LEIA TAMBÉM:"ARQUIVO" e "PÁGINAS"

Dificuldades para comentar? Envie para o email : marcotlin@gmail.com
****************************************************

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A CIDADE DA SERESTA

(O Túnel que Chora - arquivo pessoal)

Eram sete horas da manhã de sábado quando avistei o senhor a montar as barraquinhas de venda de bijuterias e outras quinquilharias na praça, defronte a Igreja Matriz. A cidade jazia adormecida enquanto ele trabalhava. Outro homem o observa de perto. Parece olhar através do montador e das ferragens. Inerte em sua frente, vez por outra faz um comentário que o senhor nem se digna responder. Um leve chuvisqueiro cai insistente. Levantei a gola do casaco e me escondi sob a árvore, enquanto observava o senhor colocar um varão de ferro de cada vez  e encaixar em argolas para dar sustentação. O trabalho paciente indicava que mais tarde haveria feirinha. Passei devagar. Estava absorto na montagem e em seus pensamentos.  O que observava me olhou com olhos vazios.
No meio da rua, mais abaixo, aparece uma senhora e grita sem preocupar com a cidade que dorme:
– Ei! Pode parar de montar. Com esta chuva, não haverá feira.
O homem deixa cair um dos varões com estrondo, torce a boca e fala para si mesmo, determinado:
– Vou terminar de montar esta e paro.
Armou a quarta barraca e iniciava a colocação da lona amarela comum a todas, quando resolvi chegar perto.
– Hoje terá feira? – perguntei.
– Claro. Quando chove é sempre assim. Ela cancela e depois a feira acontece e tenho que correr a montar o resto das barraquinhas para os feirantes. – responde sério, avaliando que me referia ao comentário da mulher.
– O senhor é da cidade? – insisto.
– Nasci aqui e monto as barraquinhas há mais de trinta anos.
Saio devagar, e faço uma foto da igreja Matriz.
Estava em Conservatória, cidade distante do Rio de Janeiro cerca de 150 quilômetros. Participava de um Encontro Nacional e aproveitei para conhecer a “Cidade da Seresta”, paraíso dos seresteiros. Acredito que a última representante de um tempo que não volta mais. Havia chegado na sexta a noite e ficaria até domingo. Foram três dias na cidade de seis mil habitantes, onde o tempo, contrariando o resto do mundo, é docemente lento. Voltei para o hotel, pois teria o dia pleno de atividades.
(Roupa do filme O É brio de Vicente Celestino-arquivo pessoal)
À noite, após dia intenso, voltei à cidade. Entrei no Museu de Vicente Celestino e Gilda Abreu e mergulhei num passado bem perto de minha infância, quando ouvia as músicas tocadas em discos de vinil por meus pais. Wolney Porto, curador do espaço, colocou um disco de Celestino e me atendeu com cortesia. “A noite haverá seresta na rua” indicou o evento que aconteceria mais tarde na praça principal onde um grupo se reuniria para tocar e cantar. Quando digo que sou de Brasília, me pergunta se posso ajudá-lo a ter alguma ajuda federal para a manutenção dos museus dos quais é curador. Respondo que minha missão na cidade é outra e que colocarei o pleito no meu blog.
Voltei ao hotel para a janta e animei um pequeno grupo para comparecer ao evento. Mais tarde atravessamos a pé o “túnel que chora”, eu pela segunda vez. A obra construída pelos escravos, separa a cidade do resto do mundo. Pode ter sido pela época, mas o túnel, charmosamente, comporta apenas a passagem de um carro. Quando outro aponta da posição contrária, deve  esperar que passe para ir em frente.
(Caminhada em Seresta - arquivo pessoal)
Logo ao término da travessia, ouvimos o som dos violeiros. E quanto mais nos aproximávamos, mais éramos envolvidos pela voz dos cantadores e a harmonia dos violões. A seresta acontecia com seis integrantes, coordenada pelo seresteiro Edgar, morador da cidade. Mescla integrantes não apenas de Conservatória, como também de fora, como é o caso de Roberto, vindo da Cidade Maravilhosa toda sexta feira a fim de soltar a voz melodiosa e firme. E pouca chuva não impede a cantoria. Interrupção só acontece por fortes relâmpagos e trovoadas. A garoa mistura-se a emoção e embaça os olhos dos turistas em lento caminhar:
Felicidade, foi se embora e a saudade no meu peito, ainda mora e é porisso que eu gosto lá de fora, porque sei que a falsidade não vigora...”.  
Vez por outra, Edgar pára e declama poesia, demonstrando a excelente memória. Não me contive e, resguardado pelo canto dos demais turistas, soltei a voz me sentindo o rei da serenata.
Cerca de duas da manhã, a cantoria acabou e Edgar recebe para conversa sem tempo marcado, pois seresteiro não tem pressa para boa prosa. E fez a declaração bombástica da noite: “nosso trabalho é por amor a seresta, não ganhamos um tostão pelo que fazemos”. Despedimos e saímos cantando de bar em bar. Todos com as características dos botecos cariocas, com samba ao vivo, exibindo o gingado da mulher carioca.
(Aproveitei farol de carro as três da manhã - arquivo pessoal)
Atravessar túnel, a pé, as três da manhã, em qualquer cidade, seria temerário, mas não em Conservatória, que inspira inocência e tranquilidade. No meio do túnel, alguém cantava uma seresta, que ecoava pelo espaço fechado.
“Dorme e fecha este olhar entardecente
Não me escute nostálgico a cantar
Pois não sei se feliz ou infelizmente
Não me é dado beijando te acordar”.
Domingo era dia de retorno e, após as atividades matutinas e as despedidas entre os 380 participantes do Encontro, o ônibus partiu em direção aos aeroportos do Rio de Janeiro, descendo os 520 quilômetros de serra. Ao encontro, compareceram representantes de todo canto do país, do Oiapoque ao Chuí. No retorno ao Rio, a beleza da vegetação e a conversa animada. Conservatória ficou para trás, mas permanece nos planos de conhecê-la melhor em outras visitas com mais tempo.
Serenata é algo esquecido e hoje habita apenas a memória. É mais ou menos assim. Eu tinha cinco anos e morava em Uruguaiana. Nas noites de sexta feira chegava um grupo musical com um rapaz chamado Helvécio que cantava para a vizinha, chamada Arlete. Depois das canções, eram convidados a entrar pelo dono da casa, pai da moça, que lhes oferecia bebida e a partir daí a vizinhança participava até tarde da noite. Um dia tudo parou, o cantor e a jovem casaram-se. As serenatas acontecem até o casamento.
Olho a rosa na janela,
sonho um sonho pequenino...
Se eu pudesse ser menino
eu roubava essa rosa
e ofertava, todo prosa,
à primeira namorada,
e nesse pouco ou quase nada
eu dizia o meu amor, o meu amor

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

VERDES MARES DO NORDESTE


(Cumbuco-CE - Arquivo Pessoal)
São quilômetros e quilômetros da linda beira mar oeste. Aqui e ali coqueiros carregados oferecem frutos para o viajante sedento. O sol forte clareia a paisagem de amarelo ouro e vez por outra aparece alguma lagoinha salgada para banho puro e sem ondas.
Como diria Ana Miranda, poeta cearense,
E quando ali retornarmos
Verás que nunca nos fomos
Pois o lugar onde estamos
O lugar onde estaremos
É sempre o lugar que somos

Assim reencontrei o litoral cearense, após dois anos. Desta vez, foram quatro dias intensos de emoções, conhecimento e restauração de energias. Compartilho com quem gosta das pequenas coisas da vida e que, como eu, julgam ser as verdadeiramente importantes.

(Pousada Ondas do Mar - Arquivo Pessoal)
 Hospedamos em encantadora pousada na região de Barramar de Taíba, a cerca de 70 quilômetros de Fortaleza. O acesso acontece por estrada de terra trabalhosa, esburacada, cheia de pedras, mas o destino recompensa. Propriedade de casal italiano, a pousada Ondas do Mar é aconchegante e intimista e os donos, Milton e Maura, estão sempre dispostos a resolver quaisquer problemas que apareçam. Com eles, revivemos cenas dos meus ancestrais também vindos da Península Ibérica em fins do século XIX. Situação semelhante a deste casal, fugiram da situação calamitosa que se abatia sobre a Europa. Em princípio do século XXI, novamente o caos econômico se abate sobre o Velho Continente e obriga famílias inteiras a emigrar e ao que parece o Brasil novamente é o destino. No final do ano estarão se radicando definitivamente no país e trarão a única filha, o genro e o neto para trabalharem na pousada. Encontrei vários empresários europeus, principalmente italianos, espanhóis e franceses investindo no litoral cearense, montando comércios, resorts, hotéis, restaurantes, pousadas e outros negócios. Louvam as possibilidades que o país oferece para estabelecer. O que chama a atenção deles é o clima, “calor o tempo todo”, fala Milton apontando para a camiseta regata, bermuda e chinelos confortáveis.
Meus planos desta vez era conhecer Paracuru, praia distante de onde estávamos apenas 30 quilômetros. E isto aconteceu no segundo dia. Na ida, querendo economizar tempo aventurei-me em estrada de terra pedregosa e poeirenta, mas alternativa de atalho substancial. O que nos deu chance de fazer a foto de um cajueiro, entre as centenas existentes em plantação nativa. Malu e eu fomos ciceroneados por Karina, minha filha que mora na praia de Taíba e o namorado Nacélio. Ao chegar a cidade, na primeira oportunidade, colocamos os pés na água e constatamos a temperatura extremamente confortável. Enquanto o sol contornava em volta da barraca do Kaká, sem nos atingir, conversávamos embalados pela brisa amena que amansava o calor abrasador. O céu carregado de kitesurfs com suas pipas amarelas, lisas, estampadas, desenhadas, amarelas, azuis ajudava ao assanhamento dos turistas de várias idades e nacionalidades, ávidos de usufruir da boa vida tropical. Casquinha de caranguejo foi a entrada, acompanhada de refrescante caipirosca e porções de camarão, dos grandes. No almoço, um delicioso dourado com saladas. Postas fartas preparadas com esmero. O cachorro ao lado da mesa cansou de esperar e foi embora, certamente percebeu que daquele mesa não teria sobras. Sem pressa, alongamos o papo por pelo menos seis horas. Esticamos ao máximo, pois sabíamos que cada minuto era importante considerando o pouco tempo de estada em solo cearense. Saímos de Paracuru ao entardecer e paramos em uma lagoa para conhecer e tomar água de coco. Logo fomos cercados por famílias de ovelhas protegidas por um bode ranzinza que me encarou várias vezes, gansos, patos e um pavão que teimou em deixar o longo rabo colorido fechado. Durante todo tempo acompanhamos a sedução de um peru, este sim de rabo aberto em leque, que de nada adiantou pois a perua estava firme no propósito de manter a guarda fechada. Ao anoitecer, retornamos a Taíba para tomar açaí na tigela, a delicia do norte/nordeste. O retorno aconteceu pela estrada asfaltada, claro, pois de poeirão bastou a ida.
(Altar em Cumbuco - Arquivo pessoal)

No terceiro dia, Malu e eu testemunhamos o casamento de filhos de amigos de Brasília na praia do Tabuba, em Cumbuco, distante 30 quilômetros de onde estávamos, sentido retorno a Fortaleza. A cerimônia foi montada em um altar simbólico e singelo, com galhos de árvores nativas fincados a beira mar. Emoldurando a cena, um belíssimo por do sol e alguns surfistas que cortavam ondas em pranchas velozes. No céu, pipas de kitesurf ondulavam em vai e vem lento. A noiva, com o mais belo dos calçados, os próprios pés, bailava com o vento e com a felicidade que só as noivas sabem e comentou que “não cabia em si mesma de tão contente”. Transbordava a alegria para convidados, na grande maioria, viajantes que deslocaram cerca de dois mil quilômetros participar do evento paradisíaco. Ao final da festa, o noivo, com o calor que fazia, dispensou o paletó e abriu os botões da camisa, celebrando o clima de descontração emprestado a festa. Uma bela e ao mesmo tempo singela cerimônia que satisfez os gostos mais exigentes, com simplicidade, carinho e alegria.
Ao final da festa, retornamos a pousada. À nossa direita, fomos homenageados  pela noite do Ceará, que ofereceu a lua a pratear o mar, a estrada e a vegetação durante todo caminho de volta.
O dia seguinte amanheceu mais bonito que os outros, como se  fosse possível. Tomamos café, tiramos algumas fotos finais com Karina e o namorado na pousada onde residem e, duas horas depois estávamos no aeroporto de Fortaleza. A aventura chegou ao fim. O sentimento é de tempo  bem aproveitado. Constatamos que temos tudo para conhecer lugares e pessoas interessantes. Basta boa vontade, olhos abertos e disposição. Lugar de descansar é em casa. Todos os minutos foram curtidos por inteiro e os compartilho tal e qual ocorreu.
Espero que o litoral resista a erosão crescente, provocada pelo oceano e pelas areias que tomaram várias obras a beira mar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

SEM IMAGEM

(Google Imagens)

Estou há um mês sem assistir TV. Deixei a divulgação para após este prazo, esperando amadurecer a façanha. Tudo começou com Uma reclamação simples, que um produto igual ao meu, na televisão, era melhor. Após longa discussão com um amigo, concluímos que 
tudo na telinha é lindo e que a imagem virtual é mais exuberante que a real. Saquei então que isto é uma das molas mestras da ilusão que mantém as pessoas magnetizadas. Isto descoberto, tracei o projeto hercúleo de desligar da telinha.
Confesso que inicialmente me senti perdido em casa, fora de órbita. Tive problemas de onde colocar as mãos, focar os olhos e por várias vezes parei frente à TV, controles na mão, olhando a tela escura. Aos poucos desconectei e percebi os quadros tortos deixados pela faxineira após a limpeza. Aprumei-os.  Passada a primeira semana, ganhei novos horários para executar trabalhos caseiros. Passei a ler mais e escrever  se tornou tarefa mais proveitosa, sem interrupção. Assim, lavar a louça diária e estender a roupa de cama exercito com afinco, sobrando tempo para cinema em dias de semana. Em quinze dias, agreguei a arrumação da mesa de trabalho, da estante repleta permanentemente de livros fora de lugar, e ainda sobra para cafuné na nina, a cadela que há tempos reclamava.
Há trinta dias chego cedo às reuniões, no horário na natação, cumpro  compromissos nos trabalhos voluntários, enfim, sem estar aprisionado pela telinha, saio de casa sem atrasos.
Me arrumo melhor, pois nada me distrai daquilo que faço. E descobri a utilidade do aparelho ao lado da TV, há anos invisível. O aparelho de som. Por força do hábito, no inicio esperava imagem, mas logo percebi o engano. Com o rádio, vou ao banheiro, quarto, cozinha sem preocupar em perder algum acontecimento. Ligo ao levantar e ouço enquanto em casa. Já me surpreendi ora cantando, ora assobiando. Parei de me entupir com assuntos irrelevantes. E o importante é que posso desligá-lo a bel prazer, sem a sensação do vazio. Da falsa impressão de perder algo importante.
Desconheço a rotina de seqüestros, de assaltos a banco, de mortes. São todos problemas da Polícia, do Governo ou de quem é pago para isto. Meu nível de stress diminuiu e agora ouço os passarinhos que cantam em sinfonia pela manhã. Cordão umbilical cortado com a TV, as noites melhoraram. Substitui os programas de entrevistas e apresentações que me magnetizavam por horas, provocando insônia crônica, por leitura.  Resultado? Botei fora os remédios para dormir, pois o sono é provocado pelo bem estar de um livro. Ler ao dormir, além de acalmar a mente, prepara o sono, contribuindo até para o sonho leve. Acabaram os pesadelos recorrentes que me assombravam depois dos filmes da madrugada,
E o melhor de tudo é que, sobrando-me tempo, recomecei a procurar amigos. Dedico uma hora diária para falar com eles por telefone, quando tem tempo, claro, pois são muito ocupados vendo TV. Quando ligo, costumo pedir desculpas pois sei que interrompo algum programa policial, telejornal ou novela “imperdível”.
Passei a escutar o silêncio da casa. Quando chego da rua, independente da hora, ligava a TV em qualquer canal e a deixava tagarelar nos meus ouvidos, impedindo-os de ouvir pensamentos que se agitavam atrás da penumbra de propagandas, apresentadores de remédios para emagrecer e demais bombardeios. Às vezes, o apresentador era tão convincente que me impunha culpa da situação de desastre da enchente na China forçando-me a fazer algo para impedir.
Reconheço a competência da mídia que causa necessidade de consumir produtos absolutamente inúteis. Apresenta pessoas extremamente felizes que descobriram a fórmula do bem viver. Novelas exibem a falsa ilusão de uma sociedade consumista fútil com comportamento irreal, mas a ser  seguida para conseguir a felicidade do pobre telespectador.
Imagino famílias conduzindo vidas por esta mídia cruel, hipnotizada pela  magnetização da telinha.  São quatro, cinco pessoas mudas em uma mesma sala. Ávidos de saber onde encontrarão produtos para amenizar dores e sofrimentos. Se alguém fala, tentando sair da robotização, outro pega o controle remoto e aumenta o volume, calando a boca do coitado que se queixa, quem sabe, do resultado do exame de sangue descontrolado feito naquele dia.
Estou curtindo momentos sublimes há um mês. Meu conteúdo como ser humano, melhora a cada minuto. Consigo conduzir conversas reflexivas, entendo melhor a vida e intercorrências. Mantenho a mente livre para pensar sem influências externas.
Até consigo ficar ocioso sem culpa. Sem planos ou projetos de comprar isto ou aquilo, apenas pensar na vida e nas pessoas. Andava desacostumado disto e ainda estranho. Acredito que descobri porque o tempo anda curto para todos.  

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

TUDO PODE ACONTECER

(Google imagens)

Pedrinho andava chateado. O casamento com Valentina completava oito anos e a fase poderia ser classificada de melancólica. Ainda por cima, há dois meses a sogra ficou viúva e precisou morar com o casal. A falta de filhos agravava o quadro, “minha mulher fala que dá trabalho” comentava aos amigos. E como está provado que desencanto esmorece o amor, o jovem locutor da radio Marambaia conheceu Isaura. Foi numa tarde quente do verão carioca. Pedrinho havia deixado o casaco no trabalho, coisa rara e se aventurou em um relaxamento rápido nas águas de Copacabana. Naquele dia, a vida e o mar estavam mornos e pediu a moça solitária da praia para guardar as roupas. Perguntou o nome. “Isaura”, disse a jovem sorrindo maliciosamente. “É só meia hora, Isaura”, falou e correu ao mar. Exatos trinta minutos e retornou molhado, aceitando a toalha oferecida pela moça. Secou-se, e sentou ao lado dela. Conversaram alegremente e explicou sobre o programa que realizaria logo mais a noite na rádio. Ao levantar para vestir encabulou com a forma que ela olhava. Isaura passou o número do telefone e prometeu ouvi-lo. Tinha cor amorenada pelo sol, pernas torneadas e um pequeno biquíni que deixava boa parte dos seios a mostra. A rosa tatuada no pescoço chamou a atenção do homem.
Chegou pensativo em casa e Valentina, há tempos esquecida do marido, nem percebeu. Pedrinho perguntou se ouvira o programa. “Mamãe e eu ligamos o rádio para rezar com o pastor Lucas. Você precisa ouvir também. Anda muito afastado da igreja”.
No outro dia, levantou cedo e foi trabalhar assoviando, enquanto Valentina assistia ao programa matutino de culinária. Mas a sogra andava atenta e, ao ouvir o silvo do genro que distanciava, comentou séria “filha querida, aí tem”.
Mal sentou na cadeira da rádio e telefonou a Isaura para combinar o almoço. Moça solteira e desempregada podia dedicar todo tempo ao amante. E Pedrinho passou a curtir folga do almoço e sesta na casa de Isaura. A partir daí, encontravam-se todos os dias. Valentina ignorava a mudança de hábitos do marido e a mãe zelosa tentava alertá-la. Falou que quando o marido ficou diferente,  cortou o mal pela raiz, deu-lhe uma surra de tamanco. Mas Valentina ignorou os conselhos da mãe e pressentiu algo errado, somente após um ano. E, ao tentar conversar com o marido, este desconfiou da mulher com as mãos na cintura, bateu nos bolsos do paletó e deu meia volta dizendo que iria comprar cigarros. Desapareceu sem deixar pistas.
Naquela noite e nas seguintes Valentina chorou até secar as lágrimas mas, como a tudo a gente se acostuma, um dia aceitou a situação e seguiu a vida, sem o marido e com a mãe.
Pedrinho combinou com Isaura que separaria e cumpriu a promessa, executando o plano arquitetado bem antes, que só agora teve coragem de realizar. Desembarcou com as mãos abanando na casa da moça, dizendo que aceitara o convite da radio Atenas de São Paulo. Em uma hora, a mulher preparou tudo e partiram.
Foram dez anos de convivência e amor eterno, enquanto durou. Com apenas um detalhe, Isaura queria filhos e Pedrinho era estéril, provado por exame feito após oito anos de convivência. A falta de crianças esfriou a relação e o casamento desencantou. Da mesma forma que um dia desapareceu da vida de Valentina, dia chegou que Isaura desapareceu da sua. Levou todas as roupas mas deixou um bilhete na mesa da cozinha, “fui muito feliz enquanto vivemos juntos, mas quero ter filhos, adeus.” E nem assinou.
Desolado e solitário, pediu demissão, rescindiu o contrato de aluguel e retornou ao Rio voltando a trabalhar na rádio Marambaia. Dez anos mais velho e sem a disposição de outrora, ligou para Valentina. Após o final de expediente, pegou o carro e rumou a ex-residência. No meio do caminho ficou preso em um engarrafamento e atrasou por cerca de três horas. Eram onze horas quando abriu o portão da casa. Pela janela aberta, ouviu o radio transmitindo o pastor que se esgoelava. Esperou um pouco e a casa ficou em silêncio e as luzes  apagaram. Separou a chave que usara há dez anos, enfiou na fechadura e, com cuidado, abriu a porta e dirigiu-se ao quarto do casal. Os móveis, com poucas exceções, eram os mesmos.  Ao entrar no quarto em penumbra, percebeu a penteadeira, o chapeleiro, o guarda-roupa de seis portas, a cama do casal, tudo familiar. Valentina dormia profundamente. Sentiu-se cansado, deitou ao lado e aquietou-se. Bocejou. Adormeceu.

domingo, 14 de outubro de 2012

COINCIDÊNCIA OU DESTINO?

(Google Imagens)

Rodrigo chegou à frente do túmulo do pai, abaixou-se e naquele areão de pedras e barro que se transformou o cemitério de Luziânia após as chuvas de fevereiro, estilizou com o dedo a figura de um homem. De longe, Canindé percebeu a solidão que massacrava o rapaz. O vento frio e as nuvens escuras anunciavam a chegada do outono.
Na época dos acontecimentos, Canindé realizava trabalho com jovens infratores em um centro de reabilitação de Brasília dedicado a recuperação de delinquentes. Um trabalho difícil e perigoso, que o psicanalista executava com esmero e dedicação, voluntariamente. Rodrigo, o desenhista da tumba do pai, era especialmente o mais violento da instituição, sendo tratado como monstro.
– Sem recuperação, matou o próprio pai – comentou a assistente social ao apresentar a ficha do infrator.
Mesmo após os comentários desanimadores e o exame da extensa ficha criminal, o analista acreditava contribuir para a recuperação do jovem. E foi com este raciocínio que aceitou, entre tantos menores menos devastados psicologicamente, ajudar o que matou o pai.
Eram quatro horas da tarde de uma terça-feira, quando foi apresentado a ele no refeitório. Menino mirrado parecendo contar dez anos, na verdade tinha dezesseis. Olhar parado e triste, sobrancelhas arqueadas e um sorriso de canto de boca, como que fazendo coro com o ar melancólico e tímido. Nem de longe a aparência fazia jus à fama. Esticou a mão para apertar a dele e teve a sensação de amassar seus ossos caso forçasse. Com a mão presa pelo terapeuta, encarou-o esperando que evitasse o olhar firme, mas como recebeu o sorriso experiente do profissional, desviou-se para mirar a rua. O terapeuta sentiu empatia pelo adolescente e, naquele rosto infantil com rugas precoces no canto da boca, percebeu semelhanças com o próprio filho.
– Minha ficha é longa – falou o rapaz, fazendo referência a passagem pelo crime desde tenra idade. A reação de Canindé foi calcada nos anos de experiência lidando com delinquentes juvenis.
– Ah é? – respondeu sem dar relevância.
Você não tem medo, cara? – Apelou tentando nova forma de se apresentar, firme e ameaçador.
– Meu nome é Canindé e sou psicanalista. Fui designado para atendê-lo – falou sem desviar o olhar.
– Só aceito conversar lá fora – chegou a janela e apontou – Lá. – Canindé se aproximou e avistou no outro lado do pátio da instituição, uma frondosa árvore a espalhar sombra acolhedora. O jovem demonstrava aceitar o atendimento, desde que em ambiente escolhido por ele. Fazia de tudo para desestabilizar o terapeuta.
– Amanhã e toda quarta-feira às dez horas conversaremos embaixo da mangueira – encerrou a conversa, apertou a mão da assistente social, despediu-se do rapaz e saiu apressado pela porta do refeitório.
Antes dele, outros dois especialistas em comportamento iniciaram um tratamento com o rapaz e, rechaçados nas primeiras sessões, desistiram.
Os encontros entre Canindé e Rodrigo aconteciam sempre às dez da manhã, embaixo da mangueira como exigiu. Aos poucos, o rapaz se abria e falava abertamente. Sua fala era pesada, quase gutural. Às vezes trazia chicletes e os mastigava nervosamente de queixo erguido, demonstrando arrogância que mascarava a própria fragilidade. Foram quatro meses de trabalho em conjunto, em um aprendizado muitas vezes orientado pelo próprio analisando. Para ajudar Canindé deveria também aprender.Pelo olhar, gestos, falas e emoções.
O pai do menor era alcoólatra e diariamente chegava a casa esbravejando e, sem motivo, batia duramente na mãe. Após as constantes sessões de tortura, a mulher abraçava a Rodrigo, que era o filho mais velho e chorava copiosamente. Muitas vezes ele percebia o sangue que brotava dos ferimentos e assim, misturando as lágrimas e o sangue da mãe aos seus, alimentava profundo ódio ao pai. No decorrer das sessões, Canindé observou a origem do instinto criminoso do rapaz. O assassino estava sendo forjado ao assistir as surras sofridas pela mãe, seguidas pelos abraços ensanguentados e choros convulsivos.
A uma das sessões escolheu a imagem de quando contava apenas cinco anos. Nela, a lembrança do pai aplicar a maior de todas as surras neles e recordou, em meio à lágrimas e ódio, o agressor sair porta afora e desaparecer por dez anos.
Começou então uma fase de aparente calmaria naquela casa e, dos cinco aos quinze anos de idade, a raiva ao pai, transformou-se em profunda sede de vingar a mãe, só amortecida pela ausência do algoz. Um dia o inferno voltou a rondar e o pai retornou barbudo e maltrapilho. Na primeira noite, comemorando o retorno, bebeu todas e aplicou nova surra nos dois.
Recém introduzido na adolescência, ainda com penugens no rosto, o adolescente colocou as mãos na cabeça e exclamou desanimado “meu Deus, vai começar tudo de novo.”
Após o massacre, abraçou-se a mãe e da mistura dos rostos ensanguentados, ressurgiu o ódio que o cegou. Correu ao quarto e voltou munido do revólver calibre 32 do irmão e o apontou para o pai que ria com a  idiotice dos embriagados. Anestesiado pela cachaça, sem um gemido, o homem tombou varado por cinco tiros desferidos pelo filho, que naquele momento inaugurou a desastrada vida adulta. Mal teve tempo de correr a esquina e foi pego pela polícia e recolhido a instituição de menores infratores.
Contou tudo de supetão após Canindé oferecer a segurança da ajuda.
– Não te preocupe. Ninguém conhecerá o conteúdo do que falarmos. Você está sob sigilo profissional.
– Posso pedir algo? – sussurrou o menor olhando para os lados.
– Claro, porque não? – o analista se dispunha a atender o que ajudasse o tratamento.
– Quero visitar o túmulo de meu pai – Canindé num primeiro momento ficou desconcertado, mas logo entendeu o que se passava. O analisando precisava enterrar o passado e seus fantasmas. Mas era preciso cuidado.
– Faça o seguinte, pense nisto uns dois dias e falaremos novamente – Sair dali com aquele menor poderia ser uma operação de alto risco, pois o rapaz estava jurado de morte pelos irmãos. Além do mais, nada garantia que uma vez na rua, não empreendesse movimento de fuga.
O terapeuta queria tempo para pensar.
            Naquele mesmo dia procurou o diretor da instituição e obteve a primeira negativa. Começou uma peregrinação pelo sistema prisional e, após muitas alegações, conseguiu um mandado judicial assinado pelo juiz da Infância e Adolescência, dando direito e responsabilidade a conduzir o infrator. Em conjunto com a direção do Centro, marcou a data de saída.
            No dia combinado, ao chegarem ao cemitério, rumaram diretamente a tumba, localizada no dia anterior por Canindé que, previdente, queria evitar perambular pelas alamedas arriscando o reconhecimento do menor infrator por qualquer pessoa.
            Rodrigo continuava fazendo desenhos no barro e, pressentindo a chegada do terapeuta, pos-se de pé. Emocionado, ombros e braços caídos, o rapaz estava desolado.            
Canindé o abraçou ternamente e percebeu a fragilidade física e emocional. Rodrigo, então arrogante e imaturo, desmanchou a carapuça e chorou sacudindo os ombros em longo desabafo. Naquele momento, Canindé percebeu que o luto se completou. Após atirar no pai, Rodrigo foi preso e impedido de participar das cerimônias fúnebres. Permaneceu apenas o vazio e era preciso resgatar. A falta de acompanhar o velório e os demais procedimentos formaram um imenso vazio que agora se preenchia.
– Canindé, – perguntou o menor virando o rosto – queria fazer outra pergunta muito importante, agora do lado profissional – e assumiu um ar sério, maduro.
–Claro, Campeão – havia intimidade entre o psicanalista e o jovem.
– Meu pai matou meu avô, será que isto acontecerá comigo?
– Como assim? Não entendi. – Canindé se fez de desentendido.
– Meu pai matou meu avô e eu matei meu pai. Será que meu filho me matará?
Rodrigo hoje cumpre pena sob regime semi-aberto, frequenta o sétimo semestre de Direito e estagia no Ministério Público.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O BLOG

(arquivo pessoal)

A ideia de montar o blog ocorreu há quatro anos. Conversava com Fabio, meu filho, quando ao final da conversa me presenteou com um livro sobre o assunto. Logo o devorei e fui seduzido pela idéia. Naquele singelo presente de filho, acompanhado de delicioso prato de tilápia com alcaparras no Carpe-Dien do Casa Park, estava sacramentado. Junto do livro, elencou algumas dezenas de endereços da internet para visitar. Visitei todos. Sem exceção, eram da ala progressista, coisa de jovem pleno de ideais.
Mas ainda não seria desta vez que o projeto vingaria. Em 2009, durante um curso de Jornalismo Literário em Goiânia, o professor Edvaldo Pereira Filho, o Ed, novamente reforçou a idéia. Toda vez que apresentava os textos no curso, recebia o incentivo daquele jornalista experimentado, forjado dentro das redações de jornais, revistas e professor da USP. A criação do blog era questão de tempo. Sempre fui muito crítico e experimentava a sensação de ser verde na arte literária. O contato com o Ed reforçou minha auto-estima jornalística.
Apesar da data inaugural ser maio de 2009, postei o primeiro texto em agosto deste ano. Após isto, passei longo tempo com escassas publicações, talvez esquentando os motores. O incremento aconteceu a partir de 2010, mais precisamente setembro, com o  texto Recanto do Coração publicado em 22/09/2010, onde descrevi minhas impressões sobre o bairro Tristeza em porto Alegre, onde passei a infância e adolescência. Este texto mereceu publicação no caderno Zona Sul da Zero Hora de Porto Alegre e o considero a primeira obra do blog. A partir daí, não parei mais. Hoje em dia, quando passo duas semanas sem postar, sinto que estou em falta, pois sei que os leitores querem sempre ler algo novo e, de preferência, todos os dias. Ocorre que tenho compromissos e muita preocupação com o esmero e o gosto de postar sempre textos revisados e enxutos o que dá um trabalho danado. Além disso quero publicar assuntos satisfatórios ao leitor e que acrescente novidade.
Até este mês foram publicadas 72 narrativas, mais 11 em espanhol, minha segunda língua. Pretensioso, exibi algumas telas que fiz em óleo sobre tela e apresentei fotos de viagem, como as de Portugal, as de viagens a fronteira gaúcha, as visitas a pequenas cidades brasileiras como Nova Veneza, Pirinópolis, Caldas Novas e Goiás Velho no estado de Goiás e Barão do Triunfo no estado do Rio Grande do Sul.
Recebo atualmente um total  de 11.500 leitores o que é enorme responsabilidade. São cerca de 500 leitores todo mês que me visitam, e isto pesa na qualidade do que me proponho apresentar. Considero que publicar os textos é algo sério e só o faço quando está tão próximo do ótimo quanto possível, mas mesmo assim conto com comentários de alguns leitores, o que acho muito bom.
Pode o leitor ter certeza que nas minhas narrativas, grande parte é composta de realidade, mas como a ficção dá o gostinho saboroso nas histórias, também existe. Na verdade até nos documentários cabe ficção. Escrever para o blog é por demais prazeroso e muitos textos provocaram comentários interessantes e cada vez que os recebo, melhoro mais um pouco. O escritor e o leitor se harmonizam num processo de criação e perfeição constantes.