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domingo, 22 de abril de 2012
O SILÊNCIO É UMA PRECE - João de Deus
segunda-feira, 16 de abril de 2012
MULHER DE UM HOMEM SÓ
(Foto: Google Imagens)A primeira vez que Lívia entrou na casa de um homem após o divórcio, comemorou como vitória. Representava a tentativa de reciclagem, a marca da nova postura frente a vida e o enfrentamento do mundo com desenvoltura. Sentia-se instigada pelo desconhecido e pelo inusitado da situação. Eduardo, de mesma idade, divorciado e colega de trabalho, há algum tempo a chamava para sair. Demorou a aceitar, pois acreditava na importância da aproximação gradativa. Até então, a vida emocional foi de dificuldades. Limitações físicas importantes contribuíam com a baixa auto-estima.
Fortes problemas de visão desde os oito anos impediam uma vida normal. Mas deu a volta por cima e, estimulada pelo pai, cresceu e conquistou um lugar no mundo, obteve bom emprego, casamento com o homem que amava e duas filhas. A única coisa que avalia como erro foi o rompimento com Nestor após dezoito anos de casados. O casamento desde o início foi uma sucessão de desencantos.
Amigo do irmão, Nestor foi o primeiro namorado e Lívia, que crescera nas barbas da família, aceitou a proposta do noivo de fazê-la mulher. Envolvida pela perda da virgindade, a moça seguiu apaixonada até o casamento. Anos depois, concluiu que Nestor casou pelo estigma desta obrigação.
Até os problemas com a visão, que o marido no início citava como motivo de orgulho, passaram a ser tratados com humilhação em rodas de amigos.
A separação desmoronou o sonho de família feliz e unida com força destrutiva de bomba. Nem a guarda das filhas minimizou a perda da convivência com o “chefe da casa”. Os pais a prepararam para fazer do casamento, felicidade e da dedicação ao lar, objetivo de vida. Lívia sentiu-se fracassar como mulher.
Esperava do marido uma semelhança ao pai, preocupado com a mãe e brincalhão com os filhos. De temperamento frio, pouca atenção dispensava a mulher. Ao chegarem a Brasília, costumavam beber vinho com amigos. Durou pouco. Nestor passou a chegar tarde e Lívia, sozinha em casa, experimentou uma profunda tristeza e passou a consumir medicamentos tarja preta.
Dedicado ao trabalho, Nestor logo galgou altos cargos que culminaram com o assédio de mulheres e a adulação de subordinados. De família humilde do interior, esta combinação serviu para inflar o ego e a personalidade. A consequência foi a transformação de valores e a convicção dele de que vivia num casamento falido. Lívia, solitária na incumbência de salvar a relação, experimentou algumas mudanças de comportamento, boicotadas uma a uma pelo marido desinteressado. Manter a família tornou-se fardo difícil.
Lívia analisa que Nestor tinha conceito de família bem diferente dela. Ainda pequeno foi abandonado pelo pai e, já adulto, avisado do estado terminal, se mostrou desinteressado em conhecê-lo.
Considera-se a parte frágil da relação, única sacrificada. “Sempre fui cuidadora de marido e filhas. Cresci numa família de mulheres com esta característica. Na terapia aprendi a recorrência em abrir mão de mim em favor dos outros.”
Desde o início, Nestor deixou claro que frequentar reuniões familiares era um sacrifício. Lívia ignorava os sinais e dava ouvidos a recomendação materna de que “com o tempo, se acostuma”. O afastamento aumentava e passou a ir só com as filhas. Em qualquer data, mesmo Natais, Nestor preferia passar só ou com a família no interior de São Paulo. Ele desenvolvia o que Lívia classificou como “mania de perseguição”. Acreditava que a família da mulher o colocava fora das conversas e seria alvo de cochichos nas rodas familiares.
Lívia fez várias tentativas para manter a relação. Aumentar a prole, uma delas, se mostrou um fracasso. Nestor não aprovava e perdeu dois filhos, o segundo no sexto mês de gravidez. Segurou a gravidez na terceira tentativa e tiveram a segunda menina. O nascimento da filha trouxe fôlego ao casamento, mas logo a relação novamente foi por água abaixo.
Em outra fase, a filha mais velha assumiu para si a incumbência de manter os pais unidos e declarou que gostaria de um irmão. O desejo da filha acelerou o desenlace e Lívia mesmo reticente aceitou, apesar de preferir continuar casada.
Já se passaram três anos e Lívia ainda ama o ex-marido e admite que se quisesse reatar, o aceitaria de volta. “Fui educada para o casamento único e terei dificuldade em nova relação.” Nas noites solitárias, quando as filhas saem, sente falta da vida a dois.
Em mais de duas décadas juntos, afirma nunca se sentir amada e isto alimenta a baixa auto-estima e o sentimento de abandono, controlados com terapias semanais.
Nem tudo na relação foi perdido e reconhece ganhos positivos importantes. O maior deles, as filhas, perseverantes como o pai naquilo que se propõem. Com ele Lívia aprendeu a ter garra e crescer mesmo nas horas difíceis. “Hoje posso afirmar que conheço a solidariedade e isto devo a Nestor”.
“É ótimo pai, trata as meninas muito bem e é presente quando se trata de resolver os problemas”. O que incomoda Lívia é o afastamento que experimentou quando o ex-marido apareceu com namorada. Na terapia trabalha isto e a inserção social para afastar a sensação da solidão. O auxílio profissional a fez planejar as perspectivas de curto, médio e longo prazos e ensinou a ver beleza e graça na vida.
Isto deu frutos. Angariou novas amizades e conheceu Eduardo com o qual divide bons momentos em barzinhos, cinemas, teatros ou conversas a dois, quando trocam confidências e ampliam a amizade. Quem sabe até chegam a intimidades bem resolvidas.
sexta-feira, 30 de março de 2012
OS ARIZONAS – BLUE BAND


(publicado no jornal Zero Hora de Porto Alegre-RS, ed. de 20/04/2012)
(fotos: Ricardo, arquivo pessoal)
quarta-feira, 14 de março de 2012
O CIRCO DA VIDA
(foto arquivo pessoal)Sábado, dez de Março, alterei a rotina de ir a cinema e fui ao Circo de Soleil. Sem dúvida, o maior espetáculo circense atualmente em apresentação no planeta. De minha parte, desconhecia a atração e, confesso, esperei demais. Como acredito que tudo foi dito e repetido sobre a magnitude das apresentações, esta crônica passa por cima do evento em si e narra um fato paralelo, acontecido fora dos bastidores. Espero que sirva aos amigos e leitores de todas as idades, podendo se enquadrar na pele de um ou de outros personagens, dependendo da disposição.
Comprei os ingressos com uma semana de antecedência, utilizando as benesses da fila dos idosos. Precavido quanto ao esgotamento antecipado das entradas, indicando grande fluxo de assistentes, no dia da apresentação cheguei adiantado cerca de uma hora e meia. Estava de olho no estacionamento público do Parkshopping em Brasília, local mais perto para deixar o carro, com segurança e excelente iluminação.
Após rodar por dez minutos, percebi que liberava uma vaga indicada a usuários acima de sessenta anos e parei, forçando também a parar o fluxo de veículos. No entanto, logo a minha frente, havia um Honda também posicionado, impedindo-me de manobrar e lamentei perder lugar tão confortável.
O carro desocupou a vaga e o outro entrou serelepe. Mas ao prestar atenção percebi, pela fisionomia e agilidade dos ocupantes, tratar-se de jovens estacionando em vaga especial. Perguntei a um vigilante do shopping, se notara alguém acima de sessenta anos no automóvel, mais para interceder por mim, poupando-me desgaste, do que ouvir a resposta. O profissional respondeu que não percebera ninguém, mas adivinhando minhas intenções, acrescentou nada poder fazer e explicou ser o estacionamento público, portanto administrado pelo DETRAN.
Os ocupantes do carro saíram às pressas, ficando apenas o motorista, jovem de uns trinta anos. Resolvi apelar para o bom senso dele e estabelecemos o diálogo abaixo relatado:
- Por favor, percebeu que estacionou numa vaga especial? – Afirmei calmamente.
- Sim, estacionei. - Respondeu o rapaz sem dar inflexão a voz.
- O senhor tem alguém com mais de sessenta anos no carro? – Questionei novamente, me sentindo mais confortável ao ouvir a resposta a primeira indagação.
- Não – falou agora sem paciência por estar sendo questionado diante de tanta gente e da fila de motoristas formada na expectativa de resolver o impasse rapidamente, para seguirem na saga da procura.
- Você tem uma autorização como esta? – Continuei, exibindo o cartão do DETRAN que me autoriza a usar vagas para usuários acima dos sessenta anos.
- Não. – Desta vez respondeu seco.
- Então, faça o favor - disse-lhe sem esperar outra reação a não ser retirar seu veículo, exigindo o cumprimento do escrito na enorme placa em frente a vaga onde estacionara seu automóvel.
Pensou um pouco, esboçou uma resposta ríspida, um movimento mais firme, mas esmoreceu.
- Vou tirar. – Bateu a porta com impaciência e saiu a procura de vaga cada vez mais escassa pela proximidade do espetáculo.
Coloquei o carro no lugar, em frente ao parkshopping, e o rapaz saiu para procurar outra com certeza mais distante. A juventude compensará a diferença de percurso a pé.
O espetáculo circense foi fabuloso, fora as duas vezes que saí para urinar no meio do espetáculo, incomodando a fileira de quem assistia sentado nas cadeiras entre a minha e o corredor de acesso ao banheiro.
Como tudo na vida, passar dos sessenta anos tem vantagens e desvantagens.
sexta-feira, 9 de março de 2012
APRENDIZ
(foto Google Imagens)“Mãe estou grávida.” Em três palavras Kátia resumiu a resposta da vida ao descuido. A mãe parecia surda. Saiu da kitinete nos fundos da casa, onde a filha se alojava provisoriamente, sentou a beira da piscina e admirou as ondas azuis. Nuvens escuras e vento a farfalhar o coqueiro anunciavam tempestade. Recordou o próprio passado na terra natal, quando conheceu o pai da menina. Antes de casar, ela própria teve que decidir sobre fazer ou não dois abortos. A memória dos procedimentos a acompanham até hoje. O primeiro, forçado pela mãe, temerosa da falação de vizinhos e o segundo porque aprendera o caminho da clínica e temia as cintadas do pai. Logo depois, casou-se e teve duas filhas. Se por um lado Kátia foi criada cheia de vontades atendidas, por outro, experimentou das mesmas chibatadas da mãe. Com a gravidez da filha, Sônia confrontou-se com o passado e o peso das decisões adolescentes.
Os primeiros pingos da chuva começaram a cair e Sônia retornou vagarosamente a casa principal. Passou pela cozinha e engoliu um calmante. Na sala, Alfredo, o segundo marido interrompeu a leitura ao ver a mulher encharcada, aproximou-se e perguntou o motivo.
“Kátia está grávida”, falou Sônia, despejando a angústia interna. Alfredo fechou o livro sem demarcar as páginas. De cabeça baixa, a mulher desabou pesadamente na poltrona, recostou-se e fechou os olhos, como quem tenta dormir para depois acordar de um sonho. Antes de adormecer, ouviu a voz do marido que acentuou a última frase “para mim chega, manda tua filha embora daqui. Já deu trabalho demais”.
A tempestade chegara furiosa e os ventos bateram a janela do andar superior. Alfredo subiu as escadas devagar. Há muito perdera a agilidade da juventude, quando reformara a casa para construir os quartos no primeiro andar. As dores no joelho direito o irritavam e, somado a consciência do incômodo que a enteada representava desde a adolescência, faziam fervilhar os pensamentos. “Mas que menina rebelde, que vá morar na rua”, desabafou para si mesmo. Acendeu um cigarro e recolheu-se ao quarto.
A noite no inverno gaúcho chega mais cedo e encontra Sônia ainda dormindo na sala. O relógio do aparelho de DVD indica nove horas quando um trovão seco acorda a mulher que repara a casa as escuras, iluminada apenas por velas que fornecem luzes bamboleantes com sombras escuras.
A chuva passara. Sônia pega a lanterna e retorna ao quarto da filha, encontrando-a chorosa com o rosto enfiado no travesseiro “Você tem poucas alternativas. Uma é cogitar o aborto a outra é consultar o pai da criança e sair daqui hoje”. Kátia passou em revista o passado pleno de desmandos e malemolências que a mãe e Alfredo engoliram dela. Nada convencional e sim, atribulado, rebelde e inconsequente.
Decidiu ter a criança, mas desempregada há um ano, a primeira questão era como se sustentar. Pensou que talvez a solução fosse dividir as preocupações com o pai da criança que carrega no ventre. Após breve conversa, o rapaz a buscou para morar na casa dividida com a irmã, a mãe, dois sobrinhos e três filhos menores, sob sua guarda desde a separação da ex-mulher. A chegada de Kátia na pequena casa de três cômodos serviu para esquentar os ânimos e o conforto. O que era sofrível tornou-se insuportável e pleno de desentendimentos. Como era a única a não pertencer à família, sentiu que o namorado a deixava de lado e a solidão da convivência a isolou no quarto.
Quatro dias e Kátia liga ao pai, fala dos desentendimentos e da briga com o namorado. Estava na Delegacia da Mulher de Cruz Alta e pedia que a buscasse. A jovem estava deformada pela agressão e pediu que lhe levasse de volta a casa da mãe que, para recebê-la novamente, impôs inúmeras condições, aceitas sem restrições.
Ao chegar a casa de Sônia e após tocar a campainha, o diálogo entre os pais biológicos de Kátia foi sofrível. Aqui narro da forma mais fidedigna.
“Quem é?” pergunta a dona da casa”com voz impaciente.
“Kátia”! responde o pai da moça.
“Porque não ficou com ela?” Joga a mulher.
“Não tenho lugar para ela”. Responde, referindo-se ao apartamento de quarto e sala onde mora.
“Como assim, não tem lugar para ela?” A voz da mulher soa ameaçadora.
E o pai da moça explica “Não tenho lugar, ora”. Como se Sônia ignorasse a primeira resposta.
O pai balança a cabeça e exclama para si mesmo – “E ainda tenho que aguentar isto! Ainda tenho que aguentar isto!”
A porta principal se abre, Kátia se despede chorando e entra de cabeça baixa. Atrás dela a porta fecha com estrondo surdo.
Na falta de independência, manda quem dá as cartas e assim, Kátia abre mão, mais uma vez, das rédeas de sua vida e as entrega novamente a mãe, que a submete a regras duras. Apesar de contar trinta e cinco anos, continua despreparada para a vida. Necessita seguir em análise para compreender as tendências que a levam a se aproximar de namorados violentos que a excluem de sua vida com um só golpe. A idolatria inicial se transforma em aversão violenta.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
LAURINDA E AS FILHAS
(foto Google Imagens)No dia do casamento de Laurinda, na volta da igreja, o pai comentou ao ouvido da mulher, “tudo que nossa filha desejava na vida era casar e realizou”. E iniciou comentários irônicos e risadas até chegarem ao portão de casa. Ao descer do taxi, a mãe indignada falou já brava, “cala a boca, Carlos, nossa filha é santa, Fred foi o primeiro namorado.” O taxista assustou com o gargalhar frenético do pai.
Os noivos alugaram um apartamento de quarto e sala em um bairro longe do centro da cidade e o rapaz, chaveiro num quiosque no centro da cidade, a partir da mudança passou a chegar a casa diariamente com a cara cheia de cachaça surrando a mulher que, passivamente, aceitava o fardo por entender que se o marido a ajudara a realizar o sonho do casamento, deveria suportar calada as mazelas impostas. Enfrentava o bafo de bebida na hora do amor e os tapas provenientes dos ciúmes exagerados do marido com a benevolência dos mártires. Enquanto isto, remoía as palavras do pai às vésperas do casamento, que advertia “ filha, está cega ao comportamento do rapaz, é um beberrão”.
A rotina diária pesou para a professora. Além de afazeres domésticos, preparo da comida, lavação de roupas e arrumação da casa, trabalhava quarenta horas em escola pública da periferia. A noite se desmanchava de amores ao marido que chegava insatisfeito, bêbado.
Planejou o primeiro filho a partir do aniversário de um ano de casados, com esperança do marido amainar a irreverência.
A barriga crescia e a moça constatou que o marido detestava crianças, passando a gestação inteira ameaçada de abortar. Com a proximidade do nascimento, o dinheiro ficou escasso e mudaram para a casa dos pais onde o marido entendeu ser desaforo morar no quarto nos fundos do quintal e exigiu que os sogros mudassem para lá, liberando a casa ao casal.
A gravidez adiou a rotina de sofrimentos e o marido parou de beber por obra e graça do pastor Bené, amigo de uma vizinha, que diariamente os visitava e rezava por bom parto e felicidade do casal.
Laurinda deu a luz uma menina loira como a mãe, mas no décimo mês de nascida, apresentou retardo no desenvolvimento. Uma vizinha que a acompanhava desde o nascimento, aconselhou a família a consultar um médico o quanto antes o qual, após exames, indicou cirurgia cerebral urgente. Após a terceira operação na cabeça da criança, com intervalos de seis meses, o médico desalentado adiantou que não via solução. Diagnosticou paralisia cerebral e previu que viveria somente até adolescência. Naquela noite Laurinda trancou-se no quarto e chorou copiosamente. Não tinha como dividir a tristeza e refletir sobre o que passara e ainda viria pela frente com o marido beberrão e a filha naquele estado.
A menina crescia dependente da mãe e da avó que agora ajudava com afinco nos cuidados com a neta, que as requisitava dia e noite a medida que o peso aumentava e apareciam sinais da adolescência como a menstruação.
Desgostoso com a situação, quando soube que a mulher ficara grávida pela segunda vez, arrumou as malas, aplicou a última surra nela, deu as costas e desapareceu. No meio de um inverno rigoroso, nasceu a criança e, com a ajuda do pastor Bené e de doações da comunidade, teve fôlego para seguir sua vida.
O parto da segunda filha foi esperado com apreensão, logo tranqüilizado pelo pediatra que diagnosticou uma criança saudável. Esta criança aliviou a rotina da casa e a alegria voltou. Passaram a ouvir novamente o radinho de pilhas que a moça ganhara quando solteira e as mulheres dançavam durante a faxina na velha casa de madeira, toda carcomida pelos cupins.
Quando a pequenina estava com sete anos, as vésperas de Natal correu a acordar o avô que descansava da preparação dos enfeites da noite anterior, e o encontrou mole e gelado. O velho faleceu dormindo de ataque cardíaco fulminante. Seis meses depois, a avó, deprimida após a morte do marido, amanheceu com falta de ar e acabou morrendo de pneumonia, deixando Laurinda a cuidar sozinha das meninas.
O prognóstico do médico com relação à filha doente demonstrou ser completamente errado e ela sobreviveu até a vida adulta, quando em uma gelada manhã, a menina parou de respirar devido a deformação no tórax que apertou o pulmão até asfixiá-la.
Com a morte da filha deficiente, Laurinda passou a ver o mundo de outra forma e procurou a filha mais nova para conversar. Receava que a idade com suas mazelas a impossibilitassem de contar detalhes da vida. No primeiro dia de conversas, fez a moça sentar no sofá rasgado da sala de jantar e iniciou o relato dizendo que o verdadeiro pai dela não era o constado no registro de nascimento. “Fred após o nascimento de tua irmã retornou a beber e, em represália, parei de manter relações sexuais com ele e assim permanecemos até ele sair de casa.
A moça ouvia a mãe atentamente. Laurinda queixou-se da rotina, acrescentando que isto a fazia alimentar fantasias e permissões, única forma de suportar a situação. Acendeu-se nela um fogo interno que minou a resistência ao pastor Bené que os visitava para orações as sextas feiras. No início, Fred participava, mas passou a desprezar e, como chegava bêbado, caía na cama e os deixava a sós. “Aos poucos, ganhamos confiança nas bebedeiras e passamos a namorar no sofá da sala, este mesmo que você está sentada”. A mãe suspirou fundo “confesso que aos poucos fomos nos descuidando”. Foi a cozinha buscar água para as duas e continuou o relato. Em uma noite tempestuosa, que o marido desmaiara na cama e ela e o pastor amaram-se esquecidos após a oração, Fred levantou no meio da noite e surpreendeu-os nus e abraçados.
Na verdade, Laurinda pensava em separar, mas as coisas a partir daí tomaram outro rumo e o marido saiu de casa. Na surra de despedida quase perdeu a criança. “Bené e eu continuamos a encontrar semanalmente e, quando você nasceu, não pode te registrar por ser casado. Procurei um cartório no interior e expliquei que seu pai desaparecera logo que engravidei e queria te registrar. Consegui com facilidade, desembolsando certa quantia ao escrivão. É por isso que na certidão consta o nome de Fred.
“Atualmente, teu pai, é pároco na igreja da Quintino Bocaiúva, mas não quero que o procure”.
A filha nem ouviu o último comentário da mãe. Saiu porta afora disposta a conhecer o pastor. Ao chegar à igreja, mal disfarçava a inquietude e perguntou pelo pai ao pastor que molhava as plantas.
“Bené faleceu há dois meses, moça, teve um mal súbito ao discutir com um bêbado que o procurou durante o culto”.
