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sexta-feira, 5 de julho de 2013

O REVOLUCIONÁRIO

(Manifestação Brasília - Google Imagens)
Carlos bem que tenta chegar a Rodoviária na hora combinada, mas atrasa uma hora. Procura por Deise no segundo banco de pedra, a esquerda da pastelaria, vazio. Olha em volta. Cansada de esperar, a moça acompanhou a multidão rumo ao Congresso. Deixar celular em casa foi péssima ideia. Estavam incomunicáveis. A manifestação engrossa e os ônibus despejam jovens falantes e energizados. Logo hoje que convidaria a moça para jantar, se perdem.
O homem compra uma lata de cerveja, dois pastéis e desce a Esplanada dos Ministérios, acompanhando a corrente barulhenta.
Nos anos sessenta, participou de passeatas pelo fim da Ditadura Militar e revigora com a oportunidade de repetir a dose. Na mochila, latinha de refrigerante, bolo de fubá preparado por Rose, e garrafa de vinagre substituíam o kit anti-ditadura de coquetel molotov, bolinhas de gude, cantil de água e foto de Che Guevara, orgulho da juventude. Mas o importante seria a companhia de Deise, se a encontrasse.
Conhecera a moça na primeira manifestação há dez dias. Estudante, morena, vinte e cinco anos, remeteu Paulo a juventude, ao lhe cair nos braços chorando, com dificuldades respiratórias, invadida por gás lacrimogênio. Derramou vinagre na manga da camisa e a fez aspirar. Depois disso, permaneceram juntos gritando palavras de ordem. Foi o bastante. A partir daí, encontravam-se todos os dias para as manifestações. Rose estranhou o arroubo repentino do marido aposentado pela queda da passagem do Metrô.
- O preço do Metrô está pela hora da morte, explicava o sessentão.
¬¬¬ - Mas você só usa carro - gritava a mulher ao homem que saía apressado.
Sem Deise, descia a avenida lado a lado com o grupo de estudantes, imerso no orgulho da posição revolucionária. Ao passar a catedral recorda o tempo de estudante secundarista e a imagem do cartaz “Abaixo a Ditadura”, lado a lado com Rose, hoje mãe de seus seis filhos.
Sente cansaço e percebe os encapuzados apertando o passo. Tenta correr, mas fica pelo caminho, arfando. À frente, a coluna de policiais espera, quieta, cassetetes em mãos. Alguém lhe entrega um saco com bolas de gude. Pesado, deixa cair. Onde estaria Deise?
Ao chegar ao espelho d’água do Congresso, encontra a multidão nervosa. “O povo unido, jamais será vencido”, grita, a voz se perde. A nuvem de gás pimenta obriga a fechar os olhos, tateia a mochila atrás de vinagre. O policial arranca o frasco das mãos.
Em meio a forte neblina, Paulo percebe o casal sair da água. Era Deise de mãos dadas com um jovem. Molhados e sorridentes o casal se olha com ternura. Os olhos do revolucionário lacrimejam e culpa o gás. A manifestação chega ao auge. Para ele, é o fim. É hora de retornar e, com dificuldade, esforça para locomover de volta a Rodoviária. A multidão agita. A correria começa com policiais agredindo. A energia de Paulo esgota e se vê cercado. De um lado, jovens com cartazes e gritos. De outro, policiais. O barulho distancia. Lembra os netos e a mulher que assiste novela em casa. A mochila nas costas de tão pesada, está impossível de carregar. Desaba no gramado.
- Tá tudo bem, vovô? – Pergunta a jovem de rosto colado ao seu.
Seria Deise?
- Este é o velhinho que te falei, foi ativista nas passeatas da Ditadura. Pensei que havia desistido – fala a moça ao rapaz.
Afastam a moça. Sirene, luz vermelha piscando. Escurece. Acorda. É levado por vultos de branco. Ruído de rodas e correria de luzes por sua cabeça. Atravessa um corredor branco. Quer falar, mas o tubo na boca impede.

sábado, 15 de junho de 2013

A VELHA AMIZADE

Renato e THOR (arquivo pessoal)
“Meu grande problema é que nasci na família errada”. Sem explicações, parece dito por quem faltou oportunidade na vida. Alguém carente de apoio financeiro, que permitisse estudar com qualidade.  Um desafortunado, com poucas chances de desenvolvimento. Ledo engano, a frase proferida deve-se a quem no passado foi filho de banqueiro, nascido em berço de ouro como se diz no jargão da vida endinheirada. Contarei.
Ao buzinar em frente ao estacionamento, THOR, o cão rotweiller se aproximou do portão com cadeado e olhou furtivo, quieto, esperando. Estava de prontidão de olho no invasor. “Já vou”. Gritou a voz dentro do barraco de alvenaria. O cão, com ares de nobre, sentou a espera, calmo, mas vigilante.
Logo após, aparece a figura magra, esguia, roupa surrada. Reconheceu o recém-chegado imediatamente, apesar do tempo que estavam afastados. Não se viam há mais de 40 anos. Atualmente com 58 anos, os dois se olharam e riram como a medir os estragos que o tempo fizera a cada um.
                   “Tá velhão hein meu?”  disse Renato, o morador. “Todos estamos”. Respondeu o visitante. O anfitrião  gritou para Thor entrar no canil. “Espera que vou prender este vira lata filho da puta”. Chamou o cachorro e retirou-se para o fundo do estacionamento.
O recém-chegado constatou que o tempo fora cruel com o velho amigo. Não poderia imaginar encontrá-lo em Campinas naquele estado, morando em casebre pequeníssimo. Conheceram-se quando ambos contavam seis anos de idade e descaminhos da vida os fez vizinhos em Porto Alegre. O homem que prendia o cão, fora  filho de família abastada, menos pelo pai que procedia de família de portugueses remediados, mas pela mãe de procedência alemã, dona de fortuna considerável amealhada com grandes comércios e próspero banco familiar.  A rua praticamente pertencia a família e os membros moravam em palacetes e desfilavam em carros importados. Enquanto fechava o carro para descer, pensava na enorme diferença social entre eles. Naquela época, residia em casa alugada e de madeira. Mas nada disto os distanciara e a amizade iniciou desde as primeiras brincadeiras. Separaram-se quando adolescentes e os objetivos de vida tornaram-se antagônicos.
Após prender Thor, o portão foi aberto e Renato convidou a entrar. Carlos,  viajara cerca de mil quilômetros para visita-lo. Foi difícil encontrar. “Pensei que estava escondido”. Quem passara as pistas fora o filho, batizado com o mesmo do amigo, Carlos. “Teu filho passou  o fone, após me localizar no Orkut”. Renato exibia rugas profundas e sorriso triste marcava o rosto. O semblante era o mesmo, costas eretas, andar balançado pelas longas pernas magras, alternando passadas largas.
“Estava preocupado com vocês”, disse dirigindo-se ao amigo que chegara com a namorada. “Demoraram demais”. Comentou que ao combinarem o encontro pelo fone, ouvira de Carlos que chegaria antes do almoço. Eram três da tarde e isto o incomodara. “Espera no escritório que vou arrumar. Mas não entrem no quarto” demonstrava o receio de ter a intimidade miserável invadida. O escritório era pequeno, com mesa, computador e arquivo de aço com três gavetas. A cadeira atrás da mesa, o único móvel para sentar. Na tela do PC, um jogo pela metade. As paredes sujas passavam impressão de abandono. Aos fundos, a churrasqueira modesta. “Alugo por 50 reais o dia”. Ao lado, o banheiro.
O amigo-visitante senta no escritório e continua o jogo de paciência exibido na tela. A namorada passeia pelo quintal, pois verifica que no escritório não há lugar para dois. Meia hora depois o anfitrião surge na porta. Parece mais velho. O cabelo grisalho encardido,  preso num rabo de cavalo, a camisa xadrez e a calça surrada o apresentam para o almoço. “Preferem uma churrascaria?”.  Estende a toalha bege que um dia foi branca num varal de fio elétrico. Carlos diz que anda afastado da carne vermelha. Prefere peixe e salada. O dono da casa entende o recado. Entram no carro. Muito havia para dizer, mas o silêncio repentinamente se fez entre os três.
Chegam ao restaurante em bairro elegante.
“Estou sem fundos no banco para bancar o almoço”, brincou. “Além do mais serei despejado. Não tenho onde morar a partir do mês que vem”, comenta Renato misturando bom humor com preocupação. “Não se preocupe, a conta é minha”.
“Meu grande problema é que nasci na família errada”. Os três riram.
Apesar da alegria aparente, o caminho de retorno até a casa de Renato aconteceu em profundo silêncio. No hotel, a moça perguntou a Carlos: “Como teu amigo chegou a esta situação”?


domingo, 2 de junho de 2013

ARAXÁ - Local onde primeiro se avista o sol

(Museu de D. Beja e da cidade - arq. pessoal)
Dona Beja tem histórias de luta, projeção social e conquistas em Araxá, recheadas de amor, sensualidade e ternura. Mulher analfabeta escandalizou a sociedade tornando-se mãe-solteira duas vezes. A primeira em Paracatu, onde morou ao ser sequestrada pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Mota com apenas 14 anos de idade e a segunda com um padre de Araxá, que reconheceu a filha, forçado por Beja. Ainda de Paracatu, a mulher de personalidade forte, foi responsável pela reconquista a Minas Gerais do território do Triângulo Mineiro, anexado que estava ao estado de Goiás. Prova de prestígio da bela mulher, o museu montado em sua casa no centro da cidade, abriga também o Museu do Araxá.

Além de Beja, Filomena por razões bem diferentes também deixou a marca na história araxaense. Pobre e
(Santuário de Filomena - arq. pessoal)
escrava de capitães de engenho, a mulher teve a infelicidade de adquirir varíola. Sabedores da condição mortal e contagiosa da doença, os patrões convenceram a todos que para livrar do mal era necessário enterrar a doente até o pescoço. Assim permaneceu até morrer, desprovida de comida e água, face ao temor de contágio. Sepultada fora da cidade, passou a atrair peregrinação de fiéis que lhe creditavam curas miraculosas. Para proteger o jazigo, construíram singela igreja transformada em local de orações e reverências. Responsáveis pela preservação do santuário garantiram que quem “troça” da escrava, sofre punições. “Certa vez, um homem saiu gargalhando do templo e caiu da bicicleta e outro após fazer piada, entrou no carro e bateu em uma árvore”. Na construção ao lado, há exposição de fotos e relatos manuscritos das graças alcançadas. “Filomena tem processo de canonização no Vaticano” garantiu o zelador.


(Árvore dos Enforcados - arq. pessoal)
A procura pela Árvore dos Enforcados foi intensa. Somente no segundo dia, após visita ao Cristo, réplica miniaturizada do grande Redentor do Rio de Janeiro, um senhor que passava indicou a galhada.  Em um elevado, majestosa e seca, a árvore se projeta silenciosa, parecendo esconder o passado misto de glórias e infortúnios. Palco do enforcamento de dois escravos acusados de matar o patrão virou atração pelo choro do tronco. Moradores garantiram que os galhos frondosos, faziam barulhos assustadores nos dias de vento. Hoje com dias contados, jaz o gigante morto que logo adubará o subsolo, seu destino final. Nem o botânico expert em revitalização de árvores, foi capaz de reviver a árvore. O ciclo de vida se cumpre após duzentos anos.

O Grande Hotel é imponente e passeio obrigatório. Oferece banhos com água e lama sulfurosas e
(Grande Hotel - arq. pessoal)
massagens aos dispostos a desembolsar boas quantias. Inaugurado em 1944 por Getúlio Vargas, teve o paisagismo composto por fontes, lagos e jardins executados por Burle Marx. O projeto arquitetônico segue edificações espanholas, lembrando obras de países como Colômbia e Venezuela. Mas a maior das obras a Natureza se encarregou de executar exposta na trilha da fonte Dona Beja. Uma árvore no topo do muro, cujas raízes para reforçar a base, descem externas ao paredão. Belo exemplo de simbiose, entrelaçadas em proteção mútua.


(Atente para as raízes - arq. pessoal)
O centro de Araxá deve ser observado em detalhes. Na parte superior da praça central, da majestosa igreja Matriz se avista o Cristo no alto do morro, “braços abertos sobre a cidade”. Ao descer a avenida, faixas de pedestres, elevadas cerca de vinte centímetros do nível da rua, ordena o trânsito e obriga veículos a trafegarem vagarosamente. Ao final da rua central, no amplo canteiro, o teatro e a fonte luminosa. Cynthia, diretora do Teatro Municipal, garantiu que há vários projetos culturais inter-secretarias em execução. A  disposição do turista, além do roteiro tradicional, filmes no telão e representações teatrais gratuitas. Basta consultar a programação mensal.
A cidade demonstra preocupação com turistas e moradores. Gera conforto e preserva a memória.

(Abraço a Araxá - arq. pessoal)
(Centro - arq. pessoal)


segunda-feira, 20 de maio de 2013

JOSÉ, O CONSUMIDOR

(Google Imagens)

José entrega documentos o dia inteiro no Setor Comercial Sul de Brasília. Mora no condomínio Sol Nascente para quem não conhece, “pra lá da Ceilândia”. Chega ao Plano Piloto de carona no ônibus do “seu” Miguel, porque pode pular a roleta e economizar passagem. Toma o café da manhã no escritório de contabilidade onde trabalha como contínuo. O almoço compra do vendedor de marmita do bloco comercial, com vale-refeição por R$ 2,50. Feijão, arroz, batata frita e carne assada.
Sai do escritório as sete da noite, após cumprir jornada de oito horas, com quinze minutos para almoço. Influenciado  por amigos, consome drogas e há um mês, no consumo do crack. Parte do ganho com gorjetas das entregas fuma da pedra comprada no próprio Setor e o restante, ao descer do ônibus a noite, na guarita do condomínio.
Em frente ao conjunto de escritórios um Shopping recebe consumidores que trocam salários por roupas caras, satisfazendo filhos exigentes com grifes fabricadas em países asiáticos. José tem muito em comum com a mão de obra barata. O parco ganho que expulsa das compras e empurra à marginalidade.
O pagamento fixo do final do mês, respeita, passa a mulher com quem vive e tem dois filhos e na qual descarrega a ira desenfreada pelo abuso da pedra que o consome. Socorro compra leite, alimentação dos filhos e sacrifica por vezes a si própria. Nos finais de semana, assistem televisão na “casa da frente” saboreando pipoca com refrigerante, patrocinados pelo sogro. O sofrimento da mulher é traduzido por sangramento ginecológico que o médico do posto de saúde desconhece a causa.
Enquanto escrevia, soube que José fora expulso de casa por Socorro cansada dos maus tratos. Ainda tentei apaziguar os ânimos da moça sugerindo, em nome do amor, que esquecesse tudo e perdoasse José, ao que ensinou-me que no amor mais importante era perdoar do que esquecer e cansara de perdoar.
A partir deste dia, as sete da noite, o rapaz de vinte e dois anos pode ser visto entre dois blocos de escritórios no setor Comercial, misturado a dezenas de outros, a ratos e dejetos. Ali, onde o olhar do pedestre se perde, José e amigos se drogam num vai e vem nervoso e arrastado. O acesso é o mesmo usado pelos compradores do shopping e é onde se misturam consumidores para gastar seus salários, uns em quinquilharias de marcas famosas, outros para consumir o crack.
Em diferentes situações correm para amenizar fissuras. Uns nas vitrines e compras, José e amigos no crack.  Todos obcecados por seus produtos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

LEMBRANÇAS ENGANAM

(Google Imagens)

Carrego alguns fantasmas até certo ponto inofensivos, pois convivo bem com os entraves que causam. Exemplifico com a cena da avó sacrificando galinhas para o almoço. Éramos cerca de dez crianças entre primos e amigos que gostavam de assistir as atividades do dia a dia dos adultos. Uma delas acontecia no quintal de casa, onde vovó tinha um galinheiro com a finalidade de criação e abate para consumo. A morte das galinhas é trauma enfrentado pelas crianças da família que recordam com certo sofrimento,
Apesar de parecer brutal, era algo esperado e se arrastava há gerações. A vó fazia o que aprendera com os pais, meus bisavós. Após a morte de meu avô, assumiu para si o sacrifício e assisti muitas vezes derramar lágrimas escondida no galpão dos fundos.  Meu pai certa vez até tentou substituí-la, mas foi só fiasco. Não suportava agarrar a penosa pelo pescoço e dar seis voltas no ar, sentido horário para desnucar. Certo dia, a penosa se soltou de sua mão e saiu a cacarejar pelo quintal, num morre - vive sem fim. O último suspiro aconteceu com vovó e o facão de mato que usou para decepar a cabeça que voou separando-a do corpo.
Assistíamos ao ritual até o dia que alguém classificou o show de macabro e desnecessário. Fomos proibidos de assistir a matança. Quando chegava a hora, éramos conduzidos ao quarto dos fundos do quintal, de onde ouvíamos apenas os gritos esganiçados da penosa da vez.
Certo dia entrou a arte do tio Arnoldo. Armou a cena nos separando no quartinho dizendo que haveria matança, pegou as galinhas, amarrou-as pelas patas e as jogou pelo chão de barro. A gritaria foi grande e os ouvidos acostumados a ligar o som a matança, nos enganaram e a adrenalina cresceu sem motivo. Quando recordo aqueles  momentos, tenho viva a cena das galinhas pulando no quintal, debatendo-se sem cabeças, apesar do fato desmentido incansavelmente.
Assim funcionam as lembranças. Vez por outra nos traem. O que ouvimos nem sempre correspondem a imagens verdadeiras. E isto acontece também entre pessoas. Cada um monta o outro da forma que mais agrada raras vezes como é realmente. O pai e o namorado com relação ao amor pela moça é exemplo. O pai resgata a filha que viu nascer, criou e vê com a pureza da infância e o frescor da adolescência, plena de virtudes. O namorado vê a moça como a princesa afável e pudica que cuidará da casa e da prole, com desenvoltura. Poço de meiguice, projetando a imagem da própria mãe.
Assim iniciam a vida comum e as primeiras rusgas e o rapaz conclui que o queridíssimo amor não corresponde a idealizada. A moça, da mesma forma, se depara com o príncipe real, bem diferente da imaginação e do pai protetor.
Estes conflitos são usualmente os primeiros que surgem na vida do casal, pois a idealização nunca será aquilo que um espera do outro.
Melhor mesmo é esquecer este passado, aceitar o parceiro como é, sem expectativas. Pleno de defeitos e virtudes, ciente que todos somos de carne e osso. Mais tarde, se decidir matar galinhas no quintal, que tenham o bom senso de levar as crianças a um lugar seguro para deixá-las livre de gritos esganiçados.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

AMIZADE TEM LIMITES

(Google Imagens)

- Eram três da tarde quando cheguei ao apartamento de Zoraia.- conta Roberto enquanto senta na poltrona em frente ao amigo..
- Como a conheceu? – Pergunta Marinho. 
- Você não prestou atenção, mas tudo bem repito. Ainda casado e morando em São Paulo, diariamente Zoraia e eu corríamos no Ibirapuera pela manhã. Pura amizade. Um dia foi transferida para o Rio e montou apartamento no Leblon. Recebi o endereço por um torpedo e o convite para quando fosse ao Rio, visita-la. A chance apareceu quando separei da Maria. Precisava espairecer e aceitei a oferta. Agora entendeu? – perguntou Roberto.
- Claro, prossiga.
Se conheciam há mais de vinte anos e nada acontecia com um que o outro ignorasse.
- Pois bem, Zoraia abriu a porta vestida apenas com camisola vermelha e convidou a entrar. O apartamento era de quarto e sala, decorado com imitação de cabine de navio com janelas tipo escotilha de gesso branco.  A um canto, um timão de barco e luminária dourada completavam a decoração. Parecia incomodada ao me perceber medindo o apartamento e  ressaltou que avisara sobre o tamanho. Tive de dormir no sofá na sala. 
- Pensei que dormiriam na mesma cama, afinal, divorciados, nada os impediria. – Marinho sabia que o amigo não desperdiçaria a chance, principalmente se tratando de Zoraia, morena linda e disponível no mesmo teto.
- Já te falei que nunca tivemos nada, apenas aceitei o convite para hospedar. Precisava espairecer durante o período crítico da separação. Fazer o luto da convivência com Maria. Enquanto Zoraia trabalhava, eu caminhava na praia. 
- Ora, eu mereço, conta outra. Durante o dia, Zoraia trabalhava e você curtia praia. Ela chegava, deitava e dormia. Faça-me o favor – Marinho abriu uma ceveja e dividiu em dois copos.
Roberto prosseguiu.
- No sábado ao acordar, observei um pacote de baseados na mesa. Algo mais seria servido no apartamento naquele dia, além da cerveja na geladeira.  Arrumei minhas coisas e saí sem despedir. No caminho, encontrei um policial com cão farejador que me cheirou dos pés a cabeça e só me liberaram após o bicho interessar pelo cheiro do apartamento de Zoraia. De mansinho, ganhei a rua. Tomei o metrô e cá estou. Amanhã quero praia e até lá, abrigar na tua casa. 
Marinho percebeu a intensão do amigo de terminar as férias em sua casa e o encaminhou para o quarto vago. Ao passar pela cozinha, percebeu o olho comprido do amigo para a irmã e avisou:
- Se der em cima de Alice, te boto porta afora.