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sábado, 7 de julho de 2012

SOU MORTAL – CONSTATAÇÕES EM PEQUENAS DOSES - FINAL

(Google Imagens)

“Nascemos para fazer o bem, e fazê-lo é suficiente para preencher uma vida”.
Vicente Ferrer (missionário jesuíta espanhol autor de projetos sociais na Índia)










A frase acima ouvi pela primeira vez da médica responsável pela quimioterapia e só percebi o significado anos depois, ao procurar viver o presente, abandonando a antiga prática da preocupação com o futuro, sempre incerto. Passei a analisar as relações pessoais e compreendi meu papel perante filhos, família, amigos e parentes e percebi o quanto teria que mudar, pois a felicidade deles, não era necessariamente a minha e questionei se estaria realmente feliz.
O início da jornada passou pelo desapego. Os filhos, já independentes, deveriam seguir seus destinos. Se até então me sentia responsável direto por suas vidas e felicidade, agora entendia suas vidas como de sua responsabilidade. Por trás de tudo está Deus e que o destino do ser humano não pode ser traçado e nem é de responsabilidade dos pais. Aprendi a dizer não as coisas que me desagradavam e isto melhorou sensivelmente minha vida. Sentia-me descomprometido em agradar aos outros. No tocante as relações, fiquei exigente e descobri que nem todas as conversas me satisfaziam. Dito assim parece prepotência, mas a verdade é que a vida passa rápido e precisava dar qualidade a minha vida. Procurar formas de ajudar os outros. Dedicar tempo a quem necessita esclareceu o sentido de que ajudando, se é ajudado. Preparado para esta mudança, encontrei a CEO – Central de Paz e Otimismo. Devo a esta entidade de voluntários o primeiro despertar. A cada plantão ouvindo as pessoas me sentia em um mundo novo, solidário. Meus problemas, que julgava únicos, passaram a ter a leveza da brisa.
As sessões semanais de quimioterapia foram difíceis. Enquanto o líquido curador entrava pelas veias, pensava na minha recuperação e esta forma de pensar facilitou suportar o cheiro que exalava da pele e as náuseas com  golfadas azedas. A cada dia mais lições experimentava e a conscientização da dificuldade de continuar a ser o mesmo. Passei por diversas fases neste período. Da angústia do sofrimento, ao sentimento de desamparo e carência de afeto que sempre julgava ser insuficiente. Aquele materialista, preocupado em ganhar dinheiro se afastava e as prioridades que nortearam minha vida até então, realocaram-se.
Ao final de cada aplicação de quimio, o único desejo era chegar a casa. O mal estar e ânsia de vômito eram meus companheiros nestas horas difíceis. As mãos frias e a sensação de abandono me dominavam. Permanecia quieto no banco do carona, enquanto o carro seguia seu rumo do Setor Hospitalar Sul até a L2 sul. Ali começava meu silêncio. Certa vez, ao percorrer o trajeto uma profunda amargura me dominou ao ouvir uma conversa paralela que, mesmo sem maldade, me atingiu profundamente. Na sequência, caí num choro convulsivo, interrompendo o assunto e tudo mais que acontecia até o radio do carro emudeceu. Ansiava por deitar na escuridão do quarto, fechar os olhos e naquele mundo que se abria somente para mim, entrar e permanecer quieto e solitário.
Em janeiro de 2000, ainda sem nenhuma manifestação da doença, numa das viagens a Porto Alegre trouxe um cachorro ao qual meu filho batizou de  Spyke. Era um labrador que me acompanhava nos passeios. Criou o hábito de esperar para juntos caminharmos quando anoitecia. Foi companheiro no período das aplicações e me ajudava a espairecer nos passeios amenizando o mal estar do acúmulo de remédios no organismo. Quando fiz a última aplicação, Spyke, que me acompanhara descomprometido e dócil, caiu doente e em poucos dias, morreu. Abraçado com minha filha, externei esta morte com muito choro, fragilizado pela longa caminhada da recuperação que enfrentara ao lado do companheiro.
Para me refugiar, montei um quadro muito claro. A imagem, existente apenas na imaginação, era de uma casa a beira da praia, de onde se via o mar com ondas estourando na areia. A leve brisa tornava o clima agradável e levantava a areia fina e branca. Por trás da casa, podia avistar montanhas com altas árvores que abrigavam pássaros cantadores. Neste ambiente mergulhava após cada sessão de quimioterapia e lá amarguei a perda de Spyke. Até hoje, quando preciso recolher para refletir, volto a esta casa. Ela existe. Na minha imaginação.
Criei hábitos pouco compreensíveis a quem me acompanhava por tantos anos. Passava os dias escrevendo e lendo. A partir do momento que pude subir ao mezanino, por lá ficava a maior parte do dia. Descia apenas para almoçar e retornava para dormir por duas horas. Depois lia até nove da noite, quando sentava no quarto, na poltrona para assistir TV até a hora de dormir.
Sentia uma absoluta necessidade de ficar só o que transformou meus  dias em casa em encontros comigo mesmo, onde procurava meditar e compreender tudo que me acontecera. Entendia que havia a expectativa de, numa manhã qualquer, o marido, o pai, o cunhado, acordasse da forma antiga. Doce ilusão, aquele que conheceram, morrera. Na verdade, até então vivera no oba-oba da vida, despreocupado comigo e cheio de responsabilidades com os outros.
O menor acontecimento para mim tomava dimensões inimagináveis e se antes abrira mão de convicções, agora estava disposto a lutar por cada centímetro perdido. Um exemplo foi a poltrona que desloquei do mezanino para o quarto. Certo dia deparei com a ausência do móvel e pressenti que havia perdido a negociação. A poltrona voltara ao local anterior. Pior do que perder o conforto foi a perda da posição dentro de casa. Dependendo da doença a pessoa passa a se sentir fora do meio e qualquer fato soa como desmerecimento. Rompi naquele dia com o resguardo, chamei um ajudante e a desci novamente, retornando ao status anterior. O que para qualquer outro era um fato sem importância, para mim representou algo de suma importância.
Ao adoecer, o homem regride e fica fragilizado. A sociedade não o aceita no mesmo status, relegando-o a segundo plano e ele percebe nas mínimas coisas, que precisa se impor. O custo de abandonar esta luta é representado pela perda das rédeas da vida e ser relegado ao segundo plano.
Seguia por rumos inesperados. Fiquei mais exigente e, longe de cobrar com relação a mim, achava que meus deveres com os outros estavam comprometidos, pois desacreditava tê-los. Entendi a necessidade de me amar, para amar o próximo e expressar aos outros minhas opiniões e desejos.
 Queria nova forma de viver, e isto passou a incomodar muita gente. Pensava que quando mudasse provocaria o mesmo nas pessoas em volta. Doce ilusão. Minha mudança virou incômodo a grande número de pessoas. Algumas tentaram chamar-me atenção e acusaram-me de ausência em casa.
Após a décima quinta sessão de quimioterapia, obtive licença médica para voltar a nadar. Das horas que passava nadando, muitas dediquei a repensar a vida, momentos nos quais acumulava recordações da infância, da adolescência e do início da idade madura, quando tudo eram sonhos e as perdas eram poucas representativas. Mas perdas por doenças graves podem ser comensuradas, e são impossíveis de passarem despercebidas. Nada é como antes. O dano físico causa profunda transformação e poucos são capazes de entender, por mais compreensivos. O corte da cirurgia e a quimioterapia são marcas visíveis impossíveis de disfarçar.
Queria viver minha vida de forma autêntica. E pedi a Deus que ajudasse a achar o caminho menos traumático possível a mim e aos que me cercavam.
"Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda..." (Sigmund Freud).
E mudei.

domingo, 27 de maio de 2012

SOU MORTAL - O IMPACTO – PARTE II

(Foto Google - Imagem)

Ao receber o diagnóstico, a vontade era sair do consultório correndo pelas ruas, aproveitando os últimos momentos. Mas ao contrário, desanimado, prostrei-me em casa. A partir do dia seguinte, iniciei a romaria de exames e consultas para ouvir segundas e terceiras opiniões. Alimentava a ilusão da opinião contrária, do engano nos resultados dos exames, do erro de diagnóstico ou troca de documentos.
Após ouvir outras opiniões médicas, confirmou-se o diagnóstico e a unanimidade do tratamento. Teria mesmo que fazer cirurgia e quimioterapia. A ficha caiu. Passar por corte no corpo, me aterrorizava, levara no máximo, dois pontos ao cair de bicicleta e machucar o joelho aos dez anos. Abrir a barriga soava como sacrilégio. Sobreviveria? Caso sim, com que qualidade de vida? Havia chegado minha hora? Com 52 anos, me sentia muito bem. Nadava em dias alternados. Abolira o cigarro há muito tempo. É verdade que almoçava fora de casa e aos finais de semana tomava cervejadas com churrasco. Mas milhões fazem isto.
Crescia o sentimento de mudança, não somente pelo que o médico dissera. Era um sentimento interno. Um ciclo se fechava e sabia que desagradaria gente querida. Mas era inevitável. Precisava de coragem para viver de maneira verdadeira comigo mesmo, descartando a vida que esperavam de mim. Na verdade queria me impor e viver o meu modelo, pois entendia que aquele que vivera até então, nada tinha a ver comigo.
Passei a questionar cada vez menos o porquê de acontecer comigo. Queria conhecer a doença para estimar minhas chances e a gravidade da situação. Dedicava-me dia e noite a ler tudo que pudesse. Desvalorizava conversas fúteis. Entendi que os outros seguiam  rumos preocupados com formigas enquanto eu era atacado por leão.
A apatia que me abateu após o diagnóstico, a partir da decisão de conhecer a doença, deu lugar a um ímpeto de luta, de oferecer máxima resistência e, na medida do possível, sair vencedor. Alternava momentos de prostração e euforia.
Era uma luta de fases. Em uma delas, passei a oferecer trocas. Se conseguir me safar disto, serei assim. Buscava barganhar a cura. Se sair bem na cirurgia, prometo ser um ser humano melhor. Passava os dias no balanço das fases.
Enquanto esperava os resultados de exames que habilitariam a cirurgia, o processo de mudança germinava. Passava a vida como um filme. Em um determinado dia peguei o carro e, enquanto percorria a estrada Brasília/Goiânia tentava entender minha solidão perante o problema. As doenças tem a capacidade de nos demonstrar a verdade inexorável de que estamos sós na batalha pela vida. Mesmo cercado da família e de amigos, a luta é solitária. Impossível quem está de fora avaliar isto. Cabia a mim e somente a mim, passar por aquilo. A solidão é verdadeira e, por maior apoio oferecido, a ajuda é de dentro para fora.  Neste dia, fui até Goiânia e retornei. Cheguei de madrugada em casa e, cansado de dirigir e pensar, evitei explicações de onde estava, afinal não podia fraquejar e adoecer, para mim, ainda era profundamente vergonhoso. Assumir que a saúde tinha–se ido, no meu entender, me inferiorizava. Deitei insone. Quieto na cama questionei mais uma vez o porque disto. Sempre fizera tudo tão direitinho. Dois casamentos, sendo três filhos no primeiro, dois no segundo. Sempre cuidara deles, trabalhara muito. Dei a todos o máximo conforto, boa casa, comida, educação de primeira, carinho, boas pensões alimentícias. De repente isto. Com a mudança me assolando, era necessário dominar a ansiedade e enfrentar com otimismo o que vinha pela frente. Quando amanheceu, percebi um dia difícil pela frente. Pouco dormira e, ao perceber-me só em casa, mais uma vez, chorei. Chorei pelo que adiei fazer, chorei por não ter tempo de fazer e, finalmente, chorei pela incapacidade de impor meu modelo existencial. Certamente o futuro se avizinhava incerto.
 Devo deixar claro que tive muito apoio, da família, amigos e amigas que se desdobraram em palavras de conforto.  Muitas pessoas se afastam é verdade, mas as que ficam realmente ajudam. Nem todos sabem se aproximar numa situação destas. E mesmo aqueles que ficaram distante, permaneceram atentos na minha recuperação.
Aproximando a cirurgia, um dia pela manhã recebi o telefonema de uma amiga propondo encontrarmos. Tivera um HPV, que quase desenvolveu a câncer de colo uterino e, após tratamento, levava vida normal. Sugeriu naquele mesmo final de tarde, no estacionamento ao lado da Igreja São Camilo de Lellis na entrequadra 303/304 sul. Chegamos praticamente juntos e estacionamos lado a lado. Abri a porta, entrei no carro dela e percebi um leve perfume que me fez bem. O sorriso era largo e acolhedor. Sentia-me mal emocionalmente o que notou e pegou minha mão. Perguntou, “Marco, você está pensando que vai morrer?”. Foi a primeira vez que ouvi isto de outra pessoa e, ouvir assim a queima roupa, estremeci. Na verdade, até pensava nisto, mas precisava de coragem para encarar.  Demorei a assimilar a frase e senti que choraria novamente. Abraçou-me fraternamente. Seu abraço e a vontade velada de apoiar solidariamente a um amigo, somou-me forças e segurei a mão entre as minhas. Deixou-me chorar silencioso e, após cerca de dez minutos, interrompeu, “ainda não respondeu”. Calmamente, olhando em meus olhos, pois permanecia calado, acrescentou, “pois você sairá muito bem desta, Marco, eu sei”. A convicção desta frase me espantou. Olhei-a nos olhos e percebi que falava sério. Mas de onde tirara aquela afirmação? Conversamos mais um tempo e finalmente articulei a resposta, “não quero morrer”, afirmei. Beijei seu rosto, abri a porta do carro e segui em direção a Igreja, onde permaneci até o padre se aproximar e, colocando a mão em meu ombro, falar no ouvido “o senhor pode voltar amanhã, se quiser”. Eram nove horas da noite. Aquela conversa foi impressionante e, pela primeira vez desde o diagnóstico, dormi a noite toda.
Minha condição avalizava muitas coisas e ao entender isto como ganhos percebi o segundo passo importante da reforma pessoal. Visualizar o positivo nas pequenas coisas. Precisava estar só e preparar a estratégia de luta e isto, no fundo, passou a me trazer otimismo. Nadava, lia, escrevia, ia a cinema, caminhava toda manhã no Jardim Botânico e me preparava da melhor forma possível para enfrentar a cirurgia que se aproximava.

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domingo, 20 de maio de 2012

SOU MORTAL – A CONSTATAÇÃO – PARTE I

(Foto Google Imagens)

Anualmente faço exames para verificar como está a saúde. Desta vez relaxei e  passaram três anos. Tudo está bem. Andava receoso, afinal há quem afirme que “frequentar médicos é procurar doença, quem procura acha”. Comentário mais danoso, impossível. É importante que monitore, tive câncer de intestino. A partir daí, mudei radicalmente o pensar, o agir e a forma de relacionar com o mundo e as pessoas. Pouca gente entendeu a mudança. Vou descrever os acontecimentos de forma agradável, pois me considero sobrevivente.
Na vida as coisas me aconteceram por muito tempo de forma previsível, às vezes como coadjuvante e outras, protagonista. Quando coadjuvante dava prioridade exagerada aos que me cercavam e, protagonista, priorizava a felicidade alheia. Em resumo acreditava que todos ao redor mereciam mais que eu. Deveriam acontecer várias coisas para dedicar-me a projetos pessoais. Para sair deste pêndulo, foi preciso o destino armar das suas.
Assim, numa tarde de sexta feira do mês de abril, dois mil e três tomei consciência da minha mortalidade e iniciou-se o novo caminho, completamente inesperado. Até então consumia energia no trabalho e churrascos de finais de semana regados a cerveja. Adiava prioridades e entregava as rédeas da vida para os outros. Admito que não vivia, existia. 
Naquele dia entendi que os sinais que apresentava deveriam ser levados a sério. Há meses apresentava cólicas intestinais constantes com idas dolorosas ao banheiro. Trabalhava numa rotina alucinante, entre a empresa de consultoria e vendas no Liberty Mall e o emprego público de meio expediente. Eram doze horas diárias entre vendas de mercadorias, acompanhamento de instalações e execução de obras.
Escolhi o médico no catálogo do plano de saúde e consegui  consulta no mesmo dia, final de tarde, num consultório esvaziado pelo inicio do fim de semana. O proctologista, impaciente, olhava o relógio, certamente imaginando que atrasaria seu descanso. Cheguei encharcado de suor e, preocupado, iniciei a narração do histórico de cólicas, sangramentos e dores abdominais. Atentamente, ele ouvia o relato dos sintomas, acompanhado de meu autodiagnóstico prematuro. Quando parei de falar, perdera a pressa, “certamente não é só isto”. Apontou a maca e apalpou demoradamente o abdômen que, dependendo do lugar, doía como se perfurado por punhal. Nada comentou. Marcou exame completo para segunda-feira, após jejum de doze horas e lavagem intestinal. Foi um fim de semana tenso e apreensivo. Pensava em desembaraçar daquilo rapidamente para iniciar a semana com as atividades normais, afinal, tarefas inadiáveis esperavam e a rotina de manutenção do prédio público deveria ser cumprida. Queria solução imediata, um comprimido ou mesmo injeção para ficar livre.
Meu humor despencara e desdenhava das piadas que pipocavam ao redor. Estava bloqueado. Erguera uma blindagem na qual permaneci protegido durante final de semana. Isolar-me era o que minha situação pedia.
Na segunda feira cheguei ao consultório atordoado pela brusca perda da tranquilidade. Olhava a todo instante o relógio, preocupado em chegar atrasado ao escritório. Urgia voltar à rotina, pois garantia o retorno à normalidade.
Deitei na maca em frente a um monitor de vídeo e mangueira com microcâmera na ponta. “Como passou o final de semana?” Perguntou a enfermeira. “Cheio de gás”, respondi sem convicção. Pela seriedade da reação, desconfiei. Diferentemente da sexta anterior, havia na sala, além do procto, um anestesista e a enfermeira que aproximou, pegou meu braço esquerdo e perfurou a veia do antebraço, onde colocou a mangueira de soro. O anestesista aproveitou e espetou a seringa e, enquanto acionava o êmbolo, perguntou-me sobre o time de futebol predileto. Respondi que era o Grêmio de Porto Alegre e a frase que se completaria com o comentário do jogo da quarta-feira seguinte pela Copa Brasil ficou pela metade. Apaguei sob efeito de poderoso sonífero.
Acordei grogue e percebi que o exame terminara. Estava em outra sala, num sofá reclinável e ouvi o médico conversando com alguém. Por mais que esforçasse para entender, a anestesia bloqueava e desisti. Dormi aquela noite ignorando o resultado.
No outro dia, compareci ao consultório cedo e folheei displicente a revista Caras de quatro meses atrás. Com cerca de trinta minutos de espera, o médico me recebe na ante-sala com uma pasta branca na mão. Mandou-me entrar e sentei na cadeira com braços de ferro tão frios como o diagnóstico que receberia a seguir. Respirou fundo. “O senhor deve imaginar o que tem”. Não respondi, mas pelo ar solene, conclui. “Câncer de intestino e a única solução é cirurgia. Enviei o material para biópsia, mas é só para certificar, não há dúvida.” Enquanto escrevia a relação de exames para o pré-operatório, repassei minha vida pela primeira vez, algo que se tornaria rotina. Vendo-me de cabeça baixa, explicou os procedimentos cirúrgicos e por fim, fechou a conversa com um comentário que me martelou por muito tempo. “Toda pessoa que passa por um processo destes sofre profunda mudança,” e acrescentou,“prepare-se.”
Peguei os papéis que me alcançava, levantei da cadeira e olhei o relógio. Eram dez horas da manhã. Reclamei que tinha rotina dura a enfrentar, que os trabalhos parariam sem mim. Ele ouvia atento. Quando terminei as lamúrias, falou compassadamente, “penso que não entendeu, o senhor está sob cuidados médicos. Estou lhe dando atestado de um mês para iniciar exames pré cirúrgicos. Fará cirurgia,  sessões de quimioterapia, talvez radioterapia. É hora de cuidar de suas coisas e do bem maior, a saúde.” O final da frase ouvi de costas. Um zumbido apitou no ouvido, o chão faltou sob os pés e sentei novamente.
Ficar doente soa como um sinal de fraqueza, o estigma da vergonha que se identifica com o sentimento de dó de quem vive a volta do adoecido.
            Se falou mais alguma coisa, desconsiderei. O tempo parou, a pressa acabou, a vida desabou. O que aconteceu comigo? O que fiz de errado? Eu merecia? Porque? A que mudanças o médico se referiu?
            As respostas viriam devagar, a conta gotas. Foi como mergulhar na realidade sombria, num mundo desconhecido.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ao sul com meu amigo Nelson


Tudo começou num dia de setembro de 2008.

Pensamos que a saúde é um patrimônio infinito e que nunca a perderemos. Um dia, um mal-estar, um exame e lá vem o resultado; fica-se atônito, imaginando como foi acontecer e por quê.

Preparava-me para sair de casa, quando o telefone tocou. Era Sônia, esposa do Nelson. Contou-me que há uns três meses ele apresentava tosse e febre baixa, mas constante. Internado, permaneceu um mês em tratamento com diagnóstico de pneumonia. Como não melhorava, Sônia providenciou remoção a um hospital de São Paulo, onde o submeteram a sofisticado exame por aparelho chamado Petscan. O diagnóstico foi preocupante. Câncer no pulmão. Para piorar as coisas e sem ligação aparente, foi encontrado outro foco da doença no osso da perna esquerda, na altura da coxa. Apesar de tensa, Sônia falava pausadamente, imaginei que estivesse sob efeito de calmante. Procurei dizer algo sobre novos tratamentos, novas formas de combate à doença, mas confesso que não consegui ser convincente nem a mim mesmo.

Nelson e eu fomos colegas na faculdade de Engenharia em Porto Alegre. Logo após a formatura, com Ney, outro colega, fomos para Brasília iniciar nossa carreira profissional.

Desliguei o telefone e fiquei pensativo por alguns minutos. Liguei para Moacir, amigo em comum, e falamos sobre a oportunidade dele oferecer aquela feijoada prometida ao Nelson. Seria o momento certo de reunirmos colegas e movimentarmos a vida dele. Marcamos o almoço para um domingo ainda no mês de setembro.

No dia, todos chegaram cedo ao sítio do Moacir para ajudá-lo a preparar os ingredientes. Nelson foi o último a chegar. Sônia era quem dirigia o carro. Outrora isso nunca ocorreria. Seu hobby predileto sempre foi direção de automóvel. Desceu do carro auxiliado pela nova companheira (uma bengala de madeira) e pela Sônia. Estão casados há 35 anos. Apoiou a bengala na grama e ela afundou. Procurou um lugar mais firme e, ao conseguir, iniciou uma cuidadosa aproximação até a varanda onde estávamos. As costas arqueadas, o semblante cansado, o peito arfante. O olhar baixo evitava os outros, como alguém que tem medo de ter algum segredo desvendado.

Em São Paulo, após o diagnóstico, os médicos decidiram que ele deveria voltar à Brasília e iniciar tratamento quimioterápico para debelar os tumores. Fizera uma primeira sessão que teve de ser seguida por transfusão de sangue, pro causa do baixo teor de glóbulos vermelhos.

Neste almoço, junto com minha namorada Maria Lúcia e Sônia, combinamos uma viagem para o Rio Grande do Sul, onde colocaríamos o Nelson em contato com seus irmãos, parentes, amigos e ex-colegas do curso de Engenharia. Aproveitaríamos que em 31 de novembro haveria um jantar da faculdade de Engenharia em Porto Alegre, onde homenageariam os diplomados há 35 anos, que era o nosso caso. Depois esticaríamos até Gramado, cidade com a qual ele tem grande afinidade. O contato com o passado poderia fortalecê-lo.

À noite, Nelson dormia auxiliado por uma máscara ligada a um balão de oxigênio. A capacidade pulmonar estava baixa, o que comprometia sua noite de sono.

O filho deles, Nelson Alexandre e a nora, Juliana, seriam também chamados a nos acompanhar na viagem. Assim, o filho teria oportunidade de ajudar nas locomoções e conviver com o pai, pois atualmente reside em São Paulo. Sônia ficou com a incumbência de fazer as reservas de vôo e hotel e assim fez.

Na verdade, nossos filhos não nascem para nos corujar. Eles nascem para descobrir seus próprios caminhos. Mas, ao se depararem com a idade e as dificuldades dos pais, eles estão se preparando para os seus próprios problemas.



Primeiro Dia

Nelson e Sônia chegaram cedo ao aeroporto. Às 8h a bagagem já estava despachada e eles esperavam na sala de embarque. Passageiros com dificuldade de locomoção não precisam entrar na fila. Nelson tinha dificuldade de se movimentar. Atualmente, caminhava com auxílio da mulher, e sua inseparável bengala de madeira. Mas já fora pior. Um mês antes, Nelson locomovia-se por cadeira de rodas.

Sônia nos vê no saguão e vem ao nosso encontro. Na noite anterior Nelson tivera uma crise respiratória e perdera o ânimo de viajar. Foi preciso ser firme e dizer-lhe que, após as reservas feitas, não poderia desistir. Ele entendeu o recado. Sabe que ela não recua após iniciar um projeto. O problema foi tão grave que o médico aconselhou uma transfusão de sangue extra, baixara novamente a contagem de glóbulos vermelhos. Pela dificuldade de manuseio, aconselhou o casal a viajar sem o aparelho de oxigênio e, caso surgisse um contratempo, ele deveria ser levado rapidamente a um hospital. Antes de irem ao aeroporto, Sônia aplicou-lhe uma injeção, receitada pelo médico para evitar trombose durante o vôo.

Ao embarcar, Nelson, com dificuldades, sentou na primeira fileira do avião com a esposa ao lado. Ela explicou às comissárias que se os ocupantes das poltronas aparecessem, elas as desocupariam. Às 9h o avião decolou de Brasília, fez uma conexão no Rio e às 14h20 chegou a Porto Alegre.

Dirigimo-nos ao balcão da locadora onde nos aguardava um carro alugado pela agência de turismo. Lentamente, acompanhamos o Nelson que, cansado e abatido pelas longas horas de vôo, logo se senta numa poltrona. Na locadora, decidimos eleger um motorista fixo e, por unanimidade, fui eleito para a tarefa.

O carro é carregado com as bagagens e saímos às 16h rumo ao hotel. No caminho, passamos em frente a casa onde Nelson viveu a adolescência. Fala sobre o supermercado do pai que pegara fogo naquele bairro. A voz embarga quando acrescenta que o tio se esquecera de pagar o seguro na data de vencimento. Ficaram sem nada, reiniciando a vida do zero. “Foram anos duros.”

Levo-os para o hotel num bairro de Porto Alegre e dirijo para o apartamento de minha mãe, onde fico hospedado com Lúcia. Na chegada, ao desembarcar a bagagem, vejo a enorme pasta com remédios do Nelson. Ficara no carro por engano. Seria necessário um novo encontro com eles ainda no mesmo dia, porque ele não poderia ficar sem as medicações.

Jantamos juntos e combinamos a programação do dia seguinte, iniciando a estada em Porto Alegre, período inesquecível para todos.



Segundo Dia

Anualmente, a faculdade de engenharia do Rio Grande do Sul homenageia seus diplomados, que comemoram 20, 25, 30, 35 anos de formados. Neste ano, por coincidência, os homenageados seriam, dentro dos 35 anos, a turma de 1973, onde estavam incluídos Nelson e eu.

Levei o álbum da formatura com as fotos dos formandos. Hoje mais velhos, com os cabelos grisalhos e alguns sem cabelos, “só estamos iguais na essência”. Nelson marejou os olhos várias vezes quando abraçado. Sempre tinha alguém contando algo sobre o outro, pois os amigos são nossa melhor memória. Lembram o que esquecemos. Ouvimos dos outros o ângulo ignorado de nós mesmos.

Após o jantar, o mestre de cerimônias conclamou os convidados a assistir à distribuição de brindes aos diplomados. Dançamos ao som dos Beatles e de Renato e seus Blue Caps como antigamente. Nelson até que ensaiou alguns passos, mas logo retornou à mesa.

Tivemos alguns contratempos até hilariantes. Para facilitar o acesso de Nelson ao ambiente do evento, já que estava com o fôlego bastante reduzido pela doença e uso de medicamentos pesados, colocamos o carro num acesso da garagem que permitia o uso do elevador da cozinha principal. Quando entramos no salão dos diplomados, o espanto dos convidados: vestidos com trajes de festa, entramos com os garçons, cozinheiras e chefs. Na saída, a espaçosa cozinha estava fechada e ficamos sem acesso à garagem. Nelson Alexandre saiu em busca do guarda com as chaves e só voltou quando o localizou, o que se tornou a primeira demonstração do mimo com o pai, das muitas outras que ocorreriam nos próximos dias.

Deixamos Nelson e o filho, com suas respectivas esposas, no hotel. E Maria Lúcia e eu rumamos para a casa de minha mãe.



Terceiro Dia

Era sábado e, mesmo sendo o dia da viagem a Gramado, levantamos tarde.

O filho e a nora de Nelson haviam chegado sexta e ele se renovara, pois o reencontro com filhos distantes serve de elixir revigorante para os pais.

Quando chegamos ao hotel, nos esperavam de malas prontas no saguão. Nelson sentado, parecia cansado.

O câncer de pulmão tem como característica diminuir a capacidade de oxigenação dos pulmões, causando enfraquecimento geral e pouca capacidade aeróbica. Perguntei se tudo estava bem e ele brincou dizendo que a farra da noite anterior tinha sido muito pesada para ele.

Saímos de Porto Alegre às 10h, numa viagem lenta para aproveitar a bela paisagem da Serra Gaúcha. A outrora tortuosa estrada de mão dupla deu lugar a uma bela avenida de duas pistas em meio à floresta verdejante e hortências a desabrochar. Em nada lembrava a via tortuosa e cheia de riscos. Pudera! Fazia mais de trinta anos que não passávamos nesta via. Vez por outra, Sônia passava uma medicação para Nelson tomar. Ele engole pílulas, toma líquidos, passa pomadas. E tosse, muita tosse. “Encomendei um remédio para um raizeiro de São paulo, que já curou muita gente com câncer pelo mundo afora.”

O filho de Nelson herdou o bom humor inteligente e vivo do avô materno e isso garantiu uma viagem alegre e cheia de piadas. Quando ultrapassados por um fusca numa subida da serra ele comentou que eu era mais lento que o Rubens Barrichelo.

Chegamos a Gramado às 13h. Após deixarmos a bagagem nos quartos, descemos ao restaurante do requintado hotel Serrano, onde nos esperava uma feijoada completa. Após o almoço, Nelson e o filho, aproveitando a companhia um do outro, foram assistir aos treinos da F-1 no telão do mezanino. A falta de instalações adequadas a deficientes físicos dificultou o acesso de Nelson, mas seu filho formalizou reclamação por escrito para a gerência do hotel e fez uma defesa oral dos direitos de quem não se locomove livremente.

Quando pequenos, protegemos nossos filhos dos perigos e armadilhas da vida. Quando ficamos impedidos por qualquer motivo, eles devolvem este cuidado. A cada defesa veemente do filho, Nelson secava o olho que teimava em turvar-se.

Sônia, a nora Juliana, Maria Lúcia e eu permanecemos na mesa do almoço, saboreando um vinho branco da casa. Sônia destacou o companheirismo dela com Nelson. Os anos de vida em comum, os problemas que passaram juntos e o impacto da doença surgida no momento em que tudo andava bem. É como se a gente tivesse que perceber de tempos em tempos que o emocional e o afetivo devem seguir em paralelo com o sucesso profissional e os negócios. A doença parece unir as famílias quando surpreendidas por um dos membros enfermos.

Ao levantarmos da mesa e nos dirigirmos à sala de TV, onde ocorria a transmissão da corrida de F-1, Nelson dormia no sofá, exausto. O filho nos viu e acordou o pai convidando-o a descansar no quarto.

Após um breve sono, cada casal no seu quarto, nos encontramos na piscina aquecida onde fizemos hidroginástica. Em certo momento, estávamos sentados os seis num canto da piscina e Nelson ria e contava piadas. Vez por outra era interrompido por acessos de tosse e ficava sério. Antes que todos levantassem, Nelson balançou a cabeça e, numa demonstração de tudo o que Sônia representa para ele, disse baixo, mas audível para todos, que “Sônia é uma grande mulher, não sei o que seria de mim sem ela”.

A noite o tempo fechou e um temporal se abateu sobre a cidade, seguido de uma neblina com brisa fria. Por unanimidade, decidimos tomar café colonial na estrada para Canela. Caía uma chuva fina e fria e ficamos muito tempo em silêncio nesta noite. Parecia que cada um estava envolto em seus pensamentos e não queria compartilhar com o outro. No hotel, aproveitamos o champanhe oferecido e, antes de dormir, fizemos um brinde.

Juliana brindou à vida;
Sônia brindou à saúde;
Nelson Alexandre à paz;
Maria Lúcia à harmonia;
Eu brindei ao aprendizado que vem das desventuras e...
Nelson brindou às nossas qualidades, que tantos filhos-da-puta não reconhecem.



Quarto Dia

No dia seguinte, um domingo, a neblina forte retardou o nascer do sol. Da janela do quarto do hotel, mal se via a copa das árvores. O cenário parecia de filme. O dia estava frio e úmido.

Maria Lúcia e eu fomos ao restaurante e esperamos os demais que chegaram quinze minutos após. Avistei os que subiam as escadas bem devagar com uma fila de pessoas atrás, querendo passar. O hotel não tinha rampa nem elevador para acesso ao restaurante que servia o café-da-manhã. Nelson Alexandre fez mais uma queixa por escrito, demostrando sua indignação. Fiz o mesmo, solidário com o filho que se mostrava cuidador do pai enfermo.

Sentados à mesa, lanchamos. Contamos nossos sonhos da noite anterior. Juliana falou sobre a dificuldade em administrar sonhos maus. Disse que é normal acordar aflita com sensação de horríveis acontecimentos reais. Relatou, por exemplo, pesadelos sobre assaltos em casa ou coisa pior. Maria Lúcia relatou o sonho com a mãe que teve o cuidado de pavimentar uma calçada de barro com pedras.

Nelson não deu muita importância aos sonhos e logo desviou o assunto. Não parecia disposto a ouvi-los, pela própria significação irreal que eles representavam. Sua realidade era mais forte que qualquer sonho. A cada sonho contado, sua preocupação parecia ser transparente. Talvez o medo de que o sonho fosse pior que a realidade.

Era hora de parar com a seção de sonhos e fomos aos passeios programados. Iniciamos pela casa do Papai Noel. Um lindo bosque em terreno montanhoso com casas representativas de lugares freqüentados pelo bom velhinho. Pelas dificuldades de acesso, Nelson pacientemente nos liberou e ficou sentado num banco, aguardando-nos.

Como o tempo era curto rumei à Cascata do Caracol. Nelson adormeceu no carro, no banco do passageiro, acompanhado de Sônia, que ficou no banco de trás enquanto passeávamos. “Nunca o vi dormir tanto, parece que precisava muito de repouso”. Eles já conheciam o local. Em outra ocasião estiveram em Canela e Nelson desceu até a base da cascata.

Desta vez, apenas Maria Lúcia e Nelson Alexandre desceram os 780 degraus até a cascata. A subida consumiu mais de duas horas de ambos, entre descansos e retomadas. Na volta, Nelson Alexandre ajudou um turista que passou mal, apoiando-o, desmaiado.

Voltamos para o hotel, em tempo de almoçar. Logo após, pai e filho se dirigiram à sala de TV e foram assistir a corrida de F-1.

Ficamos no restaurante terminando o almoço. Para cuidar do Nelson, Sônia largou a administração dos negócios da família. Passou tudo para os filhos e os empregados de confiança. Deu-se conta que a saúde é o mais importante bem da pessoa. Levou-o a médicos, mandou fazer remédios caseiros e medica-o dia e noite, tal a quantidade de medicamentos.

Ao acabar a corrida, nos recolhemos aos quartos e combinamos um reencontro na piscina. Quando lá chegamos, soubemos que Nelson, que ficara sozinho no quarto, desaparecera. Onde estaria? Sônia diz para o filho seguir para os salões de TV e restaurantes, enquanto ela seguiria para o saguão. Maria Lúcia e eu permanecemos na piscina. Duas horas se passaram antes de Nelson reaparecer. Estava na capela do hotel. Certamente fazia orações e pedia pela sua saúde.

Na solidão da doença o homem procura algo que o faça reviver a fé. Recorrer a Deus é escolha da maioria. Estava sério e perguntou pela Sônia. Respondi que talvez estivesse no saguão. Ele fechou a porta de vidro que dá acesso à piscina e, sem nada dizer, foi procurá-la, acompanhado apenas de sua bengala. Tive ímpeto de ajudá-lo, mas senti a mão de Lúcia que repousou no meu braço e desisti.

Algum tempo depois, chegam Nelson e Sônia abraçados à piscina. Seu semblante ostentava um rubor e notei pela primeira vez o olhar com brilho e o sorriso. O passeio fazia seus primeiros efeitos transparentes.

No jantar, Nelson comenta pela primeira vez seu estado de saúde. Fala que certa vez caiu no banheiro de casa e ficou sem forças para levantar. Após algum tempo, o neto foi procurá-lo e vendo-o caído liga para a mãe, que sai do trabalho e chama os bombeiros para socorrê-lo, pois é muito pesado para ser removido. Hospitalizado e após diversos exames, nada descobrem. É então liberado sem tratamento e sem diagnóstico.

Neste final de dia, exibe excelente bom humor e comenta que tudo na vida é um ciclo. Hora de nascer, de viver, de aventurar e também há a hora de morrer. Nelson entende que a morte tem sua hora certa, que depende também da força mental dele definir se a hora chegou ou não.



Quinto Dia

Levantamos cedo e preparamos a volta a Porto Alegre. Após as malas serem colocadas no carro, pegamos estrada. Antes, mais um passeio na cidade já decorada para o Natal de 2008. O filho será deixado no aeroporto, pois para ele a segunda é dia de trabalho em São Paulo. “Foram dias inesquecíveis.” Nelson apresenta o rosto sereno e pensativo, certamente algo mudou em seu íntimo. O aprendizado nunca será esquecido.

No trajeto de volta, Nelson Alexandre participa de um fonoconferência com São Paulo. Vez por outra, Nelson sorri orgulhoso de conhecer as decisões tomadas pelo filho ao telefone.

Deixamos o rapaz e a esposa no aeroporto para e devolvemos o carro alugado no balcão da companhia. Despedimo-nos de Nelson e Sônia, que rumam para o hotel e Maria Lúcia e eu para a casa de minha mãe.

Nos próximos dias, antes de voltar a Brasília, Nelson e Sônia ainda enfrentam uma maratona de visitas aos irmãos dele, que são três, o Norberto, o Artur e a Mirna, e aos amigos e colegas de faculdade que são muitos. São jantares, almoços e churrascadas.



A transformação

Uma sintonia muito forte nos uniu nesses dias. Numa ocasião, ao convidá-los por telefone para irmos a um shopping, naquele momento já estavam no local, em outro andar.

Sônia registrou tudo, fotografou paisagens, morros, árvores, placas, abraços, beijos, casas e nós todos, muitas vezes. A todo instante solicitava que brindássemos. “Consultem o orkut do Nelson, lá verão 300 fotos dessa viagem espetacular.”

Normalmente adiamos as coisas por qualquer motivo. Mas o melhor é aproveitar, fazer tudo que nos dá vontade, pois nem sempre teremos uma segunda oportunidade.

Alguns dias depois, dia 30 de novembro, Nelson aniversariou e fui dar-lhe um abraço. Comemorava os 65 anos de vida e a regressão do câncer, ao ponto de o médico dizer que as duas únicas sessões de quimioterapia feitas às vésperas de ser liberado para a viagem foi o bastante para deixá-lo recuperado.

Encontro-o com o bom humor dos velhos tempos. Ele me chama a um canto, olha-me firmemente no olho e diz que foi convidado por Hollywood para substituir o ator Bruce Willis na nova versão do filme “Duro de Matar”. E cai na gargalhada.