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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

FÉRIAS

(Porto Alegre-Arquivo pessoal)

 Estive de férias. Estava desaparecido do convívio por 15 dias a partir do ano novo. Não necessito avisar chefe, pedir licença, ser substituído. Estou em fase de vida que decido, junto com o bolso, onde tirar férias. Algumas vezes fico quieto e assim, curto a casa. Aí, alivio as tarefas, não compareço a reuniões, falto a compromissos. Em férias se fica de papo pro ar.
Fui ao Rio Grande do Sul e lá, curti a praia de Cidreira, que apresentava, como sempre, água turva e ondas bravas como, aliás, todo o mar do estado gaúcho. Na entrada da maturidade, ao decidir veranear, excursionava com amigos em Santa Catarina, onde o mar, na maioria das praias, é azul e manso. Eram estradas livres, com pista simples, onde tínhamos cuidado com curvas traiçoeiras que não impediam as viagens, eventos divertidíssimos desde a saída até a volta apesar de exaustos.
(Brasília-Arquivo pessoal)
Porto Alegre em janeiro e fevereiro é tudo de bom. A cidade fica com trânsito leve e a balbúrdia ao longo do ano é amortecida consideravelmente pela evasão dos carros rumo às praias. De acordo com estatísticas, dos cerca de 10 milhões de gaúchos no estado, quatro milhões se deslocam ao litoral. Imaginem as cidades que de hora para outra, triplicam suas populações. Porto Alegre pelo contrário, há fartura. Vagas em estacionamento, lugares nos restaurantes, pistas livres, enfim a cidade fica entregue aos turistas que, como eu, curtem as facilidades da capital.
Pude curtir por do sol e comparei ao de Brasília. Os candangos, assim como os porto alegrenses, possuem lindo espetáculo. A diferença é que na capital gaúcha há mais locais para assistir. Pode-se escolher a vontade, desde a Usina do Gasômetro até o Barrashoping, a orla da Vila Assunção, Ipanema e por aí vai. A beira do rio é livre e se passeia sem transtornos. O caminho da orla proporciona passeio tranquilo com vista do astro rei se pondo magnífico do centro a Zona Sul.
(Brasilia-Google Imagens)
Na capital candanga, o por do sol na maioria dos locais está restrito a residências que invadiram a beleza natural na orla do lago Paranoá. Há mansões de três andares que eliminam a chance da boa vista ou foto. Identifiquei poucos pontos de acesso a beira do lago. A ponte JK, O Píer 21, O Pontão e a Ermida Dom Bosco são alguns, nos Clubes o evento é cativo dos associados. Mas porque preocupar com o sol, se há casarões dignos de fotos? Dirão alguns. Particularmente julgo a natureza bem mais importante e fotogênica do que qualquer edificação.
Para ilustrar o que digo, coloquei algumas fotos. Até as ciclovias que iriam margear o lago Paranoá, não saíram do papel, há cercas e muros que entram lago a dentro e impedem o livre trânsito na orla.
Porto Alegre conseguiu se adiantar a esta exploração imobiliária e proporciona a liberdade do passeio de carro, banhado pelos raios amarelados do anoitecer. Felicito os gaúchos que sorvem chimarrão a beira do Guaíba ao entardecer.  Enquanto isto torço pelos brasilienses. Torço por um político corajoso que liberte o por do sol, reeditando o projeto das ciclovias na beira do lago Paranoá, com bancos para a população.
O sol e o romantismo agradecem.
(Porto Alegre-Arquivo pessoal)
Feliz 2013 a todos.

sábado, 29 de dezembro de 2012

VIAGEM PARA O DESCONHECIDO


(Google Imagens)
A cada início de ano fico saudoso. Vou contar como tudo começou. O Ano Novo coincide com minha chegada a Brasília, pois aportei pelas terras da capital em janeiro de mil novecentos e setenta e quatro. Passei o Natal em Porto Alegre e no dia seguinte, 26 de dezembro, com mais dois colegas recém formados, dividimos as despesas e viemos num novíssimo Corcel ano 72, amarelo. É verdade que havíamos ganho passagens de avião, mas preferimos o nosso meio de transporte. Hoje, analisando o porquê disto, penso que foi pelo tempo de viagem. Por ser mais demorado, o carro proporcionava melhor conscientização da distância que representava a mudança de vida. Tanto é certo, que deveríamos apresentar no emprego em dois de janeiro, “sem atrasos”, conforme avisou o empregador e, após perdermos tempo tentando sair de São Paulo devido a desvio de rota, chegamos somente dia 3.
Nada era como hoje. Brasília não tinha semáforos e as diversões se restringiam aos churrascos em finais de semana na chácara de alguém ou ao pé das cachoeiras, silvestres e seguras.
Em finais de semana as ruas eram vazias de carros e gente. Poucos bares e restaurantes divertiam os que viviam por aqui. Nas quadras, os moradores faziam festas privadas e aqueles com filhos menores, programavam reuniões para aumentar os círculos de amizade.
Os cinemas eram poucos e as boates raras, das quais lembro do Xadrezinho em frente ao clube Cota Mil e do Tendinha, perto do Hotel Nacional. Namoro mesmo, para valer, era na fonte luminosa, onde tudo começava e terminava durante as sessões de cine-driven, dentro do Autódromo.
O Lago Norte era puro matagal. Certa vez, levado debaixo de chuva por corretor até  terreno para comprar, tivemos que seguir bom pedaço a pé. Na volta, embarrado até o pescoço e cansado nem quis falar sobre o assunto e, com dinheiro suficiente para comprar o terreno, decidi pela aquisição de um fusca na Concessionária Valença do posto da Torre. Nem com o corretor pagando refeições no restaurante di Roma do Setor Comercial Sul, fui dobrado para adquirir o imóvel. Hoje um terreno naquela localização, daria para comprar três Mercedes. Sem queixas, porque a vida destrata os arrependidos.
Prefiro a capital de hoje, com cara cosmopolita. Cheia de gente, engarrafamento e plena de atividades, pois o tempo que sobrava naquela época geralmente era mal consumido.
Brasília é jovem senhora, plena de sedução, ainda infantil e doce nos seus 50 anos. Aqui faço minha vida, moro, trabalho e divirto. Acostumei com as mudanças no corpo desta moça. Das retas e curvas que, por mais que os governantes mudem o traçado, nunca perderá o esplendor e graça. As autoridades perdem o poder no vai e vem político e a cidade permanece altiva e serena, guardando no  seio a nova geração nascida no solo ardente, que cuidará da mãe gentil com zelo. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

PREVISÕES LUCRATIVAS

(Google Imagens)

Na aproximação do ano 2 000, o planeta foi bombardeado por dúvidas sobre a virada do milênio. Empresas, principalmente fabricantes de computadores, lançaram profecias de que a informática embarcada em toda as áreas de atividades, entraria em colapso e equipamentos, despreparados para esta “virada do milênio”, gerariam problemas impossíveis de prever. Ainda segundo os alarmistas, o homem passaria riscos reais com aparelhos dependentes de datas eletrônicas. Grandes empresas, governo incluído, entrariam em colapso. Passar de 1999 a 2000 seria tão sério que se transformaria no maior pesadelo do novo milênio com caos total em arquivos financeiros, cadastros de pessoal ou até, no caso de usina nuclear, vazamento da radioatividade. Obstinados, aconselhavam adiamentos de cirurgias a meia noite de 1999. Instalado o medo coletivo, foi criado o termo BUG DO MILÊNIO para a catástrofe e a Administração Pública aconselhou os órgãos a criarem comissões e evitassem alarmar a população.
Na época trabalhava na área de informática pública onde, como em tantos outros órgãos, a maré do BUG dominou as atenções. Consultores de “renomado” saber aconselharam a contratação de empresa especializada para ficar livre dos problemas. Elas sim, teriam a tecnologia necessária para minimizar o que pudesse ocorrer. E assim, ao final do relatório, indicaram uma “empresa idônea”, logo chamada para se manifestar. Não prometia zerar a possibilidade de catástrofe, porque o problema era muito sério mas, conforme pregavam “minimizariam” no que fosse possível. Aos poucos, mesmo após  problemas ocorridos, continuariam a prestar serviços, mediante  desembolso mensal, por tempo indeterminado, até que tudo fosse resolvido. Criou-se  comissão para estudar riscos e soluções do problema. O medo da catástrofe ou coisa mais forte pesava a favor da contratação. Mas havia voz contrária: a minha.
Meu raciocínio era simples como o velho exemplo do ovo de Colombo. Como empresas de tecnologia avançada, como os fabricantes de computadores, ou alta tecnologia não preveriam a mudança? Que empresas eram estas que, fabricando computadores na década de 90, negligenciariam a mudança do milênio? Meu veredicto era único e ia na contra mão dos “desesperados” : NADA IRÁ ACONTECER. E espalhava pelos corredores que tudo correria sem traumas. Basta soltar fogos a meia-noite de 31 de dezembro de 1999 e pronto, comemorar o ano novo, sem susto. Como era o único contrário a muitos interesses, fui ficando de lado.
E aí aconteceu o inesperado. O presidente do órgão público ouviu falar da teoria e me chamou para conversa reservada. Quando terminei de falar, perguntou se tinha certeza, já que haviam órgãos públicos que teriam investido milhões em empresas “salvadoras” do colapso. Respondi que tinha certeza. Pediu-me que fizesse um relatório, o qual entreguei no dia seguinte. Ainda temeroso, pediu nova confirmação e afirmei que poderia dormir tranquilo. No mesmo dia cancelou a contratação dos “salvadores”, o que gerou grande barulho, que não o intimidou. A pressão que deve ter enfrentado, imagino qual tenha sido, mas continuou firme.
O dia chegou, o milênio virou, participei do plantão do “Bug” e tudo correu conforme previra.

A partir do dia seguinte, iniciou-se abafa nacional, pois muito se gastou com o evento e o assunto deveria ser esquecido o mais rápido possível. Quem trabalhava com tecnologia sabe o quanto se gastou. Muitos técnicos preferiram se omitir, vencidos pela forte voz da pregação dos senhores do caos.
Agora vem notícias do fim do mundo dia 21 de dezembro. Não sou profeta, nem tenho conhecimento para manifestar opinião. No máximo, arrisco repetir a  teoria da vó Joana que, quando alguém perguntava sobre o assunto, respondia com a simplicidade de imigrante pobre e italiana,: “ DEIXEM DE BOBAGEM, O MUNDO SÓ ACABA PARA QUEM MORRE”.

domingo, 9 de dezembro de 2012

NATAL DE VERDADE

(Google Imagens)

Viver requer sensibilidade e só vale a pena para os que retiram ensinamentos diários. Muitas vezes, a sensação é do ontem ser igual a hoje, mas não se enganem, nada é igual. Estar atento a mudanças, ao novo broto da roseira ou ao pássaro que protege a árvore porque ali construiu o ninho e depositou o filho, é sensibilidade e pode ser desenvolvida. Há poucos dias, abracei a responsabilidade por um pássaro que caiu do ninho e levei muita bicada ao devolver o filhote fujão. Os pais arriscavam-se, brigavam e xingavam defendendo o rebento.
Além dos olhos, os demais sentidos devem estar atentos. A audição, o olfato, o tato e o gosto completam os mecanismos de percepção do mundo. Cem por cento eficazes ajudam no entendimento dos sinais. O resto é sentir.
Uma percepção aguçada e aberta a ensinamentos dispensa alerta de outras pessoas. A natureza encontra meios sutis de ensinar a quem quer aprender. 
Procuro mostrar isto aos filhos. Penso até que consegui, pois os cinco seguem as lutas diárias e recorrem a mim somente para reforçar aprendizado. Evitam recorrer ao pai quando o problema é financeiro, pois entendem que isto é individual, relacionado ao volume de necessidades particulares. Assim, acredito, se fortalecem para lá na frente, tenho certeza, serem seres humanos  melhorados e compreensivos.
O Natal está aí e com ele, a desmedida deturpação dos valores, pela  carga publicitária que bombardeia a vontade de presentear e demonstrar amor por presentes. E quanto mais caro mais amor representa. Nos shoppings, acontece a correria do "compre agora para não ficar apertado na véspera".
Bons objetos para demonstrar o quilate de amor é o que mais tem. Para crianças e adolescentes então nem se fala. São Ipods, e-boocks, noteboocks e por aí vai, cujo objetivo maior é promover o isolamento desde a noite de Natal, quando imediatamente os presenteados se fecharão nos quartos para melhor "falar" com os novos brinquedinhos. Pais que cedem a este apelo deixam aos filhos, o recado de também presentearem com símbolos caros para quantificar o amor.
E a vida segue e espero dos leitores envolvidos nesta correria as vésperas de Natal, que entrem no verdadeiro espírito natalino: distribuição de amor demonstrado por carinho, sorriso e atenção incondicional.  Os amigos e familiares precisam mais disto do que qualquer coisa.
Este é assunto recorrente em meus textos, principalmente quando chegam datas que a população, bombardeada por vergonhosa inversão de valores, fica anestesiada pelas mensagens consumistas. Falo incansavelmente, pois acredito que dia virá que a humanidade abrirá os olhos e não se deixará enganar, colocando na mesa a independência de raciocinar antes de entrar neste jogo cruel e massificante. Pelas ruas desapareceram as  pessoas originais, a globalização massificou pensamentos, vestimentas e diversão e hoje é obrigatório ser feliz sob pena de ser taxado depressivo.
Por fim, melhor do que presentear com dinheiro ou qualquer outro objeto ao morador de rua, é dar atenção, tratá-lo com amorosidade e encaminhar aos órgãos de ação social. Entre muitos outros locais está a Comunhão Espírita de Brasília, na L2 sul – quadra 604. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A CIDADE DA SERESTA

(O Túnel que Chora - arquivo pessoal)

Eram sete horas da manhã de sábado quando avistei o senhor a montar as barraquinhas de venda de bijuterias e outras quinquilharias na praça, defronte a Igreja Matriz. A cidade jazia adormecida enquanto ele trabalhava. Outro homem o observa de perto. Parece olhar através do montador e das ferragens. Inerte em sua frente, vez por outra faz um comentário que o senhor nem se digna responder. Um leve chuvisqueiro cai insistente. Levantei a gola do casaco e me escondi sob a árvore, enquanto observava o senhor colocar um varão de ferro de cada vez  e encaixar em argolas para dar sustentação. O trabalho paciente indicava que mais tarde haveria feirinha. Passei devagar. Estava absorto na montagem e em seus pensamentos.  O que observava me olhou com olhos vazios.
No meio da rua, mais abaixo, aparece uma senhora e grita sem preocupar com a cidade que dorme:
– Ei! Pode parar de montar. Com esta chuva, não haverá feira.
O homem deixa cair um dos varões com estrondo, torce a boca e fala para si mesmo, determinado:
– Vou terminar de montar esta e paro.
Armou a quarta barraca e iniciava a colocação da lona amarela comum a todas, quando resolvi chegar perto.
– Hoje terá feira? – perguntei.
– Claro. Quando chove é sempre assim. Ela cancela e depois a feira acontece e tenho que correr a montar o resto das barraquinhas para os feirantes. – responde sério, avaliando que me referia ao comentário da mulher.
– O senhor é da cidade? – insisto.
– Nasci aqui e monto as barraquinhas há mais de trinta anos.
Saio devagar, e faço uma foto da igreja Matriz.
Estava em Conservatória, cidade distante do Rio de Janeiro cerca de 150 quilômetros. Participava de um Encontro Nacional e aproveitei para conhecer a “Cidade da Seresta”, paraíso dos seresteiros. Acredito que a última representante de um tempo que não volta mais. Havia chegado na sexta a noite e ficaria até domingo. Foram três dias na cidade de seis mil habitantes, onde o tempo, contrariando o resto do mundo, é docemente lento. Voltei para o hotel, pois teria o dia pleno de atividades.
(Roupa do filme O É brio de Vicente Celestino-arquivo pessoal)
À noite, após dia intenso, voltei à cidade. Entrei no Museu de Vicente Celestino e Gilda Abreu e mergulhei num passado bem perto de minha infância, quando ouvia as músicas tocadas em discos de vinil por meus pais. Wolney Porto, curador do espaço, colocou um disco de Celestino e me atendeu com cortesia. “A noite haverá seresta na rua” indicou o evento que aconteceria mais tarde na praça principal onde um grupo se reuniria para tocar e cantar. Quando digo que sou de Brasília, me pergunta se posso ajudá-lo a ter alguma ajuda federal para a manutenção dos museus dos quais é curador. Respondo que minha missão na cidade é outra e que colocarei o pleito no meu blog.
Voltei ao hotel para a janta e animei um pequeno grupo para comparecer ao evento. Mais tarde atravessamos a pé o “túnel que chora”, eu pela segunda vez. A obra construída pelos escravos, separa a cidade do resto do mundo. Pode ter sido pela época, mas o túnel, charmosamente, comporta apenas a passagem de um carro. Quando outro aponta da posição contrária, deve  esperar que passe para ir em frente.
(Caminhada em Seresta - arquivo pessoal)
Logo ao término da travessia, ouvimos o som dos violeiros. E quanto mais nos aproximávamos, mais éramos envolvidos pela voz dos cantadores e a harmonia dos violões. A seresta acontecia com seis integrantes, coordenada pelo seresteiro Edgar, morador da cidade. Mescla integrantes não apenas de Conservatória, como também de fora, como é o caso de Roberto, vindo da Cidade Maravilhosa toda sexta feira a fim de soltar a voz melodiosa e firme. E pouca chuva não impede a cantoria. Interrupção só acontece por fortes relâmpagos e trovoadas. A garoa mistura-se a emoção e embaça os olhos dos turistas em lento caminhar:
“Felicidade, foi se embora e a saudade no meu peito, ainda mora e é porisso que eu gosto lá de fora, porque sei que a falsidade não vigora...”.  
Vez por outra, Edgar pára e declama poesia, demonstrando a excelente memória. Não me contive e, resguardado pelo canto dos demais turistas, soltei a voz me sentindo o rei da serenata.
Cerca de duas da manhã, a cantoria acabou e Edgar recebe para conversa sem tempo marcado, pois seresteiro não tem pressa para boa prosa. E fez a declaração bombástica da noite: “nosso trabalho é por amor a seresta, não ganhamos um tostão pelo que fazemos”. Despedimos e saímos cantando de bar em bar. Todos com as características dos botecos cariocas, com samba ao vivo, exibindo o gingado da mulher carioca.
(Aproveitei farol de carro as três da manhã - arquivo pessoal)
Atravessar túnel, a pé, as três da manhã, em qualquer cidade, seria temerário, mas não em Conservatória, que inspira inocência e tranquilidade. No meio do túnel, alguém cantava uma seresta, que ecoava pelo espaço fechado.
“Dorme e fecha este olhar entardecente
Não me escute nostálgico a cantar
Pois não sei se feliz ou infelizmente
Não me é dado beijando te acordar”.
Domingo era dia de retorno e, após as atividades matutinas e as despedidas entre os 380 participantes do Encontro, o ônibus partiu em direção aos aeroportos do Rio de Janeiro, descendo os 520 quilômetros de serra. Ao encontro, compareceram representantes de todo canto do país, do Oiapoque ao Chuí. No retorno ao Rio, a beleza da vegetação e a conversa animada. Conservatória ficou para trás, mas permanece nos planos de conhecê-la melhor em outras visitas com mais tempo.
Serenata é algo esquecido e hoje habita apenas a memória. É mais ou menos assim. Eu tinha cinco anos e morava em Uruguaiana. Nas noites de sexta feira chegava um grupo musical com um rapaz chamado Helvécio que cantava para a vizinha, chamada Arlete. Depois das canções, eram convidados a entrar pelo dono da casa, pai da moça, que lhes oferecia bebida e a partir daí a vizinhança participava até tarde da noite. Um dia tudo parou, o cantor e a jovem casaram-se. As serenatas acontecem até o casamento.
Olho a rosa na janela,
sonho um sonho pequenino...
Se eu pudesse ser menino
eu roubava essa rosa
e ofertava, todo prosa,
à primeira namorada,
e nesse pouco ou quase nada
eu dizia o meu amor, o meu amor

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

VERDES MARES DO NORDESTE


(Cumbuco-CE - Arquivo Pessoal)
São quilômetros e quilômetros da linda beira mar oeste. Aqui e ali coqueiros carregados oferecem frutos para o viajante sedento. O sol forte clareia a paisagem de amarelo ouro e vez por outra aparece alguma lagoinha salgada para banho puro e sem ondas.
Como diria Ana Miranda, poeta cearense,
E quando ali retornarmos
Verás que nunca nos fomos
Pois o lugar onde estamos
O lugar onde estaremos
É sempre o lugar que somos

Assim reencontrei o litoral cearense, após dois anos. Desta vez, foram quatro dias intensos de emoções, conhecimento e restauração de energias. Compartilho com quem gosta das pequenas coisas da vida e que, como eu, julgam ser as verdadeiramente importantes.

(Pousada Ondas do Mar - Arquivo Pessoal)
 Hospedamos em encantadora pousada na região de Barramar de Taíba, a cerca de 70 quilômetros de Fortaleza. O acesso acontece por estrada de terra trabalhosa, esburacada, cheia de pedras, mas o destino recompensa. Propriedade de casal italiano, a pousada Ondas do Mar é aconchegante e intimista e os donos, Milton e Maura, estão sempre dispostos a resolver quaisquer problemas que apareçam. Com eles, revivemos cenas dos meus ancestrais também vindos da Península Ibérica em fins do século XIX. Situação semelhante a deste casal, fugiram da situação calamitosa que se abatia sobre a Europa. Em princípio do século XXI, novamente o caos econômico se abate sobre o Velho Continente e obriga famílias inteiras a emigrar e ao que parece o Brasil novamente é o destino. No final do ano estarão se radicando definitivamente no país e trarão a única filha, o genro e o neto para trabalharem na pousada. Encontrei vários empresários europeus, principalmente italianos, espanhóis e franceses investindo no litoral cearense, montando comércios, resorts, hotéis, restaurantes, pousadas e outros negócios. Louvam as possibilidades que o país oferece para estabelecer. O que chama a atenção deles é o clima, “calor o tempo todo”, fala Milton apontando para a camiseta regata, bermuda e chinelos confortáveis.
Meus planos desta vez era conhecer Paracuru, praia distante de onde estávamos apenas 30 quilômetros. E isto aconteceu no segundo dia. Na ida, querendo economizar tempo aventurei-me em estrada de terra pedregosa e poeirenta, mas alternativa de atalho substancial. O que nos deu chance de fazer a foto de um cajueiro, entre as centenas existentes em plantação nativa. Malu e eu fomos ciceroneados por Karina, minha filha que mora na praia de Taíba e o namorado Nacélio. Ao chegar a cidade, na primeira oportunidade, colocamos os pés na água e constatamos a temperatura extremamente confortável. Enquanto o sol contornava em volta da barraca do Kaká, sem nos atingir, conversávamos embalados pela brisa amena que amansava o calor abrasador. O céu carregado de kitesurfs com suas pipas amarelas, lisas, estampadas, desenhadas, amarelas, azuis ajudava ao assanhamento dos turistas de várias idades e nacionalidades, ávidos de usufruir da boa vida tropical. Casquinha de caranguejo foi a entrada, acompanhada de refrescante caipirosca e porções de camarão, dos grandes. No almoço, um delicioso dourado com saladas. Postas fartas preparadas com esmero. O cachorro ao lado da mesa cansou de esperar e foi embora, certamente percebeu que daquele mesa não teria sobras. Sem pressa, alongamos o papo por pelo menos seis horas. Esticamos ao máximo, pois sabíamos que cada minuto era importante considerando o pouco tempo de estada em solo cearense. Saímos de Paracuru ao entardecer e paramos em uma lagoa para conhecer e tomar água de coco. Logo fomos cercados por famílias de ovelhas protegidas por um bode ranzinza que me encarou várias vezes, gansos, patos e um pavão que teimou em deixar o longo rabo colorido fechado. Durante todo tempo acompanhamos a sedução de um peru, este sim de rabo aberto em leque, que de nada adiantou pois a perua estava firme no propósito de manter a guarda fechada. Ao anoitecer, retornamos a Taíba para tomar açaí na tigela, a delicia do norte/nordeste. O retorno aconteceu pela estrada asfaltada, claro, pois de poeirão bastou a ida.
(Altar em Cumbuco - Arquivo pessoal)

No terceiro dia, Malu e eu testemunhamos o casamento de filhos de amigos de Brasília na praia do Tabuba, em Cumbuco, distante 30 quilômetros de onde estávamos, sentido retorno a Fortaleza. A cerimônia foi montada em um altar simbólico e singelo, com galhos de árvores nativas fincados a beira mar. Emoldurando a cena, um belíssimo por do sol e alguns surfistas que cortavam ondas em pranchas velozes. No céu, pipas de kitesurf ondulavam em vai e vem lento. A noiva, com o mais belo dos calçados, os próprios pés, bailava com o vento e com a felicidade que só as noivas sabem e comentou que “não cabia em si mesma de tão contente”. Transbordava a alegria para convidados, na grande maioria, viajantes que deslocaram cerca de dois mil quilômetros participar do evento paradisíaco. Ao final da festa, o noivo, com o calor que fazia, dispensou o paletó e abriu os botões da camisa, celebrando o clima de descontração emprestado a festa. Uma bela e ao mesmo tempo singela cerimônia que satisfez os gostos mais exigentes, com simplicidade, carinho e alegria.
Ao final da festa, retornamos a pousada. À nossa direita, fomos homenageados  pela noite do Ceará, que ofereceu a lua a pratear o mar, a estrada e a vegetação durante todo caminho de volta.
O dia seguinte amanheceu mais bonito que os outros, como se  fosse possível. Tomamos café, tiramos algumas fotos finais com Karina e o namorado na pousada onde residem e, duas horas depois estávamos no aeroporto de Fortaleza. A aventura chegou ao fim. O sentimento é de tempo  bem aproveitado. Constatamos que temos tudo para conhecer lugares e pessoas interessantes. Basta boa vontade, olhos abertos e disposição. Lugar de descansar é em casa. Todos os minutos foram curtidos por inteiro e os compartilho tal e qual ocorreu.
Espero que o litoral resista a erosão crescente, provocada pelo oceano e pelas areias que tomaram várias obras a beira mar.