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domingo, 22 de abril de 2012

O SILÊNCIO É UMA PRECE - João de Deus

(Google Imagens) - Salão Principal da casa Dom Inácio

Abadiânia é município do estado de Goiás, sem atrativos turísticos ou belezas naturais, mas conhecido mundialmente. Afinal, abriga a Casa Dom Inácio, complexo Centro Espiritual cujo mentor, João de Deus, faz cirurgias e tratamentos espirituais dedicados a cura de doentes dos quatro cantos do mundo. A cidade com cerca de 16 mil habitantes serve de corredor aos municípios de Corumbá e Pirenópolis e está localizada as margens da BR 040, a meio caminho entre Brasília e Goiânia, numa das melhores estradas brasileiras. Pista preferida de motociclistas amadores e profissionais com potentes máquinas sobre duas rodas. Nem tudo são flores, turistas acostumados com o conforto e organização das cidades de origem, caminham nas ruas entre automóveis. Faltam calçadas para pedestres e os carros transitam por ruas apertadas e mal conservadas.
O município vive a reboque da Casa Dom Inácio, provocando até comentários do prefeito tipo “não sei o que seria da cidade sem João de Deus”.
            Mas não é sobre o município que pretendo me estender, muito menos sobre motoqueiros velozes da estrada.
Precisei de cerca de hora e meia para cobrir os 120 quilômetros da distância de casa até a rua de acesso onde o médiun trabalha. Cheguei as dez horas da manhã. Ao sair da estrada principal e entrar no município, deparei-me com forte comércio local. Vendem camisetas, pedras semi-preciosas, imagens de santos em gesso e outras lembranças destinadas a turistas de todo mundo, ávidos por recordações de um momento tão único. A cor predominante das indumentárias é o branco, símbolo da pureza do espírito. Pequenas pousadas e lanchonetes esperam os visitantes com comidas típicas de Goiás. Quando falo turistas do mundo todo, não é exagero. Encontrei americanos, franceses, alemães, enfim, europeus em geral numa mistura de línguas que emprestam a pequena Abadiânia um ar imponente.
Deixei o carro em um estacionamento em frente ao Centro e me dirigi a pé aos pavilhões que compõem o complexo. Administração, grande salão com cobertura para entrada aos trabalhos, biblioteca, farmácia, banheiros sempre muito limpos e espaços a céu aberto com vistas panorâmicas com bancos para meditação, tudo extremamente limpo e ordeiro. Sentei frente a um desfiladeiro com mata muito verde, cercado por morros por todos os lados. No fundo do vale, um gato amarelo se preparava para o bote em pássaros silvestres que comiam displicentes sobre a relva. Ao lado um rapaz de pele alva lia um livro alemão e do outro uma senhora anotava impressões num caderno ao mesmo tempo que comentava algo com alguém em uma língua indefinida. Permaneci absorto por uma hora e me dirigi ao pavilhão de venda de água fluidificada e pedras onde retirei a senha de 1ª VEZ com atendimento indicado para o meio dia.
Mais algumas voltas e resolvi almoçar no Jerivá, restaurante conhecido para quem frequenta a BR 040.
Retornei ao centro em cima da hora marcada, 11h 55. O salão que recebe as pessoas para atendimento estava repleto, mas consegui sentar em uma cadeira almofadada. Vários ventiladores espantavam o forte calor de início de tarde. Uma voluntária prestava instruções em português, inglês, alemão e francês. Reparei que muitos atendentes dominam estas línguas, afinal os estrangeiros precisavam entender o que acontecia. De tempos em tempos ela rezava um Pai Nosso e uma Ave Maria e pedia silêncio, afinal, como dizia um quadro na parede, “o silêncio é uma prece”. O salão permanecia lotado e uma fila enorme de pessoas de branco, se alinhava no centro. Mais tarde percebi que eram  médiuns incorporadores de entidades de auxilio a João de Deus.
Após duas horas de expectativa, João entrou por uma porta lateral e ficou defronte a platéia solene e curiosa. A comoção imediatamente tomou conta de todos e iniciaram-se cirurgias espirituais com corte. Muitos levantaram para testemunhar de perto e outros ligaram máquinas fotográficas e filmadoras e iniciaram, sem constrangimento, a filmar os procedimentos. As pessoas destinadas a cirurgias formaram um semi-círculo a volta do médiun, o qual fez o reconhecimento da doença de cada e iniciou os trabalhos. Pegou uma tesoura pontiaguda e enfiou pelo nariz adentro em uma moça que parecia estar em transe pois não esboçou nenhum medo ou dor. Após pegou uma faca de cozinha e iniciou o processo de raspar os olhos de outra. A seguir futucou na barriga da terceira, retirou algo e depositou na bandeja,  que foi retirada. Cada paciente que passava pela cirurgia, perdia os sentidos e era colocado em maca e transferido a outra sala, onde ficava recuperando, semelhante ao pós-operatório na medicina tradicional.
Após os procedimentos o médiun  retirou-se e a moça que falava várias línguas conclamou aos outros que esperavam cirurgia, que fizessem fila no local indicado. Formou-se nova fila enorme que, após breve tempo, todos adentraram de forma ordeira por outra porta. A jovem que organizava os passos dos visitantes continuava sua pregação destinada a evitar as conversas paralelas e manter a concentração das filas. Um vídeo mostrava cirurgias com cortes sem sangue, o pessoal olhava e comentava. O calor apertava, mas ventiladores amenizavam o efeito e o ambiente permanecia confortável. Reinava descontração com respeito no ambiente manifestado pelo bom humor de atendentes e pacientes.
As pessoas com fichas de 1ª VEZ, como a minha, foram chamadas e  formaram fila e, fomos encaminhados a porta por onde seguimos através da sala de médiuns, vestidos de branco, que permaneciam concentrados em torno dos pacientes. João de Deus atendia ao fundo de outra sala e logo o percebi sereno sentado e dando atenção a romaria que um a um se aproximava de mãos baixas. Ele ouvia as queixas, anotava em um papel e entregava a cada um. Quando chegou minha vez, reparei que a anotação era inteligível e compreendi que era simbólica e representava um pote de remédio a ser adquirido na farmácia local. Perguntou-me o que sentia, respondi e João falou com toda simplicidade acostumado a ouvir queixas o dia inteiro, todos os dias da semana, “cirurgia”.  Peguei o papel, saí pela porta indicada e comprei a medicação prescrita.
Enquanto espero a cirurgia, que, por decisão pessoal será sem cortes, fico a pensar na procura ilimitada do ser humano quando o assunto é saúde. Gente do mundo todo deixa para trás os afazeres, suas casas, confortos e se dirigem a inexpressiva Abadiânia a procura de alternativa para o que a medicina, por mais avançada que seja, responde de forma inadequada ou oferece tratamento doloroso, caro e por vezes inócuo. Nas tantas mensagens proferidas pela orientadora, uma dizia que grande parte da eficácia da cura estava na forma de encarar o tratamento espiritual e na força do Deus pessoal. Entender que a cura está dentro de cada um, certamente ajudará o tratamento mediúnico a um efeito eficaz. E, por diversas vezes instrui ao paciente a continuar seguindo a orientação médica. “Obedecer ao tratamento que faz com a medicina alopática é garantir a participação e o acompanhamento pessoal no caminho da cura.”

segunda-feira, 16 de abril de 2012

MULHER DE UM HOMEM SÓ

(Foto: Google Imagens)


A primeira vez que Lívia entrou na casa de um homem após o divórcio, comemorou como vitória. Representava a tentativa de reciclagem, a marca da nova postura frente a vida e o enfrentamento do mundo com desenvoltura. Sentia-se instigada pelo desconhecido e pelo inusitado da situação. Eduardo, de mesma idade, divorciado e colega de trabalho, há algum tempo a chamava para sair. Demorou a aceitar, pois acreditava na importância da aproximação gradativa. Até então, a vida emocional foi de dificuldades. Limitações físicas importantes contribuíam com a baixa auto-estima.

Fortes problemas de visão desde os oito anos impediam uma vida normal. Mas deu a volta por cima e, estimulada pelo pai, cresceu e conquistou um lugar no mundo, obteve bom emprego, casamento com o homem que amava e duas filhas. A única coisa que avalia como erro foi o rompimento com Nestor após dezoito anos de casados. O casamento desde o início foi uma sucessão de desencantos.

Amigo do irmão, Nestor foi o primeiro namorado e Lívia, que crescera nas barbas da família, aceitou a proposta do noivo de fazê-la mulher. Envolvida pela perda da virgindade, a moça seguiu apaixonada até o casamento. Anos depois, concluiu que Nestor casou pelo estigma desta obrigação.

Até os problemas com a visão, que o marido no início citava como motivo de orgulho, passaram a ser tratados com humilhação em rodas de amigos.

A separação desmoronou o sonho de família feliz e unida com força destrutiva de bomba. Nem a guarda das filhas minimizou a perda da convivência com o “chefe da casa”. Os pais a prepararam para fazer do casamento, felicidade e da dedicação ao lar, objetivo de vida. Lívia sentiu-se fracassar como mulher.

Esperava do marido uma semelhança ao pai, preocupado com a mãe e brincalhão com os filhos. De temperamento frio, pouca atenção dispensava a mulher. Ao chegarem a Brasília, costumavam beber vinho com amigos. Durou pouco. Nestor passou a chegar tarde e Lívia, sozinha em casa, experimentou uma profunda tristeza e passou a consumir medicamentos tarja preta.

Dedicado ao trabalho, Nestor logo galgou altos cargos que culminaram com o assédio de mulheres e a adulação de subordinados. De família humilde do interior, esta combinação serviu para inflar o ego e a personalidade. A consequência foi a transformação de valores e a convicção dele de que vivia num casamento falido. Lívia, solitária na incumbência de salvar a relação, experimentou algumas mudanças de comportamento, boicotadas uma a uma pelo marido desinteressado. Manter a família tornou-se fardo difícil.

Lívia analisa que Nestor tinha conceito de família bem diferente dela. Ainda pequeno foi abandonado pelo pai e, já adulto, avisado do estado terminal, se mostrou desinteressado em conhecê-lo.

Considera-se a parte frágil da relação, única sacrificada. “Sempre fui cuidadora de marido e filhas. Cresci numa família de mulheres com esta característica. Na terapia aprendi a recorrência em abrir mão de mim em favor dos outros.”

Desde o início, Nestor deixou claro que frequentar reuniões familiares era um sacrifício. Lívia ignorava os sinais e dava ouvidos a recomendação materna de que “com o tempo, se acostuma”. O afastamento aumentava e passou a ir só com as filhas. Em qualquer data, mesmo Natais, Nestor preferia passar só ou com a família no interior de São Paulo. Ele desenvolvia o que Lívia classificou como “mania de perseguição”. Acreditava que a família da mulher o colocava fora das conversas e seria alvo de cochichos nas rodas familiares.

Lívia fez várias tentativas para manter a relação. Aumentar a prole, uma delas, se mostrou um fracasso. Nestor não aprovava e perdeu dois filhos, o segundo no sexto mês de gravidez. Segurou a gravidez na terceira tentativa e tiveram a segunda menina. O nascimento da filha trouxe fôlego ao casamento, mas logo a relação novamente foi por água abaixo.

Em outra fase, a filha mais velha assumiu para si a incumbência de manter os pais unidos e declarou que gostaria de um irmão. O desejo da filha acelerou o desenlace e Lívia mesmo reticente aceitou, apesar de preferir continuar casada.

Já se passaram três anos e Lívia ainda ama o ex-marido e admite que se quisesse reatar, o aceitaria de volta. “Fui educada para o casamento único e terei dificuldade em nova relação.” Nas noites solitárias, quando as filhas saem, sente falta da vida a dois.

Em mais de duas décadas juntos, afirma nunca se sentir amada e isto alimenta a baixa auto-estima e o sentimento de abandono, controlados com terapias semanais.

Nem tudo na relação foi perdido e reconhece ganhos positivos importantes. O maior deles, as filhas, perseverantes como o pai naquilo que se propõem. Com ele Lívia aprendeu a ter garra e crescer mesmo nas horas difíceis. “Hoje posso afirmar que conheço a solidariedade e isto devo a Nestor”.

“É ótimo pai, trata as meninas muito bem e é presente quando se trata de resolver os problemas”. O que incomoda Lívia é o afastamento que experimentou quando o ex-marido apareceu com namorada. Na terapia trabalha isto e a inserção social para afastar a sensação da solidão. O auxílio profissional a fez planejar as perspectivas de curto, médio e longo prazos e ensinou a ver beleza e graça na vida.

Isto deu frutos. Angariou novas amizades e conheceu Eduardo com o qual divide bons momentos em barzinhos, cinemas, teatros ou conversas a dois, quando trocam confidências e ampliam a amizade. Quem sabe até chegam a intimidades bem resolvidas.

Lívia entrou no apartamento de Eduardo, rodeou a mesa de centro da sala e fixou-se no porta-retrato dourado que a enfeitava. “Meus pais”, explicou o anfitrião. Sorriu e aceitou a taça de champanhe oferecida.

sexta-feira, 30 de março de 2012

OS ARIZONAS – BLUE BAND



(publicado no jornal Zero Hora de Porto Alegre-RS, ed. de 20/04/2012)


(fotos: Ricardo, arquivo pessoal)


Nos anos setenta, no bairro Tristeza em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, existia uma banda de nome Os Arizona - Blue Band. Era formada por seis rapazes: o Renan, o Ricardo, o Lota, o Marquinhos apelidado de Seco pela magreza escandalosa e o Adalberto, o Facada na Garganta, cantor oficial do grupo. O apelido foi dado pelo Renan, devido ao timbre de voz que, ao alcançar agudos, saltavam-lhe veias do pescoço, formando uma hidrografia.
O conjunto musical tocava em clubes da zona sul, em reuniões dançantes ou alguma garagem desde que juntasse mais de cinco pessoas na platéia, houvesse cachaça e garotas. E bebiam tudo oferecido ou tomavam a bebida que levavam. Os ensaios eram realizados diariamente, em um galpão cedido pela Lori, proprietária do Armazém Veranópolis, fã de carteirinha, localizado no cruzamento das ruas Mário Totta e Wenceslau Escobar. Ali aconteceu a transformação em músicos, da gurizada recém saída das brincadeiras de carrinhos de rolimã. Enfrentavam a vizinhança que reclamavam da altura dos instrumentos que incapacitavam a comunicação dentro das casas. Até então inexistia a lei do silêncio vinda para proteger o sossego dos silenciosos e sossegar os talentos em ascensão.
Meus interesses eram outros, além de não tocar nenhum instrumento. Só pensava em ganhar algum troco para assistir as matinês no cine Gioconda aos domingos, onde podia comprar e vender gibis. Durante a semana, nas tardes, ajudava o primo Luis Carlos que montara uma fábrica de argamassa em um terreno baldio na esquina da Landell de Moura com a Wenceslau Escobar. Ao final do trabalho, passava pelo galpão musical do Veranópolis para tomar uns goles de caipirinha e comer churrasco. Depois ia para casa devorar obras de Monteiro Lobato, Mark Twain e Machado de Assis, graças a exigente professora de Português do Padre Réus.
No auge da fama, a banda foi contratada pelos organizadores do Festival do Chope, evento que acontecia anualmente no parque de exposições do Menino Deus, na Avenida Getúlio Vargas. O Festival, puramente etílico, oferecia oportunidade a músicos, que se apresentavam cerca de uma hora cada. Após o sorteio, Os Arizonas foram confirmados para apresentação as sete da noite. No final da tarde, os músicos chegaram com os instrumentos e as roupas. Instalaram tudo, testaram, vestiram-se e esperavam o horário, quando souberam do remanejamento da apresentação para as vinte e três horas, o que garantiria um público maior.
O presidente da comissão organizadora encarregou-se pessoalmente de refazer a grade horária, avisar as bandas e alertar os Arizona que o bar estava aberto para eles, com direito a comes e bebes. Os organizadores deveriam ter considerado o comentário do Renan quando soube da mudança de horário e da liberação do bar ao grupo:
- Não vai prestar. Bar aberto e comida a vontade, hummmmmm - E repetiu, – não vai prestar.
Imediatamente o grupo se transferiu para o bar e a frase do Renan fez sentido. Era tarde. O presidente só entendeu o comentário às onze da noite quando os músicos subiram ao palco. Haviam entornado todas e pareciam caricatos dos rapazes com calças boca de sino da chegada. A aparência nem de longe lembrava os rapazes aprumados, tal a desordem da roupa amassada e suja.
Mas o pior estava por vir. No reboque da descompostura geral, a altura do som. Os equipamentos, de alta potência acústica, colocados no volume máximo garantiram que toda a festa e as cercanias da Avenida Ipiranga até o quartel do CPORPA, no fim da José de Alencar ouvissem o desempenho da banda, como se estivessem nas cercanias. O baixo do Renan ao ser dedilhado provocava desespero na comissão organizadora que gesticulava braços desesperados para baixar o volume. A banda interpretava os acenos como aprovação e continuavam a bramir os instrumentos ainda mais alto.
Seco, tocava a bateria com tanta paixão e compenetrado que continuou a bater as batutas no ar, mesmo após o instrumento ser violentamente arrebatado pelo Lota que tropeçou, espalhou as peças em cima do público fascinado e por fim derramou o copo de uísque no teclado, inundando as teclas. Os amplificadores a todo volume abafavam o clamor do público e nem se compreendia se vaiava ou ovacionava. Enquanto isso a banda apresentava a estridente goela do Facada na Garganta, anestesiada pelo uísque.
Ao término da apresentação, o público gritava e pedia bis, mas a banda estava impossibilitada de atender. Os guris foram retirados estrategicamente pelos seguranças. Voltaram dois dias depois, recolheram os instrumentos para conserto e passaram no caixa para receber.
Entenda-se que a banda teve inúmeras apresentações bem sucedidas. Aliás, esta foi muito bem sucedida na visão do público, não muito para os organizadores. Penso que poderiam seguir a carreira musical, não fosse a pressão social e familiar, afinal naqueles tempos, músicos eram tratados na margem social. Hoje os tempos são outros.
Nas andanças por Porto Alegre, encontrei o Renan, um dos integrantes, que hoje trabalha numa oficina mecânica na Oscar Pereira e deu notícias sobre o destino deles. Confirmou que aquela foi a primeira e última apresentação no Festival do Chope. Na sequência, os Arizonas ainda tocaram por três anos, fazendo a última aparição em público no Tristezense.


quarta-feira, 14 de março de 2012

O CIRCO DA VIDA

(foto arquivo pessoal)


Sábado, dez de Março, alterei a rotina de ir a cinema e fui ao Circo de Soleil. Sem dúvida, o maior espetáculo circense atualmente em apresentação no planeta. De minha parte, desconhecia a atração e, confesso, esperei demais. Como acredito que tudo foi dito e repetido sobre a magnitude das apresentações, esta crônica passa por cima do evento em si e narra um fato paralelo, acontecido fora dos bastidores. Espero que sirva aos amigos e leitores de todas as idades, podendo se enquadrar na pele de um ou de outros personagens, dependendo da disposição.

Comprei os ingressos com uma semana de antecedência, utilizando as benesses da fila dos idosos. Precavido quanto ao esgotamento antecipado das entradas, indicando grande fluxo de assistentes, no dia da apresentação cheguei adiantado cerca de uma hora e meia. Estava de olho no estacionamento público do Parkshopping em Brasília, local mais perto para deixar o carro, com segurança e excelente iluminação.

Após rodar por dez minutos, percebi que liberava uma vaga indicada a usuários acima de sessenta anos e parei, forçando também a parar o fluxo de veículos. No entanto, logo a minha frente, havia um Honda também posicionado, impedindo-me de manobrar e lamentei perder lugar tão confortável.

O carro desocupou a vaga e o outro entrou serelepe. Mas ao prestar atenção percebi, pela fisionomia e agilidade dos ocupantes, tratar-se de jovens estacionando em vaga especial. Perguntei a um vigilante do shopping, se notara alguém acima de sessenta anos no automóvel, mais para interceder por mim, poupando-me desgaste, do que ouvir a resposta. O profissional respondeu que não percebera ninguém, mas adivinhando minhas intenções, acrescentou nada poder fazer e explicou ser o estacionamento público, portanto administrado pelo DETRAN.

Os ocupantes do carro saíram às pressas, ficando apenas o motorista, jovem de uns trinta anos. Resolvi apelar para o bom senso dele e estabelecemos o diálogo abaixo relatado:

- Por favor, percebeu que estacionou numa vaga especial? – Afirmei calmamente.

- Sim, estacionei. - Respondeu o rapaz sem dar inflexão a voz.

- O senhor tem alguém com mais de sessenta anos no carro? – Questionei novamente, me sentindo mais confortável ao ouvir a resposta a primeira indagação.

- Não – falou agora sem paciência por estar sendo questionado diante de tanta gente e da fila de motoristas formada na expectativa de resolver o impasse rapidamente, para seguirem na saga da procura.

- Você tem uma autorização como esta? – Continuei, exibindo o cartão do DETRAN que me autoriza a usar vagas para usuários acima dos sessenta anos.

- Não. – Desta vez respondeu seco.

- Então, faça o favor - disse-lhe sem esperar outra reação a não ser retirar seu veículo, exigindo o cumprimento do escrito na enorme placa em frente a vaga onde estacionara seu automóvel.

Pensou um pouco, esboçou uma resposta ríspida, um movimento mais firme, mas esmoreceu.

- Vou tirar. – Bateu a porta com impaciência e saiu a procura de vaga cada vez mais escassa pela proximidade do espetáculo.

Coloquei o carro no lugar, em frente ao parkshopping, e o rapaz saiu para procurar outra com certeza mais distante. A juventude compensará a diferença de percurso a pé.

O espetáculo circense foi fabuloso, fora as duas vezes que saí para urinar no meio do espetáculo, incomodando a fileira de quem assistia sentado nas cadeiras entre a minha e o corredor de acesso ao banheiro.

Como tudo na vida, passar dos sessenta anos tem vantagens e desvantagens.

sexta-feira, 9 de março de 2012

APRENDIZ

(foto Google Imagens)


“Mãe estou grávida.” Em três palavras Kátia resumiu a resposta da vida ao descuido. A mãe parecia surda. Saiu da kitinete nos fundos da casa, onde a filha se alojava provisoriamente, sentou a beira da piscina e admirou as ondas azuis. Nuvens escuras e vento a farfalhar o coqueiro anunciavam tempestade. Recordou o próprio passado na terra natal, quando conheceu o pai da menina. Antes de casar, ela própria teve que decidir sobre fazer ou não dois abortos. A memória dos procedimentos a acompanham até hoje. O primeiro, forçado pela mãe, temerosa da falação de vizinhos e o segundo porque aprendera o caminho da clínica e temia as cintadas do pai. Logo depois, casou-se e teve duas filhas. Se por um lado Kátia foi criada cheia de vontades atendidas, por outro, experimentou das mesmas chibatadas da mãe. Com a gravidez da filha, Sônia confrontou-se com o passado e o peso das decisões adolescentes.

Os primeiros pingos da chuva começaram a cair e Sônia retornou vagarosamente a casa principal. Passou pela cozinha e engoliu um calmante. Na sala, Alfredo, o segundo marido interrompeu a leitura ao ver a mulher encharcada, aproximou-se e perguntou o motivo.

“Kátia está grávida”, falou Sônia, despejando a angústia interna. Alfredo fechou o livro sem demarcar as páginas. De cabeça baixa, a mulher desabou pesadamente na poltrona, recostou-se e fechou os olhos, como quem tenta dormir para depois acordar de um sonho. Antes de adormecer, ouviu a voz do marido que acentuou a última frase “para mim chega, manda tua filha embora daqui. Já deu trabalho demais”.

A tempestade chegara furiosa e os ventos bateram a janela do andar superior. Alfredo subiu as escadas devagar. Há muito perdera a agilidade da juventude, quando reformara a casa para construir os quartos no primeiro andar. As dores no joelho direito o irritavam e, somado a consciência do incômodo que a enteada representava desde a adolescência, faziam fervilhar os pensamentos. “Mas que menina rebelde, que vá morar na rua”, desabafou para si mesmo. Acendeu um cigarro e recolheu-se ao quarto.

A noite no inverno gaúcho chega mais cedo e encontra Sônia ainda dormindo na sala. O relógio do aparelho de DVD indica nove horas quando um trovão seco acorda a mulher que repara a casa as escuras, iluminada apenas por velas que fornecem luzes bamboleantes com sombras escuras.

A chuva passara. Sônia pega a lanterna e retorna ao quarto da filha, encontrando-a chorosa com o rosto enfiado no travesseiro “Você tem poucas alternativas. Uma é cogitar o aborto a outra é consultar o pai da criança e sair daqui hoje”. Kátia passou em revista o passado pleno de desmandos e malemolências que a mãe e Alfredo engoliram dela. Nada convencional e sim, atribulado, rebelde e inconsequente.

Decidiu ter a criança, mas desempregada há um ano, a primeira questão era como se sustentar. Pensou que talvez a solução fosse dividir as preocupações com o pai da criança que carrega no ventre. Após breve conversa, o rapaz a buscou para morar na casa dividida com a irmã, a mãe, dois sobrinhos e três filhos menores, sob sua guarda desde a separação da ex-mulher. A chegada de Kátia na pequena casa de três cômodos serviu para esquentar os ânimos e o conforto. O que era sofrível tornou-se insuportável e pleno de desentendimentos. Como era a única a não pertencer à família, sentiu que o namorado a deixava de lado e a solidão da convivência a isolou no quarto.

Quatro dias e Kátia liga ao pai, fala dos desentendimentos e da briga com o namorado. Estava na Delegacia da Mulher de Cruz Alta e pedia que a buscasse. A jovem estava deformada pela agressão e pediu que lhe levasse de volta a casa da mãe que, para recebê-la novamente, impôs inúmeras condições, aceitas sem restrições.

Ao chegar a casa de Sônia e após tocar a campainha, o diálogo entre os pais biológicos de Kátia foi sofrível. Aqui narro da forma mais fidedigna.

“Quem é?” pergunta a dona da casa”com voz impaciente.

“Kátia”! responde o pai da moça.

“Porque não ficou com ela?” Joga a mulher.

“Não tenho lugar para ela”. Responde, referindo-se ao apartamento de quarto e sala onde mora.

“Como assim, não tem lugar para ela?” A voz da mulher soa ameaçadora.

E o pai da moça explica “Não tenho lugar, ora”. Como se Sônia ignorasse a primeira resposta.

O pai balança a cabeça e exclama para si mesmo – “E ainda tenho que aguentar isto! Ainda tenho que aguentar isto!”

A porta principal se abre, Kátia se despede chorando e entra de cabeça baixa. Atrás dela a porta fecha com estrondo surdo.

Na falta de independência, manda quem dá as cartas e assim, Kátia abre mão, mais uma vez, das rédeas de sua vida e as entrega novamente a mãe, que a submete a regras duras. Apesar de contar trinta e cinco anos, continua despreparada para a vida. Necessita seguir em análise para compreender as tendências que a levam a se aproximar de namorados violentos que a excluem de sua vida com um só golpe. A idolatria inicial se transforma em aversão violenta.

Quando filhos inconseqüentes delegam suas vidas aos pais, ou por não saberem se cuidar ou por costume, a vida educa. Por outro lado, pais que poupam filhos de dissabores para economizar sofrimentos, lá na frente saberão que o ensinamento poupado faltará para o enfrentamento de desafios difíceis e se sentirão impotentes e engessados.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

LAURINDA E AS FILHAS

(foto Google Imagens)

No dia do casamento de Laurinda, na volta da igreja, o pai comentou ao ouvido da mulher, “tudo que nossa filha desejava na vida era casar e realizou”. E iniciou comentários irônicos e risadas até chegarem ao portão de casa. Ao descer do taxi, a mãe indignada falou já brava, “cala a boca, Carlos, nossa filha é santa, Fred foi o primeiro namorado.” O taxista assustou com o gargalhar frenético do pai.

Os noivos alugaram um apartamento de quarto e sala em um bairro longe do centro da cidade e o rapaz, chaveiro num quiosque no centro da cidade, a partir da mudança passou a chegar a casa diariamente com a cara cheia de cachaça surrando a mulher que, passivamente, aceitava o fardo por entender que se o marido a ajudara a realizar o sonho do casamento, deveria suportar calada as mazelas impostas. Enfrentava o bafo de bebida na hora do amor e os tapas provenientes dos ciúmes exagerados do marido com a benevolência dos mártires. Enquanto isto, remoía as palavras do pai às vésperas do casamento, que advertia “ filha, está cega ao comportamento do rapaz, é um beberrão”.

A rotina diária pesou para a professora. Além de afazeres domésticos, preparo da comida, lavação de roupas e arrumação da casa, trabalhava quarenta horas em escola pública da periferia. A noite se desmanchava de amores ao marido que chegava insatisfeito, bêbado.

Planejou o primeiro filho a partir do aniversário de um ano de casados, com esperança do marido amainar a irreverência.

A barriga crescia e a moça constatou que o marido detestava crianças, passando a gestação inteira ameaçada de abortar. Com a proximidade do nascimento, o dinheiro ficou escasso e mudaram para a casa dos pais onde o marido entendeu ser desaforo morar no quarto nos fundos do quintal e exigiu que os sogros mudassem para lá, liberando a casa ao casal.

A gravidez adiou a rotina de sofrimentos e o marido parou de beber por obra e graça do pastor Bené, amigo de uma vizinha, que diariamente os visitava e rezava por bom parto e felicidade do casal.

Laurinda deu a luz uma menina loira como a mãe, mas no décimo mês de nascida, apresentou retardo no desenvolvimento. Uma vizinha que a acompanhava desde o nascimento, aconselhou a família a consultar um médico o quanto antes o qual, após exames, indicou cirurgia cerebral urgente. Após a terceira operação na cabeça da criança, com intervalos de seis meses, o médico desalentado adiantou que não via solução. Diagnosticou paralisia cerebral e previu que viveria somente até adolescência. Naquela noite Laurinda trancou-se no quarto e chorou copiosamente. Não tinha como dividir a tristeza e refletir sobre o que passara e ainda viria pela frente com o marido beberrão e a filha naquele estado.

A menina crescia dependente da mãe e da avó que agora ajudava com afinco nos cuidados com a neta, que as requisitava dia e noite a medida que o peso aumentava e apareciam sinais da adolescência como a menstruação.

Desgostoso com a situação, quando soube que a mulher ficara grávida pela segunda vez, arrumou as malas, aplicou a última surra nela, deu as costas e desapareceu. No meio de um inverno rigoroso, nasceu a criança e, com a ajuda do pastor Bené e de doações da comunidade, teve fôlego para seguir sua vida.

O parto da segunda filha foi esperado com apreensão, logo tranqüilizado pelo pediatra que diagnosticou uma criança saudável. Esta criança aliviou a rotina da casa e a alegria voltou. Passaram a ouvir novamente o radinho de pilhas que a moça ganhara quando solteira e as mulheres dançavam durante a faxina na velha casa de madeira, toda carcomida pelos cupins.

Quando a pequenina estava com sete anos, as vésperas de Natal correu a acordar o avô que descansava da preparação dos enfeites da noite anterior, e o encontrou mole e gelado. O velho faleceu dormindo de ataque cardíaco fulminante. Seis meses depois, a avó, deprimida após a morte do marido, amanheceu com falta de ar e acabou morrendo de pneumonia, deixando Laurinda a cuidar sozinha das meninas.

O prognóstico do médico com relação à filha doente demonstrou ser completamente errado e ela sobreviveu até a vida adulta, quando em uma gelada manhã, a menina parou de respirar devido a deformação no tórax que apertou o pulmão até asfixiá-la.

Com a morte da filha deficiente, Laurinda passou a ver o mundo de outra forma e procurou a filha mais nova para conversar. Receava que a idade com suas mazelas a impossibilitassem de contar detalhes da vida. No primeiro dia de conversas, fez a moça sentar no sofá rasgado da sala de jantar e iniciou o relato dizendo que o verdadeiro pai dela não era o constado no registro de nascimento. “Fred após o nascimento de tua irmã retornou a beber e, em represália, parei de manter relações sexuais com ele e assim permanecemos até ele sair de casa.

A moça ouvia a mãe atentamente. Laurinda queixou-se da rotina, acrescentando que isto a fazia alimentar fantasias e permissões, única forma de suportar a situação. Acendeu-se nela um fogo interno que minou a resistência ao pastor Bené que os visitava para orações as sextas feiras. No início, Fred participava, mas passou a desprezar e, como chegava bêbado, caía na cama e os deixava a sós. “Aos poucos, ganhamos confiança nas bebedeiras e passamos a namorar no sofá da sala, este mesmo que você está sentada”. A mãe suspirou fundo “confesso que aos poucos fomos nos descuidando”. Foi a cozinha buscar água para as duas e continuou o relato. Em uma noite tempestuosa, que o marido desmaiara na cama e ela e o pastor amaram-se esquecidos após a oração, Fred levantou no meio da noite e surpreendeu-os nus e abraçados.

Na verdade, Laurinda pensava em separar, mas as coisas a partir daí tomaram outro rumo e o marido saiu de casa. Na surra de despedida quase perdeu a criança. “Bené e eu continuamos a encontrar semanalmente e, quando você nasceu, não pode te registrar por ser casado. Procurei um cartório no interior e expliquei que seu pai desaparecera logo que engravidei e queria te registrar. Consegui com facilidade, desembolsando certa quantia ao escrivão. É por isso que na certidão consta o nome de Fred.

“Atualmente, teu pai, é pároco na igreja da Quintino Bocaiúva, mas não quero que o procure”.

A filha nem ouviu o último comentário da mãe. Saiu porta afora disposta a conhecer o pastor. Ao chegar à igreja, mal disfarçava a inquietude e perguntou pelo pai ao pastor que molhava as plantas.

“Bené faleceu há dois meses, moça, teve um mal súbito ao discutir com um bêbado que o procurou durante o culto”.