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domingo, 29 de dezembro de 2013

PRAZO DE VALIDADE

(Foto Google-Imagens)
Assisti à luta de Anderson Silva, mais por ser brasileiro e querer engrossar a torcida, do que pela representação do esporte. Aliás, acho o UFC extremamente violento e afirmo ter audiência apenas pelo número de brasileiros nas lutas do programa sanguinário. Assim, assisti ao vivo o martírio do Silva, posteriormente repetido à exaustão. Foi demais quebrar a fíbula e a tíbia em golpe provocado por ele e defendido pelo americano. O fato, pela gravidade, pode ocasionar aposentadoria.
O acontecimento trágico sobressaltou algo esquecido no dia a dia: o prazo de validade. Seja humano, animal ou vegetal, enfim, todo ser vivo passa pelas fases de nascimento, crescimento e envelhecimento. A morte, por ser o fim da vida, nem cito.
Certa vez assisti à entrevista com Emerson Fittipaldi logo após a queda de ultraleve em 1997, por ocasião de passeio. Saiu da fazenda no interior de São Paulo e desapareceu por onze horas. Emerson declarou que, após o acidente, colocou colete protetor para reforçar uma vértebra. Na ocasião, assumiu que o risco de sequela grave era grande devido à idade, inimiga que roubava reflexos e retardava a recuperação. Isso acelerou a aposentadoria do campeão, cogitada desde o acidente de Michigan em 1996, onde também rompeu vértebras da coluna.
Nelson Piquet, nosso outro piloto campeão, após abandonar a Fórmula 1 fechou contrato com a Indy. Pretendia estender a capacidade de pilotar em alta velocidade nas pistas por muitos anos. Piquet tinha 39 anos quando bateu forte no autódromo de Indianápolis. Escapou com vida por milagre e abandonou de vez as pistas oficiais. Decidiu tocar a vitoriosa carreira de empresário. Entendeu que reflexos, resistência física e outros quesitos imprescindíveis são potencializados pela juventude e perdidos à medida que o tempo se esvai.
Talvez tenha sido esse entendimento que faltou a Anderson Silva. Um médico ortopedista entrevistado pela Globo News, cogitou que a perna atingida do Spider poderia estar com ossos comprometidos, não somente pela idade do nosso campeão, como também pelo número de vezes que a usou para derrubar adversários. Tanto isso é verdade, que certa vez o campeão quebrou a perna de um antagonista com violenta pernada, o que provocou nocaute prematuro.
A hora de parar sempre chega. Quanto maior o esforço do organismo para praticar o esporte, mais o atleta é exigido e precisa reconhecer o momento de parar. Afinal, organismos sofrem fadiga e até máquinas se desgastam.
Ilusão achar que isso ocorre somente nos esportes. Cuidados especiais também devem acontecer na procriação. Jovens casais que adiam a reprodução podem ter surpresas. Inúmeros problemas na idade avançada dos pais influenciam na formação genética dos descendentes.

domingo, 22 de dezembro de 2013

QUARENTA ANOS DEPOIS

(Linhares - Arquivo pessoal)
.“... Céu é o lugar poético onde estão guardadas as coisas que a gente ama e o tempo nos roubou. Falar "céu" é dizer "esperança de reencontro.” (Rubem Alves).


Final de ano é tempo de reencontros. Turmas de faculdade, de trabalho, de primeiro e segundo graus, de vizinhos, enfim, pessoas que conviveram de alguma forma têm a curiosidade de rever antigos companheiros e trocar informações sobre trajetórias de vida.
No dia vinte de dezembro ocorreu o reencontro com amigos do DENTEL - Departamento Nacional de Telecomunicações. Os anos de convivência foram entre 1974 e 1981, ainda durante o regime militar. Éramos funcionários de vários órgãos do Departamento, e fomos unidos pelo destino em torno de uma motivação desafiadora: implantar sistemas informatizados nos cadastros manuais. O trabalho hercúleo iniciou após um curso de formação na COBRA - Computadores Brasileiros S.A., no Rio de Janeiro.
Usando tecnologia atualizada, criei um grupo Whatzapp e iniciei o garimpo dos colegas. Em quatro dias contava com oito pessoas no grupo e o telefone de outros nove que não usavam o aplicativo. A partir daí, ficou fácil. O pessoal se mobilizou e o encontro aconteceu, totalizando doze participantes. Compareceram Moacir e Mali, Gelson e Divina, Hélio e Bela, eu e Malu, Marisa, Irani, Dioney e Helane. A tônica da conversa foram os anos de convivência, as atividades, as agruras e a superação de obstáculos.
Passagem por doenças, falecimentos de entes queridos e dores foram compartilhadas em irmandade, como se nunca houvéssemos nos separado. A vida encerrou-se prematuramente para três companheiros que poderiam estar presentes e que foram lembrados com respeito e amizade: o Nelson, o Deolindo e o Cláudio.
Na memória, momentos pitorescos, como as festas de São João em minha chácara, onde todos colaboravam. Em uma delas, o Deolindo responsabilizou-se por levar o aparelho de som. À meia-noite, cansados de esperar por ele, contratamos um sanfoneiro que além de bêbado, nada sabia de repertório junino. Tocava apenas uma melodia na sanfona de fole furado que mais soprava vento que som, mas possibilitou a animada quadrilha. Deolindo chegou no dia seguinte com o aparelho de som e passou o resto da tarde, tentando ligá-lo à bateria do carro. Após várias tentativas frustradas e duas baterias em curto, chamamos novamente o sanfoneiro e seguimos com a festa até o dia seguinte. Eram festas que geralmente varavam noites e os participantes dormiam em redes pela sala e varanda.
Para quem compareceu ao reencontro no restaurante Xique-Xique da Asa Norte de Brasília, a sensação é de que a vida, por mais difícil que seja, deve ser levada com alegria, pois se houve momentos penosos, também aconteceram os de contentamento. Após quarenta anos, este foi o primeiro reencontro do grupo. Com o sucesso, outros participantes virão e, com certeza, novas conversas a compartilhar.


sábado, 7 de dezembro de 2013

A MENINA QUE SE FEZ MULHER

(Google - Imagens)
Rosinha é menina esperta e aos treze anos, entendendo as dificuldades do pai para financiar as despesas, decide trabalhar. Distribui currículos em lojas, shoppings e supermercados, e em pouco tempo coleciona ofertas de emprego. É contratada como vendedora em barraca de peças íntimas, na Feira dos Importados. Como exibe silhueta torneada, esbanjando inocência e sensualidade, se permite o uso de vestes provocantes e maquiagem arrebatadora, como as atrizes das novelas. Da menina que lidava com bonecas e brincadeiras infantis, desabrocha a mulher esbelta exposta à cobiça.
André é mais um a interessar pela menina. Homem feito, 22 anos, casado e proprietário da barraca em frente, reconhece a magia da moça. Rosinha percebe o interesse do rapaz e, decidida a resistir, apenas alimenta sua inquietude sem transparecer interesse. Esperta, identifica nele a maturidade e independência que aos outros faltam.
— Aposto que é virgem — comenta André com o amigo, que comparece diariamente e faz do endereço mirante de observação.
De lindo sorriso, resiste bravamente aos mais ousados convites e continua a mostrar calcinhas, sutiãs e roupas sensuais, alimentando a volúpia dos clientes masculinos. Um dia, Rosinha recebe buquê de rosas com cartão escrito “Te quero. Não desistirei de você. André”. As pernas fraquejam e um calor sobe pelo ventre juvenil. A partir daí passa a reforçar o perfume e brinda o rapaz com belo sorriso.
A oportunidade para André surge no mesmo dia. Uma greve de ônibus. O rapaz se oferece para levá-la em casa e, a partir daí, passam a namorar. Sutilmente, o rapaz transparece que quer algo mais que namoro e Rosinha, sem forças para resistir aos beijos recheados de intenções, procura Sônia, a melhor amiga.
André, insistente, também conhece Sônia, a quem pede ajuda para conseguir o troféu. Ela deverá aconselhar a namorada a entregar a virgindade e, em troca, André a emprega na loja. Rosinha, inocentemente, se aconselha com a amiga, sem reconhecer a trama armada.
— Sabe Sônia, acho que perderei André  ¬ e confia o pedido do rapaz.
— Pois se entregue mesmo, deixe de ser boba, se não o fizer, ele te larga. Homem é assim mesmo — aconselha Sônia.
Naquela noite, Rosinha pouco dorme e quando o faz, sonha com as mãos de André em seu corpo, os beijos quentes e acorda suada. Amanhece decidida a entregar-se a André. À noite, se dirigem a uma esquina escura, perto da casa da moça e, dentro do carro, Rosinha deixa a inocência e entra na maturidade. Passam a sair diariamente e, como esquecem as precauções, a moça engravida.
André, homem maduro, já esperava isso e se dispôs a ampará-la. Rosinha aceita a ajuda, mas quando o jovem fala em casamento, declina e explica que a vida de casada não está nos planos. Com 27 anos, a moça considera a gravidez fora de hora, determinante para sepultamento do projeto de vida. Culpa-se e sofre em silêncio. Os olhos baixos refletem sua melancolia. André formou outra família e a visita três vezes por semana. Quando juntos, a leva para o quarto e a submete da mesma forma de quando a conheceu, na esperança de recuperar a moça brejeira e alegre.
— Gostaria de terminar a relação. Tenho 27 anos e estou presa a este homem — baixa a cabeça, parece envergonhada. — Só faço sexo porque ele quer, não sinto nada. Depois, fico feliz. Feliz porque terei três dias de folga antes que ele me procure novamente — pensativa, o olhar caído, a fala baixa. — Um dia refaço minha vida. Na verdade, nem vivi ainda. Saí da opressão de papai e caí na de André.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

AS DORES DO ABANDONO

(Google-Imagens)
Antes de entrar, observa demoradamente a varanda protegida com lona preta. Cuidadosa, empurra a porta encostada e entra. Lentas passadas, ajudadas por uma bengala levam a mulher que deixa agradável perfume na sala da casa de madeira. Usa bolsa e sapatos de couro marrom, calças de brim e blusa amarrada na cintura.
A residência é simples, os móveis surrados. A dona da casa, sua irmã, a recebe com breve sorriso. Marcaram o encontro no dia anterior. A recém-chegada sente o coração acelerar e torce as mãos de ansiedade ao perceber o rapaz com uniforme militar e boné entre as mãos. Apesar dos anos de separação, o reconhece imediatamente. Lentamente vai ao seu encontro e, quando está perto, deixa a bengala cair e o abraça forte. É recebida com braços arriados ao longo do corpo. O homem está frio, como estão gelados seus sentimentos.
- Pedro, meu filho, senti muito sua falta – soluça abraçada ao rapaz. O rosto afundado em seu peito.
A anfitriã observa o distanciamento, conhece os motivos. Há aproximadamente 25 anos, a mulher abandonou o rapaz na rodoviária de Brasília. A criança contava cerca de cinco anos de idade e foi deixada numa fila de ônibus, após passeio pelo Conjunto Nacional. Disse que compraria pastel e desapareceu. Depois, informou a Administração que avistara um menino perdido no piso inferior, descreveu-o e saiu rapidamente. Pedro foi levado pela assistente social à creche do governo.
Quando a tia o chamou para reencontrar a mãe, Pedro relutou muito.
- Não tinha condições de te sustentar, querido. Nem você nem sua irmã – fala baixo ao filho impassível. Continua abraçada ao rapaz. - Quando conheci Alfredo, ele exigiu que eu desse um de vocês. Escolhi você, mais velho e menino, tinha melhores chances de sobrevivência que sua irmã de colo.
As explicações em nada mudam o comportamento do rapaz e a mãe procura amparo nos olhos da irmã, que desvia o olhar para o chão.
A tia também é responsável por parte da história difícil do rapaz. Quando soube que seria desligado do abrigo, ao completar treze anos, ficou penalizada e o levou para casa. Mas a sina estava longe do fim. Chegando lá, o adolescente foi muito mal recebido e, francamente hostilizado pelo tio e primos. Como exigiram que dormisse fora de casa, a tia alojou-o na varanda, protegido apenas por lona plástica preta. Nas madrugadas frias, enroscava-se com o cachorro e o gato para se aquecer. Dormindo nesse estado a mãe o viu em visita a irmã e novamente desapareceu.
Durante a adolescência, carente de relacionamentos, compensava com as melhores médias da escola e assim foi o primeiro colocado no Colégio Militar.
- Filho, quero pedir perdão. Sei que tens dificuldade para perdoar, mas entenda, fiz por amor – tenta encarar o rapaz, que desvia para o lado.
- Tenho grande decepção contigo, nem sei chamá-la de mãe. Jamais me procura, diz que ama e pede perdão. Teve posição subalterna com relação ao teu companheiro e abandona uma criança na rodoviária. Nem imagina o que passei e pede perdão? Não é tão simples. Estou despreparado para perdoar – dirige-se à porta, abre e sai batendo-a forte. Na pressa, deixa cair um envelope e não percebe.
A mãe chora baixinho enquanto a tia corre atrás do rapaz com o papel na mão, mas o carro está longe. Abre o envelope. É um laudo médico. Lê e passa para a mãe.
“Paciente com surtos psicóticos, provável esquizofrenia. Indicação de acompanhamento por psicoterapeuta e psiquiatra. Focar tratamento na infância”.

sábado, 16 de novembro de 2013

PRISIONEIRO

(Google Imagens)
A fechadura abre com barulho ensurdecedor, a porta escancara e entra intensa luminosidade que fere os olhos do prisioneiro, acostumados a escuridão. Aparece a silhueta do homem que diariamente faz tremer o rapaz algemado ao banco de madeira aplicando métodos de tortura para obriga-lo a entregar amigos. Sempre a mesma gravata surrada, calças e sapatos pretos. Encara o rapaz com desdém. O prisioneiro entende que a sessão de tortura iniciará. Se igual às anteriores, o fim está próximo. O sangue gela, como acontece sempre que antecede as sessões. O recém-chegado acende a potente lamparina da mesa e foca no prisioneiro.
Atrás do homem de preto, entra outro, de avental branco e longo bigode grisalho. Fecha a porta e aproxima-se do prisioneiro. Levanta a pálpebra esquerda e pergunta o nome:
- José P. – responde após longo silêncio, rouco, voz baixa, quase imperceptível. O desânimo toma conta do rapaz.
- Dificilmente resistirá a mais uma sessão. – o homem de avental branco fala pausado, com experiência de médico de pronto socorro. Detesta o torturador, classifica-o como frio e sanguinário. Já atendera prisioneiros  passados pelas mãos do homem.
- Se quiser viver, que assine a confissão. – o carrasco fala alto, esbraveja que não é problema dele e reafirma que fará o trabalho. Atira uma folha de papel na frente do prisioneiro. A assinatura, bem sabia o médico, não afiançava a vida do torturado.
- A saúde está comprometida pelos maus tratos no pau de arara, os eletrochoques e dias sem comida e água. – reafirma.
José P. fora retirado de casa acusado de terrorismo, levado de pijama para um porão e submetido a toda sorte de sevícias. Taxado de terrorismo contra o Estado, o estado do rapaz era lastimável, com olhos vermelhos  emoldurados por profundas marcas negras. Na boca, um hematoma que pululava gosma branca a escorria peito abaixo.
- Que diga o que tem a dizer, por bem ou por mal. Basta assinar o documento sobre a mesa. – o torturador exultava os momentos que antecediam o início do interrogatório.
- Não posso atestar pela saúde do prisioneiro. Deve ser internado em um hospital imediatamente. Posso ter o diploma cassado. – o médico se preocupa com a reputação e isto enraivece o torturador.
- Pouco me interessa. Iniciarei a sessão -. Vira e liga o equipamento de som. A sala inunda o ambiente com música clássica. Abre o volume ao máximo, e enfia um par de luvas cirúrgicas.
O médico percebe o prisioneiro fixado no revólver em cima da mesa. Por instantes, se entreolham, costurando tenra cumplicidade.
Alheio aos acontecimentos, cego de raiva, o torturador coloca as luvas, o capuz, a soqueira, toma água. Ouve dois estampidos. A dor lancinante e instantânea o impede de respirar. Volta-se, leva a mão à cintura a procura da arma. Percebe-a na mão do prisioneiro. Mais dois estampidos e cai em agonia.
Enquanto o médico atende o carrasco, ouve outro tiro. Apressado larga o moribundo e atende ao rapaz que, sem coragem de tirar a própria vida, acertara o teto da cela.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

SEMPRE HÁ SAÍDA

(Foto cedida de arquivo pessoal de Elaine)
Enquanto observa o filho casando aos 37 anos, Elaine rememora a própria vida. Consulta o relógio. Dezenove horas e trinta minutos. Os convidados levantam e a noiva entra na igreja ao som de cornetas e da marcha nupcial.
Elaine recorda a infância pobre no interior do Paraná quando ajudava a mãe, sendo babá dos irmãos desde os sete. Brincava de bonecas com os bebes recém-nascidos gerados um a cada ano. Mais velha entre nove irmãos, ficou órfã cedo. Aos dezesseis presenciou a mãe morrer no parto da caçula e o pai, sem condições de sustentar a recém-nascida, a deu ao médico. Quando a máquina da existência parecia azeitada para funcionar, o pai casa novamente e inicia a segunda família e seguem as mudanças radicais. Com a casa cheia de crianças, a madrasta passa a maltratar a prole do pai. Os conhecidos da família, enternecidos pela sorte das crianças, se oferecem para criá-los e cada um é entregue a uma família. Por fim Elaine e os dois menores saem também da casa e vão morar com a avó materna. O pai teve quatro filhos com a madrasta e, ao vir o último, não havia nenhum da primeira mulher a morar na casa.
A noiva segue a passarela no corredor central da Igreja Matriz do Paranoá enquanto os pensamentos de Elaine fervilham com as lembranças do longo caminho trilhado até este momento de alegria. Agora, casa o filho mais novo, e os pensamentos estão em Sérgio, o mais velho a dormir em casa sob efeito de pesada medicação.
Aos vinte e um, a gaúcha natural de Soledade no Rio Grande do Sul, conhece o homem que viria a ser o pai de Sérgio, o primeiro filho. Nesta época, Elaine idealizava a família, mal sabia que estava para começar a saga. Aquele que carregava na barriga, gerado com amor e a quem cantava canções de ninar, sofreria os primeiros maus tratos. Diariamente o pai chegava a casa embriagado. Certo dia, sob efeito da bebida, sacou da arma e descarregou-a na mulher no oitavo mês de gravidez tentando acertá-la. Errou os tiros, mas acertou o emocional. Insatisfeito, desferiu vários socos em seu rosto. Os maus tratos, sem cuidados médicos, acredita Elaine, ocasionaram a doença do filho. Ao nascer, a criança foi diagnosticada com falta de oxigenação cerebral. Sofreu desvio neurológico grave. Elaine inicia a peregrinação por médicos e hospitais na tentativa de amenizar os sintomas. A enfermidade estava longe de ser solucionada e Elaine, abandonada pelo marido, segue a busca por tratamento, sem abandonar a luta da sobrevivência, agora só com Sérgio.
Gláucio, o caçula, aguarda a noiva que entra devagar no templo, Visivelmente nervosa, faz longas e profundas aspirações e expirações. Elaine percebe o estado da nora e, ao trocarem olhares, procura passar sorriso doce e confiante. A noiva entende o recado, suspira profundamente e acalma. Segue rumo ao noivo que a espera radiante. Os dois se beijam, dão-se os braços e se viram ao altar. Ao sinal do padre todos sentam e inicia a cerimônia. O casamento é um grande momento para a gaúcha. É filho do mesmo homem que a maltratou.
Admite amar muito o segundo filho, sempre compreensivo e carinhoso com Sérgio. Lembra-se das circunstâncias do nascimento. Abandonada pelo marido, ainda grávida de Sérgio, após alguns anos ele implora para voltar. Ela tem medo, mas a pressão familiar é grande aceita. Logo percebe que nada mudara naquele homem. Continuava alcoólatra, violento e cruel. Fica grávida do segundo e entende que tudo se repetirá. Porém, desta vez o homem age diferente. Reconhece o comportamento violento e as atitudes que causam sofrimento. Sente-se aquém da mulher que o tirou da lama pela segunda vez, arruma as malas e some, desta vez, sem paradeiro. Reaparece anos mais tarde, doente do corpo e da mente. Gláucio recebe o recado que quer vê-lo e, ao atendê-lo, ouve do pai no leito de morte, o comovente pedido de perdão.
O padre faz a homilia do matrimônio. Elaine enxuga a lágrima de felicidade que rola até o queixo. O casamento do caçula é o coroamento não só da vida até então plena de desventuras, mas da força que identifica a mulher.
Como na cena de filme de horror, lembra de como cuidara do filho mais velho, o Sérgio. Na adolescência o rapaz teve surto psicótico e quebrou parte do barraco onde moravam. A contragosto, internou-o em clínica psiquiátrica do governo, onde permaneceu por dois anos. Certo dia ouviu do médico psiquiatra que a medicina nada poderia fazer para ajudar. Experimentara “doses cavalares” de remédios que nenhum efeito fizeram. Elaine retirou-o da clínica e aos poucos desmamou a medicação do filho. Hoje, Sérgio tem 44 anos e para alimentar depende da mãe.
Aprendeu a trabalhar o ressentimento com o ex-marido, que sempre negou ajudar no sustento dos filhos. Para não dar pensão alimentícia, mesmo após decisão judicial, pediu demissão de emprego público. Mágoa, guarda apenas dos vizinhos que para livrar da presença incômoda de Sérgio, fizeram abaixo assinado. Em defesa dela, veio o prefeito da cidade e a diretora da escola. Após isto, a vida se encarregou de ajudar a mulher a desenvolver a superação. Na época morava na área posteriormente inundada pelo lago da Itaipú Binacional. Com a indenização, pegou os filhos e mudou para Brasília. Não guarda rancor do ex-marido. Sabe que a fez sofrer, mas reconhece a participação importante e nobre, os filhos adorados. Acredita que ele presta contas em outra dimensão, diretamente ao Poder Superior e não o julga.
A saída da igreja, mãe e filho abraçam demoradamente. A emoção só é compreendida por quem conhece.  Gláucio admite dever as conquistas à mãe.
Elaine aprendeu a conviver e acalmar Sérgio. E se cuida, física e mentalmente, ensinando a enfrentar provações, “pra tudo há  saída mesmo nos piores momentos.” E se diverte. Frequenta todos os locais de dança em Brasília. “Quem sabe vejo o carioca, dançarino danado de bom.” Afirma sobre o amigo que vez por outra encontra nos bailes da vida. “Adoro dançar até perder as pernas”.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

TRABALHO SEM FÉRIAS

(Raposa-MA)
Ao nascer a primeira filha, o pai maranhense, escolheu  o nome em homenagem ao estado natal. Chamou-a Mariana, a filha do Maranhão. Cedo a criança conheceu a fome. Mais velha de oito irmãos, dois morreram por desnutrição. Após a perda, o pai desesperado com a situação, arrumou trabalho no caís do porto de Belém e, por conta do transporte de cargas pesadas, adquiriu hérnia inguinal. Retornou a São Luís e, prostrado na cama morreu com as dores da fome e da doença a queimar o estômago. Mariana com dez anos perdeu a infância e inocência para o vizinho compadre.
A partir do dia seguinte ao enterro do pai, Mariana passa a ajudar a mãe no sustento da família. Ainda madrugada, enquanto as amigas dormem, acorda e toma o ônibus rumo à Vila Raposa. Lá arrecada peixe e entrega na capital.
Aos quinze, grávida, amasiou-se com biscateiro viúvo e assume quatro filhos, somados aos do casal, formaram família de onze pessoas. O marido Chiquinho tinha na aguardente verdadeira paixão. Jamais a espancou, mas para criar coragem, bebia muitas, até chegar a casa. Então, jogava a mulher na cama e possuía no único prazer por ele conhecido. Os filhos nasciam sem controle até que no quinto, o doutor ligou as trompas. Cedo ficou viúva e a partir daí, ajudada pela mãe sustentou filhos e enteados.
É uma vida sem descanso. Levanta às quatro da manhã. Labuta na rotina de chegar a Raposa, ajudar os pescadores e arrumar os barcos. Trabalho duro que  rende algum peixe em pagamento. Permanece na feira, conversando com um e outro até às 12h a espera dos barcos carregados de pescadas amarela, pescadinhas e peixes-espada, quando novamente ajuda no esforço de descarregar. E ganha mais peixes.  Quando a quantidade é boa, abastece os clientes com preço convidativo. Caso contrário, complementa comprando o restante que é quando o preço fica salgado.
Hoje com quarenta, Mariana estampa rosto sofrido que emoldura aparência de sessenta. A vida difícil golpeia incansavelmente. Após estender camada de gelo nos isopores, corre a tomar o ônibus de volta. Há pouco tempo para entregar e conta com o auxílio do filho mais velho, o Zé, a espera-la no ponto. Pegam os isopores e seguem ladeira abaixo para abastecer o primeiro cliente. Um restaurante à beira-mar, cujo dono reclama do atraso. Mariana recebe o pagamento e segue para o próximo. Ansiosa e cansada, levanta os olhos aos céus e entra em prece para chegar logo em casa e poder descansar. São meia noite e trinta. Remexe nas panelas, prepara angu com farinha, come e deita. Reza antes de dormir. Agradece o dia, a saúde dos filhos, a dela, o alimento. Há trinta anos a mesma rotina. Dorme antes de orar pelo marido. Morto maltratado por dores, cachaça, fome e desavenças. Mariana enxuga a lágrima e cai em sono pesado. Sonha com a pescada amarela abrindo a boca para a engolir.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

HORA DE MUDANÇA

(Praia de São Marcos - São Luís - MA)
Displicente, Francisca aproveita o lindo por do sol, o azul do mar, a temperatura da água e o ambiente de final de tarde na praia de São Marcos em São Luís do Maranhão. De cabeça baixa, arrasta vagarosamente o pé, marcando a areia em formato de leque. A onda audaciosa lambe os pés brancos da mulher e a corrente de ouro em seu tornozelo direito.  Foi casada por vinte anos e está separada há dez. Severino, o ex-marido, conheceu moça mais jovem e foi embora para Recife. Hoje tem um filho com ela. Francisca mora só e credita a separação à impossibilidade de engravidar. Mas os laços com o antigo companheiro continuam. Trocam confidências semanalmente em telefonemas de uma hora. Admite manter amor por ele.
Após a aposentadoria, pratica caminhadas diariamente desfrutando da facilidade do mar quase em seu quintal. Os pensamentos, assim como o mar,  agitam o coração que dispara. Contemplativa, nem percebe a aproximação do casal. Abaixa para pegar a correntinha de ouro que desprendeu da perna antes que o mar a tome, mas tem dificuldade. Ao perceber a cena, o homem se aproxima e agilmente pega o enfeite e devolve a mulher. De meia idade, acompanhado de bela jovem, o homem exibe um sorriso cativante. Francisca agradece e também sorri. Fala que é joia de família. O desconhecido se oferece para colocar a correntinha. Sem jeito, Francisca alega que a moça o espera. Ele esclarece que é filha e faz sinal para ela seguir a caminhada. Riem e se apresentam com aperto de mão.
O homem da praia abaixa-se sobre os calcanhares e suavemente recoloca o adorno no tornozelo, roçando as mãos no pé de Francisca, que ruboriza ao  toque. Ao levantar, ficam a poucos centímetros um do outro.
O anoitecer se aproxima e o sol banha a praia de dourado. Seguem a passos lentos como se quisessem entrar no espetáculo da natureza. Vez por outra a onda forte os obriga a sair e roçam as pernas levemente. Gostam do contato. O desconhecido ficará dez dias em São Luís. Os dois entendem que o momento merece ser aproveitado. Comentam sobre desencantos, amores e desamores. A maranhense cita lugares interessantes da capital. Programam passeios. Na despedida, combinam dançar forró à noite. Assim foi toda semana. Durante o dia, frequentavam praias e faziam  pequenas viagens por cidades vizinhas. Nas noites quentes da capital maranhense, dançam animados. Na noite que foram ao apartamento da maranhense, beberam vinho e conversaram até o amanhecer.
O décimo dia chega rápido e Francisca entende a hora da despedida do amigo da praia. No mesmo dia, pela manhã, recebe ligação de Severino. Comprou passagem para o dia seguinte a São Luis e adianta o assunto principal da ida. Quer reatar o casamento. Enquanto falam, o celular acusa nova ligação. Atende. É o homem da praia. Eufórico, explica que a filha retorna dia seguinte. Ficará mais dez dias. Quer vê-la, tem planos para os dois.

domingo, 22 de setembro de 2013

JESUS DO MARANHÃO

(Por do sol de São Luís-MA-arquivo pessoal)
Jesus este ano completa 50. Nasceu em Barreirinhas e é garçom em uma barraca à beira mar na praia do Calhau em São Luís do Maranhão. De família pobre, esqueceu da infância. Lembra apenas o trabalho duro como ambulante ajudando o pai pescador, suando a camisa para o ganha-pão. Conheceu Severina aos treze, vizinha de escassez na mesma periferia ribeirinha. Por desconhecerem meios de prevenção, engravidaram na recém-saída infância. Passaram a viver na casa de palafitas dos pais da moça. Com o nascimento do primeiro filho se mudaram para a casa de fundos e, se a fome entre dois  teimava em rondar o fogão, entre três, piorou. E como a diversão era pouca e o trabalho muito, a cada ano mais um filho brotava do ventre da mulher. Quando veio o sexto, o doutor ligou as trompas de Severina e Jesus, sufocado pela fome e pelas dificuldades, avisou à mulher que tentaria a vida na capital. Arrumou três sacolas de supermercado com roupas e tomou carona de carroça para São Luís.
Antes de garçom na barraca no Calhau, Jesus foi guia nos Lençóis Maranhenses, de onde trouxe opinião bem pessoal. Afirma que o turista dos Lençóis enfrenta inúmeras dificuldades, principalmente por receber informações insuficientes. A maioria chega ao local, sem saber que as dunas de areia, patrimônio turístico do estado, distam da capital mais de 300 km. Com esta distância, se perde metade do dia na ida e outra metade na volta, esticando a estada a no mínimo três dias, para conhecer os locais indicados pelos guias. Para hospedagem, o lugar conta com confortável estrutura hoteleira, mas Jesus adverte sobre os passeios turísticos que exigem um bom preparo físico. Por acontecerem em enormes dunas, castigadas por sol escaldante, assistiu a inúmeros turistas desavisados padecerem com severas queimaduras solares por falta de cuidados adequados e ajudou muitos outros, extenuados por longas caminhadas nas matas. O local é paradisíaco, sem dúvida, mas há necessidade de informações claras sobre as condições adversas, principalmente aos idosos.
Jesus admite que perdeu o pique para ser guia nos Lençóis. Prefere atender turistas nas barracas da praia do Calhau. Assim ajuda no sustento da mulher e filhos que vivem na pequena cidade do interior. “Enfrentar aquela mormaceira dos Lençóis o dia inteiro é complicado”, avisa.
Em Barreirinhas, Jesus deixou Severina e os filhos, já  habituados a viver longe do pai. “Filho precisa do pai somente quando pequeno, após certa idade deve dar conta da vida”, ensina. O mais velho mora com ele e ajuda no atendimento às mesas. Todo final de semana envia parte do salário para o sustento da família. A mulher aceita o que recebe sem reclamar e ele a visita uma vez por mês. “Somos unidos, seu moço, ela precisa morar lá por causa da moradia. Em São Luís tudo é caro e homem sozinho vive em qualquer cantinho”.
Jesus também é milagreiro. Com tantas bocas para alimentar, arruma tempo e dinheiro para dar assistência a “cambalacho”, a segunda mulher, com quem tem “um filho por fora”, o José de Arimatéia. “Eu e ela somos amigos”, explica.
“Olha o por do sol, moço” – aponta encerrando a conversa, saindo rapidamente para pegar o troco.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A CORRIDA

(Google Imagens)
Num domingo de sol, em plena primavera seca da capital federal, Carmem corre no Parque da Cidade, movida pela vontade de participar da São Silvestre em São Paulo. O suor morno da moça, perfumado por adocicada fragrância encanta jovens que esbanjam vigor físico e energia. Com cabelos negros e tez morena, é logo percebida pelos corredores.
- Cansou? – Comenta um jovem sorridente de moletom vermelho que reconhece ser Tiago. Ensopado de suor emparelha com a moça, reajustando a velocidade a dela.
Haviam se conhecido durante o doutorado na Universidade de Sorbonne em Paris. Alugar apartamento de um quarto os levou a vida de casados e se mostrou péssima solução para ela. Tiago quis seguir a mesma convivência no Brasil, mas Carmem o conscientizou que aquela solução valia apenas para aquele período e cada qual seguiu vida própria. Agora, passados quatro anos, Carmem é funcionária de multinacional e Tiago, sem objetivos, está desempregado e leva a vida as custas da mãe aposentada.
- Cansei nada. Treino para a maratona de final de ano. O que menos  interessa é a velocidade e sim a resistência. – A moça conhecia a vida desventurada do rapaz. Sentiu-se insatisfeita com o encontro.
A vida com Tiago em Paris se tornara catástrofe emocional e serviu de  experiência a moça. O rapaz era impetuoso, pleno de ambições e iniciativas, que logo arrefeciam, dando lugar a uma tristeza profunda. No segundo mês do curso que durou dois anos, a mãe dele chegou ao minúsculo apartamento e ali completou o tempo com eles.  A convivência só se manteve porque Carmem evitava encontrá-la. A sogra, mulher extremamente metódica, se ocupava com atividades fora de casa, corrida matutina, academia, passeios pela cidade e outras que Carmem desconhecia e nem se interessava. Conhecer os horários da mulher, ajudou-a a regular o próprio tempo e retornar  em horários diferentes. O filho, alheio a tudo, vivia feliz no mundo da mãe.
- Soube que casou. – emendou o rapaz tentando engatar conversa, após silêncio dos cinco minutos iniciais.
- Sim, com Maurício, o biólogo, lembra?   – Retrucou a moça com mau humor. – Tenho um menino de dois anos.
- Aquele babaca? Por isso nos visitava diariamente. Pleno de atenções com você.
Tiago recordava de Maurício. Um francês com cabelo amarrado em rabo de cavalo que, mesmo com namorada dava em cima de Carmem. Conclui que foi péssimo abordá-la no Parque.
O silêncio teima em pairar entre eles. A moça recorda claramente da implicância do rapaz com Maurício e deseja que vá embora de sua vida. Considera que a aproximação dela com o marido só aconteceu para confidenciar escapadas de Tiago, ajudado pela mãe.
Ao olhar para o lado, o rapaz percebe a grama seca, onde ciscam pardais levantando poeira densa. O Ipê amarelo a exibir a florada exuberante, é ignorado por ele. A corrida o extenua e o fôlego arrefece. A jovem percebe.
- Bem, até mais, boa sorte. – Carmem aperta a corrida. Ele pára e agacha arfante. Ela segue em frente, busca o preparo para acompanhar Maurício na São Silvestre.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

COPACABANA NÃO ME ENGANA

(Google - Imagens)
Avistei o Rio pela primeira vez em tarde de domingo ensolarado de verão escaldante. Enquanto o Electra da Varig sobrevoava a cidade, percebi aquela que até então só conhecia em postais. Copacabana. Janeiro de 1978. Lá participaria de curso em Jacarepaguá por um mês.
No táxi falei orgulhoso ao motorista: “Copacabana”.
Hospedei-me no hotel Miramar, imponente, no Posto 6. Abri a janela da suíte do oitavo andar e a imagem de postal gravou na minha mente o oceano e o céu, que azuis encostavam-se no infinito. Na praia outro mar, de banhistas. O cheiro da maresia me renovou. Precisava misturar-me às pessoas. Vesti roupa leve e almocei no primeiro restaurante à beira-mar. Pedi badejo ao molho de camarão e vinho, e observei o movimento, encantado pelas belezas naturais.
No calçadão o andar vagaroso de jovens na paquera. Na areia um show à parte. Jovens praticavam esportes enquanto as mulheres exibiam corpos esculturais em reduzidos maiôs. Tirei os sapatos e desci à areia e, mesmo com roupas de turista, estava entrosado. Em Copacabana cada um é dono do próprio nariz, ali não há preconceito. O tempo passa preguiçoso, retardando o anoitecer. À meia-noite, ainda inebriado por tudo, caminhava em meio a turistas estrangeiros, no calçadão. Esta é minha visão do bairro carioca.
Outro dia, almoçando com uma amiga recém chegada do Rio, ouvi  a versão do século XXI daquela Copacabana. A conversa segue solta em meio a salmão com alcaparras e vinho argentino. O assunto é o  bairro nos anos setenta.
Ela atualiza falando da experiência recente.
- Andando no calçadão, percebi os velhinhos de Copacabana. Parece estranho falar assim, mas a quantidade de idosos sem a menor reação aparente que vi, me impressionaram.
Recitei Rubem Braga, na crônica “Ai de Ti Copacabana”:
- “Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e destes risadas ébrias e vãs no seio da noite.” – acrescentei – é hoje o bairro com maior número de idosos do Brasil. Um terço da população do bairro é formada por gente acima de sessenta anos.
Ela continua:
- Há algum tempo li que Copacabana era o local onde os velhos tinham a melhor qualidade de vida do país. Se não me engano, do mundo. Acredito nisso na medida em que esses velhos, de uma forma ou de outra, estão inseridos na vida cotidiana da cidade, talvez mais que em outros lugares. Tomam sol, andam muito, bebem chope geladinho, muitas vezes tendo como parceiros os próprios cuidadores, falam com todo mundo, etc.
Comento sem convicção:
- Quem sabe, vez por outra, encaram a jovem garota que passa à frente.
Ela ri, e continuo:
- Podem frequentar ali por anos. Um dia não perceberão mais a diferença sutil entre a vida e a morte... Olha que coisa maravilhosa pensar que está em Copacabana, cheio de energia e acordar em outras “plagas” como diz no sul.
A amiga toma um gole de vinho, fica pensativa e continua:
- Sempre tive a impressão que os velhos de Copacabana sabiam celebrar a vida até o último instante.
Sirvo vinho para nós dois e comento:
- Lembra do Niemeyer? Na verdade se agarram à vida mesmo que por um fio, querendo usufruir até o último instante da delícia que é viver em Copacabana. O vai e vem nunca acaba e mesmo velha e tosca ainda tem majestade nas areias, calçadão e avenida congestionada. Dos velhos, os olhos pouco enxergam e os ouvidos pouco ouvem, pois conhecem cada centímetro daquele lugar. Ouvem e veem o que interessa. A natureza se encarrega de filtrar o desnecessário
Esvazia a taça e continua, sem prestar atenção ao que falei:
- Mas então, algo diferente passou pela minha cabeça, me flagrei pensando se ali já não era o céu e de repente pensei ser eu a intrusa de Copacabana. Assolou-me a sensação estranha de solidão, tristeza e melancolia.
Nessa hora, cita Caetano Veloso: - Como já dizia o seu ídolo: "O mundo em Copacabana. Tudo em Copacabana, Copacabana. O mundo explode longe, muito longe. O sol responde. O tempo esconde. O vento espalha. E as migalhas caem todas sobre Copacabana, me engana."
Copacabana está, assim como seus velhos, agarrada em um frágil fio de glamour. Um dia Princesinha do Mar, hoje Rainha aposentada. Minha amiga desconhece, mas longe de ser intrusa foi observada pelo rabo de olho de algum velhinho de Copacabana, como colírio para um olhinho embaçado.

domingo, 18 de agosto de 2013

ENCONTRO

(Google-Imagens)
“Bela, suave, olhos castanhos e o jeito de menina que me cativou imediatamente.” O momento exato da ocorrência do amor é dos maiores mistérios da humanidade. Na rua, no ônibus. No sinal de trânsito fechado ao ver o carro ao lado. Em instantes, tudo é observado, o olhar, o sorriso, o movimento de cabelos. Pronto, aconteceu. Nasceram um para o outro. Conforme os poetas, em coração aberto o amor entra sem bater.
Assim acontece com o jovem da história. Ela na parada de ônibus do SESC da 505 sul entrando em um taxi e ele preso no engarrafamento colossal da avenida W3 em um dia de setembro com dez por cento de umidade relativa e temperatura beirando trinta graus. Valdir baixa o vidro escuro do Gol e comenta algo ao  taxista. A resposta nem percebe, importante é a jovem que consulta nervosa o relógio sentada no banco de trás. O coração dispara.
Com o trânsito parado, sai de seu carro, abre a porta do taxi e senta ao lado da moça, sob protestos do profissional. Ela reage timidamente ao interlocutor audacioso. Pergunta o nome e ela fala o primeiro que vem a cabeça, o mesmo usado na internet quando prefere ficar anônima, Alice. Depois de uns quinze minutos de conversa, o trânsito recomeça a andar e Valdir oferece carona. Confere as horas, admite estar atrasada e aceita a oferta. Fala da prova na UNB enquanto o rapaz paga o taxi e a conduz pelo braço a seu carro, que a estas alturas, atrapalha o trânsito que flui normalmente.
A conversa segue fácil até a Universidade. Para Valdir a entrevista de emprego está perdida e o rapaz gentil se prontifica a levá-la de volta. A jovem aceita, abre a porta do carro e desce correndo rumo ao prédio da Filosofia.
Após rodar um bocado atrás de vaga, Valdir, retorna ao local onde deixou Alice e espera por quatro horas, tempo suficiente, acredita, para o término da prova.  A moça não aparece e ele se desloca ao prédio do curso. Solicita informações. O pouco que sabe é insuficiente para garantir novo encontro. Constata que Alice não consta na relação de alunos. No caminho de volta, se culpa por perder a oportunidade de pedir o telefone, endereço, qualquer coisa.
No outro dia e por um mês completo, deparou-se a espiar o local do primeiro encontro. Até hoje, lá vão dez anos, ao passar a parada de ônibus do SESC, onde a viu pela primeira vez, a procura entre os pedestres.
Na época, trocou o curso de Engenharia do Uniceub pelo da UNB. Completou o curso de Filosofia, o mesmo da jovem. Casou, teve dois filhos. Hoje, separado, declara aos amigos que só casa novamente se for com Alice.
“Até as pedras se encontram!” – Afirma e explica. “Meus pais se conheceram em um aeroporto na Europa, ambos em conexões”.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

EU TENHO MEDO

(Google Imagens)
Após o divórcio, aposentado que estava há dez anos, Flávio passa a queixar de tristeza e desamparo. Apresenta como motivo principal os escassos proventos e as chances minguadas de fazer algo para engrossá-los. É morador da Asa Sul de Brasília e acumula conhecimentos profissionais. É economista com Doutorado, participou de inúmeras empresas multinacionais, viajou o mundo e trabalhou em várias embaixadas. Acostumado a lidar com autoridades, fez importantes contatos e realizou seus sonhos em termos de sucesso e ganhos profissionais. Atualmente, nada disso conta. Desenvolveu o que classifica de importante “fobia social”.
Examina o passado e verifica que certa apatia sempre o acompanhou pela vida afora. Acredita que começou quando criança, vítima de pai forte e autoritário, que o classificava de franzino e desamparado.  A família era grande. Flávio tinha oito irmãos homens e, caçula, conhecido por permanecer a maior parte do tempo calado, esperando alguém o defender. Quando alvo de chacota, o pai saía em defesa. Salientava a fragilidade e colocava o autor da gozação de castigo. Nesta fase, os irmãos o chamavam por Imperador, apelido que seguiu por boa parte de sua vida.  Atendia o pai, orgulhoso da imponência do codinome e aos irmãos e amigos, conhecedores do verdadeiro significado. Inicialmente o único ofendido, Flávio desenvolveu leve piscar do olho esquerdo toda vez que o chamavam “Fala Imperador”! Depois, acostumado, gostava, sem abandonar o tique nervoso.
Na vida adulta, Flávio teve importantes problemas ao deixar de ser Imperador. Em casa reinava absoluto, respeitado e tratado como monarca por todos, mesmo que soasse falso. Na escola e mais tarde também no trabalho, sentia-se humilhado pela falta de respeito dos colegas que desprezavam suas opiniões. Flávio escondia-se na timidez para eximir-se de opinar.
Fez um curso de Direito, mas na primeira vez que subiu a tribuna para defender o réu, suou frio e foi incapaz de pronunciar as primeiras palavras do ritual e assim, viu encerrada a carreira jurídica.
Vive praticamente só. Fechou contrato formal com a faxineira, dona Carmelita, a qual tem direito de usufruir da cama de casal. Quando os filhos perguntam sobre a relação com a mulher, jura ajudá-la por precisar de teto para morar e desfia discurso sobre como as pessoas hoje em dia se omitem de abrigar convenientemente seus serviçais.
Um dia estava no Centro Cultural Banco do Brasil assistindo “um corpo que cai”, filme de Hitchcook que tem no enredo o medo, seus efeitos e a forma de desenvolvimento, esclarecendo que pode paralisar e causar estragos terríveis. “É o melhor filme deste autor”, explica Flávio.
Flávio é frequentador assíduo de salas de cinemas, restaurantes e praças de alimentação. Sempre só, espera por um ouvido amigo disposto a  ouvir suas histórias de medo e paralização, pois descrê de terapias.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O REVOLUCIONÁRIO

(Manifestação Brasília - Google Imagens)
Carlos bem que tenta chegar a Rodoviária na hora combinada, mas atrasa uma hora. Procura por Deise no segundo banco de pedra, a esquerda da pastelaria, vazio. Olha em volta. Cansada de esperar, a moça acompanhou a multidão rumo ao Congresso. Deixar celular em casa foi péssima ideia. Estavam incomunicáveis. A manifestação engrossa e os ônibus despejam jovens falantes e energizados. Logo hoje que convidaria a moça para jantar, se perdem.
O homem compra uma lata de cerveja, dois pastéis e desce a Esplanada dos Ministérios, acompanhando a corrente barulhenta.
Nos anos sessenta, participou de passeatas pelo fim da Ditadura Militar e revigora com a oportunidade de repetir a dose. Na mochila, latinha de refrigerante, bolo de fubá preparado por Rose, e garrafa de vinagre substituíam o kit anti-ditadura de coquetel molotov, bolinhas de gude, cantil de água e foto de Che Guevara, orgulho da juventude. Mas o importante seria a companhia de Deise, se a encontrasse.
Conhecera a moça na primeira manifestação há dez dias. Estudante, morena, vinte e cinco anos, remeteu Paulo a juventude, ao lhe cair nos braços chorando, com dificuldades respiratórias, invadida por gás lacrimogênio. Derramou vinagre na manga da camisa e a fez aspirar. Depois disso, permaneceram juntos gritando palavras de ordem. Foi o bastante. A partir daí, encontravam-se todos os dias para as manifestações. Rose estranhou o arroubo repentino do marido aposentado pela queda da passagem do Metrô.
- O preço do Metrô está pela hora da morte, explicava o sessentão.
¬¬¬ - Mas você só usa carro - gritava a mulher ao homem que saía apressado.
Sem Deise, descia a avenida lado a lado com o grupo de estudantes, imerso no orgulho da posição revolucionária. Ao passar a catedral recorda o tempo de estudante secundarista e a imagem do cartaz “Abaixo a Ditadura”, lado a lado com Rose, hoje mãe de seus seis filhos.
Sente cansaço e percebe os encapuzados apertando o passo. Tenta correr, mas fica pelo caminho, arfando. À frente, a coluna de policiais espera, quieta, cassetetes em mãos. Alguém lhe entrega um saco com bolas de gude. Pesado, deixa cair. Onde estaria Deise?
Ao chegar ao espelho d’água do Congresso, encontra a multidão nervosa. “O povo unido, jamais será vencido”, grita, a voz se perde. A nuvem de gás pimenta obriga a fechar os olhos, tateia a mochila atrás de vinagre. O policial arranca o frasco das mãos.
Em meio a forte neblina, Paulo percebe o casal sair da água. Era Deise de mãos dadas com um jovem. Molhados e sorridentes o casal se olha com ternura. Os olhos do revolucionário lacrimejam e culpa o gás. A manifestação chega ao auge. Para ele, é o fim. É hora de retornar e, com dificuldade, esforça para locomover de volta a Rodoviária. A multidão agita. A correria começa com policiais agredindo. A energia de Paulo esgota e se vê cercado. De um lado, jovens com cartazes e gritos. De outro, policiais. O barulho distancia. Lembra os netos e a mulher que assiste novela em casa. A mochila nas costas de tão pesada, está impossível de carregar. Desaba no gramado.
- Tá tudo bem, vovô? – Pergunta a jovem de rosto colado ao seu.
Seria Deise?
- Este é o velhinho que te falei, foi ativista nas passeatas da Ditadura. Pensei que havia desistido – fala a moça ao rapaz.
Afastam a moça. Sirene, luz vermelha piscando. Escurece. Acorda. É levado por vultos de branco. Ruído de rodas e correria de luzes por sua cabeça. Atravessa um corredor branco. Quer falar, mas o tubo na boca impede.

sábado, 15 de junho de 2013

A VELHA AMIZADE

Renato e THOR (arquivo pessoal)
“Meu grande problema é que nasci na família errada”. Sem explicações, parece dito por quem faltou oportunidade na vida. Alguém carente de apoio financeiro, que permitisse estudar com qualidade.  Um desafortunado, com poucas chances de desenvolvimento. Ledo engano, a frase proferida deve-se a quem no passado foi filho de banqueiro, nascido em berço de ouro como se diz no jargão da vida endinheirada. Contarei.
Ao buzinar em frente ao estacionamento, THOR, o cão rotweiller se aproximou do portão com cadeado e olhou furtivo, quieto, esperando. Estava de prontidão de olho no invasor. “Já vou”. Gritou a voz dentro do barraco de alvenaria. O cão, com ares de nobre, sentou a espera, calmo, mas vigilante.
Logo após, aparece a figura magra, esguia, roupa surrada. Reconheceu o recém-chegado imediatamente, apesar do tempo que estavam afastados. Não se viam há mais de 40 anos. Atualmente com 58 anos, os dois se olharam e riram como a medir os estragos que o tempo fizera a cada um.
                   “Tá velhão hein meu?”  disse Renato, o morador. “Todos estamos”. Respondeu o visitante. O anfitrião  gritou para Thor entrar no canil. “Espera que vou prender este vira lata filho da puta”. Chamou o cachorro e retirou-se para o fundo do estacionamento.
O recém-chegado constatou que o tempo fora cruel com o velho amigo. Não poderia imaginar encontrá-lo em Campinas naquele estado, morando em casebre pequeníssimo. Conheceram-se quando ambos contavam seis anos de idade e descaminhos da vida os fez vizinhos em Porto Alegre. O homem que prendia o cão, fora  filho de família abastada, menos pelo pai que procedia de família de portugueses remediados, mas pela mãe de procedência alemã, dona de fortuna considerável amealhada com grandes comércios e próspero banco familiar.  A rua praticamente pertencia a família e os membros moravam em palacetes e desfilavam em carros importados. Enquanto fechava o carro para descer, pensava na enorme diferença social entre eles. Naquela época, residia em casa alugada e de madeira. Mas nada disto os distanciara e a amizade iniciou desde as primeiras brincadeiras. Separaram-se quando adolescentes e os objetivos de vida tornaram-se antagônicos.
Após prender Thor, o portão foi aberto e Renato convidou a entrar. Carlos,  viajara cerca de mil quilômetros para visita-lo. Foi difícil encontrar. “Pensei que estava escondido”. Quem passara as pistas fora o filho, batizado com o mesmo do amigo, Carlos. “Teu filho passou  o fone, após me localizar no Orkut”. Renato exibia rugas profundas e sorriso triste marcava o rosto. O semblante era o mesmo, costas eretas, andar balançado pelas longas pernas magras, alternando passadas largas.
“Estava preocupado com vocês”, disse dirigindo-se ao amigo que chegara com a namorada. “Demoraram demais”. Comentou que ao combinarem o encontro pelo fone, ouvira de Carlos que chegaria antes do almoço. Eram três da tarde e isto o incomodara. “Espera no escritório que vou arrumar. Mas não entrem no quarto” demonstrava o receio de ter a intimidade miserável invadida. O escritório era pequeno, com mesa, computador e arquivo de aço com três gavetas. A cadeira atrás da mesa, o único móvel para sentar. Na tela do PC, um jogo pela metade. As paredes sujas passavam impressão de abandono. Aos fundos, a churrasqueira modesta. “Alugo por 50 reais o dia”. Ao lado, o banheiro.
O amigo-visitante senta no escritório e continua o jogo de paciência exibido na tela. A namorada passeia pelo quintal, pois verifica que no escritório não há lugar para dois. Meia hora depois o anfitrião surge na porta. Parece mais velho. O cabelo grisalho encardido,  preso num rabo de cavalo, a camisa xadrez e a calça surrada o apresentam para o almoço. “Preferem uma churrascaria?”.  Estende a toalha bege que um dia foi branca num varal de fio elétrico. Carlos diz que anda afastado da carne vermelha. Prefere peixe e salada. O dono da casa entende o recado. Entram no carro. Muito havia para dizer, mas o silêncio repentinamente se fez entre os três.
Chegam ao restaurante em bairro elegante.
“Estou sem fundos no banco para bancar o almoço”, brincou. “Além do mais serei despejado. Não tenho onde morar a partir do mês que vem”, comenta Renato misturando bom humor com preocupação. “Não se preocupe, a conta é minha”.
“Meu grande problema é que nasci na família errada”. Os três riram.
Apesar da alegria aparente, o caminho de retorno até a casa de Renato aconteceu em profundo silêncio. No hotel, a moça perguntou a Carlos: “Como teu amigo chegou a esta situação”?


domingo, 2 de junho de 2013

ARAXÁ - Local onde primeiro se avista o sol

(Museu de D. Beja e da cidade - arq. pessoal)
Dona Beja tem histórias de luta, projeção social e conquistas em Araxá, recheadas de amor, sensualidade e ternura. Mulher analfabeta escandalizou a sociedade tornando-se mãe-solteira duas vezes. A primeira em Paracatu, onde morou ao ser sequestrada pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Mota com apenas 14 anos de idade e a segunda com um padre de Araxá, que reconheceu a filha, forçado por Beja. Ainda de Paracatu, a mulher de personalidade forte, foi responsável pela reconquista a Minas Gerais do território do Triângulo Mineiro, anexado que estava ao estado de Goiás. Prova de prestígio da bela mulher, o museu montado em sua casa no centro da cidade, abriga também o Museu do Araxá.

Além de Beja, Filomena por razões bem diferentes também deixou a marca na história araxaense. Pobre e
(Santuário de Filomena - arq. pessoal)
escrava de capitães de engenho, a mulher teve a infelicidade de adquirir varíola. Sabedores da condição mortal e contagiosa da doença, os patrões convenceram a todos que para livrar do mal era necessário enterrar a doente até o pescoço. Assim permaneceu até morrer, desprovida de comida e água, face ao temor de contágio. Sepultada fora da cidade, passou a atrair peregrinação de fiéis que lhe creditavam curas miraculosas. Para proteger o jazigo, construíram singela igreja transformada em local de orações e reverências. Responsáveis pela preservação do santuário garantiram que quem “troça” da escrava, sofre punições. “Certa vez, um homem saiu gargalhando do templo e caiu da bicicleta e outro após fazer piada, entrou no carro e bateu em uma árvore”. Na construção ao lado, há exposição de fotos e relatos manuscritos das graças alcançadas. “Filomena tem processo de canonização no Vaticano” garantiu o zelador.


(Árvore dos Enforcados - arq. pessoal)
A procura pela Árvore dos Enforcados foi intensa. Somente no segundo dia, após visita ao Cristo, réplica miniaturizada do grande Redentor do Rio de Janeiro, um senhor que passava indicou a galhada.  Em um elevado, majestosa e seca, a árvore se projeta silenciosa, parecendo esconder o passado misto de glórias e infortúnios. Palco do enforcamento de dois escravos acusados de matar o patrão virou atração pelo choro do tronco. Moradores garantiram que os galhos frondosos, faziam barulhos assustadores nos dias de vento. Hoje com dias contados, jaz o gigante morto que logo adubará o subsolo, seu destino final. Nem o botânico expert em revitalização de árvores, foi capaz de reviver a árvore. O ciclo de vida se cumpre após duzentos anos.

O Grande Hotel é imponente e passeio obrigatório. Oferece banhos com água e lama sulfurosas e
(Grande Hotel - arq. pessoal)
massagens aos dispostos a desembolsar boas quantias. Inaugurado em 1944 por Getúlio Vargas, teve o paisagismo composto por fontes, lagos e jardins executados por Burle Marx. O projeto arquitetônico segue edificações espanholas, lembrando obras de países como Colômbia e Venezuela. Mas a maior das obras a Natureza se encarregou de executar exposta na trilha da fonte Dona Beja. Uma árvore no topo do muro, cujas raízes para reforçar a base, descem externas ao paredão. Belo exemplo de simbiose, entrelaçadas em proteção mútua.


(Atente para as raízes - arq. pessoal)
O centro de Araxá deve ser observado em detalhes. Na parte superior da praça central, da majestosa igreja Matriz se avista o Cristo no alto do morro, “braços abertos sobre a cidade”. Ao descer a avenida, faixas de pedestres, elevadas cerca de vinte centímetros do nível da rua, ordena o trânsito e obriga veículos a trafegarem vagarosamente. Ao final da rua central, no amplo canteiro, o teatro e a fonte luminosa. Cynthia, diretora do Teatro Municipal, garantiu que há vários projetos culturais inter-secretarias em execução. A  disposição do turista, além do roteiro tradicional, filmes no telão e representações teatrais gratuitas. Basta consultar a programação mensal.
A cidade demonstra preocupação com turistas e moradores. Gera conforto e preserva a memória.

(Abraço a Araxá - arq. pessoal)
(Centro - arq. pessoal)


segunda-feira, 20 de maio de 2013

JOSÉ, O CONSUMIDOR

(Google Imagens)

José entrega documentos o dia inteiro no Setor Comercial Sul de Brasília. Mora no condomínio Sol Nascente para quem não conhece, “pra lá da Ceilândia”. Chega ao Plano Piloto de carona no ônibus do “seu” Miguel, porque pode pular a roleta e economizar passagem. Toma o café da manhã no escritório de contabilidade onde trabalha como contínuo. O almoço compra do vendedor de marmita do bloco comercial, com vale-refeição por R$ 2,50. Feijão, arroz, batata frita e carne assada.
Sai do escritório as sete da noite, após cumprir jornada de oito horas, com quinze minutos para almoço. Influenciado  por amigos, consome drogas e há um mês, no consumo do crack. Parte do ganho com gorjetas das entregas fuma da pedra comprada no próprio Setor e o restante, ao descer do ônibus a noite, na guarita do condomínio.
Em frente ao conjunto de escritórios um Shopping recebe consumidores que trocam salários por roupas caras, satisfazendo filhos exigentes com grifes fabricadas em países asiáticos. José tem muito em comum com a mão de obra barata. O parco ganho que expulsa das compras e empurra à marginalidade.
O pagamento fixo do final do mês, respeita, passa a mulher com quem vive e tem dois filhos e na qual descarrega a ira desenfreada pelo abuso da pedra que o consome. Socorro compra leite, alimentação dos filhos e sacrifica por vezes a si própria. Nos finais de semana, assistem televisão na “casa da frente” saboreando pipoca com refrigerante, patrocinados pelo sogro. O sofrimento da mulher é traduzido por sangramento ginecológico que o médico do posto de saúde desconhece a causa.
Enquanto escrevia, soube que José fora expulso de casa por Socorro cansada dos maus tratos. Ainda tentei apaziguar os ânimos da moça sugerindo, em nome do amor, que esquecesse tudo e perdoasse José, ao que ensinou-me que no amor mais importante era perdoar do que esquecer e cansara de perdoar.
A partir deste dia, as sete da noite, o rapaz de vinte e dois anos pode ser visto entre dois blocos de escritórios no setor Comercial, misturado a dezenas de outros, a ratos e dejetos. Ali, onde o olhar do pedestre se perde, José e amigos se drogam num vai e vem nervoso e arrastado. O acesso é o mesmo usado pelos compradores do shopping e é onde se misturam consumidores para gastar seus salários, uns em quinquilharias de marcas famosas, outros para consumir o crack.
Em diferentes situações correm para amenizar fissuras. Uns nas vitrines e compras, José e amigos no crack.  Todos obcecados por seus produtos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

LEMBRANÇAS ENGANAM

(Google Imagens)

Carrego alguns fantasmas até certo ponto inofensivos, pois convivo bem com os entraves que causam. Exemplifico com a cena da avó sacrificando galinhas para o almoço. Éramos cerca de dez crianças entre primos e amigos que gostavam de assistir as atividades do dia a dia dos adultos. Uma delas acontecia no quintal de casa, onde vovó tinha um galinheiro com a finalidade de criação e abate para consumo. A morte das galinhas é trauma enfrentado pelas crianças da família que recordam com certo sofrimento,
Apesar de parecer brutal, era algo esperado e se arrastava há gerações. A vó fazia o que aprendera com os pais, meus bisavós. Após a morte de meu avô, assumiu para si o sacrifício e assisti muitas vezes derramar lágrimas escondida no galpão dos fundos.  Meu pai certa vez até tentou substituí-la, mas foi só fiasco. Não suportava agarrar a penosa pelo pescoço e dar seis voltas no ar, sentido horário para desnucar. Certo dia, a penosa se soltou de sua mão e saiu a cacarejar pelo quintal, num morre - vive sem fim. O último suspiro aconteceu com vovó e o facão de mato que usou para decepar a cabeça que voou separando-a do corpo.
Assistíamos ao ritual até o dia que alguém classificou o show de macabro e desnecessário. Fomos proibidos de assistir a matança. Quando chegava a hora, éramos conduzidos ao quarto dos fundos do quintal, de onde ouvíamos apenas os gritos esganiçados da penosa da vez.
Certo dia entrou a arte do tio Arnoldo. Armou a cena nos separando no quartinho dizendo que haveria matança, pegou as galinhas, amarrou-as pelas patas e as jogou pelo chão de barro. A gritaria foi grande e os ouvidos acostumados a ligar o som a matança, nos enganaram e a adrenalina cresceu sem motivo. Quando recordo aqueles  momentos, tenho viva a cena das galinhas pulando no quintal, debatendo-se sem cabeças, apesar do fato desmentido incansavelmente.
Assim funcionam as lembranças. Vez por outra nos traem. O que ouvimos nem sempre correspondem a imagens verdadeiras. E isto acontece também entre pessoas. Cada um monta o outro da forma que mais agrada raras vezes como é realmente. O pai e o namorado com relação ao amor pela moça é exemplo. O pai resgata a filha que viu nascer, criou e vê com a pureza da infância e o frescor da adolescência, plena de virtudes. O namorado vê a moça como a princesa afável e pudica que cuidará da casa e da prole, com desenvoltura. Poço de meiguice, projetando a imagem da própria mãe.
Assim iniciam a vida comum e as primeiras rusgas e o rapaz conclui que o queridíssimo amor não corresponde a idealizada. A moça, da mesma forma, se depara com o príncipe real, bem diferente da imaginação e do pai protetor.
Estes conflitos são usualmente os primeiros que surgem na vida do casal, pois a idealização nunca será aquilo que um espera do outro.
Melhor mesmo é esquecer este passado, aceitar o parceiro como é, sem expectativas. Pleno de defeitos e virtudes, ciente que todos somos de carne e osso. Mais tarde, se decidir matar galinhas no quintal, que tenham o bom senso de levar as crianças a um lugar seguro para deixá-las livre de gritos esganiçados.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

AMIZADE TEM LIMITES

(Google Imagens)

- Eram três da tarde quando cheguei ao apartamento de Zoraia.- conta Roberto enquanto senta na poltrona em frente ao amigo..
- Como a conheceu? – Pergunta Marinho. 
- Você não prestou atenção, mas tudo bem repito. Ainda casado e morando em São Paulo, diariamente Zoraia e eu corríamos no Ibirapuera pela manhã. Pura amizade. Um dia foi transferida para o Rio e montou apartamento no Leblon. Recebi o endereço por um torpedo e o convite para quando fosse ao Rio, visita-la. A chance apareceu quando separei da Maria. Precisava espairecer e aceitei a oferta. Agora entendeu? – perguntou Roberto.
- Claro, prossiga.
Se conheciam há mais de vinte anos e nada acontecia com um que o outro ignorasse.
- Pois bem, Zoraia abriu a porta vestida apenas com camisola vermelha e convidou a entrar. O apartamento era de quarto e sala, decorado com imitação de cabine de navio com janelas tipo escotilha de gesso branco.  A um canto, um timão de barco e luminária dourada completavam a decoração. Parecia incomodada ao me perceber medindo o apartamento e  ressaltou que avisara sobre o tamanho. Tive de dormir no sofá na sala. 
- Pensei que dormiriam na mesma cama, afinal, divorciados, nada os impediria. – Marinho sabia que o amigo não desperdiçaria a chance, principalmente se tratando de Zoraia, morena linda e disponível no mesmo teto.
- Já te falei que nunca tivemos nada, apenas aceitei o convite para hospedar. Precisava espairecer durante o período crítico da separação. Fazer o luto da convivência com Maria. Enquanto Zoraia trabalhava, eu caminhava na praia. 
- Ora, eu mereço, conta outra. Durante o dia, Zoraia trabalhava e você curtia praia. Ela chegava, deitava e dormia. Faça-me o favor – Marinho abriu uma ceveja e dividiu em dois copos.
Roberto prosseguiu.
- No sábado ao acordar, observei um pacote de baseados na mesa. Algo mais seria servido no apartamento naquele dia, além da cerveja na geladeira.  Arrumei minhas coisas e saí sem despedir. No caminho, encontrei um policial com cão farejador que me cheirou dos pés a cabeça e só me liberaram após o bicho interessar pelo cheiro do apartamento de Zoraia. De mansinho, ganhei a rua. Tomei o metrô e cá estou. Amanhã quero praia e até lá, abrigar na tua casa. 
Marinho percebeu a intensão do amigo de terminar as férias em sua casa e o encaminhou para o quarto vago. Ao passar pela cozinha, percebeu o olho comprido do amigo para a irmã e avisou:
- Se der em cima de Alice, te boto porta afora. 

terça-feira, 26 de março de 2013

QUANDO O DIA AMANHECE

(Google Imagens)

Eram duas horas da manhã quando o avião taxiou na pista a caminho da plataforma de desembarque. A moça ergueu da poltrona e deixou-se cair novamente. Estava exausta. Leve dor de cabeça a incomodava desde a partida. Os dedos queimados a denunciavam.
Esperou o último passageiro descer. A comissária perguntou o destino e, sem responder, levantou-se e rumou a porta de saída. Da esteira de bagagens acenou ao irmão que esperava no desembarque. Pegou as malas e apressou-se a abraçá-lo. Por sobre os ombros, reconheceu os pais e impressionou-se com a mudança nas fisionomias e, por um momento, avistou o próprio semblante na porta de vidro. Pálida, olhos fundos e magérrima sentiu fraqueza, segurando-se no carrinho de bagagem.
Separados pelas paredes de vidro, todos se espiavam em silêncio enquanto a moça seguia ao encontro familiar. Abraçou o pai que a acalentou demoradamente, esfregando a mão quente nas costas onde salientavam as costelas. O homem tentava identificar o rosto enterrado em seu ombro, se da filha ou de uma desconhecida.
Com os olhos localizou a mãe. A jovem foi abraçada. Os braços da mãe eram tentáculos que a  entrelaçavam e formavam grossa rede de proteção do mundo que conhecera. Abraçaram-se fortemente e a jovem derramava  lágrimas que não sabia ser de felicidade ou dor reprimida por sentir-se abandonada por si mesma ao seguir a direção de terras estranhas e hábitos doentios mergulhando-a na onda de vícios. Impassível diante do abraço da filha, a mãe demonstrava claramente a distância entre as duas. Anos de ausência quase romperam o elo entre as duas. O abraço apesar de afetuoso, não indicava mudanças. Eram duas estranhas que buscavam nos rostos o resto da familiaridade perdida.
Em silêncio, pai, irmão e a recém chegada tomaram o rumo da clínica de reabilitação e, em pouco mais de uma hora, estavam em frente ao médico plantonista que, avisado previamente, os esperava acolhedor. Foram duas horas de entrevistas, perguntas e preparativos. A manhã fria de outono climatizava a despedida à saída da clínica. Pai e irmão partiram. Sozinha na sala de espera a jovem chorava atormentada pela abstinência. Preparava-se para enfrentar as primeiras setenta e duas horas, parte dolorosa e importante do tratamento. Ouvira do médico sobre as chances de sair saudável da internação, escassas, caso não houvesse comprometimento pessoal com o tratamento. Levantou a gola do casaco para proteger do frio e acendeu um cigarro. Enquanto aspirava a fumaça quente e seca, reviu o filme de sua vida, e ao lembrar a imagem na porta do aeroporto, foi dominada por um frio na barriga. Pensou nas filhas que ainda não vira e mais uma vez as lágrimas rolaram. Precisava dominar a doença das drogas. O choro compulsivo sacudiu o peito magro de seios murchos. O médico mandou preparar medicação e a cama para a nova interna. Invadida por profunda tristeza, cabisbaixa seguiu para o alojamento.

quinta-feira, 7 de março de 2013

AVENTURA 4 X 4 – Final

(Loquinhas- Arquivo pessoal)



Levantei cedo, fechei a conta e dei adeus ao povoado São Jorge. Um dia voltarei em tempo seco e aproveito as cachoeiras. Às nove horas estava em Alto Paraíso e localizei a pousada que ficara há vinte anos. Após projeto paisagístico, passava a sensação de estar incrustrada na mata. No jardim, o totem com ares misteriosos proporcionou momentos de meditação. Ao perceber interesse, o proprietário explicou “veio em contêiner diretamente do Tibete ao porto de Santos, depois seguiu de carreta a Alto Paraíso”.
Liguei para Bia, amiga de Brasília e moradora na cidade. Fez a diferença. Indicou visitas e por conhecer numerologia e astrologia gerou conversas interessantes sobre autoconhecimento. Bia foi incansável e programou passeios atraentes.

(Cachoeira de Loquinhas - Arquivo pessoal)

Na manhã de sábado, conheci detalhadamente a região das Loquinhas, com seus poços e cachoeiras. O tempo ensolarado ajudou. A excelente estrutura turística proporcionou passeios  seguros em trilhas de madeira com corrimãos. São várias quedas d’água, sendo a última, espetáculo de beleza ímpar. Um teatro armado pela natureza, cuja atriz principal é a cachoeira que contracena com árvores, borboletas coloridas e água corrente entre rochas. Permaneci plenamente harmonizado com a natureza.
No meio da tarde, Bia passou na pousada e rumamos ao paralelo 14. Pleno de misticismo, é o mesmo quadrante geográfico da lendária cidade de Machu Pichu no Peru originando histórias de ligações  subterrâneas entre as cidades. A formação de enormes pedras construiu o Jardim Zen, ornamentado por flores naturais, conjunto avistado de longe. Em uma das pedras que sentaríamos para descansar, tomava banho de sol a pequena cobra Limpa Campo. Acompanhou e guardou o monumento com olho atento e língua nervosa.
Assuntos de discos voadores e seres extraterrestres são temas  corriqueiros entre  moradores. Várias “tribos”, formadas por místicos, filósofos e religiosos, buscam formas de vida alternativa e transformam Alto Paraíso em cidade única e especial.
Há representantes de todo mundo residentes na cidade. São húngaros, franceses, indianos, espanhóis, originários da América Latina e do Norte e brasileiros do Oiapoque ao Chuí. São pessoas que afirmam ter recebido chamado inexplicável. No período conhecido por “fim do mundo” em final de 2012, acreditava-se, segundo as profecias, ser a única cidade sobrevivente o que trouxe várias personalidades. Uma delas Xuxa, convidada pela amiga Maria Paula, dona de fazenda na região. Acredito que a ex-rainha dos baixinhos esperava sobreviver para alegrar as crianças remanescentes.
Após o almoço, encontrei Tila, a cabelereira que chegou em dezembro vinda do interior de São Paulo e trouxe quatro dos seis filhos. Deixou para trás o marido alcoólatra após suportar desatinos por quase trinta anos. Há muito namorava Alto Paraíso pela internet. Os filhos a apoiaram e estão satisfeitos. Pretende crescer na carreira e montar o próprio salão. Há inúmeros estrangeiros que se radicaram na cidade. Trazem heranças, compram terras
Bia conta que a população cresce na mesma proporção da evasão. Muitos chegam, montam negócios prósperos e, após certo tempo desaparecem assim como apareceram, sem pistas. Comércios fortes de um ano para outro, fecham as portas e os donos somem.
Espalhados pela região existem cerca de quarenta grupos místicos, são daimistas, oshoístas, espíritas, evangélicos, budistas e outros. Alguns se fecham a visitação. Há seitas disponíveis apenas aos membros e  localizam onde menos se espera. Como ao pé dos inúmeros morros.
Assim é Alto Paraíso de Goiás. Talvez as pessoas sintam atração pela incrível beleza natural e depois caem na realidade de que o belo não gera sustento, pois o turismo é sazonal. Contemplar paisagens enche os olhos e não os bolsos. A cidade respira espiritualidade e, queira ou não, o visitante entra na onda cedo ou tarde.
A Chapada passa a certeza da simplicidade da vida. E assim cheguei a Brasília, pensando simples, desapegado, liberto de alguns valores que já passavam por transformação.
À saída da pousada tive dificuldade de desviar do cachorro que dormia preguiçosamente  estirado no meio da rua. Em Alto Paraíso, a vida, como a deste cão, parece fluir lerda. Cidade Zen para quem está convencido que tempo escasso é ficção dos grandes centros.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

AVENTURA 4 X 4 – Parte II de III

(Raizama - palco de shows - Arquivo Malu)

Na manhã do segundo dia planejei visitar cachoeiras, condicionado ao tempo, que nesta época do ano é chuvoso e as estradas, como já foi dito, nem sempre oferecem condições de tráfego.  Seguindo indicação do guia do hotel, rumei a Raizama. Há doze quilômetros do povoado, acesso de barro e alguns trechos com risco de atoleiro, contornados vagarosamente. Encontrei ambiente estruturado, espaço para shows ao ar livre com palco e banheiros. Paguei quinze reais por pessoa, relativamente barato considerando o conforto e cuidado que o espaço oferece. Malu e eu deixamos o carro e seguimos mata adentro. A trilha a pé, tem extensão de dois mil e trezentos metros, com solo de pedregulho e pedras limosas, obrigando o máximo cuidado no andar. O retorno aconteceu pelo mesmo lado iniciado, o tempo fechava e havia risco de tromba d’água, condições adversas e perigosas na região. A tentativa de chegar as termais, fontes de águas quentes, esbarrou na notícia do caminhão atolado. Quando soube que havia um veículo caído para o lado, apoiado em grossa camada de barro, preferi retornar. O contato com a natureza crua, exuberante e majestosa foi suficiente para conscientizar da pequenez do ser humano e da necessidade de curtir a natureza sem danificar, sujar ou consumir bebidas.
(Raizama - acesso - Arquivo Malu)

Percebi que a proteção ao meio ambiente é constante e, com exceção de poucos plantadores de soja inescrupulosos, os agricultores em geral estão cientes que preservar a mata é a única chance das gerações futuras sobreviverem com qualidade de vida. Os limites de terras destinadas a agricultura estão sendo revistos na região. Espero não ser tarde.
Após o almoço e breve cochilo, armei estratégia para ouvir histórias. Sentei no banco de madeira da praça central, defronte ao comércio, puxei o chimarrão e iniciei a cumprimentar pedestres. Armado o cenário, apareceram os primeiros personagens. Um casal canadense de Quebec com dois filhos, amplo sorriso e português claro com sotaque francês. Contaram que chegaram em  dezembro e retornarão em julho. No Brasil, moraram em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife.  Adoram o clima brasileiro, o Canadá é muito frio. Há cinco anos no país, o rapaz fez mestrado e doutorado em universidades brasileiras. “Nossos filhos  iniciarão os estudos”, a mãe preocupa-se. No povoado, trabalham em uma ONG prestadora de serviços na área de ajuda a pessoal carente e preservação ambiental. O papo se estendeu por uns trinta minutos, agradecem e despedem felizes com as novas amizades. Ao vê-los afastar, fiquei a pensar como um casal com dois filhos na faixa de cinco anos viviam no povoado, local com parcos recursos, comércio fraco e tamanha diferença cultural.
Outro casal aproxima. A moça gaúcha de Três Passos e o rapaz curitibano.  Estavam em turnê pelo centro-oeste, provenientes de  cidades baianas, mineiras, capixabas e cariocas. Narram  experiências com o Santo Daime, chá alucinógeno com o qual acontecia festival em Alto Paraiso. Provaram em local afastado, ele a dose dupla e ela a única. O rapaz, na segunda dose, ficou em estado de torpor. Teve que ser atendido pelos frequentadores mais antigos, conhecedores dos efeitos sobre os novatos. Instruíram que respirasse fundo e seguidamente para amenizar o efeito. Não lembra, mas a companheira afirmou que vomitou muito. “Encheu um balde”. Mais comedida, a dose mínima da gaúcha a deixou apenas com formigamento nos braços, controlados por respiração cadenciada. Mesmo assim, o paranaense pretendia repetir a experiência. Consultaram o relógio e disseram querer conhecer as termais. Nem a resposta de um motorista de ônibus que “havia grande atoleiro por lá com o caminhão enganchado”, assustou a moça. O casal pediu licença, ligou o carro e pegou a estrada. Ficou bem marcante o equilíbrio desta relação. Quando um se aventurava em extravagâncias, o outro limitava e vice-versa.
O dia terminou na pousada com jantar delicioso, acompanhado de seleção musical impecável e boa leitura. Dia seguinte sairia do povoado rumo a Alto Paraíso.