi a noção do tempo que fiquei desacordado. – Encurvado, relembrava os fatos pela primeira vez e percebi a inocência de menino. Ofereci o lenço de papel que carrego. Aceitou e assuou o nariz com estardalhaço. A senhora ao lado, encolheu-se. Ao viver as ruas, adquirira hábitos do meio. Continuou.
– Acordei na esquina da rua que depois soube ser de cidade satélite. Em frente ao nariz um coturno e quando olhei para cima, vi o vulto fardado. Polícia. Eram três. Levei um chute no estômago e foi só. Deixaram-me. Não merecia atenção. Acompanhei-os com os olhos e, com dificuldade levantei cambaleando. Estava fraco do espancamento do dia anterior. Sentia-me um caco de madeira triturada e lembrei da minha cama. Caí no chão e dormi de novo. Acordei a noite, moído e ensanguentado. A vontade de usar a droga me assolava e ao ver um menino com tênis, ameacei-o e roubei. Corri para a boca e troquei pela primeira pedra de crack do dia. Depois juntei a três desconhecidos e roubamos a bolsa de uma mulher. Compramos dez pedras com o dinheiro e dividimos. Dormi dopado esta noite e ao acordar, o sol alto e o calor mormacento me incomodaram. Senti fome. Lembrei do café da manhã de mãe. O corpo era uma dor só. Não dava para saber onde doía mais. Consegui levantar e comecei a busca por comida. Ao dobrar uma rua, avistei o cartaz de supermercado. Apressei o passo até a lixeira, onde vi um pacote de papel. Sem parar, peguei-o e abri caminhando em direção a sombra do estacionamento, escondendo dos seguranças. Sentei ao lado de um rato que olhava desconfiado. Era um sanduíche e, ali mesmo comi, não como mendigo, mas como aprendera, mastigando vagarosamente, com a boca fechada. Senti o gosto da carne, do catchup, da maionese e do pão. Alguém o descartara quase inteiro. – Interrompeu a narrativa buscando minha cumplicidade e complementou – O senhor se surpreenderia ao ver o desperdício que o povo descarta. Graças a Deus, pois assim o pessoal de rua tem o que comer.
Conversar em avião tem inconveniente, fica-se com o pescoço torcido. Olhei para o outro lado, onde estavam os pais. A mãe solitária e distante, estava alienada pelo barulho dos motores, mesmo se ouvisse o rapaz, não choraria. As lágrimas secaram. O pai, mais perto, se emocionava. Coloquei a mão sobre seu ombro e ele baixou a cabeça.
Retornei atenção ao jovem, que continuou.
– A fome continuava e voltei às lixeiras, onde fui premiado por quatro bananas e um yogurte pela metade. Agora estava alimentado e saudável. Ou quase. Novas investidas da droga assolavam. Levantei e caminhei as seis horas seguintes até o anoitecer, sem rumo. Parava em algum muro, deitava e dormia e o tempo passava. Juntei-me a um grupo que seguia para boca de fumo. A cabeça só pensava no consumo e, quando percebi chegamos. Era no local de onde tinha o débito. Tentei voltar, mas era tarde. Uns quatro me cercaram e, diante de minha negativa em pagá-los, começaram a bater. No início até sentia dores das pancadas, mas logo o corpo adormeceu e a voz deles ficou distante e perdi os sentidos. – Sua fragilidade pode ser comparada ao filhote de pássaro que cai do ninho antes de aprender a voar.


3 – A redenção

O jovem olhou o pai e pediu que continuasse o relato. Antes de começar, o homem secou a coriza que teimava em pingar da ponta do nariz. Depois iniciou uma fala difícil, muito baixa.
– Eram seis horas da manhã quando recebi o telefonema do hospital avisando que nosso filho fora encontrado sangrando na rua. Minha mulher e eu atendemos ao chamado imediatamente e saímos sem café. Naquela manhã chovia muito, mas mesmo assim, fizemos o trajeto do Plano a Samambaia em quinze minutos. Quantas vezes ainda teríamos que aguentar isto? – A voz do pai era gutural e rouca e percebi que a mãe ouvia e as lágrimas ainda existiam. Baixou a cabeça e secou-as num lencinho rosa. Quando se recuperou, continuou a narrativa.
– Quando chegamos ao hospital, o médico recebeu de pé. Disse que achou o número do telefone colado na carteira de identidade e que agora o menino estava em coma induzido. O maxilar estava quebrado, assim como um braço, a perna esquerda e, o mais grave, quatro coágulos no cérebro estavam drenando. A situação era grave e impossível de precisar o que vinha pela frente. Foram 45 dias de dor com visitas diárias a UTI e nosso garotinho entre a vida e a morte. Após este tempo, saiu do coma e passou por várias cirurgias. No dia que recebeu alta, pediu ajuda e declarou querer uma clínica de recuperação.
Ficamos todos em silêncio e percebi naquela família destroçada o quanto um elemento pode afetar a harmonia e a paz. O problema deles está longe do fim. Os pais precisam ter consciência de sua impotência e que o filho deve ser o responsável pelo tratamento. O adicto deve promover seu cuidado, pois são os melhores cuidadores de si mesmos.
Após a pausa, a mãe se sentiu fortalecida a continuar.
– Nosso filho parecia um indigente no hospital. O pé inchado e cascudo. O senhor não imagina. – fiz sinal que sim, que podia imaginar e ela continuou em tom de confidência. – Ao ver meu menino na UTI, lembrei quando o acalentava a chorar no bercinho. Muitas noites acordei para verificar se respirava, chegava a colocar um espelho na frente do nariz. – a dor da mãe contaminava, fez um silêncio breve absorvida em recordações e continuou – sempre foi um menino fraco, de peso aquém da idade. Tivemos que tratá-lo diferente dos outros.
O comandante avisou para apertarmos os cintos, pois o vôo chegara em Porto Alegre. Um a um suspiramos.
O avião aterrissou com forte impacto na pista. Quando estacionou, nos despedimos dentro da aeronave. Perguntei ao pai se poderia publicar a história sem identificar as pessoas e recebi um sinal que sim com cabeça e complementou que poderia ser útil aos leitores.
No saguão, acenamos. Como estava com bagagem de mão dirigi-me a porta principal do aeroporto Salgado Filho que, quando abriu deixou entrar um vento gelado.
Puxei o casaco da maleta. Três graus na capital gaúcha.

domingo, 20 de maio de 2012

SOU MORTAL – A CONSTATAÇÃO – PARTE I

(Foto Google Imagens)

Anualmente faço exames para verificar como está a saúde. Desta vez relaxei e  passaram três anos. Tudo está bem. Andava receoso, afinal há quem afirme que “frequentar médicos é procurar doença, quem procura acha”. Comentário mais danoso, impossível. É importante que monitore, tive câncer de intestino. A partir daí, mudei radicalmente o pensar, o agir e a forma de relacionar com o mundo e as pessoas. Pouca gente entendeu a mudança. Vou descrever os acontecimentos de forma agradável, pois me considero sobrevivente.
Na vida as coisas me aconteceram por muito tempo de forma previsível, às vezes como coadjuvante e outras, protagonista. Quando coadjuvante dava prioridade exagerada aos que me cercavam e, protagonista, priorizava a felicidade alheia. Em resumo acreditava que todos ao redor mereciam mais que eu. Deveriam acontecer várias coisas para dedicar-me a projetos pessoais. Para sair deste pêndulo, foi preciso o destino armar das suas.
Assim, numa tarde de sexta feira do mês de abril, dois mil e três tomei consciência da minha mortalidade e iniciou-se o novo caminho, completamente inesperado. Até então consumia energia no trabalho e churrascos de finais de semana regados a cerveja. Adiava prioridades e entregava as rédeas da vida para os outros. Admito que não vivia, existia. 
Naquele dia entendi que os sinais que apresentava deveriam ser levados a sério. Há meses apresentava cólicas intestinais constantes com idas dolorosas ao banheiro. Trabalhava numa rotina alucinante, entre a empresa de consultoria e vendas no Liberty Mall e o emprego público de meio expediente. Eram doze horas diárias entre vendas de mercadorias, acompanhamento de instalações e execução de obras.
Escolhi o médico no catálogo do plano de saúde e consegui  consulta no mesmo dia, final de tarde, num consultório esvaziado pelo inicio do fim de semana. O proctologista, impaciente, olhava o relógio, certamente imaginando que atrasaria seu descanso. Cheguei encharcado de suor e, preocupado, iniciei a narração do histórico de cólicas, sangramentos e dores abdominais. Atentamente, ele ouvia o relato dos sintomas, acompanhado de meu autodiagnóstico prematuro. Quando parei de falar, perdera a pressa, “certamente não é só isto”. Apontou a maca e apalpou demoradamente o abdômen que, dependendo do lugar, doía como se perfurado por punhal. Nada comentou. Marcou exame completo para segunda-feira, após jejum de doze horas e lavagem intestinal. Foi um fim de semana tenso e apreensivo. Pensava em desembaraçar daquilo rapidamente para iniciar a semana com as atividades normais, afinal, tarefas inadiáveis esperavam e a rotina de manutenção do prédio público deveria ser cumprida. Queria solução imediata, um comprimido ou mesmo injeção para ficar livre.
Meu humor despencara e desdenhava das piadas que pipocavam ao redor. Estava bloqueado. Erguera uma blindagem na qual permaneci protegido durante final de semana. Isolar-me era o que minha situação pedia.
Na segunda feira cheguei ao consultório atordoado pela brusca perda da tranquilidade. Olhava a todo instante o relógio, preocupado em chegar atrasado ao escritório. Urgia voltar à rotina, pois garantia o retorno à normalidade.
Deitei na maca em frente a um monitor de vídeo e mangueira com microcâmera na ponta. “Como passou o final de semana?” Perguntou a enfermeira. “Cheio de gás”, respondi sem convicção. Pela seriedade da reação, desconfiei. Diferentemente da sexta anterior, havia na sala, além do procto, um anestesista e a enfermeira que aproximou, pegou meu braço esquerdo e perfurou a veia do antebraço, onde colocou a mangueira de soro. O anestesista aproveitou e espetou a seringa e, enquanto acionava o êmbolo, perguntou-me sobre o time de futebol predileto. Respondi que era o Grêmio de Porto Alegre e a frase que se completaria com o comentário do jogo da quarta-feira seguinte pela Copa Brasil ficou pela metade. Apaguei sob efeito de poderoso sonífero.
Acordei grogue e percebi que o exame terminara. Estava em outra sala, num sofá reclinável e ouvi o médico conversando com alguém. Por mais que esforçasse para entender, a anestesia bloqueava e desisti. Dormi aquela noite ignorando o resultado.
No outro dia, compareci ao consultório cedo e folheei displicente a revista Caras de quatro meses atrás. Com cerca de trinta minutos de espera, o médico me recebe na ante-sala com uma pasta branca na mão. Mandou-me entrar e sentei na cadeira com braços de ferro tão frios como o diagnóstico que receberia a seguir. Respirou fundo. “O senhor deve imaginar o que tem”. Não respondi, mas pelo ar solene, conclui. “Câncer de intestino e a única solução é cirurgia. Enviei o material para biópsia, mas é só para certificar, não há dúvida.” Enquanto escrevia a relação de exames para o pré-operatório, repassei minha vida pela primeira vez, algo que se tornaria rotina. Vendo-me de cabeça baixa, explicou os procedimentos cirúrgicos e por fim, fechou a conversa com um comentário que me martelou por muito tempo. “Toda pessoa que passa por um processo destes sofre profunda mudança,” e acrescentou,“prepare-se.”
Peguei os papéis que me alcançava, levantei da cadeira e olhei o relógio. Eram dez horas da manhã. Reclamei que tinha rotina dura a enfrentar, que os trabalhos parariam sem mim. Ele ouvia atento. Quando terminei as lamúrias, falou compassadamente, “penso que não entendeu, o senhor está sob cuidados médicos. Estou lhe dando atestado de um mês para iniciar exames pré cirúrgicos. Fará cirurgia,  sessões de quimioterapia, talvez radioterapia. É hora de cuidar de suas coisas e do bem maior, a saúde.” O final da frase ouvi de costas. Um zumbido apitou no ouvido, o chão faltou sob os pés e sentei novamente.
Ficar doente soa como um sinal de fraqueza, o estigma da vergonha que se identifica com o sentimento de dó de quem vive a volta do adoecido.
            Se falou mais alguma coisa, desconsiderei. O tempo parou, a pressa acabou, a vida desabou. O que aconteceu comigo? O que fiz de errado? Eu merecia? Porque? A que mudanças o médico se referiu?
            As respostas viriam devagar, a conta gotas. Foi como mergulhar na realidade sombria, num mundo desconhecido.

sábado, 3 de setembro de 2011

A CULPA FOI DELE, SÓ DELE

(Foto: Google imagens)






Aquele quarto nunca me parecera tão grande. A cômoda, os armários com minhas roupas solitárias. Tudo me lembrava nossa convivência de trinta anos. Ao final do casamento, constatei que pouco o conhecia. Éramos estranhos. Fantasmas solitários dentro de casa. Para aplacar o distanciamento, buscava conforto com minha família. Consolavam-me dizendo “casamento é assim mesmo”.
Antes de conhecê-lo havia desistido de casar. Repensei a decisão por sua ousadia em perguntar se poderia sentar a meu lado no cinema. Após a sessão, saímos para jantar e ficamos até tarde. O teste final aconteceu ao apresentá-lo a minha irmã mais velha. O comentário fez a diferença, “fique com ele, tem emprego seguro, é atraente, será boa companhia e tua chance de ter filhos”. Nem perguntou se o amava. Sempre teve influência sobre mim e, por comodismo, entreguei-lhe as rédeas da vida. Anos mais tarde percebi que era invejosa e direcionou minha vida a lhe atender. Até hoje, qualquer coisa que faço, passa pela aprovação dela.
Agora vejo com clareza que seria impossível uma união longa entre eu e Afonso. Pensava apenas em engravidar. “A mulher deve ter filhos”, dizia mamãe. Aos poucos acostumei a seu jeito de ser. Do primeiro filho, por orientação de minha irmã, fiquei grávida no início do casamento. Estava em idade de risco para a primeira gestação. Percebi-o reticente, mas nem preocupei, “é a mulher que dá as cartas na espera do filho” dizia ela. Tivemos três.
Afonso e eu éramos felizes até surgir os problemas de coração e quase morrer. A partir daí, tornou-se outro homem. Um desconhecido. Como se eu fosse a causadora do problema de saúde. Repetia sempre “como tive outra chance, agora levarei minha vida”. Meu desejo era ele voltar ao que era. Certa vez falou em mudar de vida, se sentia insatisfeito com a relação. Ao comentar com a irmã, veio a solução “fique quieta, logo ele esquece, volta a fazer as coisas de sempre, nem lembra mais”.
Desconfiei que tivesse um caso. “Homem deve sofrer na mão da mulher”, garantia minha irmã, “fique tranquila que doente e velho ninguém quer.” Estranhei o conselho, mas segui a risca. Passei a ignorá-lo dentro de casa. Permanecemos assim por três anos, tempo suficiente para restabelecer do transplante de coração.
Nossos diálogos foram escasseando, mas nem imaginava separarmos. Ele gostava de sair mas raramente o fizemos. Detestava quando ficávamos a sós, sem assunto. Era conversador. Falava com garçons, o caixa ou mesmo com clientes de mesas vizinhas. Sempre tive dificuldade em fazer amizade.
Com a mudança de comportamento acreditei haver outra mulher. Certa vez, minha irmã lhe chamou atenção, criticando-o. Ele se fechou. Mais tarde, liguei os fatos e compreendi que perdera meu marido. Se nossa relação vinha ruim, o fato serviu para acabar definitivamente.
Depois da separação, uma colega aconselhou esquecê-lo. Pensar no saldo da relação, nos filhos por exemplo. Sugeriu que namorasse. Como me divertir sabendo estar com outra mulher? Teve várias enquanto vivia comigo. Era incorrigível!
Confesso que em nenhuma ocasião o peguei com outra. Sempre fez escondido. Para não ser visto, frequentava lugares públicos desacompanhado. Muito esperto!
Quando adoeceu, pensei haver chegado sua hora. Mas recuperou. Passou a sair só. Frequentar cinema. Chegar tarde. Trocar o horário do futebol. Assumiu de vez a vida mundana. Porque deixou de gostar de mim? Que foi que fiz? Onde errei? Minha irmã está certa: Afonso não tem coração.
Agora estou só. Onde estará minha irmã? Será que morreu? Os filhos casaram. Há quanto tempo estou no quarto? Chego a pensar que esta não é minha casa. Quando batem a porta só vejo velhos enrugados! Prefiro ficar só. Não tenho rugas. Onde está o armário? Quero trocar de roupa e trabalhar. Perderei a hora.
“Afonso! Cadê meus remédios?”