A moderna tecnologia disponível apresenta um grau de eficiência sofrível. É comum acontecer de utilizar aparelhos de última geração e ter pífios resultados.
No ano passado, uma colega de trabalho, após anos de casamento sem filhos, resolveu tentar a inseminação artificial. Claro que consultou o marido, cansado dos falsos alarmes de gravidez, das tabelas de fecundação e das esdrúxulas posições na cama para tentar a concepção. Imediatamente ele aceitou, pois o que mais incomodava eram as brincadeiras dos amigos que o acusavam de mau reprodutor.
A cada tentativa, era coletada uma amostra do material e entregue ao médico. O profissional de saúde identificava os espermatozóides mais eficazes e plantava no útero da mulher. A partir daí iniciava a expectativa da fecundação. Cada coleta funcionava como novo ânimo ao casal, logo arrefecido pelos sucessivos fracassos. Psicoterapias, remédios contra ansiedades e depressões e voltavam ao consultório para nova tentativa.
Ao contrário do casal acima, algumas culturas encaram a falta de gestação com absoluta normalidade. Aboliram de vez a criação de filhos na convivência a dois, decidindo abster-se num contrato verbal como cláusula de casamento. Possuem algumas características comuns, ganham bons salários e são mais consumistas que os colegas com crianças. Incompreendidos, são considerados rabugentos pela opção de viverem livres de rebentos.
E o mercado de consumo visualiza este segmento como um filão. Existem condomínios residenciais, como na Escócia, que é permitida a entrada de crianças apenas para visitas. Candidatos a condôminos, com filhos, são personas non gratas. Imagine o leitor, as mulheres grávidas sendo convidadas a sair do conjunto habitacional, a partir do nascimento dos bebês. “Senhoras, crianças são muito barulhentas”, dirá o síndico.
Na Europa a carência de herdeiros, transformou-se em problema sério. A Itália detém a menor taxa de fecundidade e o governo se obriga a premiar os casais com 1 500 dólares por criança nascida.
No Brasil, a média de filhos por mulher é 2,3. Acima, portanto, da taxa de reposição da população, que é 2,1. Mesmo assim, nos últimos doze anos, o número de casais brasileiros que optaram por abolir a gravidez, dobrou. De 1 milhão passou para 2 milhões. Por estes dados, chego a pensar que a inseminação artificial é um procedimento em extinção.
Custo a conceber o mundo vazio de seres humanos. O planeta solitário a gerar alimentos ficaria desconexo. Frutificar maçãs, laranjas e bananas para caírem podres do pé por falta de consumo é demais.
Povoar a terra é a função primeira da humanidade. Casais devem se organizar e repensar sobre a reprodução. Evitar a gravidez por dificuldades financeiras é desculpa esfarrapada. As gerações passadas tinham dez, doze filhos e todos tinham seu canto na mesa.
O Brasil é um pais enorme, necessitado de grande população para explorá-lo. Quando leio matérias sobre a falta de mão de obra na indústria, indicando importação de gente, me desassossego. Fico a pensar como isto é possível num país de altas taxas de nascimento.
Levantemos a bandeira da multiplicação. É saudável, desestressa e baixa a pressão alta, segundo o Ministério da Saúde.
E o melhor, eliminem a tecnologia para substituir o ato. Ao vivo com certeza é mais prazeroso.
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
A situação que se apresenta no Rio de Janeiro com a ocupação dos morros pela união da capacidade bélica do estado, é dramática. A Cidade Maravilhosa, plena de encantos mil, transformou-se na faixa de Gaza brasileira. Na versão tupiniquim, de um lado os bandidos organizados há décadas, tomaram as funções do estado usando o tráfico de drogas. De outro as forças de coalizão, formadas pelas Policia Militar, Civil, Exército e Segurança Nacional, na reconquista do controle e devolução aos moradores dos bens que perderam: a paz, a harmonia e a segurança para ir e vir.
É a união do estado federativo contra o crime organizado. Pelo relato nas reportagens e entrevistas, os traficantes eram comandados por esquema bem articulado, vindo dos presídios. Os chefões do narcotráfico carioca, Marcinho VP e Elias Maluco, mesmo presos, obrigavam os comandados do segundo escalão a impetrar inúmeras ações terroristas. Ônibus eram incendiados, lojas saqueadas e a população indefesa permanecia entre o fogo cruzado.
Neste momento, desarticular os bandidos é a principal meta das forças do estado. Primeiramente, há necessidade de neutralizar a disseminação das ordens dos chefões presos, desarticulando o trabalho dos chamados pombos-correios, fiéis escudeiros que levam as orientações dos presídios aos morros. Urge o afastamento dos cabeças presos e das visitas que levavam as ordens e traziam as informações dos súditos.
Assim foi decidido pelos articuladores das forças do governo. Enviaram os mandantes aos presídios de segurança máxima. Localizados em outros estados, estes centros de reclusão possuem bloqueio de celulares e isolamento de convívio, forma legal de neutralizar estes homens que nada tem a perder. Muitos são condenados a amargar dezenas de anos cumprindo penas em regime fechado.
Para desarticular os formigueiros que ameaçam o gramado de minha casa, bato veneno nos buracos de entrada. As formigas, outrora organizadas e ordeiras, seguindo uma linha reta para cortar as folhas e carregá-las para dentro da toca, fogem desarvoradas, sem plano de fuga. A preservação da espécie é o que mais conta. Lembrei disto ao assistir a correria dos bandidos. Quando as forças de coalizão do estado, com método e treinamento, dispararam o plano de ataque, a desorganização da bandidagem ficou clara. Um dos cuidados no ataque foi com relação a reposição de munição. Ao fecharem as entradas e subidas dos morros, os homens do estado garantiram a falta de armamento aos entocados bandidos. Sem chance de recarregarem as armas, sem energia elétrica, cortada após o cerco inicial e com dificuldades até para alimentação, debandaram em fuga ao alto do morro. Antes articulados, morando em casas luxuosas, com piscina e banheira de hidromassagem, abandonaram tudo correndo para fugir do confronto.
A desorganização dos bandidos contrasta com a ordem dos soldados das forças de coalizão. Ocupando o território e montando as UPPs, Unidades de Polícia Pacificadora, o estado garante ordem aos morros. Desmontar a ocupação dos morros pela bandidagem, desarticulando-os, desordenando suas bases, está garantida a chegada das bases de governo. Com educação, saúde e policiamento social, inicia-se o atendimento aos moradores, função primeira do estado de direito.
O governo prova que, articulado, ganha o respeito da população. O êxito das ações arregimenta o respeito e os moradores em troca, confiando na erradicação do tráfico, oferecem apoio logístico valioso.
Prova disto é a mãe que entregou o filho traficante, o Mister M, a polícia. Foi uma contribuição espontânea com o corte na própria carne para a limpeza do lugar.
A organização das polícias desordena os traficantes. O que antes era a dominação pela força e intimidação, gerando o pânico e uma falsa ordem, está sendo substituída pela organização do estado.
Com a erradicação da bandidagem, o estado tem chance de organizar os morros cariocas. Ninguém esquece que o Rio de janeiro é uma Cidade Maravilhosa.
É a união do estado federativo contra o crime organizado. Pelo relato nas reportagens e entrevistas, os traficantes eram comandados por esquema bem articulado, vindo dos presídios. Os chefões do narcotráfico carioca, Marcinho VP e Elias Maluco, mesmo presos, obrigavam os comandados do segundo escalão a impetrar inúmeras ações terroristas. Ônibus eram incendiados, lojas saqueadas e a população indefesa permanecia entre o fogo cruzado.
Neste momento, desarticular os bandidos é a principal meta das forças do estado. Primeiramente, há necessidade de neutralizar a disseminação das ordens dos chefões presos, desarticulando o trabalho dos chamados pombos-correios, fiéis escudeiros que levam as orientações dos presídios aos morros. Urge o afastamento dos cabeças presos e das visitas que levavam as ordens e traziam as informações dos súditos.
Assim foi decidido pelos articuladores das forças do governo. Enviaram os mandantes aos presídios de segurança máxima. Localizados em outros estados, estes centros de reclusão possuem bloqueio de celulares e isolamento de convívio, forma legal de neutralizar estes homens que nada tem a perder. Muitos são condenados a amargar dezenas de anos cumprindo penas em regime fechado.
Para desarticular os formigueiros que ameaçam o gramado de minha casa, bato veneno nos buracos de entrada. As formigas, outrora organizadas e ordeiras, seguindo uma linha reta para cortar as folhas e carregá-las para dentro da toca, fogem desarvoradas, sem plano de fuga. A preservação da espécie é o que mais conta. Lembrei disto ao assistir a correria dos bandidos. Quando as forças de coalizão do estado, com método e treinamento, dispararam o plano de ataque, a desorganização da bandidagem ficou clara. Um dos cuidados no ataque foi com relação a reposição de munição. Ao fecharem as entradas e subidas dos morros, os homens do estado garantiram a falta de armamento aos entocados bandidos. Sem chance de recarregarem as armas, sem energia elétrica, cortada após o cerco inicial e com dificuldades até para alimentação, debandaram em fuga ao alto do morro. Antes articulados, morando em casas luxuosas, com piscina e banheira de hidromassagem, abandonaram tudo correndo para fugir do confronto.
A desorganização dos bandidos contrasta com a ordem dos soldados das forças de coalizão. Ocupando o território e montando as UPPs, Unidades de Polícia Pacificadora, o estado garante ordem aos morros. Desmontar a ocupação dos morros pela bandidagem, desarticulando-os, desordenando suas bases, está garantida a chegada das bases de governo. Com educação, saúde e policiamento social, inicia-se o atendimento aos moradores, função primeira do estado de direito.
O governo prova que, articulado, ganha o respeito da população. O êxito das ações arregimenta o respeito e os moradores em troca, confiando na erradicação do tráfico, oferecem apoio logístico valioso.
Prova disto é a mãe que entregou o filho traficante, o Mister M, a polícia. Foi uma contribuição espontânea com o corte na própria carne para a limpeza do lugar.
A organização das polícias desordena os traficantes. O que antes era a dominação pela força e intimidação, gerando o pânico e uma falsa ordem, está sendo substituída pela organização do estado.
Com a erradicação da bandidagem, o estado tem chance de organizar os morros cariocas. Ninguém esquece que o Rio de janeiro é uma Cidade Maravilhosa.
sábado, 27 de novembro de 2010
ETERNO RECOMEÇO

Pais são os mais incomodados durante a fase da adolescência. Em determinado dia, ao se depararem com os filhos trancados no quarto, os taxam de chatos. Quando ouvem os rebentos sair para os primeiros vôos solos, acusam-nos de brigões. Pois é, vale o ditado dos avós: quem casa e tem filhos ganhou o pacote completo, encrenca e problemas para o resto da vida.
O pior é que as pesquisas não mentem: a adolescência se prolonga podendo passar dos 20 anos. É comum encontrar jovens adultos beirando os 30 anos, solteiros, morando com os pais. Afinal, a casa tem comida e roupa lavada. No máximo, se trabalham, colaboram na conta de luz, água ou condomínio.
Mas nem tudo está perdido. Graças ao ímpeto de crescimento e busca de independência de alguns jovens o mundo cresce, a vida acontece e as mudanças ocorrem. O risco faz parte do crescimento. E quem desconhece o mundo da insegurança, não vence o medo do incerto. A situação de conforto remete a mesmice e a satisfação ilusória que tudo está bom. Enfrentar o novo é característica dos jovens e ninguém tem o direito de privá-los disto. Os mais velhos se acomodam e temem o desafio da mudança. Perdem o melhor da festa que pode acontecer em outro lugar.
Será que manter o filho em casa, dilatando a adolescência, suprindo as necessidades, não os engessa para a vida e enfraquece o élan da luta?
Estive em Itacaré, no feriadão de outubro, onde convivi tanto com nativos baianos, quanto com emigrantes. Gente de outras cidades que largaram o conforto e seguiram em busca do novo. Ouvi depoimentos ricos em experiência de vida. Como o caso de um jovem de cerca de 35 anos, o Paulo de Tarso, casado e com um filho. Afirmou que na capital paulista vivia hipertenso, a mulher com síndrome do pânico e o filho de apenas cinco anos, na frente do videogame, com medo das ruas. Garantiu que em dois anos na cidade baiana abandonou os remédios para pressão alta, a mulher acabou com os problemas psicológicos e o filho passa o dia andando de bicicleta nas vias da cidade.
Outro caso é o de uma mulher com aproximadamente trinta anos, também casada, ex-gerente de banco na Avenida Paulista. A moça largou o cargo, o alto salário e mudou-se para Itacaré. Montou loja de artesanato e jura que a qualidade de vida melhorou sensivelmente. Confessou ganhar menos, mas viver melhor, pois os gastos na cidade interiorana são irrisórios.
Por outro lado, não encontrei na cidade ninguém com mais de 50 anos que tenha tomado decisão tão radical. A não ser aposentados com recurso financeiro e remuneração para garantir o conforto. Buscar novidades e lutar pela sobrevivência são verbos inerentes a juventude.
Mas creiam, em alguns aspectos, as coisas podem estar mudando. Na aposentadoria o ganha-pão está garantido e a busca, diferentemente dos jovens, é por outros atrativos. É comum a troca de modelo de roupa, de corte de cabelo, de cidade e até de parceiros.
Já perdi a conta de quantos amigos mudaram suas vidas Outro dia, recebi um convite de casamento da ex-mulher do Abílio. Uniu-se a outro companheiro acabando o casamento de quarenta anos com meu amigo de faculdade.
Será a Rumspringa da terceira idade?
OBS.: Rumspringa se refere a um período da adolescência; uma subseção do movimento anabatista cristão, que começa aproximadamente aos dezesseis anos de idade e termina quando o jovem escolhe a companheira para casar.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
VOAR É PARA OS PASSAROS

Morador de Brasília há trinta anos, acompanho com preocupação a frota de automóveis crescer assustadoramente. Dia destes, ao visitar meu filho em Águas Claras testemunhei, em plena sexta-feira, enorme engarrafamento que se iniciava no Setor de Indústrias e Abastecimento e ia até o viaduto de acesso àquele bairro. Foram cerca de uma hora e meia para percorrer míseros dez quilômetros.
Naquele dia percebi porque as grandes capitais detém um crescente número de helicópteros. São Paulo centraliza um dos maiores tráfegos destes veículos. A cidade não pode parar. Os negócios muito menos. São 582 aparelhos. É o terceiro maior tráfego do mundo, atrás apenas de Nova York e Tókio. Um negócio em crescimento e com boas perspectivas de expansão para outras cidades, como por exemplo, Brasília.
Na Capital Federal, até setembro de 2010, estavam computados 59 aparelhos, nove a mais do que os registrados no ano passado. Um expressivo crescimento de dezoito por cento comparados a 2009. Ocupa o quarto lugar em número de aparelhos. Atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte com 582, 320 e 153 aparelhos, respectivamente.
Com o carro se arrastando em meio ao engarrafamento seguíamos numa eterna primeira e segunda marcha pela Estrada Parque Taguatinga. Imaginei a mesma quantidade de helicópteros de São Paulo a voar nos ares de Brasília. É bem verdade que acontecem acidentes com estas máquinas, mas nem de longe comparável com os de automóveis. Ainda vale o velho chavão de que o avião ainda é o meio de transporte mais seguro. E a aceitação como meio de transporte está em crescimento.
As vantagens parecem incomparáveis. No centro-oeste brasileiro, onde se registra o maior crescimento no uso destes aparelhos, existe um movimento de fazendeiros e empresários trocando seus aviões de pequeno porte por helicópteros. Alegam principalmente a excelente mobilidade, tanto local, entre pequenas cidades, como o alcance aos grandes centros. Para pousos e decolagens é necessário apenas um quadrilátero de míseros vinte metros de lado. Ínfimo, se comparado a necessidade de pista para avião convencional, mesmo de pequeno porte.
Mas a população em geral enfrenta o alto custo o que limita o alavancar das vendas. Uma aeronave usada, ano e modelo 2000, pode custar a bagatela de um milhão e oitocentos mil dólares. Cifra indisponível para a grande maioria dos brasileiros. Os mais otimistas afirmam que o consumo em alta, tende a derrubar os preços e o acesso a estes aparelhos aumentará. Doce ilusão.
Quando isto acontecer, vejo inúmeros problemas que deverão ser solucionados. À medida que o preço chegar ao bolso do consumidor comum e as vendas aumentarem, os órgãos competentes terão que criar áreas para estacionamento. No ar será a solução para o engarrafamento das metrópoles. Não dependerão de vias para trafegar, mudando de trajetória e pronto. Mas em solo, o espaço necessário para pouso e decolagem, nas fazendas a grande vantagem, nos grandes centros são problemas sérios a serem enfrentados. Muito maior que o ocupado pelo automóvel.
Ainda não será solução para minimizar os engarrafamentos, a não ser para alguns poucos. Com certeza, sua fabricação e comercialização em alta escala, poderá causar problemas maiores que o automóvel. Exigirá controle ferrenho do espaço aéreo, pois fatalmente acontecerão cortadas, fechadas e ultrapassagens fora da via aérea.
Em caso de acidentes, as conseqüências sempre serão sérias. O tão conhecido abalroamento, reclamado hoje pelos motoristas, que ocasiona danos materiais, será substituído por quedas catastróficas nas ruas.
Como tenho medo de avião, continuarei a rodar com meu velho Santana. Prefiro percorrer os dez quilômetros na hora e meia entre o Setor de Indústrias e Abastecimento até Águas Claras. Afinal, foi um excelente exercício de controle.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
A SERVA DO HOMEM
O mundo anda complexo e as pessoas, centradas em si mesmas, clamam ajuda para entender a vida. As religiões representam uma resposta às ansiedades da alma e tentam aplacar as inquietações. Na cultura oriental há definições filosóficas surpreendentes. A verdade ninguém tem, como dizia meu avô, quem foi não voltou para dizer como é.Entender a relação do corpo com a alma é complexo. Sobre a destinação do corpo físico, o entendimento é que após a morte, ele desaparece num processo lento de decomposição. No entanto, a alma continua um mistério, mesmo sendo perene para a maioria das religiões.
A mídia cultua o prazer do corpo, apresentando símbolos que trariam felicidade, como carrões, jóias, roupas de marca e diversão com hora marcada. Alguns destes, inalcançáveis para a maioria.
Outro dia reuni amigos em casa e alguém afirmou que ao fazer algo ruim, presta-se contas e paga-se aqui mesmo. Sobre o tema desapego houve unanimidade, a maioria confessou não abrir mão de nada. Falei-lhes que Isaura seria exceção a regra.
Isaura Lívia Lopes é uma mulher de 76 anos. Chegou à capital federal em 1992, no final do conturbado mandato do presidente Collor e fixou-se na casa de parentes em Valparaizo. Vinha da jornada de inúmeras viagens pelo Brasil onde conhece estados de norte a sul. Viajando de avião ou ônibus, conheceu todas as capitais do Brasil, faltando apenas os territórios. Hoje mora no aeroporto JK há pelo menos 5 dos dezesseis anos que por lá transita.
Não casou e considera dádiva de Deus não ter filhos. Assim pode pregar a religião e morar onde preferir, sem interferências. O supervisor de segurança do aeroporto, Luis Gonzaga, afirmou que Isaura é protegida. Mora no coração de todos e é a palavra dela que acalma os ânimos dos passageiros quando há atrasos nos vôos.
Como ela evoca a palavra de Deus, Gonzaga admitiu ser este o fato de ser intocada. Quem de sã consciência mexeria em alguém amparada por tal força?
Aposentada do INSS, Isaura ganha um salário mínimo. Não tem problemas de alimentação, faz as refeições nas lanchonetes do terminal de passageiros. Tem sempre algo a dizer aos empregados do comércio local, atuação que lembra a de consultora espiritual. Assisti-a entregar um bilhete a funcionária de uma lanchonete com mensagens de otimismo e bem viver, amparada em versículos da Bíblia. Fala um bom português, escreve e lê fluentemente, apesar de se declarar surda há quarenta anos.
O desapego desta mulher é surpreendente. Dorme em bancos duros do aeroporto e não reclama. O bem maior é a pequena sacola de papel com roupas e miudezas, que leva para lá e para cá num carrinho de bagagens.
Confidenciou que foi noiva de enxoval e tudo e pediu para não entrar em detalhes.
Ao buscar explicação na filosofia indiana para a vida de Isaura, afirma-se que a situação atual dela a coloca no âmago do ciclo concêntrico da existência. Após passar por vários lugares pregando o que considera ser a verdade, este desapego aos bens materiais e a fixação num local como o aeroporto, com gente que chega e sai o dia inteiro, a aproxima do centro da vida, onde está localizada a purificação do ser.
A reunião em minha casa terminou em silêncio. Ninguém arriscou entender Isaura e seu procedimento. Alguns aceitaram a ótica da evolução da vida nas fases difíceis e outras a interpretaram como desequilibrada.
Todos emudeceram, afinal, como julgar alguém que vive assim com Ele e de quem se diz serva.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
JK É A LENDA

A realidade inúmeras vezes mescla com a fantasia e ambas se confundem num vai e vem entre o passado e o presente. Mitos da Antiguidade remetem aos dias de hoje, espelhando acontecimentos do dia a dia. Alguns cruéis, outros edificantes. As narrações épicas de Brasília se assemelham aos da história antiga. Algumas podem até ser inverossímeis, de qualquer forma amplamente divulgadas pela imprensa.
Ao consultar a vasta documentação disponível sobre Brasília, dá para acreditar que a escolha de Juscelino Kubitschek de Oliveira obedeceu critérios místicos. Pode-se comparar à lenda do Rei Artur, monarca que ocupou o trono da Inglaterra e viveu, caso tenha existido, entre os séculos V e VI d.C. A história antiga fala da espada enterrada numa pedra e a participação do mago Merlin.
(foto: fonte internet)
Nossa história, para início de conversa, começou com uma tragédia. O suicídio do presidente Getúlio Vargas em agosto de 1954. Ninguém acreditava na candidatura de JK. Os militares não o apoiavam. Desconfiavam isto sim, que o político mineiro teria apoio dos comunistas o que bastava para provocar arrepios na caserna. Ignoravam que o mineiro fora escolhido por entidades místicas, além de obra do destino.
A sequência de acontecimentos concorreria para a consolidação da vitória. Quem sabe até por obra de Merlin. O mago inglês definiu o método de encontrar o rei Artur entre os melhores guerreiros do reino, cravando uma espada encravada na pedra. O fato é que na corrida presidencial brasileira, em 1955, apareceu um candidato alternativo, Plínio Salgado. Pela postura, arrebanhou enorme quantidade de votos de Juarez Távora, forte opositor ao carismático JK. Os votos transferidos a Salgado facilitou a vitória do político mineiro. “A raposa pessedista”, faturou as eleições com o menor percentual de votos válidos da história do Brasil, míseros 36%. Propiciou assim a um cigano chegar à presidência do Brasil. Foi o primeiro e único do mundo.
Mas a sequencia de fatos necessários para Brasília acontecer, não estava completa. A construção da nova capital constava nas Constituições desde 1891, mas a efetivação era adiada continuamente pelos governantes. Parecia mais uma das leis previstas e não realizadas no país.
O destino arranjou as coisas. Após eleito, JK foi cobrado em público sobre a obra colossal. No comício datado de 4 de abril de 1955, em Jataí, Goiás, Antonio Soares Neto, o Toniquinho, questionou-o sobre o item da Constituição que falava sobre a construção da capital. Juscelino comprometeu-se em público. Em fevereiro de 1957, iniciaram-se as obras e em 41 meses, Brasília foi inaugurada para a incredulidade dos céticos.
O mago Merlin é fruto da imaginação inglesa, mas Juscelino valia-se do seu, bem real, de carne e osso. Consultava seguidamente o médium Chico Xavier. Pedia orientações à entidade mediúnica sobre os muitos problemas enfrentados durante a construção da capital.
Da mesma forma que os bispos católicos questionavam a proximidade do bruxo Merlin da realeza na versão inglesa da lenda do rei Arthur, a alta cúpula da igreja se perguntava o que fazia Juscelino ouvir o representante do espiritismo.
Não me espantaria se em solo goiano estivesse encravada uma espada. O predestinado JK desencravou-a e cumpriu a lenda da versão brasileira. A capital é hoje considerada uma das obras mais importantes da arquitetura e do urbanismo contemporâneos. E Juscelino Kubitschek, a lenda.
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