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sábado, 7 de junho de 2014

TELEFONEMA DESCONCERTANTE

(Google Imagens)
Trafegava pela avenida de clubes norte rumo ao Hospital Santa Helena quando o celular tocou. Como não atendi, desligaram. Combinara dar carona a um amigo em visita à esposa internada, vítima de acidente. Em frente ao Extra, final da Asa Norte, o telefone toca novamente e reconheço o nome no display. Era R, amigo de Porto Alegre. Desta vez atendo, mando aguardar e coloco o carro no estacionamento coberto do mercado.
R é amigo de infância, filho de ex-banqueiro. Tínhamos na faixa de seis anos quando me mudei para a rua onde R morava. Sua casa, bela mansão com opulento muro, contrastava com a minha, de madeira e cercada de arame com cerca viva disforme, podada por minha avó. Como na infância as diferenças passam despercebidas, R e eu fizemos amizade que durou até o final da adolescência.
Como todas as crianças, tínhamos rotina simples. Diariamente saíamos da escola e, após almoçar, chamávamos os meninos da rua para iniciarmos as brincadeiras. R sempre tinha os melhores brinquedos, e  isso o fazia invejado. Apesar da casa de R ser a mais espaçosa, era na minha as reuniões, pois no porão montamos um clube onde guardávamos os objetos do patrimônio. Eram chaveiros, flâmulas e coleções diversas como a das caixas de fósforo, com exemplares de todo o mundo.
Mas a casa era alugada e um dia o locador pediu a desocupação. Isso provocou meu afastamento da garotada e a distância da nova residência esfriou a amizade. Mais tarde, entendi que o distanciamento também foi provocado pela chegada da maturidade, quando as diferenças sociais ficaram enormes. R era cercado das facilidades do dinheiro e eu, distante das benesses, entendi o estudo como única esperança. Passei no vestibular, entrei para o Exército, comecei a trabalhar e assim cada qual seguiu seu caminho.
Quarenta anos se passaram e soube que R morava em Campinas, São Paulo e que passava por tristes provações. Por intermédio de seu filho, consegui o telefone e liguei. Percebi uma voz cansada pelo sofrimento. Do bom humor da juventude, apenas a risada nervosa a relatar as provações. Queixou-se da vida, das pessoas, dos acontecimentos. Tirei alguns dias no trabalho, viajei para Campinas e constatei a penúria da situação. Fora despejado do estacionamento onde morava e de onde tirava o sustento, lavando e cuidando de carros na faculdade Anhanguera. Solitário, o próximo passo seria as ruas da cidade.
Anos antes, em Porto Alegre, encontrara a mãe dele, que relatou a difícil situação financeira da família. Negócios errados e pessoas de má índole provocaram dívidas impagáveis. A mulher temia pelo filho morar distante. Na ocasião, praticamente solicitara minha interferência para o retorno do filho à terra natal. Lembrar aquele pedido de mãe me tocou o coração, principalmente ao saber que falecera.
Fiz contato com familiares de R que se prontificaram a lhe estender a mão e assim, ele retornou a Porto Alegre. Mas as coisas estavam longe de serem resolvidas. Os parentes tentaram ajudá-lo, porém R, acostumado a receber tudo em mãos, carecia de iniciativa e novamente despencou na miséria.. Por colocar a vida nas mãos dos outros, esqueceu-se de fazer sua parte e novamente se viu abandonado. Acreditava erroneamente que todos tinham obrigação de unir esforços para mantê-lo. Voltou a comer e a residir de favor, vivendo de pequenos bicos, cada vez mais distanciado dos que o auxiliavam. Permanecia o orgulho infundado afastando-o de todos. R, que nos últimos anos sofrera tanto, ainda não percebera os sinais que a vida lhe dera para melhorar a situação. Deveria empreender profunda mudança de dentro para fora.
Tudo passou pela minha cabeça em segundos ao atender o telefone e pressenti que algo grave se avizinhava. Confessou que bebera o dia inteiro. Articulava palavras desconexas e continuava a queixar-se. Durante a conversa, utilizei todos os argumentos exercitados durante trabalho voluntário em central de apoio a pessoas em situação de risco. Encerrou o telefonema de cinquenta minutos dizendo manter ao lado uma arma engatilhada para acabar com a trajetória de vida. Cego pela desesperança, esquecia os anos de vida de opulência financeira e prazeres. Após o telefonema, liguei para o filho dele e relatei a conversa.
Durante os dias seguintes, tentei em vão ligar para R. Dez dias depois, recebo outro telefonema dele. A voz continuava cansada, mas percebi sobriedade. “Como pode ver, estou vivo!”, grita em gargalhada. Após alguns momentos, fica sério. “Tenho pensado muito no que falou. Realmente até os cinquenta anos vivi na opulência, não me faltava nada. Tive tudo.” Fez pequena pausa e continuou. “Minha mãe morreu em 1999 e a partir daí segui sozinho entre Londrina e Campinas, só gastando, como se meu dinheiro nunca fosse acabar. Você tem razão, desesperar é inadmissível, até porque há quinze anos sobrevivo com quase nada. Entendo merecer tudo isto, pois na opulência deixei de prestar ajuda, apenas ostentei o que nem meu era. Segui cercado de gente errada e desprezei aqueles que queriam me ajudar. Se hoje estou nesta penúria, o único culpado sou eu. Concluí que suicidar não é solução”.
Mais alguns minutos, R se despede e desliga o telefone. Percebi claramente uma grande mudança. Ao entender as escolhas erradas, reconhece que a chance de seguir avante com nova trajetória só depende dele mesmo. Subsistir dignamente desde 1999 sem recursos e enfrentando as tribulações é prova de valor pessoal no cumprimento da missão de vida. No mundo em que vivemos,  sobreviver com cinquenta milhões é fácil. Porém é para poucos viver sem nada, principalmente quando se teve tudo em grande quantidade.

terça-feira, 26 de março de 2013

QUANDO O DIA AMANHECE

(Google Imagens)

Eram duas horas da manhã quando o avião taxiou na pista a caminho da plataforma de desembarque. A moça ergueu da poltrona e deixou-se cair novamente. Estava exausta. Leve dor de cabeça a incomodava desde a partida. Os dedos queimados a denunciavam.
Esperou o último passageiro descer. A comissária perguntou o destino e, sem responder, levantou-se e rumou a porta de saída. Da esteira de bagagens acenou ao irmão que esperava no desembarque. Pegou as malas e apressou-se a abraçá-lo. Por sobre os ombros, reconheceu os pais e impressionou-se com a mudança nas fisionomias e, por um momento, avistou o próprio semblante na porta de vidro. Pálida, olhos fundos e magérrima sentiu fraqueza, segurando-se no carrinho de bagagem.
Separados pelas paredes de vidro, todos se espiavam em silêncio enquanto a moça seguia ao encontro familiar. Abraçou o pai que a acalentou demoradamente, esfregando a mão quente nas costas onde salientavam as costelas. O homem tentava identificar o rosto enterrado em seu ombro, se da filha ou de uma desconhecida.
Com os olhos localizou a mãe. A jovem foi abraçada. Os braços da mãe eram tentáculos que a  entrelaçavam e formavam grossa rede de proteção do mundo que conhecera. Abraçaram-se fortemente e a jovem derramava  lágrimas que não sabia ser de felicidade ou dor reprimida por sentir-se abandonada por si mesma ao seguir a direção de terras estranhas e hábitos doentios mergulhando-a na onda de vícios. Impassível diante do abraço da filha, a mãe demonstrava claramente a distância entre as duas. Anos de ausência quase romperam o elo entre as duas. O abraço apesar de afetuoso, não indicava mudanças. Eram duas estranhas que buscavam nos rostos o resto da familiaridade perdida.
Em silêncio, pai, irmão e a recém chegada tomaram o rumo da clínica de reabilitação e, em pouco mais de uma hora, estavam em frente ao médico plantonista que, avisado previamente, os esperava acolhedor. Foram duas horas de entrevistas, perguntas e preparativos. A manhã fria de outono climatizava a despedida à saída da clínica. Pai e irmão partiram. Sozinha na sala de espera a jovem chorava atormentada pela abstinência. Preparava-se para enfrentar as primeiras setenta e duas horas, parte dolorosa e importante do tratamento. Ouvira do médico sobre as chances de sair saudável da internação, escassas, caso não houvesse comprometimento pessoal com o tratamento. Levantou a gola do casaco para proteger do frio e acendeu um cigarro. Enquanto aspirava a fumaça quente e seca, reviu o filme de sua vida, e ao lembrar a imagem na porta do aeroporto, foi dominada por um frio na barriga. Pensou nas filhas que ainda não vira e mais uma vez as lágrimas rolaram. Precisava dominar a doença das drogas. O choro compulsivo sacudiu o peito magro de seios murchos. O médico mandou preparar medicação e a cama para a nova interna. Invadida por profunda tristeza, cabisbaixa seguiu para o alojamento.