LEIA TAMBÉM:"ARQUIVO" e "PÁGINAS"

Dificuldades para comentar? Envie para o email : marcotlin@gmail.com
****************************************************

terça-feira, 27 de setembro de 2016

ITÁLIA – CHEGUEI LÁ

Brasil - Barão do Triunfo foto arquivo
Contava um ano de idade quando cheguei a Uruguaiana, pequeno município localizado na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Meu mundo era composto pelo quintal, a rua limitada a frente da casa e a escola. Aos sete tomei consciência sobre a existência do mundo maior do que conhecia.  Meus pais haviam separados, mãe arrumou as malas e rumamos a Porto Alegre, onde moravam meus tios. Um novo horizonte se abriu e percebi as diferenças entre a pequena Uruguaiana e a capital do estado.
Na fronteira, vez por outra recebia a visita da avó materna. Ela era de pequena estatura, mãos fortes, cabelo curto e grisalho. Vó Joana tinha aspecto meigo e hábito de colocar a mão a frente da boca quando ria. Sua fala era enrolada. Ao ficar brava, xingava palavras de significado incompreensível, momentos de ter paciência para entendê-la. Misturava português, com outra língua que, anos mais tarde, descobri ser italiano. No pouco tempo que passava em Uruguaiana, adorava ouvir suas histórias e de meus bisavós e  aventuras em Barão do Triunfo, município distante cerca de 100 quilômetros de Porto Alegre. Lá, os imigrantes italianos, fixaram residência ao chegar ao Brasil. Vez por outra, vó Joana lançava um olhar perdido pela janela e falava sobre a Itália, “terras do outro lado do mar”, que conhecia somente pelas narrativas de onde vieram seus pais.
Brasil- Barão do Triunfo-foto arquivo
Em Porto Alegre, vó foi morar conosco e tivemos inúmeras oportunidades de conversar. Mantivemos a mesma rotina, ela narrava e eu ouvia atento. Eu estudava na escola pública pela manhã, chegava à casa ao meio dia, almoçava e ficava a mesa, aguardando vó lavar a louça do almoço e arrumar a cozinha. O ambiente tinha cenário esmerado. Colocava na mesa a tigela de doce de abóbora, potes e colheres. Eu o mapa mundi com textos da Enciclopédia Delta Larousse que vó pedia para eu ler. Na verdade ouvia mais do que falava.
Essa proximidade alimentou em mim a necessidade de conhecer tradições e costumes do país longínquo. Ao narrar sobre a terra distante e comentar comigo o que ouvia dos pais, Giuseppe e Adele, meus bisavós, minha imaginação alçava voo. Vó não aprendera a ler e me pedia para ler. Demostrava ssim a curiosidade das terras distantes. Isto me motivou a pesquisar. Principalmente sobre a Itália, até então, somente um ponto no mapa. Após ler os textos, mostrava fotos de monumentos e cidades. Vó se encantava.
Itália - Renazzo - Foto - Arquivo pessoal
Depois localizava o país procurando em um velho mapa mundi. Várias vezes flagrei olhos lacrimejantes por baixo das lentes.
Por muito tempo a vontade de conhecer ficou apenas nos sonhos. Vieram casamentos, filhos, compromissos e a oportunidade parecia estar cada vez mais distante. Obrigações familiares consumiam economias e toda vez que fazia poupança, um gasto extra consumia as esperanças.
Finalmente em julho de 2016 a oportunidade surgiu. Conheci os recantos  onde viveram meus antepassados. Uma grande emoção foi chegar em Roma. Parecia conhecida. Vó Joana sempre falava sobre a capital italiana. Mas foi Cento e as províncias de Corpo Reno e Renazzo que mais impressionaram.  A arquitetura, as pessoas, as ruas simples, limpas e belas. A grande quantidade de flores. O povo acolhedor. Vez por outra me confundia, me sentindo como se estivesse no Barão do Triunfo.
Itália - Cento- rua central-Foto arquivo pessoal
Conhecer a Itália, foi como redimir meus bisavós que depois que chegaram ao Brasil, nunca mais retornaram a seu país natal.

domingo, 31 de julho de 2016

Cento / Ferrara / Itália - A Chegada

Estação de Parma - caminho a Cento

Há muito sonhava viajar no sentido contrário aos meus antepassados e conhecer a cidade de onde saíram. Enquanto preparava as malas para a viagem, imaginava a tensão que enfrentaram as vésperas da jornada rumo ao Brasil. Em 10 de fevereiro do ano de 1889, partiu o navio Solferino 1 do porto de Gênova. Levava o casal Giuseppe Tancredi Tassinari (23) e Adele Tassinari (20), meus bisavós, saídos de Cento, Itália,  rumo a Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Como os pais de Adele impediram que viajasse solteira com o noivo, haviam casado pouco antes do embarque, em 6 de fevereiro. Entre os emigrantes, estavam apenas os pais de Giuseppe, Pacífico Tassinari (55) e Irene Turrini (53). A viagem, odisseia de aproximadamente 30 dias, enfrentou tempestades, calmarias perigosas, epidemias e dietas forçadas por racionamento de comida.
Estação de Samoggia- Caminho a Cento
Diferente de meus bisavós cheguei a Roma a partir de São Paulo, sem atropelos em dez horas de voo, incluso a escala em Frankfurt.
Iniciei a viagem em 06 de julho de 2016. A primeira parte, segui a programação da companhia de turismo. Visitei a capital Roma incluindo o Vaticano; Pompéia, a cidade devastada pelo vulcão Vesúvio em 79 d.C.; Nápoles, terra de Sophia Loren; a ilha de Capri e suas grutas milenares e a pré-histórica Florença. Passeei de gôndola em Veneza com direito a tenor e gaiteiro e caminhei pelas ruas da belíssima Verona, contemplado pela bela história mitológica Romeu e Julieta. Em Milão, conheci a moda sofisticada das grandes grifes mundiais.
Em 12 de julho, encerrou-se o roteiro turístico. Separei-me do grupo e iniciei a execução do plano de conhecer a terra de Giuseppe, que, por pressentimento me acompanhava abrindo portas invisíveis para o sucesso da empreitada.
Informei sobre como chegar a cidade de Cento. Parecia  simples. Saí do hotel em Milão às 09 horas da manhã do dia 13. Encontrei a estação Central de trens de Milão em movimento intenso de passageiros. Depois de andar para lá e para cá, tentando observar o movimento das pessoas nas máquinas para compra dos bilhetes, aceitei ajuda de um menino indiano aparentando doze anos. Disse chamar-se Ravi e falava dialeto incompreensível e italiano enroladíssimo. Nossa comunicação estava sofrível. Ravi e eu posicionamos em frente a máquina de comprar bilhetes. A primeira opção era escolher a língua de operação da máquina. Gesticulando, apontei o botão “espanhol”. Ravi deu de ombros, pressionou e a máquina desandou a dar opções de escolha: trem bala ou trem comum, primeira classe ou segunda, número de pessoas, horários, valores. Fomos escolhendo de acordo com as opções que apareciam e desapareciam a velocidade da luz. Ele tinha pressa. Eu espantado com tantas informações a processar.
Quando a engenhoca apresentou o custo final, enfiei a nota de 50 euros no escaninho. A máquina então imprimiu as passagens e cuspiu o troco. Ravi tentou orientar apontando o rumo da plataforma 21, indicada no bilhete. Peguei-o pelo braço e o fiz entender que seria necessário levar-me. Contrariado, o rapaz assentiu e saiu em disparada. Peguei a mala e saí serpenteando em meio a multidão. Levou-me até a plataforma e me fez ver que a partir dali me virasse. Estendeu a mão. Ofereci 3 euros. Foi embora insatisfeito, queria mais. Depois soube que existem atendentes da própria estação que ajudam a tirar bilhetes operando as máquinas. Sem cobrar nada.
Foram quase três horas no trem, razoavelmente confortável a Bolonha, onde cheguei as 14 horas. Com fome e certo nervosismo pela  aproximação do destino. O calor de Bolonha era intenso. Perguntei a um guarda da estação, num misto de espanhol e mímica, onde poderia comer. Apontou conhecida marca de fast food fora da estação. Coloquei a mochila nas costas e sai em direção a lanchonete, arrastando a mala pelas rodinhas. Almocei salada e frango grelhado e retornei a estação.
Uma das vantagens de viajar de trem é que a mala acompanha o viajante sem necessidade de acondicionar em bagageiros. Esse procedimento facilita e previne extravios durante os percursos.
Para Ferrara, dispensei auxílio para comprar passagem. A estação menor e o simpático guarda foram suficientes. O afastamento dos grandes centros causava inquietação. Afinal, estava em país estranho. Afastei os pensamentos de apreensão e fui tomado, pela primeira vez durante a viagem, de emoção indescritível. Lembrei minha avó e as descrições que fazia da terra natal dos pais. As estações de trem passando uma a uma, recordavam a narrativa da viagem dos emigrantes, feita por Leandro Fallavena em seu livro, Barão do Triunfo, Descobrindo a História. Adormeci por puro cansaço.
Feirão das Quintas Feiras 
Cheguei a Ferrara as 16h30. Aproximei do primeiro taxi e, com o motorista, chegamos a conclusão que o endereço do hotel da reserva discordava do voucher da companhia de turismo. Não poderia ser pior. Passei o número do telefone do hotel ao motorista que ligou imediatamente. Realmente o endereço não era Ferrara e sim Cento a cerca de 50 km. Perguntou se queria ir para a rodoviária. O cansaço desanimou de pegar ônibus e negociei a corrida a 60 euros. Partimos, afinal, estava perto. Chegamos ao hotel as 17h30.
Passeio pela rua central
Antes de subir ao apartamento para descansar, expliquei à atendente sobre as intenções na cidade. Respondeu-me que ligaria a uma amiga, escritora, ex assessora de cultura e, tinha o sobrenome Tassinari. Inicialmente prestei pouca atenção ao que falou. Paulatinamente, percebi a importância do contato. Servidora da cultura, fez a diferença e possibilitou a abertura de portas e registros históricos da cidade. A partir daí, entraram duas comarcas de Cento, igualmente importantes em registros históricos: Corporeno e Renazzo, onde Giuseppe passou infância e adolescência até a idade adulta. Meu bisavô diligentemente, agia para a viagem ser bem sucedida.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

VITÓRIO

(Google Imagens)
Ao receber o oficio de apresentação para assumir uma paróquia no Brasil, Vitório fraquejou, os olhos marejaram. Monsenhor Giuseppe Baggio, chefe da Missão Sacerdotal da Santa Sé para o Brasil, entregou o documento e o mirou firme, “você foi avisado que após os estudos sacerdotais, serviria em terra distante com missão de dedicar sua vida a comunidade, fortalecendo os dogmas da santa madre igreja”. Vitório baixou a cabeça, fez reverência dobrando o joelho esquerdo e retirou-se sem dar as costas. Olhou demoradamente o mapa-múndi da entrada do seminário São Francisco de Assis, onde estudara por seis anos. Cravou um alfinete em Palmas no interior do Paraná outro em Roma. Com um barbante avaliou a distância. Mais tarde recolhido ao quarto, ajoelhado em frente a imagem de Santo Agostinho, alternou orações e lágrimas.
O navio sairia em três dias. Seriam quarenta de viagem por mares tormentosos, segundo relatos de viajantes. Mirou o céu. Um pássaro voava nas alturas. Imaginou um meio de transporte rápido e seguro, que voe como as aves, que faça a travessia em menos tempo.
Arrumou duas malas grandes com roupas. Livros e exemplares da Bíblia destinadas aos párocos novatos armazenou em caixa de madeira e lacrou. Despediu demoradamente dos pais, cientes das dificuldades da missão do filho único na terra distante.
O apito forte e triste desperta Vitório de pensamentos profundos. O navio se afasta do porto lentamente. Abana aos pais até se tornarem um ponto minúsculo no horizonte. A viagem, diferente das previsões do tempo, começou melancólica, mas logo no segundo dia, enfrentou tormentas fortíssimas quando chegou em alto mar. Ora eram dias turbulentos e noites calmas, ora ao contrário. Uma febre, proveniente de alimentos mal conservados, dizimou metade dos tripulantes e passageiros. Vitório pode assim iniciar a missão sacerdotal encomendando as almas dos mortos, o que causava profundo pesar. Após quarenta dias, o navio chega ao porto do Rio de Janeiro. Dez quilos mais magro, Vitório é levado a um hospital, onde passa três semanas se tratando e após alta, cumpre estágio no seminário São José. Assim, reinicia a segunda e última parte da odisseia. Quinze dias até Palmas, vilarejo com cerca de três mil habitantes a 1.300 metros acima do nível do mar.
Depois de se apresentar ao diácono local e ao prefeito, é encaminhado a paróquia, onde esperava Maria dos Anjos. Morena da cor de canela, cabelos e olhos negros, era descendente de índios caingangues. O rapaz ficou impressionado pela cor da pele da pequena índia. Olharam-se longamente, percebido pelo diácono que tossiu com força e os tirou do transe. Mas o destino já se definia. Os olhos azuis da cor do mediterrâneo do bonito sacerdote de vinte e cinco anos, ao pousarem na moça, irradiaram o calafrio dos apaixonados. Naquela noite nenhum dos dois dormiu. Cada um em seus aposentos, passaram por intensos suores e sonhos. O padre acordava seguidamente em pensamentos que teimavam afastá-lo da missão sacerdotal.
Amanheceu com fortes dores no ventre. Mal ouviu a batida na porta. Abotoou a roupa de dormir, abriu o alojamento e foi dominado por uma alegria indisfarçada. Era Maria adornada pelos raios amarelos do sol. O homem, que passara a noite acordado pensando na indiazinha, foi ofuscado pelo auge dos dezoito anos da moça, viçosa e pura. O desejo que dominou o rapaz se definia mais forte que a resistência. Pegou-a suavemente pela cintura e puxou-a para dentro do quarto. Naquele instante, pressentiu que a cidade continuaria sem vigário. Amaram-se com a paixão de quem pouco conhece do sentimento, mas com a certeza que tudo mudaria em suas vidas.
Nos dias seguintes, Vitório tentou seguir a missão paroquial, organizando as missas, mas sucumbiu. Mudou para os fundos da  casa do diácono e levou Maria. O restante foi uma sucessão de acontecimentos que culminaram no pedido de licença ao Vaticano. O quase vigário entregou a missão a outro.
Mas a situação para os jovens estava longe de ser fácil. Maria logo ficaria grávida e Vitório teve que colocar em prática toda sua criatividade para sustentar  a família.
Procurou exercitar os ofícios que aprendera em seus tempos na Itália. Lembrou-se do avô, ator de teatro. Com a participação da prefeitura, montou o primeiro teatro da cidade, atividade aprendida com o avô materno. Passou a Escrever as peças, encenar e treinar os artistas. Como sobrava tempo e ainda faltavam recursos, montou o cinema de Palmas, onde exibia filmes de produtora europeia. Mas as películas mudas o inquietavam e um dia, após viagem a terra natal para apresentar a mulher aos pais, teve a ideia de importar um piano. Incumbiu Maria de aprender a tocar e em pouco tempo, auxiliada pela mulher do diácono, se tornou expert e ficou conhecida como a primeira executora de trilhas sonoras de filmes mudos exibidos no interior paranaense.  Maria ajudava muito Vitorio nas iniciativas. Treinava piano por horas e ainda teve tempo de criar os onze filhos do casal.  Vitório morreu antes de ver o terceiro sonho realizado, um hotel de três andares. Só acompanhou até a construção do segundo. Um dia amanheceu com dores nas costas e febre. Removido as pressas a um hospital de Curitiba, faleceu de pneumonia. Deixou Maria com onze filhos e as lembranças de uma união de vinte anos.
Do legado de Vicente, nada vingou. A viúva pouco sabia de negócios e foi perdendo os bens. Dois filhos de Vicente foram viver na Itália, aproveitando a dupla nacionalidade. Os demais se dividiram entre a capital do estado e a cidade natal, onde vive Maria e as recordações.

terça-feira, 22 de março de 2016

A PASSAGEM

(Crematório J. Metropolitano - Foto Google Imagens)
Eram cinco horas da manhã quando o telefone toca e a voz metálica informa que Hilton acabara de falecer. Com setenta e oito anos, expirou profundamente ouvido apenas pela enfermeira que, com sono leve, dormia na cama ao lado. Hilton estava exausto de resistir a quem lhe queria levar desde o início de janeiro. A resistência ao chamado só é explicada porque “...ninguém morre antes da hora”. Acabava assim a vida de imprevistos e caminhos inesperados, trilhados sem questionamentos.
Quando solteiro, fora alegre folião que, com sua fantasia colorida, brincava o carnaval em conhecido bloco carioca. Após o uso, guardava as alegorias cuidadosamente para o próximo ano. Hábito abandonado ao conhecer Cris. Com ela, viúva, quatro filhos de casamento anterior, iniciou a vida responsável, assumindo-os como seus. A nova família teve inúmeras dificuldades, o que não impediu de serem felizes por cinquenta anos.
Teve dedicação exemplar ao trabalho, mesmo em missões espinhosas. Trabalhos que renderam condecorações e medalhas, mas que custaram pesados prejuízos emocionais. Todas cumpridas com afinco até o fim, mesmo que conflitantes com sua índole. Em casa era pacato, rígido apenas na educação aos enteados que assumira como filhos.
Sete meses antes de sua morte, ficara viúvo inesperadamente. A morte de Cris desmontou o guerreiro e os planos de envelhecimento em companhia um do outro. Permanecera com os quatro filhos de Cris. A única enteada, cuidadosa com o padrasto, preparou o apartamento vizinho ao dela, para dar conforto. Mas Hilton tinha outros planos. Não queria incomodar os filhos da falecida Cris e, impulsionado pelo inexplicável e uma paixão recente, fora morar com a irmã e o marido, dez anos mais velhos que ele, em outra cidade, onde tinha planos de fixar residência com a nova companheira. Hilton trocou de cidade para morrer três meses depois, sem concretizar esse plano.
Foram sessenta dias hospitalizado, transferido duas vezes a UTI para tratamentos dolorosos.
Hilton perdeu a batalha. Na véspera, recebera a visita da irmã, do cunhado e do enteado mais jovem. Passaram assim momentos de despedidas, adivinhando o desfecho dali a poucas horas. Hilton os ignorava. Nada mais era importante. Na última semana estava reflexivo, solitário. Encapsulado. A função renal substituída pela hemodiálise.  A qualidade de vida o abandonara. A única recompensa foi o esticar do tempo de preparo a viagem final.
A enfermidade abortou os planos de casar e ter nova vida. Ao filho mais jovem, confidenciou no leito de morte: “gosto muito de minha namorada, mas quero mesmo é morrer e reencontrar tua mãe, minha Cris, meu grande amor”.

Os momentos finais da existência são dedicados aos resgates das relações. Hilton e os enteados perderam esse compasso no momento que ele trocou o Rio de Janeiro por Brasília. Ceifou-se a oportunidade de aparar arestas criadas ao longo das relações. Os enteados perderam a chance de cuidar do padrasto. Nas despedidas, na antessala do crematório, Carlos, um dos enteados, agradeceu ao falecido tudo que fez por ele e desejou “que vá com Deus”. O filho mais jovem, que o acompanhou aos últimos momentos, ainda em vida, fraquejou. Emocionado, manteve-se fora da sala, “sou fraco nesses momentos, no velório de mamãe foi a mesma coisa.” Seguiu o cortejo ao local de incineração, após o caixão fechado. Vilmondes, o terceiro filho que havia visitado o padrasto uma semana antes da morte, permaneceu na cidade onde mora. Estava abalado pelas cenas que assistiu no leito do hospital. Maria, a enteada, profundamente emocionada pelos acontecimentos viajou ao Templo de Nossa Senhora Aparecida em São Paulo de onde canalizou orações aos pais, “recém perdi mamãe e agora o papai, não tenho forças para viajar”, informou aos parentes. Ela, que contava apenas seis anos quando Cris e Hilton casaram, foi quem mais sofreu quando o pai resolveu trocar o Rio por Brasília. No final da vida, não poderia dar assistência ao homem que a mãe escolheu para ser seu padrasto.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

COMA

O caminho incerto - Arquivo pessoal
Hilton sempre fora um homem quieto, que evitava sair da rotina. Sargento da Guarda Nacional, exemplo de pontualidade e obediência as ordens superiores. Como prova, conta com orgulho que certa vez teve de ser salvo de morrer afogado em um lago da Amazônia, por ocasião de manobra militar. O comandante do pelotão logo após ordenar a tropa “em frente, marche”, se distraiu com um telefonema e Hilton seguiu adiante água a dentro sem saber nadar. Só não morreu afogado, porque o comandante o retirou da situação.
Com tanta dedicação a farda e as coisas da carreira, Hilton teve pouco tempo para dedicar a vida pessoal. Permaneceu solteiro boa parte da vida, conhecendo Cristiane durante o velório da avó. Logo prestou atenção a mulher que o amparava no momento difícil. Cristiane era viúva e mãe de três filhos adolescentes. Aconselhado pelo pai que temia o filho solteiro, Hilton providenciou a papelada e em menos de um ano, estavam casados. Por acordo, o casal decidiu não ter filhos e assim Hilton dedicou-se a cuidar dos filhos da mulher, a dar-lhes educação, amparo e orientação para seguirem suas vidas. Teria sido uma vida igual a tantas outras não fosse o destino tocar com sua varinha modificadora e a vida de Hilton tomar outro rumo aos setenta anos. A fiel companheira Cris, em tarde que assistiam a um filme na sala de estar, passou mal, deu um grito e caiu em frente a televisão sem vida, num ataque do coração fulminante.
Hilton, acostumado à convivência com a companheira desde que fora para a reserva, desenvolveu depressão profunda e só não morreu porque em visita a irmã para espairecer da viuvez trágica, conheceu Laura. Morena de olhos verdes, quarenta anos, moça simples, mas possuidora de uma meiguice  que cativou o militar na primeira olhadela.
Laura fora casada com um beberrão que lhe tratava com grosseria e a havia abandonado com três filhos. No militar, Laura encontrou exatamente o contrário, um homem carinhoso e carente, ainda sofrendo com a perda da mulher. Hilton, por sua vez, deixou-se levar pelos sinais do coração e iniciou o planejamento da vida a dois. Juntos sonhavam com um ninho para viverem seu amor. Ele vivia na casa de parentes e andava cansado do desconforto. Ela, em casa pequena e simples em região rural. Mas a vida arquitetava das suas.
Em uma noite, após momentos de amor a dois, na qual o apaixonado tomara a pílula do amor para fortalecer sua libido, Hilton sentiu-se mal. A amada chamou a emergência. Eles chegaram rapidamente e a médica foi categórica, “vamos levá-lo a um hospital, o homem está quase morrendo”. Mandou o motorista abrir a sirena do veículo e saíram em disparada.
Os dias passam rápidos. O homem dorme profundamente. Do quarto da UTI, onde passou quase três semanas, é transferido para o quarto do hospital militar. Vez por outra abre o olho, mas olha sem ver. O olhar brilhoso da paixão despertada, deu lugar a opacidade indiferente. Ao seu lado, Laura espera incansável que seu homem acorde. Reza e faz promessas a todos os santoss. Um dia Hilton sairá do adormecimento e continuará seus planos com a mulher que o tirou da depressão. Ou morrerá docilmente a olhar para lugar nenhum. A vida é assim, corre para um lado e outro em rumos indefinidos. Todos acompanham.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A DESPEDIDA

Arquivo pessoal
 Estava linda. Tão linda que mais parecia uma boneca de porcelana. A pele branca exibia coloração avermelhada pelo frio intenso na ponte de madeira sobre o pequeno córrego. Esticou a gola do casaco para proteger o pescoço. O sítio era refúgio para finais de semana do intenso trabalho na cidade. Ali montei ateliê de pintura, meu hobby predileto e a miniatura da biblioteca que tinha no escritório.
Sara permanecia imóvel debruçada sobre o parapeito. Olhava a água que corria forte. Vez por outra jogava uma folha ou filtro de cigarro. Nas águas turvas, as últimas chuvas arrastavam objetos pelo riacho e os levavam ao rio. Em alta velocidade, passavam caixas de papelão, latas de cerveja e refrigerante. Peguei suas mãos geladas e as protegi entre as minhas. Olhou-me sem emoção e as retirou.
Havíamos discutido. Eu pedira o divórcio. Há algum tempo percebia que sua cumplicidade pairava com outra pessoa. Ela negava com veemência. Chorara para permanecermos juntos. Ao mesmo tempo, reconhecia pelos movimentos dos últimos dias, que eu sabia mais do que demonstrava. A convivência alcançara limites inaceitáveis. Anos mais tarde, concluí que, se naquele momento, ela tivesse assumido nosso casamento e se declarado disposta a sacrificar a relação para ficarmos juntos, teria cedido. O intolerável era manter a mentira, declarando ser tudo fruto da imaginação.
Sara parecia menina com olhos encharcados e vermelhos. Era a personificação da inocência, o que a deixava mais desamparada. Detesto admitir esse sentimento, mas, naquele momento, estava com pena dela.
Peguei-a pelo braço e a levei ao carro. Ao abrir a porta, livrou-se de minha mão, sentou no banco e bateu a porta, balançando o veículo. Nossa amizade, temia, estava por um fio. Saímos a rodar pela cidade e peguei um retorno para a rodovia federal. Sem destino, liguei o aquecedor e tiramos os casacos. Propus almoçarmos em uma pequena cidade turística do interior. Aceitou dando de ombros. Se pouco conversamos durante o trajeto de ida, na volta, após o almoço, nenhuma palavra.
Assumi que não havia mais nada a tratar. Deixei Sara em casa. Desceu sem se despedir, com o carro em movimento. Saí disposto a não voltar. Considerava terminada a relação. Eram dez horas da noite, quando entrei na loja de conveniência do posto de gasolina. Pedi um uísque duplo e a partir daí só lembro de perceber onde estava ao desligar o carro e ser recebido por meu cachorro no sitio. Abri a porta, fui à cozinha tomar água e desabei na cama.
No dia seguinte, despertei com forte dor de cabeça. Exagerara na bebida. A buzina da moto do carteiro levantou-me da cama mais cedo do que pretendia. Abri o portão ainda com a roupa amassada do dia anterior. Era carta registrada. Remetente, Sara. Dei um troco ao rapaz, agradeci e entrei abrindo o envelope amassado.
Folheei as páginas antes de ler. A escrita começa firme, mas a partir da metade ficava tremida e borrada. Percebi leve perfume conhecido.
Contei vinte duas páginas, o que me fez acreditar ter sido escrita antes da conversa sobre divórcio. Talvez tenha sido a leitura mais difícil que fiz na vida. Fazia um retrospecto de nossa vida em comum. Falava do namoro, seguia pelo período de noivado, casamento, férias anuais, nascimento dos filhos. Descrevia como eu adivinhava seus pensamentos, os desejos mais íntimos. Pressentia nas entrelinhas certa melancolia. Final dolorido de algo importante. Imaginei como fora desconfortável escrever. Na última página, a escrita fraquejou. Parecia difícil seguir as linhas. Após desfiar nossa história, confessou que apesar de me amar, eu tinha razão, envolvera-se com outra pessoa. Minhas constantes viagens para melhorar os ganhos financeiros, só contribuíram para sedimentar a relação entre eles. Um colega de trabalho casado, divorciado, cuja mulher, indignada deixara os filhos menores para que criasse. Sara deveria assumir os pequenos enteados. Demonstrou receio por assumir incumbência pesada com tão pouca idade.
Despediu-se declarando amor por toda vida, independente de onde estivesse.