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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

ENCONTROS PELOS ARES

(Google Imagens)
A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida
Vinicius de Moraes

— Poderia me dizer que fila é essa?
Recém o alto falante chamara seu voo e estava atordoado com o barulho dos passageiros procurando as filas. Voltou-se e percebeu a jovem mulher sorridente. Por breves instantes, apenas sorriram. O burburinho vindo era ensurdecedor. Aproximou o rosto para ouvir melhor. O hálito da mulher era agradável, a voz macia, a respiração cadenciada. Haviam três filas enormes. Como na dele estava só, imaginou que errara.
— Para ser sincero, não sei. Entrei na outra fila e a moça da companhia aérea apontou para cá. Vai ver pensa que sou político brasileiro — Riram amistosamente. Comentaram sobre as dez horas de voo que enfrentariam até o destino e sobre como a Europa é pequena para tantas línguas.
Quando a atendente abriu a corda e os mandou entrar, as filas iniciaram um movimento lento e tumultuado com a conferencia de passaportes e bilhetes aéreos dos cerca de 600 passageiros.
Antes que se perdessem de vista, o homem gritou para a mulher:
— Ei! Se tiver poltrona vaga ao seu lado, avisa. Assim, vamos conversando e o voo fica curto — A mulher riu e fez sinal com o polegar para cima.
Dentro da aeronave, localizou a poltrona e arrumou a bagagem no guarda-volumes. Preferia comprar o banco de corredor para transitar. Os passageiros chegavam e assumiam as poltronas e os compartimentos guarda-volumes. O banco na janela, permanecia vazio. Percebeu alguém a acenar. Era a mulher da fila. Respondeu ao aceno. Estava cinco bancos a sua frente, na fileira do meio.
— Senhores passageiros, embarque encerrado. Iniciamos procedimentos de portas.
Perguntou à Comissária se poderia convidar a amiga a ocupar a poltrona. Recebeu o consentimento e, ao sinal, a mulher pegou a bagagem de mão e sentou-se ao lado. O avião taxiou lentamente, iniciou a corrida para a decolagem e o continente europeu, em segundos, ficava distante.
— Estava em visita a minha filha em Portugal. Ela passa por problemas. É a primeira vez que mora fora de casa. Com minha visita, percebi melhora — disse a mulher.
Nesse desabafo, notou que era mais bonita do que quando a havia visto no saguão de embarque. A inquietude com a filha, a fez séria. O homem comentou o quanto é difícil para as mães ter filho longe
— As mães custam a cortar o cordão umbilical. Na maioria das vezes, nem conseguem esse feito. Já os pais, são mais realistas. Os filhos precisam disso.
O avião seguia roncando as turbinas rumo ao destino. Vez por outra,  turbulências desconfortáveis aconteciam, pouco percebidas, pois a conversa seguia.
— Quando separei, meu marido desapareceu e tive que lutar sozinha para o sustento e conforto de meu casal de filhos — ficou em silêncio alguns instantes e acrescentou — não sei porque conto detalhes de minha vida, afinal você é um estranho.
— Será que o encontro entre pessoas é um acaso da vida ou existe uma administração a coordenar e facilitar as relações? — Perguntou o homem
— Não sei. Outro dia minha filha e eu íamos de Lisboa para Paris e a companhia aérea colocou tanta dificuldade na troca de poltrona para sentarmos juntas que desisti. Mas hoje foi facílimo. Vá entender.
Eram vinte e uma horas. O serviço de jantar foi iniciado. Durante a refeição, pediram uma taça de vinho tinto e após, outra para fechar a janta. O leve bem-estar, logo se fez sentir entre eles e a conversa passou a rolar solta. Falaram sobre a diferença de qualidade dos vinhos europeus e, principalmente, dos preços. A partir daí, a conversa seguiu pelo emocional.
— Faz tempo que não tenho namorado. Minha criação foi muito rígida e tenho dificuldade com os sentimentos. A relação com meu ex-marido não deixou saudade. Nunca mais nos vimos e nunca procurou os filhos.
— Uma relação que durou o tempo necessário e deu o fruto que tinha que dar. Dois filhos. E pelo jeito que fala deles, tenho certeza que os curte muito.
— É verdade.
O resíduo do jantar foi recolhido e as luzes apagadas para os passageiros dormirem. Entre eles, a penumbra serviu para aproximar melhor. Faltava sono.
— As vezes sinto falta de um companheiro. Principalmente para trocar ideias com relação aos filhos.
— O casamento, aliás, a relação com alguém faz falta e contribui para o crescimento de cada um. — Após breve silêncio, falou baixinho no ouvido da mulher — Está esfriando.
Abriram os cobertores e se taparam para enfrentar a longa noite de travessia do Atlântico.
— Vamos juntar os dois cobertores para esquentar melhor?
— Ok! Vou subir esse apoio de braço que machuca minhas costelas —respondeu o homem.
Riram e a mulher comentou que o sorriso do homem denotava sinceridade. Admitiu desconhecer porque, mas havia contado muita coisa de sua vida que nunca contara a ninguém.
Com a proximidade, encostaram-se e o aquecimento fez bem aos dois. O frio pedia mais agasalho, mas sentados lado a lado, cobertos com dois cobertores, amenizou. Os passageiros se preparavam para dormir. O silêncio confortável entre os dois, era um convite para aproximação.
O avião deu um solavanco e iniciou pequenos tremores para um lado e outro.  Ao anúncio de colocar cintos do comandante, a mulher ajudou o homem a apertar a fivela e nesse movimento as mãos tocaram e percebeu as mãos dela frias e suadas.
Levou as mãos por baixo das cobertas e segurou as da mulher. Ela sorriu e mirou o homem nos olhos. Encostou a cabeça no ombro dele e sentiu conforto.
Permaneceram em silêncio, o tempo necessário para solidificar a relação que rapidamente se fortalecia com a empatia necessária a seguir em frente.
Nos próximos trinta minutos o avião foi jogado com força para os lados e para cima e para baixo. Muitas pessoas, de olhos arregalados, se olhavam apreensivas. Os dois, apoiados entre si, não pareciam perceber o movimento inseguro do aparelho.
— A vida é feita de momentos. Quem viveu aquele momento, viveu, quem se escondeu, perdeu.
— Verdade — concordou a mulher.
De cabeça apoiada no ombro do homem a mulher pensava quem seria esse estranho que tamanho conforto inspirava, tanto física quanto espiritualmente.
— Um menino viajava de avião sozinho, brincando com um quebra-cabeça e observado por um padre sentado ao seu lado — comentou a mulher — repentinamente o avião entrou em meio a violenta tempestade e iniciou a dar saltos e perder altura. Se ouvia o rugido do motor sofrendo para recuperar a altitude perdida, sendo jogado para todos os lados. O padre percebeu que o menino continuava brincando e perguntou se não estava com medo. O menino respondeu que não. O padre insistiu dizendo que o avião passava por violenta tempestade e que os demais passageiros estavam gritando de pavor ao que o menino, parou de brincar e olhou para o padre, “como poderia estar com medo se o piloto é  meu pai?”
Os dois se olharam e riram, imersos na proteção momentânea que representavam um ao outro. Perceberam os passageiros da frente com olhares de reprovação. Queriam sinais de apreensão, cúmplices daquela situação desconfortável que passavam.
Assim como o desconforto iniciou, o avião deu forte sacolejada e estabilizou novamente, como se os buracos da estrada houvessem acabado. Apagaram os anúncios de apertar cintos e o comandante acalmou os passageiros com sua voz profissional, dizendo que os cintos poderiam ser afrouxados e falou que o lanche seria servido.
— Estamos chegando — disse o homem mirando o mapa de voo na tela em frente a sua poltrona. Logo estaremos em solo novamente. Nunca fiz uma viagem mais tranquila que essa.
— Eu também — falou a mulher olhando para o companheiro de viagem.
— Pudera, o piloto era meu pai —acrescentou o homem.
Afirmação que lhes rendeu boas gargalhadas.
Ficaram sérios novamente. O avião aterrissou suavemente e taxiou até a esteira.
— Vamos nos despedir aqui? Vou te dar esse livro que estou lendo de Milan Kundera. É muito bom — A mulher agradeceu e deu um beijo na face do homem.
— Quem sabe um dia faremos um novo voo juntos? Disse o homem. Na saída, perdeu-a de vista ao procurar o passaporte. 
E desceram em separado, cumprindo o destino de companheiros de viagem. Na conferência de passaportes, lembrou que só sabia o nome da mulher, não trocaram nenhum outro dado. Tentou voltar, mas um fiscal impediu colocando a mão em seu peito. Esperou para ver se já havia passado.
— Taxi! — alertou um motorista, pegando sua bagagem.
Mecanicamente, dirigiu-se ao carro, seguindo o homem. Antes de entrar no automóvel, deu uma olhada para a porta do desembarque internacional.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

RECADOS

Fonte Google Imagens
Seis horas, manhã fria em Porto Alegre, o despertador me arrebata do pesadelo de ser encurralado por monstros em caverna escura e irrespirável. A fresta da janela sopra soprava o vento minuano.
Debaixo das cobertas, tudo parecia normal. O choque foi quando descobri os braços e senti a atmosfera fria. O nariz gelado e entupido indicava gripe a caminho. Levanto com preguiça. Em finais de julho o inverno no sul é o maior castigo de quem trabalha cedo. Abro a torneira, água quase congelada. Finjo lavar o rosto. Separo cerolões, camiseta, camisa, pulôver de lã, cachecol, capote e, como chovesse, por cima de tudo coloquei capa impermeável de gabardina. As galochas, calcei na porta e, parecendo E.T., saio a rua. Pesava quase 30 quilos de excesso.
Na parada do ônibus, o mal-estar piorou e soltei um espirrei. O coletivo aponta na curva de descida da Pedra Redonda. Avalio mais ou menos o local que abrirá a porta, posicionei e, quando para, salto dentro. O calor é aconchegante. Alguém solta espirro escandaloso no corredor.
Sentia-me febril. “vou matar o trabalho”, pensei, “recolho hoje e, amanhã, estarei pronto para o batente”.
Decidido, fiz sinal e desci na parada de tia Tereza. Ela teria medicação caseira. Salvadora da família e vizinhança, cultivava no quintal chazinhos, folhas, arbustos, cascas, sementes, o necessário para curar qualquer coisa.
Além disso, tia Tereza tinha telefone, coisa rara naqueles tempos. Ligo ao chefe. 
— Construtora Martins, as suas ordens – respondem do outro lado da linha. Reconheci a voz do colega de trabalho.
— Alcides, Paulo. — Espero o tempo de reconhecer a voz. — pode dar um recado para o Dr. Benjamim?
—Claro, fale — disse, solicito. Alcides era o único que não poderia atender meu telefonema. Tento explicar o mais claro possível.
—Diga que não vou trabalhar. Cheguei a sair de casa e tomar o ônibus. Mas a indisposição venceu. Estou com febre, calafrios, acredito ser resfriado. Agora estou em casa da tia curandeira que prepara chá de erva santa milagrosa. Após beber, volto a minha casa. Amanhã, estarei inteiro.
—Beleza Paulo — silêncio — fique tranquilo. Darei o recado direitinho.
No dia seguinte, chego disposto ao trabalho.
De porta aberta, me esperava Dr. Benjamim, que fez sinal para ir a sala de reuniões. Foi abrir a porta e iniciar o sermão.
—Muito bem, Sr. Paulo – disse com cara de mofo – então foi tomar chá com a titia e não pode trabalhar. Teve bolo de milho e bolachinhas? — Acrescentou irônico, sem defesa.— Pois saiba, terás descontado o dia.
E saiu porta afora. Mal ouvi o que falou. Preparava o retorno com Alcides, repassador de recados de meia tigela.

domingo, 29 de julho de 2018

NOTICIAS

(Foto Google Imagens)
Era uma carta. Simples. porém teve um poder de meteoro em minha vida. O carteiro chegou, o cachorro latiu insistente como sempre. Perguntei da janela para quem era, só ouvi "registrada". Fiz sinal que esperasse  vestir a capa. Chovia forte quando saí a rua.
Esperava noticias há cerca de dois meses e a carta representava muito para mim. Enquanto me dirigia a frente da casa onde se localizava a caixa de correios, me perguntei o motivo que a teria feito ir embora. Não recordava. Teria outro?
— Precisa ir embora? — perguntei com um nó na garganta.
Nada respondeu e fiquei no apartamento sozinho. Lembro que anoiteceu rapidamente e, sentado no escuro, pensava nos acontecimentos daquele dia, pouco antes dela chegar e anunciar a decisão de ir embora.
Estávamos juntos há cinco anos, sendo os últimos três meses em uma quitinete de fundos na Vila Assunção. Eu perdera o emprego terceirizado no governo e passei a fazer trabalhos de tradução e revisão literária, o que me causava profundo tédio. Izabel sustentava a situação financeira sem reclamar, mas com visível insatisfação. O aperto financeiro nos obrigou a cortar gastos importantes como a escola do nosso filho Rafael e os almoços fora de casa aos finais de semana. Havia parado minha natação e ela as aulas de piano, o curso de espanhol e o sonho de cursar MBA na Fundação Getúlio Vargas. Ultimamente andava fria e confesso que eu também. Meu livro estagnara. A situação acabara com a inspiração.
O leve perfume de Izabel no envelope denunciou o remetente. Coloquei-o de lado e preparei o desjejum. O envelope pardo, pelo tamanho e peso, indicava várias folhas.
O dia chuvoso parecia encomendado. Abri as cortinas e deixei entrar a claridade. Confesso que retardava a leitura. Acendi a lareira para esquentar o ambiente gelado do inverno gaúcho. O café quente me saciara e, com o calor da lenha queimando, leve satisfação tomou conta de meu corpo. Peguei novamente o envelope e olhei contra a luz, pela textura eram três folhas de papel oficio, escritas a mão, como era seu hábito.
O perfume era o que usava quando saiamos com casais de amigos ou sozinhos para lanchar.
Com certeza seria uma carta cheia de lamúrias pela situação ter chegado ao ponto que chegou. Ou talvez de queixa por ficar esperando que eu arrumasse outro emprego, enquanto a situação da casa ficou por conta dela. Mas não tenho culpa pela crise que o pais passa. Ontem mesmo o Jornal da TV apresentou a queda alarmante do índice de emprego.
E se o conteúdo fosse outro? Quem sabe se arrependera e queria reatar. Uma carta de descrição de nossa relação, do sentimento de perda do pequeno Rafael. Apresentação de nova tentativa de ficarmos juntos. Afinal escrevia bem e certamente apostava que eu quebraria meu mutismo de dois meses de falta de contato. Se fiquei mudo por dois meses, ela também não fez questão nenhuma de contatar.
O celular interrompeu meus pensamentos. Era Izabel. Deixei tocar. Certamente cobraria alguma posição referente a proposta da carta. Voltei a lareira, peguei o envelope e, já estava me aninhando no sofá para abrir, quando levantei e, sem pensar duas vezes, joguei o envelope na lareira.

terça-feira, 22 de maio de 2018

O DESLIZE

<Foto do Google>
A jovem confere o endereço com a placa da esquina. Rua Bonifácio Andrade, 525. A descrição confirma. Casa de madeira azul, janelas e portas marrons, pequena varanda com duas cadeiras de vime. Percebe o papagaio no poleiro da parede lateral. Um vaso com rosas vermelhas fora colocado ao pé da escada de cimento.
Deposita a mala ao chão, com a mochila em cima e toca a campainha. Após pequena demora, pensa em apertar novamente. O leve movimento da cortina da janela, deixa a  mostra, mesmo que rapidamente, um rosto de mulher. Finge não perceber e imagina que a casa abriga pessoas amáveis, de fácil relacionamento. O papagaio grita algo imperceptível e a porta abre, por onde surge uma sorridente mulher de meia idade com cabelos presos num rabo de cavalo.
As duas se analisam. A dona da casa aproxima com a chave do portão. A visitante se desconcerta frente a dona de casa e esvanece o que havia pensado em dizer. Treinara meticulosamente mas esquecera tudo.
— Boa tarde — A mulher nota o embaraço e estende a mão à recém-chegada — meu nome é Izabel. O que deseja? Entre!
A jovem pensa em dizer que a conhecia de nome mas fica calada. Coloca a mochila nas costas e pega a mala. A dona da casa afasta-se e a moça segue o curto caminho de pedras irregulares. Sobe os três degraus e entra. A sala pequena, de mobília antiga, arrumada com esmero exalava leve perfume de odorizador ambiental.
— Meu nome é Alice. Posso sentar? — Pergunta.
— Sim, claro. Procura por alguém? — Insiste.
— Nem sei por onde começar — A pausa espanta a anfitriã. — Sou de Nonoai. Cheguei a Porto Alegre ontem e procurei por uma tia, irmã de minha mãe, mas mudou de endereço, disse distraída, coçando o pelo do gato preto que deitara em seu colo.
— Entendi. Vou fazer um café, fique com a Salomé, fará sala a você. — Isabel retira-se para a cozinha, deixando-a com a gata no colo.
O silêncio é quebrado, quando o portão da garagem abre com estardalhaço. A moça assusta e pensa em sair porta afora e terminar com aquilo. Diferentemente, decide levar o caso até o fim. O motor do carro é desligado e o silêncio volta a dominar o ambiente, cortado pelo sussurro da mulher que  conta algo imperceptível a alguém. Como resposta, o sussurro masculino. Mais alguns instantes, a mulher retorna com bandeja de café e biscoitos. Atrás, um homem franzino, se movimenta silenciosamente. A mulher senta, ele se posiciona ao lado.
A jovem procura na memória a descrição feita pela mãe. Teve certeza. Era ele.
— Essa moça procura a tia. Você é taxista, pode ajudá-la — e dirigindo-se a moça — Esse é Francisco, meu marido. A levará de volta a rodoviária. A passagem, pagaremos.  Estou fazendo o almoço, você irá após alimentar. Dá licença. — E sai deixando a moça com a xícara na mão e o homem em pé ao lado da poltrona vazia. A gata segue a mulher.
— Como encontrou o endereço? — pergunta o homem com voz baixa.
— Mamãe deu antes de entrar na sala de cirurgia. — responde também sussurrando — Disse que se acontecesse algo, era para procurar você. Ela morreu.
O homem desmonta sentado no sofá. Os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos cravados no chão. Ao levantar a cabeça, visualiza Izabel a sua frente. Na mão, o cabo de vassoura desce sobre sua testa e provoca um filete de sangue.
— Eu sabia que essa menina tinha história para contar. Cretino. Salafrário. Não tem vergonha? — vocifera e baixa o cabo de vassoura sobre o marido. Franzino, se defende como pode.
— Desembucha infeliz, quem é você? — grita para Alice que se encolhe num canto da sala. — qual tua idade?
— Tenho 20 anos. — grita a moça e baixa a cabeça. Espera que o ambiente fique mais calmo e, olhando para o chão, começa com voz trêmula — Mamãe conheceu Francisco durante a lua de mel de vocês. Ela era camareira no hotel. — levanta firmemente o olhar e vê a fotografia de casamento na estante, em frente ao hotel em Nonoai.
— Não é bem assim, Izabel... — Francisco tentou se explicar.
— Cala a boca, safado — grita a mulher. — Você não tem vez. Ouça a menina.
  — Nasci nove meses depois — Continua Alice — Papai ajudava financeiramente e aparecia todo mês para visitar mamãe  — tomou um gole de café e continuou — Nos ajuda para meus estudos e alimentação.
— Então essa é a explicação para o cliente que levava a Nonoai toda semana? — Izabel chispa os olhos em Francisco.
Quantos sacrifícios haviam passado com o dinheiro escasso. O marido a convencera a evitar filhos, alegava como motivo seus ganhos apertados como motorista. Eram casados há 21 anos, fizera dois abortos e agora essa historia. Alcança um pano para o marido enxugar o sangue. Compara pai e filha e constata que ambos têm nariz e olhos semelhantes. Izabel percebe que a moça estava decidida. Veio para ficar e conclui que a vida se transformará.
— Vamos lá, Alice, irei preparar seu quartinho nos fundos. Preciso mesmo de alguém para fazer serviços de casa. Traga a bandeja de café para  a cozinha — e complementa decidida — aqui não há espaço para ficar sem fazer nada. É estudar a noite e trabalhar de dia. Outra coisa importante — olha furtivamente para os lados, como para ninguém ouvir e baixa o tom de voz — ninguém saberá que Francisco é seu pai. Terá que tratá-lo com cerimônia de empregador.
Alice encara o pai que baixa a cabeça.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

DELAÇÃO PREMIADA

(Google Imagens)
Eram dezesseis metros quadrados de área total. Ao fundo, o banheiro com vaso sanitário instalado de través, permitia uso enviesado. Encostado na parede, faltava uma perna no banco de madeira. Na parede contrária a porta, beliche de ferro, sem colchões, apenas estrado, lençol e um cobertor barato. A janela encostada no teto exibe um filete de sol e projeta uma forma geométrica no piso sujo. Barras de ferro com porta no meio ocupavam a parte frontal. A cela em frente, dividida entre dois homens sempre calados, com ritual pouco convidativo. O preso grandalhão caminha de lado a outro, o dia inteiro enquanto o menor, sentado na cama de cimento, lê a Bíblia em voz alta.
Suspira fundo, marca mais um traço na parede e senta pesadamente, após completar mais um passeio. 
Completava um mês de cumprimento do mandato de prisão expedido pela Policia Federal. Fora algemado em casa às oito horas da manhã durante o desjejum com a família na mansão onde residia no Lago Sul de Brasilia. Relembra os detalhes. Era um dia chuvoso e os filhos se preparavam para a escola. Viajaria para a Lisboa naquele dia. Iniciaria com a mulher uma longa viagem pela Europa. Sentia necessidade de usufruir da fortuna que amealhara desviando verbas de programas sociais do governo. “Não sou corrupto”, repetia ao terapeuta toda vez que fazia a sessão, “o que faço é pelo meu pai que precisa de tratamento nos Estados Unidos! E é muito caro!.” Assim referenciava a vultosa quantia que o aguardava em bancos de paraísos fiscais. O turismo seria para usufruir do dinheiro que guardava no teto rebaixado  do banheiro da empregada.
Dentro da prisão espera ansioso o resultado das apelações montadas por advogados caríssimos, pagos com recursos das negociatas. A dificuldade de soltura, está atrelada a campanha de moralização desencadeada pelos altos escalões do Governo. Para tentar se safar, fizera acordo de delação com o qual se comprometia a entregar os principais envolvidos em troca da liberdade com tornozelera eletrônica por dois meses e depois passaporte liberado o aguardava.
Ouve passos no corredor e a porta abre. A cela pouco iluminada durante o dia dificulta ver o rosto dos recém-chegados. Reconhece o carcereiro que acompanha um homem algemado com rosto familiar. “Vamos deixá-lo por aqui mesmo, pois o doutor está sozinho”, diz o agente, com um palito dançando entre os dentes de um lado a outro da boca. Retira as algemas do homem que esfrega os punhos. “Faça as honras para seu novo vizinho”. Fala o guarda enquanto empurra o novo preso para dentro e se afasta as gargalhadas.
Encara o recém-chegado. Era o doleiro que delatara vinte dias atrás a Policia Federal. Correu à porta da cela. “Ei, não quero dividir cela com esse cara!”. Ninguém o atende. O corredor vazio e as luzes apagadas, indicam o horário de descanso na penitenciária. Na cela em frente, o leitor da Bíblia aumenta o tom de voz e o olha com ar caridoso.
Gira sobre os calcanhares e percebe a faca na mão e o sorriso irônico  do doleiro que fala com raiva.
— Você me delata e agora está com medo, verme?
Pega a caneca de alumínio e corre à porta de entrada. Esfrega em desespero nas barras de ferro. Pede socorro aos da cela em frente. O da Bíblia, faz o sinal da cruz e aumenta o tom da leitura. O grandalhão esconde no banheiro.
Sente a lâmina fria entrando no rim direito e cai de joelhos

terça-feira, 27 de setembro de 2016

ITÁLIA – CHEGUEI LÁ

Brasil - Barão do Triunfo foto arquivo
Contava um ano de idade quando cheguei a Uruguaiana, pequeno município localizado na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Meu mundo era composto pelo quintal, a rua limitada a frente da casa e a escola. Aos sete tomei consciência sobre a existência do mundo maior do que conhecia.  Meus pais haviam separados, mãe arrumou as malas e rumamos a Porto Alegre, onde moravam meus tios. Um novo horizonte se abriu e percebi as diferenças entre a pequena Uruguaiana e a capital do estado.
Na fronteira, vez por outra recebia a visita da avó materna. Ela era de pequena estatura, mãos fortes, cabelo curto e grisalho. Vó Joana tinha aspecto meigo e hábito de colocar a mão a frente da boca quando ria. Sua fala era enrolada. Ao ficar brava, xingava palavras de significado incompreensível, momentos de ter paciência para entendê-la. Misturava português, com outra língua que, anos mais tarde, descobri ser italiano. No pouco tempo que passava em Uruguaiana, adorava ouvir suas histórias e de meus bisavós e  aventuras em Barão do Triunfo, município distante cerca de 100 quilômetros de Porto Alegre. Lá, os imigrantes italianos, fixaram residência ao chegar ao Brasil. Vez por outra, vó Joana lançava um olhar perdido pela janela e falava sobre a Itália, “terras do outro lado do mar”, que conhecia somente pelas narrativas de onde vieram seus pais.
Brasil- Barão do Triunfo-foto arquivo
Em Porto Alegre, vó foi morar conosco e tivemos inúmeras oportunidades de conversar. Mantivemos a mesma rotina, ela narrava e eu ouvia atento. Eu estudava na escola pública pela manhã, chegava à casa ao meio dia, almoçava e ficava a mesa, aguardando vó lavar a louça do almoço e arrumar a cozinha. O ambiente tinha cenário esmerado. Colocava na mesa a tigela de doce de abóbora, potes e colheres. Eu o mapa mundi com textos da Enciclopédia Delta Larousse que vó pedia para eu ler. Na verdade ouvia mais do que falava.
Essa proximidade alimentou em mim a necessidade de conhecer tradições e costumes do país longínquo. Ao narrar sobre a terra distante e comentar comigo o que ouvia dos pais, Giuseppe e Adele, meus bisavós, minha imaginação alçava voo. Vó não aprendera a ler e me pedia para ler. Demostrava ssim a curiosidade das terras distantes. Isto me motivou a pesquisar. Principalmente sobre a Itália, até então, somente um ponto no mapa. Após ler os textos, mostrava fotos de monumentos e cidades. Vó se encantava.
Itália - Renazzo - Foto - Arquivo pessoal
Depois localizava o país procurando em um velho mapa mundi. Várias vezes flagrei olhos lacrimejantes por baixo das lentes.
Por muito tempo a vontade de conhecer ficou apenas nos sonhos. Vieram casamentos, filhos, compromissos e a oportunidade parecia estar cada vez mais distante. Obrigações familiares consumiam economias e toda vez que fazia poupança, um gasto extra consumia as esperanças.
Finalmente em julho de 2016 a oportunidade surgiu. Conheci os recantos  onde viveram meus antepassados. Uma grande emoção foi chegar em Roma. Parecia conhecida. Vó Joana sempre falava sobre a capital italiana. Mas foi Cento e as províncias de Corpo Reno e Renazzo que mais impressionaram.  A arquitetura, as pessoas, as ruas simples, limpas e belas. A grande quantidade de flores. O povo acolhedor. Vez por outra me confundia, me sentindo como se estivesse no Barão do Triunfo.
Itália - Cento- rua central-Foto arquivo pessoal
Conhecer a Itália, foi como redimir meus bisavós que depois que chegaram ao Brasil, nunca mais retornaram a seu país natal.