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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O BLOG

(arquivo pessoal)

A ideia de montar o blog ocorreu há quatro anos. Conversava com Fabio, meu filho, quando ao final da conversa me presenteou com um livro sobre o assunto. Logo o devorei e fui seduzido pela idéia. Naquele singelo presente de filho, acompanhado de delicioso prato de tilápia com alcaparras no Carpe-Dien do Casa Park, estava sacramentado. Junto do livro, elencou algumas dezenas de endereços da internet para visitar. Visitei todos. Sem exceção, eram da ala progressista, coisa de jovem pleno de ideais.
Mas ainda não seria desta vez que o projeto vingaria. Em 2009, durante um curso de Jornalismo Literário em Goiânia, o professor Edvaldo Pereira Filho, o Ed, novamente reforçou a idéia. Toda vez que apresentava os textos no curso, recebia o incentivo daquele jornalista experimentado, forjado dentro das redações de jornais, revistas e professor da USP. A criação do blog era questão de tempo. Sempre fui muito crítico e experimentava a sensação de ser verde na arte literária. O contato com o Ed reforçou minha auto-estima jornalística.
Apesar da data inaugural ser maio de 2009, postei o primeiro texto em agosto deste ano. Após isto, passei longo tempo com escassas publicações, talvez esquentando os motores. O incremento aconteceu a partir de 2010, mais precisamente setembro, com o  texto Recanto do Coração publicado em 22/09/2010, onde descrevi minhas impressões sobre o bairro Tristeza em porto Alegre, onde passei a infância e adolescência. Este texto mereceu publicação no caderno Zona Sul da Zero Hora de Porto Alegre e o considero a primeira obra do blog. A partir daí, não parei mais. Hoje em dia, quando passo duas semanas sem postar, sinto que estou em falta, pois sei que os leitores querem sempre ler algo novo e, de preferência, todos os dias. Ocorre que tenho compromissos e muita preocupação com o esmero e o gosto de postar sempre textos revisados e enxutos o que dá um trabalho danado. Além disso quero publicar assuntos satisfatórios ao leitor e que acrescente novidade.
Até este mês foram publicadas 72 narrativas, mais 11 em espanhol, minha segunda língua. Pretensioso, exibi algumas telas que fiz em óleo sobre tela e apresentei fotos de viagem, como as de Portugal, as de viagens a fronteira gaúcha, as visitas a pequenas cidades brasileiras como Nova Veneza, Pirinópolis, Caldas Novas e Goiás Velho no estado de Goiás e Barão do Triunfo no estado do Rio Grande do Sul.
Recebo atualmente um total  de 11.500 leitores o que é enorme responsabilidade. São cerca de 500 leitores todo mês que me visitam, e isto pesa na qualidade do que me proponho apresentar. Considero que publicar os textos é algo sério e só o faço quando está tão próximo do ótimo quanto possível, mas mesmo assim conto com comentários de alguns leitores, o que acho muito bom.
Pode o leitor ter certeza que nas minhas narrativas, grande parte é composta de realidade, mas como a ficção dá o gostinho saboroso nas histórias, também existe. Na verdade até nos documentários cabe ficção. Escrever para o blog é por demais prazeroso e muitos textos provocaram comentários interessantes e cada vez que os recebo, melhoro mais um pouco. O escritor e o leitor se harmonizam num processo de criação e perfeição constantes. 

domingo, 15 de julho de 2012

SARU

Saru costurando ( arquivo pessoal )

Saru Yamagushi tem 97 anos, nasceu em 08 de novembro de mil novecentos e quatorze. Mora em Caldas Novas desde 1988, mas já morou em São Paulo e Paraná, onde tem a maioria dos parentes. Aos dezessete anos,  ainda adolescente, chegou ao Brasil, procedente de Hokkaido, segunda maior ilha do arquipélago japonês, na esperança de testemunhar o que ouvira ainda na terra natal : “um país ótimo para viver”.
Casou-se com um paulistano dez anos mais velho com quem aprendeu que a vida não era tão simples como lhe ensinaram. O marido alcoólatra obrigou Saru, educada a aguentar tudo do companheiro, a conviver com a doença resignadamente até sua morte, por problemas no fígado. Teve nove filhos dos quais oito estão vivos e residentes em diversos lugares do país. Com a morte do marido, manteve a mercearia da família na cidade do Gama em Brasília, de onde sozinha, tirava o sustento da família.
Criou os filhos repassando a rígida educação aprendida dos pais que ficaram no Japão. Apesar disso, Saru sempre tratou os filhos com carinho, os quais “encaminhou com princípios de ética e honestidade”.
Ao chegar a casa de Saru encontrei-a pedalando em uma bicicleta adaptada por seu filho caçula Mutian, que proporciona que ela pedale praticamente deitada. Um exercício que o filho caçula a submete diariamente por pelo menos uma hora. “Assim mantenho a mãe muito bem exercitada e com a mente boa”, diz com convicção. Mutian é o filho dedicado e de quem procede toda ajuda e com quem mora numa espaçosa casa da cidade termal goiana. Quando fala sobre a mãe, se emociona e demonstra orgulho em ser o único a dedicar amor, tempo pessoal e conforto na velhice de quem classifica ser a responsável pelo seu sucesso como ser humano.
Pedalar vem de família. Mutian, coleciona entre medalhas e troféus, mais de 240 itens relativos a participações e boas colocações no ciclismo. Ao mesmo tempo que exercita a mãe, a prepara para melhor competir com o avanço da idade.
“Há treze anos atrás mamãe vivia no Gama com minha irmã, mas quando lá cheguei percebi que estava em condições muito difíceis, prostrada em uma cama e com um furúnculo nas costas, pronta para morrer. Minha irmã não dava conta de cuidar dela. Trouxe-a para Caldas Novas definitivamente e aqui criei uma estrutura confortável. Aos poucos, constatei a veracidade do ditado que os pais criam oito filhos, mas oito filhos não cuidam dos pais”.  Mutian fala da mãe com orgulho, “...ela cozinha e costura diariamente, a mão ou na máquina.” Vira-se para o pequeno relógio de parede do quarto onde costura e pede a mãe que fale as horas e ela responde com firmeza “são cinco e meia.”
Mutian, que é aposentado, ainda prepara surpresas para a mãe. No natal de 2011, arrumou a veraneio e, dizendo que iriam a um passeio pelo interior goiano, alojou-a no banco traseiro e a levou para visitar parentes em Paranavaí no Paraná. Foram mais de mil e quinhentos quilômetros de estrada. Saru, que ignorava aonde iam, quando lá chegou teve uma das maiores emoções, pois encontrou pessoas das quais estava afastada a mais de cinquenta anos. Mas sempre falava ao filho querer realizar este sonho.
Esta japonesa que escreveu sua história no Brasil, onde teve negócios e concebeu família, esbanja ótima saúde. Prova disto é que há dez anos atrás, já aos 87 anos, quebrou o fêmur e se submeteu a delicada cirurgia para colocação de vários pinos. Seu filho cuidador não mediu esforços com a mãe impossibilitada de engessar e, graças a esta dedicação, o osso colou naturalmente e Saru caminha com a mesma facilidade anterior, sem seqüela.
Pelo visto conseguirá realizar o sonho de comemorar os cem anos na cidade natal, desejo que Mutian quer proporcionar a mãe, para rever parentes que nem sabe se ainda vivem. Saúde física e mental tem de sobra, com 40 quilos e pedalando diariamente, se condiciona para a realização do sonho da viagem. Saru quando fala do Japão se emociona, contagiando a todos e principalmente ao filho que é parte indispensável no projeto. Mutian disfarça a emoção e recomenda “para a senhora ter forças para esta viagem, terá de pedalar muito nesta bicicleta”. Saru pede licença, levanta, despede e, disciplinada, se dirige a varanda onde está o aparelho.