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segunda-feira, 23 de julho de 2012

RESGATE IMPOSSÍVEL

(Google Imagens)

Élida visita a mãe semanalmente às segundas-feiras, dias de plantão do marido e acaba ficando até o cair da tarde. Os filhos adolescentes sabem se virar, permitindo que espere o marido que a pega ao final do trabalho. Certo dia, ao descer do ônibus, percebeu que um carro a seguia de longe e, a partir daí observou que toda semana estava lá novamente. Sentia-se vigiada e, como era de temperamento decidido, resolveu encarar o problema de frente. Aproximou-se e teve um choque ao perceber que era Francisco, ex-namorado da adolescência. Percebendo-se reconhecido, o rapaz saltou do carro sorrindo.
            – Você continua bonita – Francisco apresentava os cabelos grisalhos e as rugas em volta dos olhos adornavam a aparência madura e viril. Élida tremeu ao reconhecer a voz de tantas juras de amor ditas nos cinemas e bailes da juventude.
            Namoraram quando ambos tinham dezoito anos e sempre às escondidas, pois seu pai cultivava  profunda antipatia por Francisco. O namoro foi de calorosos beijos que plantaram a semente do desejo e manteve acesa a chama por tantos anos. Os corpos lembravam-se um do outro e Élida imaginou-se novamente adolescente e curiosa quanto aquele sentimento, há muito adormecido.  E dominou a vontade de se jogar nos braços do homem.
            – Os cabelos brancos lhe fazem bem. – aproximou-se o bastante para perceber o perfume e lembrar o quanto este odor a atraía. O cuidado de usar a mesma fragrância fora meticulosamente estudada por Francisco.
            – O rabo de cavalo que está usando me transporta para nossa adolescência – Francisco falou timidamente, referindo-se ao modo displicente que Élida prendera os cabelos com uma liga. A mesma timidez velha conhecida da moça e que a frustrou nos planos de tornar-se mulher com este grande amor de sua vida – Fazem três meses que rondo o endereço de sua mãe e resolvi esperar o momento certo para falar contigo. Sei até onde mora.
            – Mamãe nunca quis mudar daqui. Agora que papai morreu, quem sabe – Comenta a moça querendo apenas disfarçar a pretensão de aproveitar ao máximo a oportunidade de terem uma relação que recupere o perdido na adolescência.
            – Casei e fui morar no Espírito Santo – Francisco falou se desculpando – Olha – abriu a carteira e retirou a foto dela jovem. No verso, uma dedicatória apaixonada. A lágrima rolou pelo rosto da moça, emocionada ao descobrir o amor que o homem lhe dedicava há tantos anos. – entendeu que o casamento foi o motivo que o fez desaparecer de sua vida.
– E você a guardou por todo deste tempo? – A sinceridade do rapaz a sensibilizou e chegou-se ainda mais perto.
– Tenho todos os bilhetes que me enviou.
Trocaram endereços de e-mails e iniciaram intensa correspondência. Falavam por telefone frequentemente, por vezes até três ligações diárias. Nos dias que visitava a mãe, tomavam café numa cafeteria perto da casa. E Élida precisou de um mês para convencer o rapaz, até que certo dia, combinaram um encontro mais íntimo. Falou à mãe que chegaria depois do almoço e rumou para um motel com Francisco, onde realizaram o sonho iniciado na adolescência.
Élida sentia-se feliz em encontrar o homem da juventude. Observou que sentimentos e corpo ainda respondiam aos anseios da paixão. Durante todos estes anos, sempre lembrava Francisco e lamentava que nada acontecera entre eles, numa época de tanta repressão com as mulheres. Pretendia agora permanecer assim mesmo, sem compromissos para encontrarem-se e transformar a vida que definia sem graça em algo colorido.
Ao contrário da moça, logo após o primeiro encontro, Francisco caiu em depressão profunda e, mesmo com toda participação amorosa, sentia-se muito mal. Nunca fora infiel a mulher e, mesmo que a paixão entre eles fosse fria, uma amante o deixava abalado e receoso. Temia por sentir tanto amor, coisa que há anos amortecera confinado a ritos religiosos. Como evangélico, preparava-se para ser pastor e a continuidade da relação poderia lhe custar muito. Ao notar que Élida queria apenas curtir momentos, Francisco desiludiu-se e esfriou a relação, afastando-se sem explicações.
Élida notara a frieza do. Haviam saído apenas uma vez e percebeu a insegurança do rapaz. Na hora da relação, teve que acalmá-lo com palavras de conforto e amizade. Após duas semanas se esquivando dela, combinaram um café num shopping e soube da voz de Francisco o quanto a relação mudara a vida.
Encontrar um amor do passado pode ser algo muito bom, mas se as intenções forem a de resgatar algo, pode se tornar num grande problema e Élida, que pretendia apenas ter alguém para momentos de amor, entendeu que o rapaz pensava bem diferente. Francisco alimentava pela moça a grande paixão que o reencontro aflorou.
– Após casar, Élida, nunca beijei outra mulher, o que dizer ter amante. Não dou conta disso. Até gostaria de te encontrar, mas não posso. Muito me arrependi de te seguir e entrar em contato.  – Francisco estava visivelmente transtornado.
            Mas a mulher ainda tinha esperança de continuar a viver esta paixão, sentia-se adolescente e renovar estes sentimentos lhe fazia bem. Naquela noite, a última que viu Francisco, Élida notou que um carro passou várias vezes na madrugada em frente sua casa.
            Quando o dia amanheceu, ligou para Francisco e ouviu a mensagem da operadora:
ESTE NÚMERO NÃO EXISTE, POR FAVOR TENTE NOVAMENTE.

domingo, 15 de julho de 2012

SARU

Saru costurando ( arquivo pessoal )

Saru Yamagushi tem 97 anos, nasceu em 08 de novembro de mil novecentos e quatorze. Mora em Caldas Novas desde 1988, mas já morou em São Paulo e Paraná, onde tem a maioria dos parentes. Aos dezessete anos,  ainda adolescente, chegou ao Brasil, procedente de Hokkaido, segunda maior ilha do arquipélago japonês, na esperança de testemunhar o que ouvira ainda na terra natal : “um país ótimo para viver”.
Casou-se com um paulistano dez anos mais velho com quem aprendeu que a vida não era tão simples como lhe ensinaram. O marido alcoólatra obrigou Saru, educada a aguentar tudo do companheiro, a conviver com a doença resignadamente até sua morte, por problemas no fígado. Teve nove filhos dos quais oito estão vivos e residentes em diversos lugares do país. Com a morte do marido, manteve a mercearia da família na cidade do Gama em Brasília, de onde sozinha, tirava o sustento da família.
Criou os filhos repassando a rígida educação aprendida dos pais que ficaram no Japão. Apesar disso, Saru sempre tratou os filhos com carinho, os quais “encaminhou com princípios de ética e honestidade”.
Ao chegar a casa de Saru encontrei-a pedalando em uma bicicleta adaptada por seu filho caçula Mutian, que proporciona que ela pedale praticamente deitada. Um exercício que o filho caçula a submete diariamente por pelo menos uma hora. “Assim mantenho a mãe muito bem exercitada e com a mente boa”, diz com convicção. Mutian é o filho dedicado e de quem procede toda ajuda e com quem mora numa espaçosa casa da cidade termal goiana. Quando fala sobre a mãe, se emociona e demonstra orgulho em ser o único a dedicar amor, tempo pessoal e conforto na velhice de quem classifica ser a responsável pelo seu sucesso como ser humano.
Pedalar vem de família. Mutian, coleciona entre medalhas e troféus, mais de 240 itens relativos a participações e boas colocações no ciclismo. Ao mesmo tempo que exercita a mãe, a prepara para melhor competir com o avanço da idade.
“Há treze anos atrás mamãe vivia no Gama com minha irmã, mas quando lá cheguei percebi que estava em condições muito difíceis, prostrada em uma cama e com um furúnculo nas costas, pronta para morrer. Minha irmã não dava conta de cuidar dela. Trouxe-a para Caldas Novas definitivamente e aqui criei uma estrutura confortável. Aos poucos, constatei a veracidade do ditado que os pais criam oito filhos, mas oito filhos não cuidam dos pais”.  Mutian fala da mãe com orgulho, “...ela cozinha e costura diariamente, a mão ou na máquina.” Vira-se para o pequeno relógio de parede do quarto onde costura e pede a mãe que fale as horas e ela responde com firmeza “são cinco e meia.”
Mutian, que é aposentado, ainda prepara surpresas para a mãe. No natal de 2011, arrumou a veraneio e, dizendo que iriam a um passeio pelo interior goiano, alojou-a no banco traseiro e a levou para visitar parentes em Paranavaí no Paraná. Foram mais de mil e quinhentos quilômetros de estrada. Saru, que ignorava aonde iam, quando lá chegou teve uma das maiores emoções, pois encontrou pessoas das quais estava afastada a mais de cinquenta anos. Mas sempre falava ao filho querer realizar este sonho.
Esta japonesa que escreveu sua história no Brasil, onde teve negócios e concebeu família, esbanja ótima saúde. Prova disto é que há dez anos atrás, já aos 87 anos, quebrou o fêmur e se submeteu a delicada cirurgia para colocação de vários pinos. Seu filho cuidador não mediu esforços com a mãe impossibilitada de engessar e, graças a esta dedicação, o osso colou naturalmente e Saru caminha com a mesma facilidade anterior, sem seqüela.
Pelo visto conseguirá realizar o sonho de comemorar os cem anos na cidade natal, desejo que Mutian quer proporcionar a mãe, para rever parentes que nem sabe se ainda vivem. Saúde física e mental tem de sobra, com 40 quilos e pedalando diariamente, se condiciona para a realização do sonho da viagem. Saru quando fala do Japão se emociona, contagiando a todos e principalmente ao filho que é parte indispensável no projeto. Mutian disfarça a emoção e recomenda “para a senhora ter forças para esta viagem, terá de pedalar muito nesta bicicleta”. Saru pede licença, levanta, despede e, disciplinada, se dirige a varanda onde está o aparelho.

sábado, 7 de julho de 2012

SOU MORTAL – CONSTATAÇÕES EM PEQUENAS DOSES - FINAL

(Google Imagens)

“Nascemos para fazer o bem, e fazê-lo é suficiente para preencher uma vida”.
Vicente Ferrer (missionário jesuíta espanhol autor de projetos sociais na Índia)










A frase acima ouvi pela primeira vez da médica responsável pela quimioterapia e só percebi o significado anos depois, ao procurar viver o presente, abandonando a antiga prática da preocupação com o futuro, sempre incerto. Passei a analisar as relações pessoais e compreendi meu papel perante filhos, família, amigos e parentes e percebi o quanto teria que mudar, pois a felicidade deles, não era necessariamente a minha e questionei se estaria realmente feliz.
O início da jornada passou pelo desapego. Os filhos, já independentes, deveriam seguir seus destinos. Se até então me sentia responsável direto por suas vidas e felicidade, agora entendia suas vidas como de sua responsabilidade. Por trás de tudo está Deus e que o destino do ser humano não pode ser traçado e nem é de responsabilidade dos pais. Aprendi a dizer não as coisas que me desagradavam e isto melhorou sensivelmente minha vida. Sentia-me descomprometido em agradar aos outros. No tocante as relações, fiquei exigente e descobri que nem todas as conversas me satisfaziam. Dito assim parece prepotência, mas a verdade é que a vida passa rápido e precisava dar qualidade a minha vida. Procurar formas de ajudar os outros. Dedicar tempo a quem necessita esclareceu o sentido de que ajudando, se é ajudado. Preparado para esta mudança, encontrei a CEO – Central de Paz e Otimismo. Devo a esta entidade de voluntários o primeiro despertar. A cada plantão ouvindo as pessoas me sentia em um mundo novo, solidário. Meus problemas, que julgava únicos, passaram a ter a leveza da brisa.
As sessões semanais de quimioterapia foram difíceis. Enquanto o líquido curador entrava pelas veias, pensava na minha recuperação e esta forma de pensar facilitou suportar o cheiro que exalava da pele e as náuseas com  golfadas azedas. A cada dia mais lições experimentava e a conscientização da dificuldade de continuar a ser o mesmo. Passei por diversas fases neste período. Da angústia do sofrimento, ao sentimento de desamparo e carência de afeto que sempre julgava ser insuficiente. Aquele materialista, preocupado em ganhar dinheiro se afastava e as prioridades que nortearam minha vida até então, realocaram-se.
Ao final de cada aplicação de quimio, o único desejo era chegar a casa. O mal estar e ânsia de vômito eram meus companheiros nestas horas difíceis. As mãos frias e a sensação de abandono me dominavam. Permanecia quieto no banco do carona, enquanto o carro seguia seu rumo do Setor Hospitalar Sul até a L2 sul. Ali começava meu silêncio. Certa vez, ao percorrer o trajeto uma profunda amargura me dominou ao ouvir uma conversa paralela que, mesmo sem maldade, me atingiu profundamente. Na sequência, caí num choro convulsivo, interrompendo o assunto e tudo mais que acontecia até o radio do carro emudeceu. Ansiava por deitar na escuridão do quarto, fechar os olhos e naquele mundo que se abria somente para mim, entrar e permanecer quieto e solitário.
Em janeiro de 2000, ainda sem nenhuma manifestação da doença, numa das viagens a Porto Alegre trouxe um cachorro ao qual meu filho batizou de  Spyke. Era um labrador que me acompanhava nos passeios. Criou o hábito de esperar para juntos caminharmos quando anoitecia. Foi companheiro no período das aplicações e me ajudava a espairecer nos passeios amenizando o mal estar do acúmulo de remédios no organismo. Quando fiz a última aplicação, Spyke, que me acompanhara descomprometido e dócil, caiu doente e em poucos dias, morreu. Abraçado com minha filha, externei esta morte com muito choro, fragilizado pela longa caminhada da recuperação que enfrentara ao lado do companheiro.
Para me refugiar, montei um quadro muito claro. A imagem, existente apenas na imaginação, era de uma casa a beira da praia, de onde se via o mar com ondas estourando na areia. A leve brisa tornava o clima agradável e levantava a areia fina e branca. Por trás da casa, podia avistar montanhas com altas árvores que abrigavam pássaros cantadores. Neste ambiente mergulhava após cada sessão de quimioterapia e lá amarguei a perda de Spyke. Até hoje, quando preciso recolher para refletir, volto a esta casa. Ela existe. Na minha imaginação.
Criei hábitos pouco compreensíveis a quem me acompanhava por tantos anos. Passava os dias escrevendo e lendo. A partir do momento que pude subir ao mezanino, por lá ficava a maior parte do dia. Descia apenas para almoçar e retornava para dormir por duas horas. Depois lia até nove da noite, quando sentava no quarto, na poltrona para assistir TV até a hora de dormir.
Sentia uma absoluta necessidade de ficar só o que transformou meus  dias em casa em encontros comigo mesmo, onde procurava meditar e compreender tudo que me acontecera. Entendia que havia a expectativa de, numa manhã qualquer, o marido, o pai, o cunhado, acordasse da forma antiga. Doce ilusão, aquele que conheceram, morrera. Na verdade, até então vivera no oba-oba da vida, despreocupado comigo e cheio de responsabilidades com os outros.
O menor acontecimento para mim tomava dimensões inimagináveis e se antes abrira mão de convicções, agora estava disposto a lutar por cada centímetro perdido. Um exemplo foi a poltrona que desloquei do mezanino para o quarto. Certo dia deparei com a ausência do móvel e pressenti que havia perdido a negociação. A poltrona voltara ao local anterior. Pior do que perder o conforto foi a perda da posição dentro de casa. Dependendo da doença a pessoa passa a se sentir fora do meio e qualquer fato soa como desmerecimento. Rompi naquele dia com o resguardo, chamei um ajudante e a desci novamente, retornando ao status anterior. O que para qualquer outro era um fato sem importância, para mim representou algo de suma importância.
Ao adoecer, o homem regride e fica fragilizado. A sociedade não o aceita no mesmo status, relegando-o a segundo plano e ele percebe nas mínimas coisas, que precisa se impor. O custo de abandonar esta luta é representado pela perda das rédeas da vida e ser relegado ao segundo plano.
Seguia por rumos inesperados. Fiquei mais exigente e, longe de cobrar com relação a mim, achava que meus deveres com os outros estavam comprometidos, pois desacreditava tê-los. Entendi a necessidade de me amar, para amar o próximo e expressar aos outros minhas opiniões e desejos.
 Queria nova forma de viver, e isto passou a incomodar muita gente. Pensava que quando mudasse provocaria o mesmo nas pessoas em volta. Doce ilusão. Minha mudança virou incômodo a grande número de pessoas. Algumas tentaram chamar-me atenção e acusaram-me de ausência em casa.
Após a décima quinta sessão de quimioterapia, obtive licença médica para voltar a nadar. Das horas que passava nadando, muitas dediquei a repensar a vida, momentos nos quais acumulava recordações da infância, da adolescência e do início da idade madura, quando tudo eram sonhos e as perdas eram poucas representativas. Mas perdas por doenças graves podem ser comensuradas, e são impossíveis de passarem despercebidas. Nada é como antes. O dano físico causa profunda transformação e poucos são capazes de entender, por mais compreensivos. O corte da cirurgia e a quimioterapia são marcas visíveis impossíveis de disfarçar.
Queria viver minha vida de forma autêntica. E pedi a Deus que ajudasse a achar o caminho menos traumático possível a mim e aos que me cercavam.
"Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda..." (Sigmund Freud).
E mudei.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

ALTO PREÇO

(Foto Google Imagens)

Diariamente quando chegava a casa, Rodolfo aplicava tremenda surra em Isaura. Destemperado, tratava a todos como raça inferior e descarregava os dissabores da rua contra a mulher. Os filhos evitavam interferir e o provedor perdulário, comprava esta cumplicidade com mimos financeiros. Sem apoio, após a violência recebida a esposa chorava escondida no quarto da filha. Após a violência, esvaziado da tensão, o homem se empanturrava de comida, jogava os cento e dez quilos na cama e roncava até seis da manhã, quando acordava como se nada houvesse acontecido.
A família, moradora de bela mansão em região nobre de Brasília, ostentava o alto poder aquisitivo desfilando roupas de griffe e automóveis novos. Coniventes com os destemperos do pai, os filhos exigiam caras compensações, as quais, uma vez prometidas, Rodolfo cumpria a risca. Para  bancar as exigências, retirava altos ganhos de sua empresa de construção civil. Até Isaura usufruía das benesses. Em compensação, vivia sobrecarregada e submissa, pois o marido queria servidão total a si e aos filhos.
A fortaleza do homem era abalada apenas por uma única fraqueza. A apnéia do sono. Costumava acordar agoniado nas madrugadas, tentando respirar. Para minimizar o problema, que poderia se transformar em tragédia, após exames o médico receitou o uso de aparelho de oxigênio para ser colocado ao dormir. Como o homem deitava alcoolizado, Isaura, ao dormir, colocava a máscara no marido.
Quando a filha mais nova completou dezoito anos, ganhou seu carro novo e, além de ignorar as brigas dos pais, passou também a desmerecer a genitora, já que estudava psicologia e começava a entender a mecânica das relações.
– Mãe, você o conhece muito bem. Pára com estes faniquitos. A relação doentia de vocês me enoja – e, na hora da chegada do pai, saía com amigos.
Um dia Isaura cansou. Revoltou-se, colocou óculos escuros para esconder o olho roxo e correu a Delegacia da Mulher registrar queixa.
A delegada, de seus cinquenta anos, cabelo preso num rabo de cavalo, olhou-a por cima dos óculos, chamou a escrivã e as duas ouviram a mulher que falava sem parar. Isaura chorou e falou por duas horas, até que, exausta, resumiu sua dor.
– Sim, todos os dias há vinte anos. Agora cansei – a delegada ouvia pacientemente e a escrivã lavrava o Boletim de Ocorrência, séria e solidária. Mas logo o ar policial se transformaria em espanto. Ao consultar os arquivos pelo CPF da reclamante, a delegada verificou que constavam oito queixas por agressão do marido nos últimos cinco anos. Em todas desistira da ação.
Em casa o martírio continuou por mais uma semana, quando, sete horas da manhã do sexto dia, a campainha tocou e a empregada atendeu.
– Poderia chamar o senhor Rodolfo? – pergunta a visitante.
A mulher chama o patrão que chega se arrastando com cara de poucos amigos por ser incomodado tão cedo na segunda-feira.
– Sou oficial de justiça – anuncia, apontando a linha pontilhada para assinatura – intimação para audiência na delegacia da Mulher.
Na sala, Isaura esperava apreensiva, avisada pela serviçal. O homem ao passar colocou o dedo em riste em seu nariz.
– Bem, vou te esclarecer. Ta vendo a chave da Mercedes que te dei de aniversário? Vou levar e saiba que está no nome do meu irmão. Esta casa é de meu pai e a fazenda, de Clarinha. – e o marido desfiou todos os bens e os nomes dos “laranjas”, da própria família. – Mas tudo bem, irei a Delegacia na data marcada. Pode arrumar minhas malas – E saiu porta afora. À noite, o motorista pegou a bagagem do patrão e levou ao apartamento da asa sul, que estava vazio.
Não se viram até a audiência, quando Rodolfo chegou na hora marcada.
– Senhor Rodolfo, sua esposa retirou a queixa. O senhor está isento de prestar depoimento, mais uma  vez. Fique avisado que dona Isaura sempre terá a lei do lado – no íntimo, a delegada demonstrava indignação com a ex-reclamante.
A saída, Isaura esperava encostada na BMW do marido.
– Rodolfo, você ganhou, cadê a chave da Mercedes? – e estendeu a mão enquanto o homem entrava no carro.
– Está embaixo do tapete da sala. – gritou à mulher – agora vou trabalhar. Prepara janta leve para mim, volto para casa hoje – E ordenou ao motorista que arrancasse com o carro.
A delegada afastou a persiana e espiou Isaura andando decidida ao ponto de ônibus, com óculos escuros, sapatos baixos e roupas simples. Diferente da mulher plena de jóias e roupas caras quando registrou queixa.
– Mais uma desistência de ação – Comentou com a escrivã que rasgou o documento e jogou na lixeira, balançando a cabeça.
Isaura chegou cedo a casa preparou a janta e sentou-se a espera de Rodolfo. Logo ouviu o carro que entrava na garagem e avaliou o estado da embriaguês pelo ruído do motor. Esperou-o na porta da garagem com suco de caju.
Preparou janta a base de saladas e logo após, sem banho nem escovação de dentes, Rodolfo a chamou para o amor obtendo plena participação da mulher com direito a gritinhos e suspiros.
Após amor intenso, Isaura retirou-se ao banheiro. Ligou o aparelho de som e, enquanto esperava a banheira encher, dançava sensualmente ao som de Zizi Possi. Colocou sais aromatizantes e iniciou o banho relaxante.
Absorta pelo som, saciada pelo êxtase da noite e aquecida pela água morna, a mulher não escutou o marido desesperado acometido por crise de apnéia no quarto.

domingo, 10 de junho de 2012

SOU MORTAL – O Tratamento – PARTE III

(Google Imagens)

Até a cirurgia os dias passaram depressa. Os sintomas pioravam, o sangramento preocupava e o médico tinha pressa. Eu também, mas nem tanto. Continuava a sensação de vazio e o receio quanto ao que viria. Com os exames prontos, a operação foi marcada. Na véspera procurei dormir cedo para chegar descansado, mas rolei na cama e quando percebi, amanheceu. Adormeci com o sol nascendo e, ao despertar o relógio, o corpo doía, rígido e tenso. Em jejum, segui os procedimentos para limpeza do intestino e, no horário combinado, rumei ao hospital. Fui conduzido a uma suíte confortável e, após a checagem da documentação, recebi um avental verde e a indicação do banheiro. Obedecia mecanicamente, e lutava com a vontade de fugir pelos corredores para a rua. Após espera de cerca de trinta minutos, chegaram duas enfermeiras e, recomendadas pelo cirurgião, aplicaram o soro e uma injeção de doping e fui conduzido dormindo ao centro cirúrgico.
            Calculo que o procedimento tenha demorado umas quatro horas. Ao acordar estava no mesmo quarto de antes e, à medida que saía do torpor da anestesia, uma dor lancinante queimava o abdômen. Pedi em voz alta e com intimidade “Deus, não me abandone. Livre-me desta dor”. Minhas condições foram definidas pelo médico. “Está tudo bem?” perguntou pegando meu pulso. “Muita dor” reclamei. E ele perguntou sorrindo, “a sensação é como se um caminhão o atropelou?” Nem respondi. Mandou aplicar outra medicação. “Isto é uma espécie de morfina, o senhor se sentirá melhor em seguida”, explicou o enfermeiro enquanto injetava o líquido vagarosamente na mangueira do soro. O receituário previa seis aplicações a cada oito horas. Na quarta aplicação abri mão das outras. O alívio imediato causava sensação tão deliciosa e refrescante que temi querer aquilo pelo resto da vida. A cada hora que passava, havia melhora visível e no terceiro dia, amparado por Fábio, meu filho, saí do quarto. Da janela do corredor observei a tarde ensolarada, linda e brilhante e, apesar da dor, esta imagem, vista tantas vezes pela vida afora, nunca esquecerei. Ali tive certeza que o que mais desejava era simplesmente viver, pois o mundo estava melhor do que o deixara.
Os dias que se seguiram foram de recuperação, misturados a dores, muita medicação e de melhora no estado geral. Por duas vezes os enfermeiros ofereceram a injeção de alívio e rejeitei.
Após uma semana o médico atestou alta, “minha missão com o senhor acabou. Daqui para frente, vá em frente, sua vida lhe pertence, faça com ela o melhor”.  Saí da clínica pela porta lateral, em um dia encomendado para renascimento. Encontrei o céu sem nuvens e uma tarde de muito sol e entendi que deveria me conhecer e a partir deste autoconhecimento, viver de forma conveniente. Amparado, caminhei devagar ao carro, com dores no abdômen que obrigavam a parar. A percepção estava a mil e percebi cantos de pássaros, o mendigo que pedia esmolas e um taxista sorridente. Assim, aos poucos, o renascimento entrava em mim como se realmente estivesse encontrando pela primeira vez valores despercebidos. Renascia admirando com atenção ao que me rodeava e percebi que outra pessoa ficara no hospital. Tornáva-me um novo ser, capaz de admirar a beleza do viver e a alegria de poder recomeçar mais perceptivo.
A recuperação da cirurgia foi estimada em quinze dias, e após, deveria providenciar a nova etapa. A quimioterapia. Diariamente caminhava  vagarosamente pela rua onde morava. Impressionante a quantidade de massa muscular que se perde em uma semana, percebia as pernas finas e fracas. Queria voltar a nadar, pois acreditava acelerar a recuperação, mas o médico segurou-me por dois meses. “É justo que queira apressar as coisas, mas deve ter paciência e esperar o tempo certo. Cuide-se, pois um esforço extra pode causar hérnia”. As caminhadas que a cada dia aumentavam em percurso, serviam para fortalecer o emocional e preparavam o organismo para enfrentar o que vinha pela frente. “É uma doença de várias fases e cada uma o fará mais forte, não tenha pressa. Por enquanto, aproveite”. Assim o médico acompanhava o processo. Pelos lugares onde passara apressado, a pé ou de carro, agora, a passos lentos, prestava atenção e percebia detalhes escondidos de olhos ignorantes. A claridade do sol, as árvores, os pássaros e o carreirão de formigas. O direito a vida me obstinava.
Nesta fase de introspecção, aprendi a refletir sobre os acontecimentos e iniciou-se um processo de seleção com relação a tudo e todos. Entendi mais tarde que era processo natural por que passam os renascidos após traumas. Confesso que por vezes me senti estranho dentro da própria casa. Inexplicável.
Oscar Wilde dizia que “... encontrar um sentido para a dor é, segundo a logoterapia, um bálsamo para a própria dor. Se, além disso, soubermos revestir de beleza essa consciência, então transformaremos cada momento difícil em uma experiência sensível e enriquecedora.”
Levantava cedo e admirava o amanhecer. No inverno, os dias em Brasília são muito claros e o frio ameno. Dáva-me prazer vestir um casaco leve e esperar o calor do sol aquecer o corpo num caminhar preguiçoso.  Para curtir o pós almoço, colocara uma poltrona reclinada no quarto, onde dormia por uma hora antes de iniciar a leitura. Ao final do dia, voltava a andar.
Na primeira consulta com a proprietária da clínica, pequena japonesa, jovem e sorridente da qual ouvi a frase que compartilho. Pausadamente olhando diretamente meus olhos, como se quisesse colar as palavras na mente, “foi-lhe dada uma segunda chance, faça a diferença e mostre que valeu a pena ter ficado por aqui”. Alguém a chamou, pediu licença e saiu para atender um paciente. O comentário martelava minha cabeça. Mas afinal, o que eu teria que fazer? Quando voltou, tirei algumas dúvidas sobre o tratamento e ela especificou vinte e quatro sessões, agendadas para as quintas feiras, nove horas da manhã. As sessões começaram imediatamente, a partir da primeira quinta após a consulta.
Somente no segundo mês das aplicações recebi liberação para nadar e, a partir daí, incorporei este exercício três vezes por semana ao tratamento. Quando saía da piscina, passava numa lanchonete e tomava açaí, fruta que mais tarde se aplicava muito bem ao meu caso, pois contribuía com a manutenção da imunidade.
Foram seis meses de medicação redentora e de busca constante do autoconhecimento. Não pelo que ouvira dos médicos, mas compreendia que a fórmula vivida até então, esgotara. Precisava buscar a verdadeira razão de viver.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

BOLO DE CHOCOLATE

(Google Imagens)

Inês entrelaçou os braços nos irmãos e foram à sala assistir ao programa de domingo. A mãe permaneceu na cozinha preparando o bolo de chocolate para o lanche da tarde, hábito deixado pelo pai, que ela nunca acertava o ponto.
– Já comprei as passagens. Vamos passar o aniversário de 50 anos com o pai em São Paulo – cochichou aos dois, enquanto sentavam em frente a tevê.
Filhos de pais separados há cerca de dez anos, atualmente o genitor morava na capital paulista com a nova mulher.

– Aff Inês, você conhece a mãe, não gostará nenhum pouquinho – André era o mais solidário a genitora.
Depois da separação, alimentou mágoa do tamanho da Torre de Televisão de Brasília. Julgava-se prejudicada por cuidar dos filhos, um fardo pesado para mulher só. Afastou-os o que pode do pai, buscando oportunidades de usá-los para vingar “a humilhação sofrida”. Da última vez que tentaram aproximar do genitor, ouviram ameaça de suicídio e acusação de ingratidão. Aproveitava para jogar pitadinhas de veneno na imaginação filial,
– A pensão que paga mal dá para comer – mentia descaradamente. Era a imagem do desconsolo.
– Lembra o que fez quando fomos visitar papai há alguns anos? – Comenta André, o mais novo – Se jogou na frente de um ônibus.
– Tá na cara que não pretendia se matar. Machucou apenas porque um ciclista estava de carona e a pegou de raspão – defendeu Inês que adorava o pai, mesmo com os defeitos que a mulher atribuía.
A filha a conhecia bem. Era destemperada, rancorosa e vingativa. Quando discutiam, Inês desmascarava,
– Você depositou a culpa da sua infelicidade nas costas do pai, quem aguenta isto, mãe? Ele abandonou foi você e não os filhos – E acrescenta – Sempre manteve contato com a gente.
Inês estava de malas prontas, mas os irmãos, reticentes, ainda buscavam desculpa convincente para não melindrar a mãe.
Mais alguns dias e a moça atende telefonema destemperado da genitora.
– Então quer levar os irmãos para visitar teu pai, filha ingrata, mesmo depois do que fez contra nós. Ele só soube fazer o bem bom, sustentar e amassar o pão para comer foi eu que fiz. Pois se quiser ir, que vá, mas esquece teus irmãos, senão........ - e deixou em aberto a ameaça.
Inês entendeu a intenção da mãe. Era capaz de tudo para impedir a aproximação. Considerava os filhos só dela. Passou a duvidar que viajassem.
Tinha razão. Dias depois Marcelo liga para a irmã.
– Mana, André e eu não vamos. – Explicou rispidamente – Tenho receio que mamãe cometa uma loucura e a gente fique preso na consciência.
A mãe usara mais uma vez os argumentos suicidas com os filhos.
– Ela se aproveita Marcelo. Isto é chantagem e estão embarcando na conversa – Inês argumenta sem convicção.
– Pelo menos eu, não vou. Está decidido e nem ligue mais. Só para falar outro assunto.
Se Marcelo assim pensava, André nem valia a pena tentar, era genioso igual à mãe.
Desconsolada, Inês procura a loja de turismo para vender as passagens, mas no caminho recebe novo telefonema do irmão, desta vez agitado
– Mamãe acabou de ir para o hospital. Estávamos falando sobre a viagem a Sampa, quando reclamou de forte dor de cabeça e desmaiou. Chamei a ambulância.
Inês desvia o trajeto do carro e chega esbaforida ao hospital conveniado. Ao ver a mãe entubada e pálida, percebe a gravidade.  O médico se aproxima dos irmãos e desfia o diagnóstico com a realidade e clareza que só eles tem nestas horas.
– Jovens, sou neurologista. A mãe de vocês teve um AVC e está com sequelas. Por enquanto, apresenta dificuldades de falar e mente confusa. Só poderemos avaliar daqui a uma semana. Por enquanto é isto. Sem previsão de alta. As visitas estão suspensas, pois só farão piorar a situação.
Após ouvirem os esclarecimentos, sentam no banco da enfermaria, perdidos em mundos imaginários. 
Percebendo os irmãos calados, a mãe naquele estado e avaliando o diagnóstico do médico, Inês pega o celular e decidida, liga para Sampa.
– Pai, surpresa – e, olhando os irmãos – Iremos os três no sábado. Prepara aquele bolo de chocolate.